O duelo dos reis
Fantasmas
UFFRITH ESTAVA DIFERENTE. Claro, Logen vira o lugar pela últim a vez fazia anos, à noite, depois do cerco. Multidões de Carls de Bethod percorriam as ruas – gritando, cantando e bebendo. Procurando pessoas para roubar e estuprar, incendiando tudo o que pudesse pegar fogo. Logen se lem brou de ter ficado deitado num quarto depois de derrotar Três Árvores, chorando e gorgolej ando por causa da dor no corpo inteiro. Lem brava-se de ter olhado pela j anela com um a careta, vendo o brilho das cham as, ouvindo os gritos na cidade, desej ando estar lá fora fazendo m aldades e im aginando se algum dia conseguiria se levantar de novo.
Agora o lugar estava diferente, com a União no controle, m as não m uito m ais organizado. O porto cinzento se achava atulhado de navios grandes dem ais para os em barcadouros. Soldados enchiam as ruas estreitas, largando equipam entos em todo lugar. Carroças, m ulas e cavalos, com pilhas de cargas, tentavam abrir cam inho pela confusão. Feridos m ancavam com m uletas, indo em direção ao cais, ou eram carregados em m acas sob a chuva fina, as bandagens ensanguentadas observadas pelos olhos arregalados dos rapazes de rosto intacto que iam na direção contrária. Aqui e ali, perplexos diante da enxurrada de estranhos que percorriam sua cidade, alguns nórdicos ficavam parados j unto às portas. Principalm ente m ulheres, crianças e velhos.
Logen subia rápido as ladeiras, passando pela m ultidão com a cabeça baixa coberta pelo capuz. Mantinha os punhos cerrados ao lado do corpo, para que ninguém visse o cotoco do dedo que faltava. Mantinha a espada que Bay az lhe dera enrolada num cobertor às costas, sob a bolsa, onde não deixaria ninguém nervoso. Mesm o assim seus om bros com ichavam a cada passo. Esperava que alguém gritasse: “É o Nove Sangrento!” Esperava que as pessoas com eçassem a correr, a gritar, a atirar lixo nele, seus rostos estam pados de horror.
Mas ninguém fez isso. Um a figura a m ais que não pertencia ao lugar não era nada para ser adm irado em todo aquele caos úm ido, e se havia alguém que pudesse reconhecê-lo, não estava à sua procura. Provavelm ente todos tinham ouvido dizer que ele voltara à lam a, longe, e estavam satisfeitos com isso. Mesm o assim não havia sentido em ficar m ais tem po do que o necessário. Foi até um oficial da União que parecia estar no com ando de algum a coisa, tirou o capuz e tentou colocar um sorriso no rosto.
Recebeu um olhar de desprezo.
– Não tem os trabalho para você, se é isso que está querendo.
– Vocês não têm o m eu tipo de trabalho – respondeu Logen e estendeu a carta que Bay az lhe dera.
O hom em a desdobrou e viu o que estava escrito. Franziu a testa e leu de novo. Depois olhou em dúvida para Logen, com a boca se rem exendo.
– Bom , então. Entendi – disse e, em seguida, apontou para um grupo de rapazes nervosos e inseguros parados a alguns passos dali, encolhidos e sofrendo enquanto a chuva com eçava a aum entar. – Há um com boio de reforços que parte esta tarde para a frente de batalha. Você pode viaj ar conosco.
– Está bem .
Aqueles garotos am edrontados não pareciam grande coisa com o reforço, m as isso não o incom odava. Ele não se im portava com quem viaj asse em sua com panhia, desde que fosse na direção de Bethod.
As árvores se fundiam dos dois lados da estrada – verde-escuras e pretas, cheias de som bras. Cheias de surpresas, talvez. Era um m odo ruim de viaj ar. Ruim para as m ãos, que ficavam segurando nas ripas o tem po todo, pior ainda para a bunda, que pulava e batia naquele banco duro. Mas aos poucos se aproxim avam , e Logen achava que isso era o m ais im portante.
Havia m ais carroças atrás, espalhadas num a linha lenta ao longo da estrada, carregadas de hom ens, víveres, roupas, arm as e todas as coisas necessárias para se fazer um a guerra. Cada um a tinha um lam pião aceso, pendurado à frente, de m odo que havia um a trilha de luzes balançando no crepúsculo, descendo para o vale e subindo a encosta do outro lado, m arcando o cam inho que percorriam através da floresta.
Logen se virou e olhou para os rapazes da União, am ontoados na frente da carroça. Eram nove, todos chacoalhando e oscilando quando os eixos pulavam e todos m antendo-se o m ais afastados dele que podiam .
– Já viram cicatrizes assim em alguém ? – m urm urou um deles, sem saber que Logen falava sua língua.
– Quem é ele, afinal?
– Não sei. Um nórdico, eu acho.
– Dá para ver que ele é nórdico, idiota. Quero dizer, o que ele está fazendo aqui, com a gente?
– Talvez sej a um batedor.
– É um desgraçado m eio grande para ser batedor, não acha?
Logen riu sozinho enquanto olhava as árvores passarem . Sentia a brisa fresca no rosto, o cheiro da névoa, da terra, do ar frio e úm ido. Nunca poderia im aginar que ficaria feliz por voltar ao Norte, m as estava. Era bom , depois de todo aquele tem po com o estrangeiro, estar num local onde conhecia as regras.
Acam param na estrada, os dez. Um grupo dentre m uitos na floresta, cada qual am ontoado perto de sua carroça. Nove rapazes de um dos lados de um a fogueira grande, com um a panela de cozido borbulhando em cim a e soltando um vapor cheiroso. Logen os observou m exer na panela, conversar sobre o lugar onde m oravam , sobre o que aconteceria e quanto tem po ficariam ali.
Depois de um tem po, um deles com eçou a colocar a com ida em tigelas e a distribuí-la. Olhou para Logen, depois de term inar com os outros, e serviu m ais um a. Aproxim ou-se com o se estivesse chegando perto da j aula de um lobo.
– É… – Estendeu a tigela. – Cozido… – falou, inseguro, em seguida escancarou a boca e apontou para ela com a m ão livre.
– Obrigado, am igo – disse Logen, pegando a tigela. – Sei o que fazer com isso.
Todos os rapazes o encararam , um a fileira de rostos preocupados, ilum inados pelo am arelo trem eluzente do outro lado da fogueira, com m ais suspeitas do que nunca por ele falar sua língua.
– Você fala a língua com um ? Andou escondendo isso, não foi?
– Pela m inha experiência, é m elhor aparentar m enos do que a gente é.
– Se você diz… – respondeu o rapaz que lhe dera a tigela. – Qual é o seu nom e, então?
Logen se perguntou por um m om ento se deveria m entir. Algum nom e insignificante que ninguém tivesse ouvido. Mas ele era quem era e cedo ou tarde alguém iria reconhecê-lo. Além disso, nunca fora m uito de m entir.
– Logen Nove Dedos é com o m e cham am .
Os rapazes perm aneceram inexpressivos. Nunca tinham ouvido falar dele. E por que teriam ? Um punhado de filhos de cam poneses, de um lugar distante, na ensolarada União. Mal pareciam saber os próprios nom es.
– O que você veio fazer aqui? – perguntou um deles.
– O m esm o que vocês. Estou aqui para m atar.
Os garotos pareceram m eio nervosos com isso.
– Não vocês, não se preocupem . Tenho algum as contas a acertar – falou, e m oveu a cabeça apontando para a estrada. – Com Bethod.
Os rapazes trocaram alguns olhares, então um deles deu de om bros.
– Tudo bem , desde que estej a do nosso lado, eu acho. – Em seguida se levantou e pegou um a garrafa na bolsa. – Quer beber?
– Ora. – Logen riu e estendeu seu copo. – Nunca recusei isso.
Engoliu a bebida de um a vez, estalou os lábios e sentiu-a esquentar sua goela. O garoto serviu m ais um a dose.
– Obrigado. Mas é m elhor não m e dar m uito disso.
– Por quê? – perguntou ele. – Aí você vai m atar a gente?
– Matar? Se vocês tiverem sorte.
– E se não tiverm os?
Logen riu por cim a do copo.
– Eu vou cantar.
Diante disso o garoto abriu um sorriso e um dos seus colegas com eçou a gargalhar. No instante seguinte, um a flecha sibilou e se cravou na lateral de seu corpo e ele tossiu sangue na cam isa, deixando a garrafa cair no capim , com o vinho gorgolej ando no escuro. Outro garoto estava com um a flecha cravada na coxa. Ficou ali sentado, olhando-a.
– De onde isso…
Então todo m undo estava gritando, procurando arm as e se j ogando no chão. Mais duas flechas passaram zunindo, um a atingindo a fogueira e levantando um a chuva de fagulhas.
Logen j ogou seu cozido longe, pegou a espada e com eçou a correr. Esbarrou num dos rapazes no cam inho, j ogando-o de cara no chão, escorregou, aj eitou-se e correu a toda a velocidade para as árvores de onde as flechas tinham vindo. Era correr direto para eles ou correr para longe, e ele decidiu sem pensar. Às vezes não im porta m uito que escolha você faz, desde que sej a rápida e você se atenha a ela. Logen viu um dos arqueiros no escuro, tentando pegar outra flecha. Tirou a espada do Artífice de sua bainha puída e soltou um grito de guerra.
Era bem provável que o arqueiro pudesse tirar a flecha da alj ava antes que Logen estivesse em cim a dele, m as seria por pouco, e no fim ele não teve coragem de ficar parado esperando. Não são m uitos os hom ens que podem avaliar as escolhas adequadam ente quando a m orte se aproxim a a toda a velocidade. Ele largou o arco tarde dem ais e se virou para correr, e Logen o acertou nas costas antes que ele desse m ais do que um ou dois passos, derrubando-o nos arbustos. O suj eito caiu gritando, se arrastou, virou o rosto para cim a, todo em bolado na relva, berrando e tentando pegar um a faca. Logen levantou a espada e term inou o serviço. Sangue espirrou da boca do arqueiro e ele trem eu, tom bou para trás e ficou im óvel.
– Ainda estou vivo – m urm urou Logen, agachando-se ao lado do cadáver, forçando a vista na escuridão.
Provavelm ente teria sido m elhor para todos se ele tivesse corrido na outra direção, m as agora era tarde. Provavelm ente teria sido m elhor ficar em Adua, m as tam bém era tarde para isso.
– Norte sangrento! – xingou num sussurro.
Se deixasse aqueles m alditos irem em bora, eles criariam problem as por todo o cam inho até a frente de batalha e Logen não teria um m inuto de sono tranquilo, além de correr o risco de levar um a flechada na cara. Era m elhor partir para cim a do que esperar que eles viessem . Um a lição que tinha aprendido da experiência dura.
Ouviu o restante dos hom ens que os em boscaram correr por entre as árvores e os seguiu, apertando o cabo da espada. Procurava o cam inho entre os troncos, m antendo distância. A luz da fogueira e o barulho dos rapazes da União gritando foram ficando para trás até que ele se achou no m eio da floresta, sentindo cheiro de pinho e terra m olhada, tendo apenas o som dos pés dos hom ens que corriam para guiá-lo. Tornou-se parte da floresta, com o nos velhos tem pos. Não era m uito difícil. A habilidade lhe voltava com o se ele viesse se esgueirando pelas árvores toda noite, durante anos. Vozes ecoavam na escuridão e Logen ficou im óvel e silencioso atrás de um tronco de pinheiro, ouvindo.
– Cadê o Nariz Suj o?
Houve um a pausa
– Morreu, acho.
– Morreu? Com o?
– Eles tinham alguém j unto, Corvo. Um desgraçado enorm e.
Corvo. Logen conhecia o nom e. Conhecia a voz tam bém , agora que a ouvia. Era um Hom em Nom eado que lutara sob o com ando de Ossinho. Não poderiam dizer que eram am igos, m as se conheciam . Tinham lutado lado a lado, na linha de batalha em Carleon. E agora ali estavam de novo, separados por apenas alguns passos, m ais do que dispostos a m atar um ao outro. Eram estranhas as reviravoltas do destino. Lutar ao lado de um hom em e lutar contra ele são coisas separadas por um fio de cabelo. Estão m uito m ais próxim as do que não lutar.
– Era nórdico? – disse a voz do Corvo.
– Podia ser. Quem quer que fosse, conhecia o serviço. Veio m uito depressa. Não tive tem po de tirar um a flecha.
– Desgraçado! Não vam os deixar isso passar. Vam os acam par aqui e ir atrás deles am anhã. Talvez aí a gente pegue esse grandão.
– É, a gente vai pegar ele, porra. Não se preocupe com isso. Vou cortar o pescoço do desgraçado.
– Bom para você. Até lá, trate de ficar de olho aberto pro caso de ele aparecer enquanto o restante de nós dorm e um pouco. Talvez a raiva m antenha você acordado desta vez, hein?
– É, chefe. Está certo.
Logen sentou e ficou vigiando, captando vislum bres entre as árvores à m edida que os quatro se deitavam nos cobertores e se enrolavam para dorm ir. O quinto ocupou seu lugar, de costas para os outros, e ficou olhando na direção de onde tinham vindo, m ontando guarda. Logen esperou. Um deles com eçou a roncar. Veio um a chuva fina, que batia nos galhos dos pinheiros e escorria. Depois de um tem po, com eçou a pingar em seu cabelo, nas roupas, a escorrer pelo rosto e cair na terra úm ida, plic, plic, plic. Logen perm aneceu sentado, im óvel e silencioso feito um a pedra.
A paciência pode ser um a arm a tem ível. Um a arm a que poucos hom ens aprendem a usar. É difícil m anter a m ente na m atança depois que o sangue esfria e você está fora de perigo. Mas Logen sem pre tivera j eito para isso. Assim , sentou e deixou que o tem po se arrastasse, e pensou em antigam ente, até que a Lua ficou alta e um a luz pálida vazou entre as árvores j unto com a chuva que pinicava. Luz suficiente para ele ver suas tarefas.
Esticou as pernas e com eçou a se m over, avançando entre os troncos das árvores, plantando os pés com suavidade no m ato baixo. A chuva era sua aliada, os pingos m ascaravam os sons fracos das botas enquanto ele rodeava o guarda.
Sacou um a faca, a lâm ina m olhada brilhando um a vez ao luar frágil, saiu das árvores e atravessou o acam pam ento. Passou entre os hom ens adorm ecidos, perto o bastante para tocá-los. Tão próxim o quanto um irm ão. O guarda bufou e se m exeu, descontente, apertando o cobertor m olhado sobre os om bros, tom ado pelas gotas cintilantes de chuva. Logen parou e esperou, observou o rosto pálido de um dos adorm ecidos, virado de lado, os olhos fechados e a boca escancarada, a respiração soltando um a fum aça fraca na noite úm ida.
Agora o guarda estava im óvel e Logen chegou m ais perto, atrás dele, prendendo o fôlego. Estendeu a m ão esquerda, os dedos m exendo-se no ar nebuloso, esperando o m om ento certo. Estendeu a m ão direita, o punho apertando com força o cabo duro da faca. Sentiu os lábios se repuxando para longe dos dentes trincados. Agora era a hora e, quando a hora chega, você golpeia sem olhar para trás.
Estendeu a m ão e a apertou com firm eza na boca do guarda, cortou sua garganta rápido e com força, fundo a ponto de sentir a lâm ina raspar nos ossos do pescoço. O suj eito se sacudiu e lutou por um m om ento, m as Logen o segurava forte, tão forte quanto um am ante, e ele não em itiu m ais do que um gorgolej o baixo. Logen sentiu sangue nas m ãos, quente e pegaj oso. Por enquanto não se preocuparia com os outros. Se um deles acordasse, tudo o que veria seria a silhueta de um hom em no escuro, e era o que esperaria ver.
Não dem orou m uito até que o guarda ficasse flácido. Logen o pousou suavem ente de lado, a cabeça pendendo. Quatro som bras estavam sob os cobertores, desam paradas. Talvez tivesse havido um tem po em que Logen precisaria se preparar para um serviço assim . Teria de pensar se era a coisa certa a fazer. Mas, se existira esse tem po, estava longe no passado. No Norte, o tem po que você passa pensando é o tem po em que você é m orto. Agora eles não passavam de quatro tarefas a ser cum pridas.
Esgueirou-se até o prim eiro, levantou a faca ensanguentada e o acertou direto no coração, através do casaco, com a m ão com prim indo sua boca. Ele m orreu m ais silenciosam ente do que dorm ia. Logen foi até o segundo, pronto para fazer o m esm o. Sua bota bateu em algo m etálico. Um cantil, talvez. O que quer que fosse, fez um estardalhaço e tanto. Os olhos do suj eito adorm ecido se abriram e ele com eçou a se levantar. Logen cravou a faca em seu abdom e e a conduziu para cim a, rasgando a barriga. O hom em soltou um a espécie de chiado, boca e olhos bem abertos, agarrado ao braço de Logen.
– O que..?
O terceiro sentou-se im ediatam ente, olhando ao redor. Logen soltou a m ão e puxou a espada.
– Que diab…
O hom em levantou o braço, por instinto, e a lâm ina opaca atravessou seu punho e se cravou fundo no crânio, lançando no ar úm ido um a chuva de pontos pretos de sangue e derrubando-o de costas.
Mas isso deu ao últim o tem po suficiente para rolar para fora do cobertor e pegar um m achado. Agora ele estava de pé, encurvado, as m ãos diante do corpo, pronto para a luta com o alguém que tinha m uita prática nisso. Era o Corvo. Logen podia ouvir a respiração dele sibilando, podia vê-la soltando fum aça na chuva.
– Você deveria ter com eçado por m im ! – sibilou o Corvo.
Logen não podia negar. Estivera concentrado em m atar todos e não tinha prestado m uita atenção na ordem . Mesm o assim , agora era tarde para se preocupar. Deu de om bros.
– Com eçar ou acabar, não faz m uita diferença.
– Verem os.
Corvo sopesou o m achado no ar nevoento, m ovendo-se, procurando um a abertura. Logen ficou parado e prendeu o fôlego, com a espada pendendo ao lado do corpo, o cabo frio e m olhado em suas m ãos. Nunca fora m uito de se m exer até que chegasse a hora.
– Mas diga o seu nom e enquanto ainda respira. Gosto de saber quem m atei.
– Você j á m e conhece, Corvo.
Logen levantou o braço e espalm ou a m ão, e o luar brilhou no sangue que a m anchava e no cotoco ensanguentado do dedo que faltava.
– Estivem os lado a lado em Carleon. Não im aginei que você iria se esquecer de m im tão cedo. Mas as coisas não costum am acontecer com o a gente espera, não é?
Corvo havia parado de se m exer. Logen não podia ver m ais do que o brilho dos olhos dele no escuro, m as dava para perceber a incerteza e o m edo em sua postura.
– Não – sussurrou ele, balançando a cabeça no escuro. – Não pode ser! Nove Dedos está m orto!
– É m esm o? – Logen respirou fundo e soprou o ar, lentam ente, na noite úm ida. – Então devo ser o fantasm a dele.
Os rapazes da União tinham feito um a espécie de buraco para se protegerem , com sacos e caixas nas laterais, com o um a fortificação. Logen podia ver um ou outro rosto m ovendo-se acim a do topo, olhando para as árvores, a luz fraca da fogueira refletindo num a ponta de flecha ou de lança. Enfiados no chão, esperando outra em boscada. Se antes estavam nervosos, agora provavelm ente estavam se cagando. Havia m uitas chances de que um deles ficasse apavorado e atirasse em Logen assim que ele aparecesse. As porcarias das bestas da União tinham um gatilho que era acionado com um toque, assim que eram retesadas. Seria um a trem enda sorte ser m orto sem m otivo no m eio de lugar nenhum , e por alguém que estava do seu lado. Mas não tinha m uita escolha. A não ser que quisesse cam inhar até a frente de batalha.
Por isso lim pou a garganta e gritou:
– Agora ninguém atire nem faça nada!
Um a corda soou e um a seta se cravou num a árvore a poucos passos à esquerda. Logen se agachou na terra úm ida.
– Eu disse para ninguém atirar!
– Quem está aí?
– Sou eu, Nove Dedos!
Silêncio.
– O nórdico que estava na carroça – com pletou.
Um a pausa longa e alguns sussurros.
– Certo! Mas venha devagar e m antenha as m ãos onde a gente possa ver!
– É j usto! – Ele se ergueu e se esgueirou para fora das árvores, com as m ãos levantadas. – Só não atirem em m im , hein? Essa é a sua parte do trato.
Cam inhou na direção da fogueira, os braços abertos, encolhendo-se ao pensar que um a flecha poderia acertar seu peito a qualquer m om ento. Reconheceu o rosto dos rapazes de antes, o deles e o do oficial encarregado da coluna de suprim entos. Dois seguiram seus m ovim entos com as bestas enquanto ele passava lentam ente sobre o parapeito im provisado e descia na trincheira. Ela fora cavada diante da fogueira, m as não m uito bem , e havia um a poça enorm e no fundo.
– Para onde diabo você foi? – perguntou o oficial com raiva.
– Atrás dos caras que em boscaram a gente.
– Você os pegou? – perguntou um dos rapazes.
– Peguei.
– E…?
– Estão m ortos – falou Logen e, assentindo para a poça no fundo do buraco, em endou: – Portanto vocês não precisam dorm ir na água esta noite. Ainda tem um pouco daquele cozido?
– Quantos eram ? – perguntou rispidam ente o oficial.
Logen cutucou as brasas da fogueira, m as a panela estava vazia. Azar o seu, de novo.
– Cinco.
– Você, sozinho, contra cinco?
– No início eram seis, m as eu m atei um de cara. Está ali no m eio das árvores – contou Logen. Tirou um pedaço de pão da bolsa e o esfregou no fundo da panela, tentando pegar ao m enos um pouquinho de gordura. – Esperei até eles estarem dorm indo, por isso só precisei lutar cara a cara com um . Sem pre tive sorte nisso, eu acho.
Ele não se sentia com m uita sorte. Olhando a m ão à luz da fogueira, viu que ainda estava suj a de sangue. Sangue escuro sob as unhas, seco nas linhas da palm a.
– Sem pre tive sorte.
O oficial não pareceu m uito convencido.
– Com o vam os saber se você não é um deles? Que não está nos espionando? Que eles não estão esperando lá, agora, você dar o sinal quando estiverm os vulneráveis?
– Vocês estavam vulneráveis durante todo o cam inho – bufou Logen. – Mas é um a pergunta j usta. Achei que vocês poderiam perguntar – disse e tirou a bolsa de lona pendurada no cinto. – Então eu trouxe isto.
O oficial franziu a testa ao pegar a sacola. Abria-a, sacudiu-a e olhou dentro, cheio de suspeita. Engoliu em seco.
– Com o eu disse, eram cinco. De m odo que tem dez polegares aí. Satisfeito?
O oficial parecia m ais nauseado do que satisfeito, m as assentiu, com os lábios contraídos, e devolveu a sacola com o braço estendido.
Logen balançou a cabeça.
– Pode ficar. Na m inha m ão só falta o dedo m édio. Tenho todos os polegares de que preciso.
A carroça deu um solavanco e parou. Nos últim os 2 ou 3 quilôm etros, tinham se m ovido a passo de lesm a. Agora a estrada, se é que essa palavra poderia ser usada para um m ar de lam a, estava entupida de hom ens que se m oviam com dificuldade. Eles chapinhavam tentando ir de um lugar razoavelm ente firm e até outro, andando sob a chuva fraca em m eio à confusão de carroças atoladas e cavalos infelizes, às pilhas de caixotes e barris, às tendas m al m ontadas. Logen viu um grupo de rapazes cobertos de lam a fazer força para em purrar um a carroça atolada até os eixos, sem m uito sucesso. Era com o ver um exército afundar lentam ente num pântano. Um grande naufrágio em terra.
Agora os com panheiros de viagem de Logen estavam reduzidos a sete, encolhidos e m agros, exauridos pelas noites insones e o tem po ruim na estrada. Um m orto, um m andado de volta a Uffrith com um a flecha na coxa. Não era o m elhor com eço para a estada no Norte, m as Logen duvidava que fosse m elhorar dali em diante. Desceu da carroça. Suas botas afundaram na lam a revirada. Alongou as costas e esticou as pernas doloridas, depois pegou sua bolsa.
– Sorte, então – disse aos rapazes.
Nenhum deles falou. Mal haviam dirigido um a palavra a ele desde a noite da em boscada. Provavelm ente aquela coisa dos polegares os havia preocupado. Mas, se isso fosse o pior que eles vissem enquanto estivessem ali, estariam bem , pensou Logen. Deu de om bros, virou e com eçou a andar afundando na lam a.
Logo adiante o oficial encarregado da coluna de suprim entos levava um a bronca de um hom em alto e sério de uniform e verm elho que parecia a coisa m ais próxim a de alguém em com ando no m eio daquela confusão. Logen dem orou um instante para reconhecê-lo. Tinham sentado j untos num a festa, num am biente m uito diferente, e haviam conversado sobre guerra. Ele parecia m ais velho, m ais m agro, m ais endurecido agora. Tinha um a expressão severa no rosto e m uitos fios grisalhos no cabelo m olhado, m as sorriu ao ver Logen ali parado e foi até ele com a m ão estendida.
– Pelos m ortos! – disse em bom nórdico. – O destino é capaz de alguns truques. Eu conheço você.
– Eu tam bém conheço você.
– Nove Dedos, não é?
– Isso m esm o. E você é West. De Angland.
– Sou, sim . Desculpe se não lhe ofereço um a recepção m elhor, m as o exército só chegou aqui há um ou dois dias e, com o pode ver, as coisas ainda não estão organizadas. Aí não, idiota! – berrou para um cocheiro que tentava passar a carroça entre outras duas, em bora o espaço nem de longe fosse suficiente. – Há algo parecido com verão nesta porcaria de país?
– Está olhando para ele. Não viu o inverno?
– Hum . Talvez você tenha razão. O que o traz aqui, afinal?
Logen entregou a carta a West. Ele se curvou para protegê-la da chuva e leu, franzindo a testa.
– Assinada pelo lorde cam arista Hoff, hein?
– Isso é bom ?
West franziu os lábios enquanto devolvia a carta.
– Acho que depende. Quer dizer que você tem alguns am igos poderosos. Ou alguns inim igos poderosos.
– Um pouco dos dois, talvez.
West riu.
– Acho que as duas coisas andam j untas. Veio lutar?
– Isso m esm o.
– Bom . Sem pre tem os uso para um hom em com experiência – falou e, observando os recrutas que desciam das carroças, deu um longo suspiro. – Ainda há m uita gente aqui que não tem nenhum a. Você deveria se j untar aos outros nórdicos.
– Há nórdicos com vocês?
– Sim , e chegam m ais todos os dias. Parece que m uitos não estão felizes com o m odo com o o rei deles está com andando. Em particular por causa do acordo dele com os shankas.
– Acordo? Com os shankas? – repetiu Logen, franzindo a testa. Nunca poderia pensar que nem m esm o Bethod descesse tanto, m as não era a prim eira vez que se decepcionava. – Tem cabeças-achatadas lutando ao lado dele?
– Certam ente. Ele tem cabeças-achatadas e nós tem os nórdicos. É um m undo estranho, sem dúvida.
– É m esm o – concordou Logen, balançando a cabeça. – Quantos vocês têm ?
– Uns trezentos, eu diria, pela últim a contagem , m as eles não gostam m uito de ser contados.
– Acho que então são trezentos e um , se você m e aceitar.
– Eles estão acam pados lá, na ala esquerda – falou West e apontou para a silhueta escura de árvores contra o céu da tarde.
– Está bem . Quem é o chefe?
– Um suj eito que cham am de Cachorrão.
Logen o encarou por um longo m om ento.
– Que cham am de quê?
– Cachorrão. Você conhece?
– Pode-se dizer que sim – sussurrou Logen, com um sorriso se abrindo no rosto. – Pode-se dizer que sim .
O crepúsculo se aproxim ava depressa e a noite vinha logo em seguida. Tinham acabado de acender a fogueira quando Logen chegou. Podia ver as form as dos Carls assum indo seus lugares ao redor dela, as cabeças e os om bros destacados contra as cham as. Podia escutar suas vozes e os risos, altos na noite calm a, agora que a chuva havia parado.
Fazia m uito tem po que não ouvia um bando de hom ens falando nórdico, e isso pareceu estranho em seus ouvidos, m esm o sendo seu idiom a. Trazia de volta lem branças feias. Multidões de hom ens gritando com ele, gritando por ele. Multidões num ataque, com em orando as vitórias, chorando os m ortos. Sentiu cheiro de carne sendo cozida em algum lugar. Um cheiro adocicado e intenso que lhe fez cócegas no nariz e provocou roncos na barriga.
Havia um a tocha acesa num poste perto do cam inho, e um rapaz que parecia entediado em baixo dela, com um a lança, franziu a testa para Logen, que se aproxim ava. Devia ter tirado o palito m ais curto, para estar de guarda enquanto os outros com iam , e não parecia m uito feliz com isso.
– O que você quer? – resm ungou ele.
– Cachorrão está?
– Está, e daí?
– Preciso falar com ele.
– Precisa, é?
Outro hom em se aproxim ou, j á bem passado do auge de sua força, com um tufo de cabelos grisalhos e a pele curtida com o couro.
– O que tem os aqui?
– Um recruta novo – resm ungou o rapaz. – Quer falar com o chefe.
O velho estreitou os olhos na direção de Logen, franzindo a testa.
– Conheço você, am igo?
Logen levantou o rosto de m odo que a luz da tocha o ilum inasse. É m elhor olhar um hom em nos olhos e deixar que ele olhe você, e m ostrar que não sente m edo. Era assim que seu pai havia lhe ensinado.
– Não sei. Conhece?
– De onde você vem ? Do pessoal do Mecha Branca, é?
– Não. Andei trabalhando sozinho.
– Sozinho? Bom , ora. Parece que eu reconheço… – Os olhos do velho se arregalaram , seu queixo caiu e o rosto ficou branco feito calcário cortado. – Por todas as porras dos m ortos! – sussurrou, dando um passo cam baleante para trás. – É o Nove Sangrento!
Talvez Logen estivesse esperando que não o reconhecessem . Que houvessem esquecido. Que tivessem coisas novas com que se preocupar e que ele fosse apenas um hom em com o outro qualquer. Mas agora via a expressão no rosto do velho – aquele ar de quem estava se borrando –, e ficou claro com o a coisa seria. Exatam ente com o antes. E o pior era que, agora que Logen fora reconhecido e via aquele m edo, aquele horror e aquele respeito, não tinha certeza de não gostar daquela reação. Tinha m erecido isso, não é? Afinal de contas, fatos são fatos.
Ele era o Nove Sangrento.
O rapaz ainda não havia entendido direito.
– Está brincando com igo, é? Daqui a pouco vai dizer que o próprio Bethod está chegando, hein?
Mas ninguém riu, e Logen levantou a m ão e olhou pelo espaço onde estaria o dedo m édio. O rapaz olhou daquele cotoco para o velho trêm ulo e de volta.
– Merda – grasnou.
– Onde está o seu chefe, garoto? – repetiu Logen, e sua voz am edrontou até m esm o a ele. Monótona, insensível e fria com o o inverno.
– Ele está… está…
O rapaz levantou um dedo trêm ulo e apontou na direção das fogueiras.
– Bem , então acho que eu m esm o vou procurá-lo.
Os dois saíram do cam inho de Logen. Ele não exatam ente sorriu ao passar. Foi m ais com o se repuxasse os lábios para m ostrar os dentes. Havia um a reputação a sustentar, afinal de contas.
– Não precisam se preocupar – sibilou na cara deles. – Estou do lado de vocês, não estou?
Ninguém disse um a palavra enquanto ele passava por trás dos Carls, indo para a cabeceira dos que se sentavam em torno do fogo. Uns dois olharam por cim a dos om bros, m as não foi nada além do que qualquer recém -chegado ao acam pam ento receberia. Ainda não tinham ideia de quem ele era, m as logo teriam . O rapaz e o velho sussurrariam a notícia, e os sussurros se espalhariam em volta do fogo, com o acontece, e todo m undo o observaria.
Sobressaltou-se quando um a grande som bra surgiu ao seu lado, tão alta que a princípio pensou ser de um a árvore. Um hom em grande, enorm e, coçava a barba e sorria para o fogo. Tul Duru. Não poderia se confundir com o Cabeça de Trovão, m esm o à m eia-luz. Não com um hom em daquele tam anho. Isso fez Logen pensar em quando o havia derrotado.
Sentiu um a ânsia estranha de baixar a cabeça e passar direto, sum ir na noite e não olhar para trás. Então não precisaria voltar a ser o Nove Sangrento. Haveria apenas um j ovem e um velho que j urariam ter visto seu fantasm a um a noite. Logen poderia ir para longe e recom eçar, ser quem ele quisesse. Mas j á havia tentado isso um a vez e não adiantara. O passado estava sem pre logo atrás, soltando um bafo em sua nuca. Era hora de se virar e encará-lo.
– Parado aí, garotão – alertou Tul e o espiou no crepúsculo.
A luz alaranj ada da fogueira e as som bras pretas se m oviam em seu rosto enorm e parecido com um a rocha, em sua barba igual a um tapete.
– Quem … Espere aí…
Logen engoliu em seco. Não fazia ideia, agora que pensava nisso, de qual seria a reação de qualquer um deles ao revê-lo. Tinham sido inim igos m uito antes de serem am igos, afinal de contas. Cada um havia lutado contra ele. Cada um estivera ansioso para m atá-lo, e com bons m otivos. Então ele fora para o Sul e os deixara com os shankas. E se tudo o que ele conseguisse depois de m ais de um ano longe fosse um olhar frio?
Então Tul o agarrou e o com prim iu num abraço esm agador.
– Você está vivo!
Soltou-o só pelo tem po necessário para confirm ar que era o hom em certo, depois voltou a abraçar.
– É, estou vivo – chiou Logen, com ar apenas suficiente para dizer isso.
Pelo m enos tivera um a recepção calorosa.
Tul sorria com o rosto inteiro.
– Venha – disse, cham ando Logen com um gesto. – O pessoal vai se cagar!
Logen acom panhou Tul, com o coração batendo na boca, até a cabeceira do fogo, onde era o lugar do chefe e de seus Hom ens Nom eados m ais próxim os. E ali estavam eles, sentados no chão. Cachorrão estava no centro, m urm urando algo para Barca Negra. Sinistro estava do outro lado, apoiado num cotovelo, m exendo nas penas das flechas. Era com o se nada tivesse m udado.
– Tem alguém aqui para ver você, Cachorrão – disse Tul, com a voz falhando por causa do esforço de guardar a surpresa.
– Tem , é?
Cachorrão levantou os olhos na direção de Logen, m as ele estava escondido nas som bras atrás do enorm e om bro de Tul.
– Não podia esperar até a gente ter com ido?
– Acho que não.
– Por quê? Quem é?
– Quem é? – repetiu Tul e, agarrando o om bro de Logen, o em purrou para a luz da fogueira. – É só a porra do Logen Nove Dedos!
A bota de Logen escorregou na lam a e ele quase caiu de bunda; precisou balançar os braços para m anter o equilíbrio. Toda a conversa em volta do fogo parou de im ediato e todos os rostos se viraram para ele. Duas longas fileiras de rostos congelados, frouxos à luz bruxuleante, nenhum som além do vento que suspirava e das fogueiras que crepitavam . Cachorrão olhou para ele com o se estivesse vendo os m ortos andarem , a boca m ais escancarada a cada instante.
– Achei que vocês todos estivessem m ortos – disse Logen quando recuperou o equilíbrio. – Talvez eu sej a realista dem ais.
Cachorrão se levantou devagar. Estendeu a m ão e Logen a segurou.
Não havia nada a dizer. Não para hom ens que tinham passado por tanta coisa j untos, com o os dois: lutas contra os shankas, travessias de m ontanhas, guerras e o que vinha depois delas. Anos assim . Cachorrão apertou sua m ão e Logen bateu com a outra em cim a delas, depois Cachorrão pôs sua outra sobre a do am igo. Os dois sorriram e assentiram , e as coisas voltaram a ser com o eram . Nada precisava ser dito.
– Sinistro, que bom ver você!
– Uh – grunhiu Sinistro, que lhe entregou um a caneca e desviou o olhar de volta para suas flechas, com o se Logen tivesse saído para m ij ar e voltado um m inuto depois, com o era o esperado.
Logen teve que rir. Não esperaria nada além disso do am igo.
– Aquele escondido ali é Barca Negra?
– Eu m e esconderia m elhor se soubesse que você vinha. – Barca Negra olhou Logen de cim a a baixo com um sorriso que não era totalm ente receptivo. – Se não é o próprio Nove Dedos! Achei que você tinha dito que ele tinha caído de um penhasco, hein? – rosnou para Cachorrão.
– Foi o que eu vi.
– Ah, eu caí – garantiu Logen, e se lem brou do vento na boca, das rochas e da neve que passavam girando ao redor, do im pacto na água que tirou o ar de seus pulm ões. – Caí e saí inteiro, m ais ou m enos.
Cachorrão abriu espaço para Logen nas peles espalhadas j unto à fogueira e os outros se sentaram perto dele.
Barca Negra balançava a cabeça.
– Você sem pre foi um desgraçado sortudo quando se trata de ficar vivo. Eu deveria saber que ia acabar aparecendo.
– Achei que os cabeças-achatadas haviam acabado com todos vocês – disse Logen. – Com o saíram de lá?
– Três Árvores tirou a gente – respondeu Cachorrão.
– Levou a gente para fora e para o outro lado das m ontanhas – em endou Tul, assentindo. – Descem os pelo Norte caçando, até entrar em Angland.
– Reclam ando o cam inho todo feito um as velhas, sem dúvida.
Cachorrão riu para Barca Negra e falou:
– Houve algum as reclam ações no cam inho.
– E cadê Três Árvores? – perguntou Logen, ansioso por trocar um as palavras com o velho.
– Morreu – disse Sinistro.
Logen se encolheu. Im aginara que poderia ser isso, j á que Cachorrão estava no com ando.
– Morreu lutando – contou Tul, balançando a cabeça. – Com andando um ataque contra os shankas. Morreu lutando com aquela coisa, o Tem ível.
– Aquela coisa desgraçada – falou Barca Negra, e escarrou na lam a.
– E Forley ?
– Morreu tam bém – rosnou Barca Negra. – Entrou em Carleon para avisar a Bethod que os shankas estavam atravessando as m ontanhas. Calder m andou m atar o suj eito, só por prazer. Desgraçado!
Ele cuspiu de novo. Sem pre fora ótim o em cuspir, o Barca Negra.
– Mortos – repetiu Logen e balançou a cabeça.
Forley m orto. Três Árvores m orto. Sentiu um a baita pena. Mas não fazia m uito tem po que ele achava que tinham todos voltado à lam a, de m odo que haver quatro ainda vivos era um trem endo bônus, de certa form a.
– É. Os dois eram hom ens bons. Os m elhores. E m orreram bem , pelo j eito. Pelo m enos tão bem quanto possível.
– É. Tão bem quanto possível – concordou Tul, que ergueu sua caneca. – Aos m ortos.
Todos beberam em silêncio e Logen estalou os lábios com o gosto da cervej a. Tinha ficado m uito tem po longe.
– Então um ano se passou – grunhiu Barca Negra. – Nós m atam os um pouco e andam os por um cam inho longo dem ais e lutam os num a batalha desgraçada. Perdem os dois hom ens e tem os um novo chefe. Que diabo você andou aprontando, Nove Dedos?
– Bom , é um a história e tanto. – Logen se perguntou exatam ente que tipo de narrativa seria e descobriu que não tinha certeza. – Pensei que os shankas haviam pegado vocês todos, j á que a vida sem pre m e ensinou a esperar o pior, por isso segui para o sul e lá conheci um m ago. Fui com ele num a espécie de viagem para longe, do outro lado do m ar, para encontrar um a coisa que, quando a gente chegou… não estava lá.
Tudo aquilo parecia m ais do que um pouco de loucura, agora que ele dizia.
– Que coisa era essa? – quis saber Tul, com o rosto franzido de perplexidade.
– Acredita… – falou Logen e passou a língua pelos dentes, sentindo o gosto da bebida –… que tam bém não sei direito?
Todos se entreolharam com o se nunca tivessem ouvido um a história tão idiota e Logen precisou adm itir que provavelm ente não tinham m esm o.
– Mas agora não im porta. Acabo de descobrir que a vida não é tão ruim quanto eu pensava – falou Nove Dedos e deu um tapa am istoso nas costas de Tul.
Cachorrão inflou as bochechas.
– Bom , nós ficam os felizes por você ter voltado, de qualquer m odo. Acho que vai ocupar o seu lugar de novo, não é?
– Meu lugar?
– Você vai assum ir, não vai? Quero dizer, você era o chefe.
– Já fui, é verdade, m as não tenho planos de voltar a ser. Parece que esse pessoal está bem feliz com as coisas com o elas estão.
– Mas você sabe m uito m ais do que eu sobre com andar hom ens.
– Não sei se é verdade. Quando eu estava no com ando, as coisas nunca funcionaram m uito bem , não é? Nem para nós nem para os que lutavam conosco, nem para os que lutavam contra nós – argum entou Logen e encolheu os om bros diante daquela lem brança. – Eu dou m inha opinião, se quiser, m as prefiro seguir você. Tive o m eu tem po e não foi bom .
Cachorrão parecia esperar um a resposta diferente.
– Bom … se você tem certeza…
– Tenho. – Logen deu-lhe um tapa no om bro. – Não é fácil ser chefe, hein?
– Não – resm ungou Cachorrão. – Nem um pouco.
– Além disso, acho que um m onte desses rapazes j á esteve do outro lado de um a disputa com igo, e eles não ficaram totalm ente felizes em m e ver.
Logen olhou os rostos ao redor da fogueira, ouviu m urm úrios com seu nom e, baixos dem ais para que ele entendesse o assunto, m as dava para adivinhar que não eram elogios.
– Não se preocupe. Eles vão ficar bem felizes em ter você ao lado quando a luta com eçar.
– Talvez.
Era um a lástim a que ele precisasse voltar a m atar para que eles ao m enos o cum prim entassem com a cabeça. Olhares intensos convergiam para ele na escuridão e se desviavam rápido quando Logen os retribuía. Só houve um hom em que, m ais ou m enos, o encarou. Um rapaz grande, de cabelos com pridos, na m etade do cam inho até o fogo.
– Quem é aquele? – perguntou Logen.
– Quem ?
– Aquele cara ali, que está olhando para m im .
– Aquele é o Trem edeira – falou Cachorrão e sugou o ar entre seus dentes pontudos. – Trem edeira tem um bocado de coragem . Lutou com a gente algum as vezes e se saiu m uito bem . Em prim eiro lugar vou dizer que ele é um bom hom em e que devem os m uito a ele. Depois vou contar que é filho de Pescoço Duro.
Logen sentiu um a onda de náusea.
– O quê?
– É o outro filho.
– O garoto?
– Faz m uito tem po. Os garotos crescem .
Fazia m uito tem po, talvez, m as nada era esquecido. Logen pôde ver isso de im ediato. Nada j am ais era esquecido, ali no Norte, e ele devia saber que seria assim .
– Eu deveria dizer algum a coisa a ele. Se vam os lutar j untos… eu deveria dizer algum a coisa.
Cachorrão estrem eceu.
– Talvez fosse m elhor não dizer. É m elhor não m exer em algum as feridas. Com a agora. Converse com ele am anhã de m anhã. Tudo parece m elhor à luz do dia. Ou você pode pensar diferente.
– Uh – grunhiu Sinistro.
Logen se levantou.
– Você deve estar certo, m as é m elhor fazer um a coisa…
– Do que viver com m edo dela – com pletou Cachorrão e balançou a cabeça, olhando para o fogo. – Você fez falta, Logen, e isso é fato.
– Você tam bém , Cachorrão. Você tam bém .
Logen cam inhou pela escuridão im pregnada de fum aça, carne e hom ens, passando por trás dos Carls que se sentavam em volta do fogo. Sentiu-os encolhendo os om bros, m urm urando enquanto ele seguia em frente. Sabia o que estavam pensando. O Nove Sangrento, bem atrás de m im , e não há hom em pior no m undo para se ter às costas. Trem edeira o observou o tem po todo, um olhar frio através do cabelo com prido, os lábios contraídos a ponto de form arem um a linha dura. Ele segurava um a faca para com er, m as ela serviria m uito bem para furar um hom em . Logen viu a luz da fogueira refletida no gum e ao se agachar ao lado dele.
– Então você é o Nove Sangrento.
Logen fez um a careta.
– É. Sou, sim .
Trem edeira assentiu, sem deixar de encará-lo.
– É essa a cara do Nove Sangrento.
– Espero que não estej a desapontado.
– Ah, não. Eu, não. É bom você ter um a cara, depois de todo esse tem po.
Logen olhou para o chão, tentando pensar num m odo de abordar o assunto. O m elhor j eito de m over as m ãos, a expressão adequada para o rosto, algum as palavras que pudessem com eçar a consertar ao m enos um a parte m inúscula daquilo.
– Eram tem pos difíceis – acabou dizendo.
– Mais do que agora?
Logen m ordeu o lábio.
– Bom , talvez não.
– Acho que os tem pos são sem pre difíceis – disse Trem edeira, trincando os dentes. – Isso não é desculpa para fazer um a cagada daquelas.
– Está certo. Não há desculpas para o que eu fiz. Não m e orgulho. Não sei o que dizer, a não ser que espero que você possa deixar isso para trás e que possam os lutar j untos.
– Vou ser honesto com você – disse Trem edeira, e sua voz soou estrangulada, com o se ele tentasse não gritar, ou não chorar, ou as duas coisas ao m esm o tem po. – É um a coisa difícil para eu sim plesm ente deixar para trás. Você m atou m eu irm ão depois de lhe prom eter m isericórdia, decepou os braços e as pernas dele e pregou a cabeça na bandeira de Bethod.
As m ãos de Trem edeira trem iam , os nós dos dedos estavam brancos em volta do cabo da faca, e Logen viu que ele precisava se esforçar para não lhe dar um a facada na cara, m as não o culpava. Não culpava nem um pouco.
– Depois daquilo m eu pai nunca m ais foi o m esm o. Não tinha m ais nada por dentro. Passei m uitos anos sonhando em m atar você, Nove Sangrento.
Logen assentiu devagar.
– Bem , você nunca vai ser o único a sonhar com isso.
Nove Dedos captou vários olhares do outro lado das cham as. Testas franzidas à som bra, rostos sérios à luz bruxuleante. Hom ens que ele nem conhecia, com m edo até os ossos ou cheios de ressentim entos contra ele. Um m onte de m edo e um m onte de ressentim entos. Podia contar com os dedos de um a das m ãos as pessoas satisfeitas em vê-lo vivo. Podia até contar na m ão com um dedo a m enos. E aquele nem era o lado de seus inim igos na batalha.
Cachorrão estava certo. É m elhor não m exer em algum as feridas. Logen se levantou, os om bros form igando, e voltou para a cabeceira do fogo, onde a conversa era m ais fácil. Não tinha dúvida de que Trem edeira ainda queria m atá-lo, tanto quanto antes, m as isso não era de surpreender.
É preciso ser realista. Nenhum a palavra poderia consertar as coisas que ele havia feito.