O Cavalo Amarelo

Agatha Christie · Capítulo 21 de 43

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O Cavalo Amarelo

Capítulo 10

 

Era uma propriedade nova em folha, tão nova que ao fundo viam-se pedreiros trabalhando nos muros que envolviam os jardins da casa. No portão principal lia-se o nome da casa: Everest.

O Inspetor Lejeune reconheceu sem dificuldade uma figura rubicunda que estava de costas para ele, ocupado no plantio de alguns canteiros. Assim que o inspetor abriu o portão o Sr. Zachariah Osborne levantou-se para ver quem era o intruso. Ao reconhecer a visita seu rosto corou de prazer. O Sr. Osborne não havia mudado quase nada com sua transferência para o campo; era o mesmo farmacêutico, só que agora estava fantasiado num macacão.

Enxugando a careca reluzente, o Sr. Osborne aproximou-se do policial.

— Inspetor Lejeune — exclamou, — quanta honra! Recebi sua carta mas não esperava receber sua visita. Bem-vindo ao meu castelo, bem-vindo ao Everest. Está surpreendido com o nome?

Sempre me interessei pelo Himalaia. Segui passo a passo a expedição do Everest. Que triunfo para nós! E que homem admirável Sir Edmund Hilary. Que perseverança! Pessoalmente nunca passei por situações difíceis, mas admiro um homem que larga uma boa vida para se arriscar numa escalada desta natureza. Mas, entre e venha tomar um refresco.

O Sr. Osborne conduziu o Inspetor até um bangalô decorado simplesmente, mas imaculadamente limpo.

— Ainda não está pronto — explicou Osborne. — Frequento muito liquidações para arranjar umas peças, às vezes valiosas, e que nas lojas custam os olhos da cara. Que deseja tomar? Um sherry? Cerveja? Chá? Posso ferver água e fazer um chá num minuto.

Lejeune preferiu cerveja.

— Ótimo! — exclamou Osborne retornando, em seguida, com duas canecas de estanho. — Sente-se e descanse.

Findas as amenidades sociais o Sr. Osborne inclinou-se para o inspetor.

— Minha informação foi de alguma utilidade?

Lejeune procurou agir com tato.

— De certa forma, não.

— Que pena! Se bem que eu sei que uma pessoa, vista na rua, na mesma direção do padre Gorman, não precisaria necessariamente ser o assassino. Seria querer demais. Além disso, esse Sr. Venables é rico e muito benquisto na cidade, frequentando sempre as melhores famílias.

— O caso é que não pode ter sido o Sr. Venables a pessoa que o senhor viu naquela noite.

Osborne quase pulou da cadeira.

— Mas era! Não tenho a menor dúvida de que era. Nunca me engano com uma fisionomia.

— Desta vez, porém, creio que se enganou — disse Lejeune.

— O Sr. Venables sofreu um ataque de poliomielite. Há três anos é paralítico das pernas.

— Poliomielite! — exclamou Osborne. — Neste caso... mas, sem querer ofender ninguém, o senhor tem algum dado médico que comprove isso?

— Sim, tenho. O Sr. Venables é cliente de Sir William Dugdale, uma das maiores sumidades médicas da Inglaterra.

— Claro, claro. Um médico muito conhecido. É, acho que me enganei redondamente, mas tinha tanta certeza. Desculpe incomodá-lo com tão pouco.

— Não fique aborrecido — disse Lejeune. — Sua informação é muito valiosa. Veja bem, o homem que o senhor viu lembra muito o Sr. Venables, que é um tipo marcante e estranho.

Portanto, não devem existir muitas pessoas que correspondam a esta descrição.

— É mesmo — concordou Osborne, alegremente — Um criminoso que se parece com o Sr. Venables. Talvez nos arquivos da polícia...

Osborne olhou ansiosamente para Lejeune.

— Não creio que seja tão simples assim — disse o Inspetor.

— O suspeito pode não ser fichado e além do mais, como o senhor disse há pouco, pode não ser necessariamente o assassino do padre Gorman.

O Sr. Osborne ficou triste novamente.

— Desculpe, mas eu tinha tantas esperanças! Queria ser testemunha de um crime... queria ver se a defesa conseguiria me destruir. Ah!

Lejeune olhou para Osborne pensativo.

— Sim? — perguntou Osborne ansioso, diante do olhar do Inspetor.

— Por que o senhor não seria destruído?

Osborne pareceu surpreso com a pergunta.

— Porque tenho tanta certeza... sei, sei que o senhor me explicou que não era possível que fosse o mesmo homem. Mesmo assim...

— Talvez o senhor esteja se perguntando por que vim hoje aqui. Além do mais, se eu tenho provas médicas de que o senhor não poderia ter visto o Sr. Venables, que posso querer?

— É mesmo. Por que veio?

— Porque a certeza ferrenha da sua identificação me impressionou — respondeu Lejeune. — Queria saber em que o senhor baseia sua certeza. A noite era de nevoeiro, lembra-se? Já estive na sua farmácia, parado no lugar em que o senhor parou naquela noite. Pois bem, numa noite de neblina me parece que seria difícil, quase impossível, distinguir tão precisamente as feições de uma pessoa.

— O senhor tem razão até um certo ponto. A neblina estava começando a baixar, em camadas. Certas partes da rua, portanto, ainda estavam claras. Quando eu vi o padre Gorman, andando depressa, vi nitidamente também o homem que o seguia. Por coincidência, quando ele parou, debaixo de um poste, para reacender o cigarro, seu perfil se delineou nítido como à luz do dia: o nariz, o queixo, o enorme pomo de Adão. Que homem estranho! pensei. Nunca o tinha visto antes, pois me lembraria dele caso fosse meu freguês. Logo eu...

— Entendo — interrompeu o Inspetor.

— Um irmão? — sugeriu Osborne. — Um irmão gêmeo, quem sabe? Seria o ideal.

— Ideal? — sorriu Lejeune, sacudindo a cabeça. — Estes casos só acontecem no cinema, na vida real porém...

— Acho que tem razão, mas quem sabe um irmão ou um parente próximo?

— Não temos conhecimento de que o Sr. Venables tenha um irmão — respondeu Lejeune.

— Não tem conhecimento, o senhor disse? — perguntou Osborne, vagarosamente.

— Embora ele tenha passaporte inglês, nasceu no estrangeiro e só veio à Inglaterra com onze anos.

— No fundo sabe-se pouco sobre ele e sua família, não é?

— Com efeito — concordou Lejeune. — Não é fácil conhecer bem os antecedentes do Sr. Venables, a não ser que alguém vá diretamente ao próprio... e infelizmente não temos razão para fazê-lo.

Lejeune falou num tom deliberado, sem dar a entender a Osborne que a polícia possuía meios de descobrir a origem de um suspeito.

— De maneira que — prosseguiu Lejeune, levantando-se, — se não fosse pela evidência física o senhor teria certeza da sua identificação?

— Teria — respondeu Osborne, prontamente — Tenho mania de guardar fisionomias. Já surpreendi muitos fregueses desta maneira. Como vai a asma? eu perguntava a uma freguesa que não via há anos. Ela naturalmente se espantava! Ou então: A senhora esteve aqui em março do ano passado com uma receita do Dr. Hargreaves. A criatura naturalmente ficava admirada e além do mais eu lucrava com isso. As pessoas gostam de ser lembradas, embora eu não fosse tão bom para guardar nomes. Há anos que venho fazendo isso... afinal, se os membros da família real podem conseguir isso, eu também achei que poderia. Depois de certo tempo torna-se automático, e a gente nem precisa se esforçar.

Lejeune suspirou.

— Gostaria de ter uma testemunha assim — disse, — a identificação geralmente é um negócio perigoso. As pessoas são muito descuidadas e dizem coisas como: Alto, eu acho, de aparência comum, olhos azuis ou cinzas, talvez castanhos. Capa de chuva cinza, ou será que era azul?

Osborne riu.

— Não são de grande valia, não é?

— Para dizer a verdade, uma testemunha como você seria uma dádiva dos céus.

Osborne sorriu feliz.

— É um dom — disse ele, satisfeito. — Um dom cultivado, note bem! Se colocarem uma porção de objetos numa bandeja e em seguida me vendarem os olhos, serei capaz de repetir todos os objetos que vi. Nas festas quando faço esta proeza sou muito aplaudido.

Os dois riram.

— Estou satisfeito com esta casa e com os vizinhos. Há anos que venho esperando por isso, mas, aqui entre nós, sinto falta do trabalho. Sempre alguém entrando ou saindo; tipos para estudar.

Aqui tenho meu jardim e alguns hobbies: colecionar borboletas, observar os pássaros, mas nunca pensei que fosse sentir falta de gente. Não me interesso por viagens. Quando estive na França só passei um fim de semana e francamente não gostei. Para mim não há lugar como a Inglaterra. Em Paris não sabem fritar ovos com presunto.

Osborne deu um suspiro.

— Como o senhor vê, a natureza humana é muito complexa.

Não via hora de me aposentar e agora já estou com vontade de abrir uma pequena farmácia em Bournemouth. Nada que me prenda o dia inteiro, mas que seja o suficiente para que eu me sinta útil. O senhor terá o mesmo problema quando se aposentar.

Lejeune sorriu.

— A vida de um policial não é tão romântica quanto imagina.

O senhor vê o crime do ponto de vista de um leigo. A maior parte dos casos é pura rotina; não passamos o dia perseguindo criminosos ou investigando pistas misteriosas. Na verdade, meu caro Sr. Osborne, é um trabalho bastante monótono.

— O senhor é quem sabe — disse Osborne, num tom incrédulo. Adeus, Inspetor, e desculpe não poder ajudá-lo. Em todo caso, estou sempre às ordens.

— Não se preocupe que se precisar eu o procurarei — prometeu Lejeune.

— O dia da quermesse pareceu-me uma ocasião rara... — murmurou Osborne tristemente.

— Compreendo, mas infelizmente o laudo médico sobre Venables é enfático.

— Bem — disse Osborne.

Lejeune não pareceu ouvir, pois retirou-se fechando o portão. Osborne ficou na janela, olhando para fora.

— Laudo médico! — murmurou. — Quem é que acredita em médico? Se ele conhecesse os médicos tão bem quanto eu! A polícia é de uma inocência!