O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 36 de 61

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O duelo dos reis

A cadeira de Skarling

 

LÁ EMBAIXO A água espum ava agitada. Chovera forte durante a noite e agora o rio estava cheio, um a torrente furiosa que m astigava de form a negligente a base do penhasco. Água preta e fria e espum a branca e fria contra a pedra fria e preta. Form as m inúsculas – am arelo-ouro, laranj a ardente, púrpura vívido, todas as cores do fogo – se m oviam e se m isturavam à torrente louca, para onde quer que a chuva a levasse.

Folhas na água, exatam ente com o ele.

E agora parecia que a chuva iria carregá-lo para o sul. Para lutar m ais um pouco. Matar hom ens que nunca tinham ouvido falar dele. Pensar nisso lhe dava vontade de vom itar. Mas ele dera sua palavra, e um hom em que não cum pre com a palavra não é m uito hom em . Era o que o pai de Logen costum ava dizer.

Tinha passado longos anos sem cum prir m uita coisa. Sua palavra, as palavras de seu pai, as vidas de outros hom ens, tudo significando m enos do que nada. Deixara apodrecer todas as prom essas que fizera à m ulher e aos filhos. Tinha faltado com a palavra a seu povo, seus am igos e consigo m esm o m ais vezes do que poderia contar. O Nove Sangrento. O hom em m ais tem ido do Norte. Um hom em que havia cam inhado todos os dias da vida num círculo de sangue. Um hom em que não fizera nada m ais do que o m al a vida inteira. E o tem po todo havia olhado para o céu e dado de om bros. Culpava quem estivesse m ais perto e dizia a si m esm o que não tivera escolha.

Bethod havia m orrido. Logen conseguira sua vingança, por fim , m as o m undo não se tornara subitam ente um lugar m elhor. O m undo continuava o m esm o, assim com o ele. Espalm ou a m ão esquerda sobre a pedra úm ida, os dedos tortos e esquisitos devido a um a dúzia de fraturas antigas, os nós arranhados e com cascas de ferida, as unhas rachadas e cheias de suj eira. Olhou por um m om ento o cotoco fam iliar.

– Ainda estou vivo – sussurrou, quase incapaz de acreditar.

Encolheu-se de dor nas costelas espancadas, gem eu quando deu as costas para a j anela e se voltou para o grande salão. A ex-sala do trono de Bethod e agora dele. Essa ideia fez nascer um a risada m agra, quase um arroto, em suas entranhas, m as até m esm o isso golpeava a m assa de pontos que tom ara na bochecha e subia pela lateral do rosto. Foi m ancando pelo piso am plo, cada passo um sofrim ento. O raspar das botas ecoava nos caibros altos, acim a dos sussurros do rio lá em baixo. Fachos de luz turva, pesados de poeira, brilhavam e criavam padrões entrecruzados nas tábuas. Perto de Logen, num tablado alto, estava a cadeira de Skarling.

O castelo, a cidade e o terreno ao redor haviam m udado a ponto de ficarem irreconhecíveis, m as Logen calculou que a cadeira era a m esm a de quando Skarling vivia. Skarling Sem Capuz, o m aior herói do Norte. O hom em que unira os clãs para lutar contra a União, m uito tem po atrás. O hom em que unira o Norte com palavras e gestos, pelo m enos durante alguns breves anos.

Um assento sim ples para um hom em sim ples – pedaços grandes e retos de m adeira antiga, com tinta desbotada nas bordas, alisada pelo uso de filhos e netos de Skarling e dos hom ens que haviam com andado seu clã desde então. Até que o Nove Sangrento viera bater aos portões de Carleon. Até que Bethod tom ara a cadeira e fingira que era tudo o que Skarling havia sido, enquanto forçava o Norte a um a união à base de fogo, m edo e aço.

– E então?

Logen girou a cabeça bruscam ente e deparou com Barca Negra encostado no portal, braços cruzados no peito.

– Não vai se sentar?

Logen balançou a cabeça, negando, ainda que suas pernas doessem tanto que ele m al conseguia continuar de pé.

– A lam a sem pre serviu para eu m e sentar. Não sou herói, e Skarling não era rei.

– Recusou um a coroa, pelo que ouvi dizer.

– Coroas – corrigiu Logen e cuspiu na palha, o cuspe ainda rosa por causa dos cortes na boca. – Reis. A ideia inteira é um a m erda e eu sou a pior escolha que poderia existir.

– Mas você não vai recusar, não é?

Logen franziu a testa para ele.

– Para que outro desgraçado pior ainda do que Bethod possa se sentar nessa cadeira e fazer o Norte sangrar m ais um pouco? Talvez eu possa fazer algo de bom com ela.

– Talvez – disse Barca Negra, depois o encarou. – Mas alguns hom ens não servem para fazer o bem .

– Estão falando de m im outra vez? – Crum m ock riu, ao entrar pela porta, com Cachorrão e Sinistro ao lado.

– Nem toda conversa é sobre você, Crum m ock – disse Cachorrão. – Dorm iu bem , Logen?

– Dorm i – m entiu ele. – Com o os m ortos.

– E agora?

Logen olhou para a cadeira.

– Vam os para o sul, acho.

– Sul – grunhiu Sinistro, não dando a m enor pista se achava a ideia boa ou ruim .

Logen lam beu a carne m achucada na lateral da boca, verificando de novo, sem qualquer m otivo sensato, quanto ainda doía.

– Calder e Scale ainda estão por aí, em algum lugar. Sem dúvida Bethod m andou os dois buscarem aj uda. De m ais além de Crinna, ou nos vales altos, ou não sei onde.

Crum m ock riu baixinho.

– Ah, as boas obras nunca term inam .

– Eles vão causar problem as cedo ou tarde – assegurou Cachorrão. – Disso não há dúvida.

– Alguém precisa ficar aqui, de olho nas coisas. Caçar aqueles dois desgraçados, se puder.

– Eu faço isso – disse Barca Negra.

– Tem certeza?

Barca Negra deu de om bros.

– Não gosto de barcos e não gosto da União. Não preciso fazer nenhum a viagem para descobrir isso. E tenho contas a acertar com Calder e Scale. Vou pegar alguns Carls que sobraram e fazer um a visita a eles – disse e, com seu sorriso m aligno, deu um tapa no braço de Cachorrão. – Boa sorte ao restante de vocês, lá com os sulistas, certo? Tentem não ser m ortos – em endou, depois estreitou os olhos na direção de Logen. – Principalm ente você, hein, Nove Sangrento. Não querem os perder outro rei dos nórdicos agora, querem os?

Então Barca Negra saiu bam boleando de braços cruzados.

– Quantos hom ens ainda tem os?

– Uns trezentos, contando que Barca Negra vá ficar com alguns.

Logen deu um longo suspiro.

– Então é m elhor prepará-los para partir. Não quero que o Furioso vá sem a gente.

– Quem vai querer ir? – perguntou Cachorrão. – Depois do que passaram nesses m eses? Quem vai querer m ais m atança agora?

– Hom ens que não saibam fazer m uita coisa além disso, acho. – Logen deu de om bros. – Bethod tinha ouro lá em baixo, não tinha?

– É, um pouco.

– Então divida. O suficiente para cada hom em que for com a gente. Um pouco agora, um pouco quando voltarm os. Acho que um bom núm ero vai aceitar.

– Talvez. Os hom ens falam m uito por causa de ouro. Não sei se vão lutar m uito por ele, quando chegar a hora.

– Verem os.

Cachorrão olhou para ele por um longo m om ento. Encarou-o bem nos olhos.

– Por quê?

– Porque eu dei m inha palavra.

– E? Isso nunca incom odou você antes, não é?

– Não posso dizer que sim , e aí é que está o problem a. – Logen engoliu em seco e sentiu o gosto ruim de sua boca. – O que m ais a gente pode fazer, a não ser tentar ser m elhor?

Cachorrão assentiu devagar, os olhos não se afastando do rosto de Logen.

– Então está certo, chefe. Para o sul.

– Uh – disse Sinistro.

Os dois saíram , deixando apenas Crum m ock com Logen.

– Então vai para a União, Maj estade? Para o sul, m atar uns hom ens m arrons ao sol?

– Para o sul. – Logen m exeu um om bro dolorido j unto ao pescoço dolorido, depois o outro. – Você vem ?

Crum m ock se afastou da parede e deu alguns passos adiante, com os ossos de dedos estalando em volta do pescoço.

– Não, não, não. Eu, não. Gostei do período que passam os j untos, gostei m esm o, m as tudo tem um fim , não é? Fiquei m uito tem po longe das m inhas m ontanhas, e m inhas m ulheres devem estar sentindo m inha falta.

O chefe dos hom ens das m ontanhas abriu os braços, deu m ais um passo à frente e abraçou Logen com força. Com um pouco de força de m ais para seu gosto, se ele fosse honesto.

– Eles podem ter um rei, se quiserem – sussurrou Crum m ock em seu ouvido –, m as não posso dizer que eu queira. Ainda m ais o hom em que m atou m eu filho, não é?

Logen sentiu-se esfriar, das raízes do cabelo às pontas dos dedos.

– O que você achou? Que eu não saberia? – O m ontanhês se inclinou para trás, para olhar Logen nos olhos. – Você o trucidou diante de todo m undo, não foi? Assassinou o pequeno Rond com o um a ovelha para a panela, e ele era tão indefeso quanto um a ovelha.

Estavam sozinhos naquele am plo salão, só os dois e as som bras e a cadeira de Skarling. Logen se encolheu quando os braços de Crum m ock o apertaram com m ais força, em volta dos hem atom as e dos ferim entos deixados pelos braços do Tem ível. Não lhe restavam forças sequer para lutar contra um gato, e os dois sabiam disso. O m ontanhês podia esm agá-lo e term inar o serviço do Tem ível. Mas ele apenas sorriu.

– Não se preocupe, Nove Sangrento. Eu recebi o que queria, não foi? Bethod está m orto e seu Tem ível e sua bruxa e toda a ideia m aluca de clãs unidos, tudo voltou para a lam a, que é o lugar certo. Com você no com ando, ouso dizer que vão se passar cem anos antes que o povo do Norte pare de se m atar. Enquanto isso, talvez nós, nas m ontanhas, possam os ter um pouco de paz, não é?

– Claro que podem – grasnou Logen com os dentes trincados, fazendo um a careta à m edida que o aperto de Crum m ock ficava m ais forte.

– Você m atou m eu filho, é verdade, m as eu tenho m uitos outros. É preciso ceifar os fracos, você não sabe? Os fracos e os azarados. A gente não coloca um lobo no m eio das ovelhas e depois chora quando percebe que um a foi com ida, não é?

Tudo o que Logen conseguiu fazer foi olhar para ele.

– Você é m esm o louco.

– Talvez sej a, m as existe coisa pior do que eu por aí – disse e se inclinou para perto de novo, com a respiração suave no ouvido de Logen: – Não fui eu que m atei o garoto, fui? – lem brou-o e, soltando Logen, lhe deu um tapa no om bro, com o um am igo faria, ainda que não houvesse am izade no gesto. – Nunca m ais suba aos Lugares Altos, Nove Dedos, é o m eu conselho. Eu posso não lhe oferecer outra recepção am igável – avisou.

Em seguida se virou e foi andando lentam ente, balançando um dedo gordo por cim a do om bro.

– Não suba aos Lugares Altos de novo, Nove Dedos! Você é am ado pela Lua só um pouquinho dem ais para o m eu gosto!