O Cavalo Amarelo
Capítulo II
— Preciso do endereço.
— Ela não faz seu tipo.
— Não quero dormir com ela — respondi bruscamente. — Quero saber sobre essa organização. Estou pensando em comprar umas ações dessa companhia.
— Ah! Entendo — disse Poppy, satisfeita com a explicação.
Como não poderia arrancar mais nada dela, terminamos o champanha e eu a levei para casa, agradecendo pela encantadora companhia.
II
Na manhã seguinte tentei telefonar para Lejeune, mas não foi possível. Depois de certa dificuldade consegui falar com Corrigan.
— O que aquele psicólogo vigarista, que você mandou, disse?
Que acha de Ginger?
— Falou, falou e não disse nada — respondeu Corrigan. — Se quiser minha opinião sincera, acho que ele, como todo o mundo, pensa que Ginger está com pneumonia; afinal é uma doença muito comum.
— Tão comum que várias pessoas naquela lista morreram...
Todas de doenças como pneumonia, gastrenterite, tumor no cérebro...
— Sei como se sente mas o que podemos fazer?
— Ela piorou mais, não é?
— Bem... piorou.
— Temos que fazer alguma coisa.
— O que, por exemplo?
— Tenho uma ideia. Que tal irmos a Much Deeping, prendermos Thyrza Grey e assustá-la de tal forma que ela faça um contra-feitiço?
— Pode ser que funcione.
Contei a Corrigan a teoria de Osborne sobre Venables.
— Aquele sujeito encasquetou com o pobre Venables...
— Mas... e se ele por acaso tivesse razão?
Corrigan calou-se por um instante.
— Tudo pode ser possível... neste caso seria necessário o silêncio de várias pessoas... e por um preço muito alto.
— Que importância tem o preço se Venables é tão rico?
Lejeune descobriu como ele fez fortuna?
— Ainda não. É claro que existe algo de escuso com esse milionário. Os negócios dele são tão emaranhados que levaríamos anos para colocar tudo em pratos limpos. Sei que o Imposto de Renda anda atrás dele, mas Venables é matreiro. Por que você acha que ele é o chefe da troupe?
— Não lhe parece óbvio?
— Talvez. Pelo menos inteligência para isso ele teria. Agora não creio que cometeria um ato tão grosseiro como assassinar pessoalmente o padre Gorman.
— Creio que foi uma emergência. O padre precisava ser silenciado antes de bater com a língua nos dentes. Além do mais...
Calei-me de repente.
— Está me ouvindo?
— Sim... continue... é que eu tive uma ideia — O que foi?
— Ainda não está bem formulada. Sei que só há uma forma de se obter segurança perfeita... vou pensar melhor no caso. Agora preciso desligar porque tenho um encontro. Mais tarde falamos.
Desliguei o telefone e olhei para o relógio. Quando já estava na porta, o telefone tocou. Eu podia apostar que era Jim Corrigan, querendo mais informações. No momento, porém, eu não queria falar com ele, resolvi sair ao som insistente do telefone. E se fosse do hospital?
— Alô? — respondi com certa impaciência.
— É você, Mark?
— Sim. Quem é?
— Sou eu, é claro — respondeu uma voz feminina.
— Ah! A senhora! — suspirei, reconhecendo a voz da Sra. Oliver. — Ouça, estou atrasadíssima para um encontro. Mais tarde eu telefono.
— De forma alguma — disse ela, firmemente. — Ouça o que eu tenho para dizer, é muito importante.
— Sim? Depressa, por favor, porque não gosto de deixar as pessoas esperando.
— As pessoas sempre esperam por alguém.
Tentei refrear minha impaciência.
— Ouça Mark. É muito importante.
— Diga.
— Minha empregada Milly foi para o interior, pois está com amigdalite. A irmã dela tem uma casinha...
Rangi os dentes.
— Sinto muito mas...
— Ouça, meu amigo, eu ainda não comecei a história. Onde estava mesmo? Ah! Sim. Milly foi para o interior, o que me obrigou a chamar uma agência...
— Por favor!
— Para perguntar que tipo de empregada eles tinham disponível. Disseram que está difícil, o que aliás sempre dizem, mas que iam fazer o possível...
Jamais achei a Sra. Oliver mais enervante.
— Só sei que hoje de manhã surgiu aqui uma criatura.
Adivinhe quem era?
— Não tenho a menor ideia.
— Uma mulher chamada Edith Binns, que conhece você muito bem.
— Eu não! Nunca ouvi falar em Edith Binns.
— Claro que conhece. Inclusive esteve com ela há pouco tempo. Ela trabalhou na casa da sua madrinha: Lady Hesketh-Dubois.
— Ah!
— Ela esteve com você no dia em que você passou por lá para apanhar uns quadros.
— Muito bem, ótimo, parabéns por ter arranjado uma empregada tão maravilhosa. Agora...
— Quer fazer o favor de esperar? Ainda não cheguei ao fim da história. Bem, ela sentou-se e falou horas sobre a doença de Lady Hesketh. Você sabe como os empregados adoram doenças e mortes. Aí, ela disse...
— Disse o quê?
— Algo que me chamou a atenção. Ela disse: Pobre mulher, sofrendo daquele jeito. Uma mulher saudável que, de repente, fica com um tumor na cabeça. O cabelo dela caía aos cachos pelo hospital. Um cabelo tão lindo! Aí, Mark, eu pensei em Mary Delafontaine, aquela amiga minha. O cabelo dela também caia aos chumaços. Lembrei-me do que você me disse sobre aquela briga de mulheres, em Chelsea, em que uma arrancou uns tufos de cabelo da outra. Cabelo não sai assim facilmente, Mark. Tente arrancar um pedacinho! Tente para ver se consegue. Está vendo?
Não é natural essas pessoas todas perderem o cabelo dessa maneira. Deve ser uma nova doença...
Agarrei o telefone para não cair. Milhões de imagens juntaram-se diante dos meus olhos. Rhoda e os cachorros no pátio, um artigo que li numa revista médica... é claro!
Percebi que a Sra. Oliver continuava matraqueando do outro lado.
— Deus a abençoe. A senhora é maravilhosa.
Bati com telefone. Em seguida, liguei para Lejeune. Por sorte ele estava.
— Ouça — perguntei — o cabelo de Ginger está caindo?
— Está. Deve ser por causa da febre alta!
— Febre alta, uma ova! Ginger, como todos os outros, está sofrendo de envenenamento por tálio. Deus queira que ainda possamos salvá-la.