O Cavalo Amarelo
Capítulo 21
Narrativa de Mark Easterbrook
I
Os dias subsequentes transformaram-se em pesadelos dispostos, sem forma ou sequência, num caleidoscópio diabólico.
Ginger foi internada numa clínica particular, onde só era permitida minha entrada.
O médico dela não parecia dar muita atenção ao caso; diagnosticou uma broncopneumonia, em consequência de uma gripe. Apesar da doença apresentar alguns sintomas estranhos, nem por isso ele mudou de opinião. Segundo ele, nenhuma doença era típica e alguns pacientes não respondiam bem a certo tipo de antibióticos.
Na verdade ela estava com pneumonia e em estado grave.
Tive uma entrevista com um psicólogo, enviado por Lejeune, que me crivou de perguntas, mas não ofereceu resposta alguma.
Tentou, é verdade, hipnotizar Ginger mas não creio que tenha obtido grandes resultados.
Passei a evitar meus amigos e a recusar convites. Minha vida tornou-se solitária e triste.
Finalmente, um dia resolvi convidar Poppy para jantar comigo no Fantasie.
Ela aceitou prontamente.
Consegui me distrair com a conversa inconsequente da florista e depois de fazê-la beber mais do que devia, comecei um interrogatório cuidadoso. No fundo, eu achava impossível que Poppy soubesse de alguma coisa sem se dar conta disso.
— Você se lembra da minha amiga Ginger?
— Claro — respondeu ela, arregalando os olhos. — O que ela anda fazendo?
— Está muito doente.
— Coitada — disse Poppy, preocupada até onde sua cabeça oca permitia que se preocupasse.
— Ela se meteu com um pessoal esquisito, aconselhada por você, creio. Um negócio de Cavalo Amarelo que lhe custou os olhos da cara.
— Ah! — exclamou Poppy. — Então era você?
Por uns instantes não entendi coisa alguma. De repente, percebi que Poppy estava me identificando com o homem casado cuja mulher “inválida” estava atrapalhando nossa vida.
Preocupada com o lado romântico da história a pobre esqueceu seu medo do Cavalo Amarelo.
— E deu certo? — perguntou ela excitada, — Deu errado — respondi. — O feitiço virou contra o feiticeiro.
— Que feitiço? — perguntou ela, atônita.
Percebi que não podia conversar com Poppy por metáforas.
— O negócio parece que acabou fazendo mal a Ginger. Você já ouviu falar de algum erro deles?
Poppy respondeu que não.
— É claro — continuei — que essas sessões que elas dão lá no Cavalo Amarelo, em Much Deeping... você não sabia disso, não é?
— Não sabia o nome do lugar, sabia que era no interior.
— Pois é, Ginger não soube explicar o que elas faziam...
— Parece que tem alguma coisa com raios, não tem? — perguntou Poppy. — Qualquer coisa de astral...
Percebi que Poppy estava baseando as informações na própria imaginação.
— Uma coisa assim — concordei. — Sei que deve ser perigoso senão Ginger não ficaria tão doente.
— Mas não era sua mulher que devia ficar doente e morrer?
— perguntou ela.
— Era, mas acho que o tiro saiu pela culatra.
— Quer dizer... — disse Poppy, fazendo um enorme esforço mental — que foi como se ligasse o ferro na tomada errada e levasse um choque?
— Isto mesmo — disse eu. — Você ouviu falar de um caso semelhante em relação a eles?
— Não desta maneira.
— Como assim?
— Ora, se por exemplo uma pessoa não paga depois do serviço... como um sujeito que eu conheci. Foi assassinado no metrô, caiu da plataforma em frente ao trem.
— Talvez fosse um acidente.
— Que nada! Foram eles.
Servi Poppy de mais champanha. Ali estava minha oportunidade de descobrir algo, se pudesse selecionar o bric à brac que era o cérebro da moça; ela ouvira coisas, assimilara algumas, misturara tudo e ninguém se preocupou muito em esconder coisa alguma, pois sabiam que ela era quase débil mental. O mais irritante é que eu não sabia como dirigir as perguntas. Tinha medo de dizer algo errado e assustá-la.
— Minha mulher é paralítica, mas por enquanto não está pior.
— Que pena! — disse Poppy, bebericando o champanha.
— Que faço agora?
Poppy arregalou os olhos.
— Foi Ginger quem arrumou tudo — continuei — portanto, não sei a quem recorrer.
— Tem um escritório lá em Birmingham.
— Já está fechado. Sabe de mais alguém a quem eu possa procurar?
— Talvez Eillen Brandon saiba.
O aparecimento deste novo personagem me surpreendeu.
Perguntei quem era ela.
— Uma mulher muito careta — respondeu Poppy. — Destas que usam o cabelo em coque e salto baixo. O fim! Estudamos na mesma escola, ela era ótima em Geografia...
— O que ela tem que ver com o Cavalo Amarelo?
— Não sei ao certo. Acho que ela descobriu qualquer coisa e pediu demissão.
— Pediu demissão de onde?
— Do R.C.C.
— O que é R.C.C?
— Para dizer a verdade, não sei. Eles dizem R.C.C. É qualquer coisa com pesquisa de mercado...
— E Eillen Brandon trabalhava para eles fazendo o quê?
— Perguntando sobre pastas de dentes, fogões a gás etc.
Tipo do emprego monótono. Além do mais o que a gente tem a ver com o que os outros usam?
— Talvez o R.C.C. tenha — respondi, intrigado.
Uma mulher desta organização fora visitada pelo padre Gorman na noite do seu assassinato. E Ginger falou sobre uma entrevistadora. Devia haver um elo nesta coincidência.
— Por que ela largou o emprego? Se aborreceu com o trabalho?
— Acho que não. Parece que eles pagam bem. Creio que ela descobriu que eles não são bem pesquisadores ...
— Ela achou que eles estavam relacionados de alguma maneira com o Cavalo Amarelo? Foi por isso?
— Não sei. Pode ser... agora ela está trabalhando num bar em Tottenham, Court Road.