O duelo dos reis
O novo homem
– E ASSIM retornam os – falou Bay az, franzindo a testa na direção da cidade: um crescente branco lum inoso espalhado ao redor da baía reluzente.
Devagar, m as de m odo decidido, ela se aproxim ava, estendendo-se e envolvendo Jezal em seu abraço de boas-vindas. Os detalhes ficaram nítidos: parques verdes que espiavam por entre as casas, pináculos brancos que se proj etavam da m assa de prédios. Podia ver as altas m uralhas do Agriont, com o sol reluzindo nas cúpulas lustrosas. A Casa do Artífice se erguia acim a de todo o resto, m as agora até essa construção tão intim idadora parecia, de algum m odo, ter a ver com calor e segurança.
Estava em casa. Tinha sobrevivido. Pareciam ter se passado cem anos desde que estivera na proa de um navio com o aquele, arrasado e sozinho, vendo Adua deslizar lentam ente para a distância. Acim a do barulho da água, dos estalos das velas, dos gritos das aves m arinhas, com eçou a distinguir o rum or distante da cidade. Parecia a m úsica m ais m aravilhosa que j á escutara. Fechou os olhos e puxou o ar com força pelas narinas. O cheiro podre e salgado da baía era doce com o m el em sua língua.
– Parece que gostou da viagem , não é, capitão? – ironizou Bay az.
Jezal só pôde rir.
– Estou gostando do fim dela.
– Não precisa ficar desanim ado – falou o irm ão Pé Com prido. – Às vezes um a j ornada difícil só entrega todos os benefícios m uito depois de retornarm os. Os sofrim entos são breves, m as a sabedoria obtida dura a vida inteira!
– Hum . – O Prim eiro dos Magos repuxou os lábios. – A viagem só traz sabedoria aos sábios. Deixa o ignorante m ais ignorante do que nunca. Mestre Nove Dedos! Está decidido a voltar para o Norte?
Com a testa franzida, Logen deviou por um instante seu olhar para a água.
– Não tenho m otivo para ficar.
Olhou de lado para Ferro, que o encarou irritada.
– Está olhando para m im por quê?
Logen balançou a cabeça.
– Sabe de um a coisa? Não faço a m ínim a ideia, porra.
Se houvera algo vagam ente rom ântico entre os dois, agora parecia ter desm oronado a ponto de se tornar um a irrem ediável e m al-hum orada aversão.
– Bom – disse Bay az levantando as sobrancelhas –, se está decidido… – Estendeu a m ão para o nórdico e Jezal observou enquanto se cum prim entavam . – Dê um chute no Bethod por m im , assim que ele estiver sob sua bota.
– Farei isso, a não ser que eu estej a sob a dele.
– Nunca é fácil chutar de baixo para cim a. Obrigado pela aj uda e por seus bons m odos. Talvez volte a ser m eu hóspede um dia, na biblioteca. Vam os olhar para o lago e rir das grandes aventuras no ocidente do Mundo.
– Espero que sim .
Mas Logen não parecia ter m uita capacidade de riso nem m uita esperança. Parecia um hom em que havia esgotado suas opções.
Em silêncio, Jezal olhou as cordas serem lançadas ao cais e esticadas, a prancha longa ser estendida até o cais com um rangido e bater nas pedras.
– Mestre Quai! É hora de desem barcarm os! – gritou Bay az para seu aprendiz.
O j ovem pálido seguiu o m estre, descendo do navio sem olhar para trás, com o irm ão Pé Com prido indo em seguida.
– Boa sorte, então – disse Jezal, estendendo a m ão a Logen.
– Para você tam bém .
O nórdico riu, ignorou a m ão e o envolveu num abraço apertado e com cheiro desagradável. Os dois ficaram parados durante um m om ento m eio tocante, m eio em baraçoso, e então Nove Dedos lhe deu um tapa nas costas e o soltou.
– Talvez eu o vej a lá no Norte. – A voz de Jezal estava só um pouquinho em bargada, apesar de todos os esforços. – Se m e m andarem …
– Talvez, m as… na verdade espero que não. Com o eu disse, se eu fosse você, encontraria um a boa m ulher e deixaria a m atança para quem tem m enos sentim ento.
– Com o você?
– É. Com o eu. – Ele olhou para Ferro. – Então é isso, hein, Ferro?
– Uh.
Ela encolheu os om bros m agros e foi descendo a prancha. O rosto de Logen se retorceu.
– Certo – m urm urou para as costas dela. – Foi bom conhecer você. – Balançou o cotoco do dedo que faltava na direção de Jezal. – Se um a coisa pode ser dita sobre Logen Nove Dedos é que ele tem j eito com as m ulheres.
– Hum .
– É.
– Certo.
Na verdade Jezal estava achando estranham ente difícil ir em bora. Eles haviam sido com panheiros quase constantes durante os últim os seis m eses. No início sentira apenas desprezo pelo suj eito, m as agora era com o deixar um irm ão m ais velho m uito respeitado. Era pior ainda, de fato, porque Jezal nunca tivera seus irm ãos de verdade em m uita conta. Por isso se dem orou no convés, e Logen riu com o se adivinhasse o que ele pensava.
– Não se preocupe. Vou tentar m e virar sem você.
– Só tente se lem brar do que eu lhe disse, se entrar em outra briga – falou Jezal, conseguindo dar um m eio sorriso.
– Eu diria que, infelizm ente, isso é quase um a certeza.
Então não havia de fato nada que Jezal pudesse fazer além de se virar e descer para terra, fingindo que algo havia caído em seu olho. Pareceu um a longa cam inhada até o cais m ovim entado, onde parou perto de Bay az e Quai, Pé Com prido e Ferro.
– Acho que o m estre Nove Dedos pode cuidar de si m esm o – disse o Prim eiro dos Magos.
– Ah, pode, sim – riu Pé Com prido. – Poucos podem fazer isso m elhor.
Jezal olhou um a últim a vez por cim a dos om bros enquanto adentravam a cidade. Logen levantou um a das m ãos para ele, da am urada do navio, e depois a esquina de um arm azém entrou no m eio e ele sum iu. Ferro se dem orou um instante, franzindo a testa para o m ar, os punhos fechados com força e um m úsculo contraído na lateral da cabeça. Depois se virou e viu que Jezal a observava.
– Está olhando o quê?
Ela passou por ele, seguindo os outros e entrando nas ruas apinhadas de Adua.
A cidade continuava exatam ente com o Jezal recordava, no entanto era tudo diferente. Os prédios pareciam ter encolhido e se am ontoado. Mesm o a am pla via do Meio, a grande artéria central de Adua, parecia horrivelm ente esm agada depois de ele ter visto os gigantescos espaços abertos do Antigo Im pério, as paisagens deslum brantes da arruinada Aulcus. O céu era m ais alto lá na grande planície. Ali tudo era reduzido e, para piorar as coisas, havia um cheiro desagradável que ele nunca notara. Foi andando de nariz franzido, desviando-se com aversão do fluxo de pedestres.
O m ais estranho de tudo eram as pessoas. Fazia m eses que Jezal não via m ais de dez de um a vez. Agora, do nada, havia m ilhares se com prim indo ao redor, todas concentradas nas próprias tarefas. Delicadas, de banho tom ado, usando cores espalhafatosas, tão absurdas para ele agora quanto artistas de circo. A m oda m udara enquanto ele estava longe, enfrentando a m orte no estéril ocidente do Mundo. Os chapéus eram usados num ângulo diferente, as m angas haviam ganhado um corte m ais am plo, as golas das cam isas tinham sido reduzidas a um ponto que seria considerado estranham ente pequeno um ano atrás. Jezal bufou. Parecia bizarro que esse tipo de absurdo o tivesse interessado algum dia, e ele viu um grupo de dândis perfum ados passar com expressão de desprezo com pleto.
O grupo foi dim inuindo à m edida que seguia pela cidade. Prim eiro Pé Com prido se despediu efusivam ente com m uitos apertos de m ãos, falas sobre honras e privilégios e prom essas de reencontro que Jezal suspeitou, e até m esm o esperou, que não fossem sinceras. Perto da grande praça do m ercado dos Quatro Cantos, Quai e seu silêncio carrancudo habitual foram despachados para cum prir algum a tarefa. Com isso restaram com o com panheiros apenas o Prim eiro dos Magos e Ferro, que seguia de um j eito desengonçado e raivoso atrás deles.
Para ser honesto, Jezal não teria se incom odado se o grupo dim inuísse m ais. Nove Dedos seria um com panheiro leal, m as o restante daquela fam ília disfuncional dificilm ente estaria entre os seus convidados para um j antar. Fazia m uito tem po que Jezal abandonara qualquer esperança de que a arm adura de carrancas de Ferro se rachasse, revelando um a alm a bondosa. Mas pelo m enos seu tem peram ento abism al era previsível. Bay az, no m ínim o, era um com panheiro m ais irritante ainda: um a m etade com posta de bom hum or de avô, a outra… quem sabia o que era? Sem pre que o velho abria a boca, Jezal se encolhia prevendo algum a surpresa desagradável.
Mas por ora ele conversava de m odo bastante am istoso:
– Posso perguntar quais são os seus planos agora, capitão Luthar?
– Bom , acho que serei enviado a Angland, para lutar contra os nórdicos.
– Im agino que sim . Mas nunca sabem os que reviravoltas o destino trará.
Jezal não gostou m uito disso.
– E o senhor? Vai voltar para…
Ele percebeu que não fazia a m ínim a ideia do lugar de onde o m ago viera.
– Ainda não. Perm anecerei em Adua por enquanto. Grandes acontecim entos se darão em breve, m eu rapaz, grandes acontecim entos. Talvez eu fique para ver com o se desenrolarão.
Um grito soou na calçada:
– Andando, vagabunda!
Três m em bros da guarda da cidade haviam se reunido em volta de um a garota de rosto suj o e vestido rasgado. Um deles estava inclinado com um porrete na m ão, gritando a centím etros do rosto da garota, que se encolhia. Um bando de pessoas de aparência infeliz havia se reunido para olhar. Eram principalm ente trabalhadores, pouco m ais lim pos do que a m endiga.
– Por que não deixam a m ulher em paz? – resm ungou um .
De porrete erguido, um dos guardas deu um passo de alerta na direção deles, enquanto seu am igo segurava a garota pelos om bros e chutava um copo que estava no chão, fazendo algum as m oedas rolar para o bueiro.
– Isso é um exagero – disse Jezal baixinho.
– Bem , esse tipo de coisa acontece o tem po todo – falou Bay az, olhando por cim a do nariz. – Nunca viu um m endigo ser tirado das ruas?
Jezal tinha visto, claro, m uitas vezes, e j am ais levantara um a sobrancelha. Não podiam sim plesm entes deixar os m endigos atulharem as ruas, afinal de contas. No entanto, por algum m otivo, presenciar aquilo agora o deixava desconfortável. A infeliz chutava e gritava, e o guarda a arrastou m ais um passo para trás, com violência desnecessária, claram ente se divertindo. Não era tanto o gesto que Jezal questionava, m as o fato de eles o realizarem na sua frente sem pensar em seus sentim entos. Isso o tornava cúm plice, de algum m odo.
– É um a desgraça – sibilou entre os dentes trincados.
Bay az deu de om bros.
– Se isso o incom oda tanto, por que não faz algum a coisa?
O guarda escolheu esse m om ento para levantar a garota pelos cabelos desgrenhados e lhe dar um a pancada forte com o porrete, e ela deu um grito e caiu, protegendo a cabeça com os braços. Jezal sentiu o rosto se contorcer. Num instante, j á havia passado no m eio da turba e dado no suj eito um chute sonoro nas costas que o lançou esparram ado na sarj eta. Um dos seus com panheiros surgiu com o porrete erguido, m as logo vacilou e recuou. Jezal percebeu que havia desem bainhado suas espadas e que as lâm inas polidas brilhavam na som bra ao lado do prédio.
A plateia ficou boquiaberta e deu uns passos para trás. Jezal piscou. Não tinha pretendido que a coisa chegasse tão longe. Maldito Bay az, com seu conselho idiota. Mas agora não havia o que fazer, a não ser ir em frente. Assum iu sua expressão m ais destem ida e arrogante.
– Mais um passo e eu espeto você, seu porco. – Em seguida olhou de um guarda para outro. – E então? Algum de vocês quer m e testar?
Ele esperava seriam ente que nenhum dos dois fizesse isso, m as não precisaria ficar preocupado. Estava claro que os dois se acovardariam diante da determ inação com que ele se opunha, então se m antiveram fora do alcance de suas espadas.
– Ninguém age assim com a guarda. Nós vam os atrás de você, pode contar com …
– Não vai ser difícil m e encontrar. Sou o capitão Luthar, do Próprio do Rei. Sou residente do Agriont. Não há com o errar. É a fortaleza que dom ina a cidade! – Ele apontou pela rua com a espada longa, fazendo um dos guardas tropeçar quando se afastava, com m edo. – Vou recebê-los quando quiserem e vocês podem explicar ao m eu m estre, o lorde m arechal Varuz, o com portam ento abom inável que dem onstraram com esta m ulher, um a cidadã da União que não é culpada de nenhum crim e a não ser o da pobreza!
Um discurso ridiculam ente pom poso, claro. Jezal se pegou quase ruborizado de em baraço pela últim a parte. Sem pre havia desprezado os pobres e não tinha nem um pouco de certeza se suas opiniões haviam m udado tanto, m as se em polgara no m eio daquilo tudo e não tinha opção além de term inar com requinte.
Mesm o assim , suas palavras tiveram efeito sobre os guardas da cidade. Os três recuaram e, por algum m otivo, sorriram com o se tudo tivesse acontecido exatam ente com o planej ado, deixando Jezal diante da aprovação indesej ada da m ultidão.
– Muito bem , rapaz!
– Que bom que alguém tem coragem .
– Qual é m esm o o nom e dele?
– Capitão Luthar! – rugiu Bay az, fazendo Jezal girar bruscam ente, em m eio ao m ovim ento de em bainhar as espadas. – Capitão Jezal dan Luthar, vencedor do últim o Cam peonato. Acaba de retornar de suas aventuras no ocidente! O nom e é Luthar!
– Luthar, foi o que ele disse?
– O que venceu o Cam peonato?
– É ele! Eu vi quando ele derrotou Gorst!
Toda a m ultidão estava com os olhos arregalados e ar respeitoso. Um hom em estendeu a m ão, com o se fosse tocar a barra de seu casaco, e Jezal deu um passo para trás e quase tropeçou na m endiga que fora a causa daquele fiasco.
– Obrigada – disse ela efusivam ente, num feio sotaque plebeu que ficava ainda pior na boca ensanguentada. – Ah, obrigada, senhor.
– Não foi nada.
Muito desconfortável, Jezal se afastou. De perto, dava para ver que a m ulher estava extrem am ente suj a, e ele não queria contrair um a doença. A atenção do grupo com o um todo, de fato, não era nem um pouco agradável. Ele foi arrastando os pés para trás enquanto as pessoas o olhavam , cheias de sorrisos e m urm úrios de adm iração.
Ferro franzia a testa para ele ao se afastarem dos Quatro Cantos.
– O que foi? – perguntou ele de um j eito ríspido.
Ela deu de om bros.
– Você não é tão covarde quanto antes.
– Obrigado por esse elogio épico. – Ele se virou para Bay az. – Que diabo foi aquilo?
– Aquilo foi você fazendo um ato de caridade, m eu rapaz, e fiquei orgulhoso ao ver. Parece que m inhas lições não foram de todo em vão.
– Eu perguntei – rosnou Jezal, que acreditava ter ganhado m enos do que nada com os serm ões constantes de Bay az – o que você fez, proclam ando m eu nom e para todo m undo? Agora essa história vai se espalhar por toda a cidade!
– Eu não havia pensado nisso. – O m ago deu um sorriso débil. – Só achei que você m erecia o crédito pelo ato de nobreza. Aj udar os desafortunados, aj udar um a dam a em dificuldades, proteger os fracos e assim por diante. Adm irável, de fato.
– Mas… – m urm urou Jezal, sem saber se estava sendo feito de bobo.
– Aqui nossos cam inhos se separam , j ovem am igo.
– Ah. É m esm o?
– Aonde você vai? – perguntou Ferro bruscam ente, cheia de suspeitas.
– Tenho algum as questões a tratar – disse o m ago –, e você vem com igo.
– Por que eu faria isso? – questionou Ferro, que parecia estar com um hum or ainda pior do que o norm al desde que haviam saído do cais, o que não era pouco.
Bay az revirou os olhos.
– Porque você não tem as habilidades sociais necessárias para ficar m ais de cinco m inutos sozinha num lugar destes. Por que outro m otivo? – respondeu ele, depois perguntou a Jezal: – Vai voltar ao Agriont, não é?
– Vou. Vou, claro.
– Bem , então gostaria de agradecer, capitão Luthar, pelo papel que representou nessa nossa pequena aventura.
“Com o ousa, seu m ago escroto? A coisa toda foi um desperdício colossal, doloroso e m utilante do m eu tem po, e um fracasso de cabo a rabo.” Mas o que Jezal realm ente disse foi:
– Claro, sim . – Em seguida segurou a m ão do velho, preparando-se para dar um aperto frouxo. – Foi um a honra.
O aperto de Bay az foi de um a firm eza surpreendente.
– É bom ouvir isso.
Jezal se viu ser puxado para perto do rosto do velho, olhando em seus olhos verdes e reluzentes num a proxim idade irritante.
– Talvez precisem os colaborar um com o outro de novo – falou o m ago.
Jezal piscou. Colaborar era um a escolha ruim de palavra.
– Bom , então… é… talvez eu… o vej a m ais tarde?
“Nunca m ais” seria preferível, em sua opinião.
Porém Bay az apenas riu ao soltar os dedos de Jezal, que form igavam .
– Ah, tenho certeza de que vam os nos encontrar de novo.
Um sol agradável brilhava por entre os galhos do cedro, lançando um a som bra m atizada no chão, com o antigam ente. Um a brisa suave soprava no pátio e os pássaros cantavam nas árvores, com o sem pre tinham feito. Os velhos prédios do quartel não haviam m udado, esprem idos, cobertos com a hera que farfalhava em todos os cantos do pátio estreito. Mas as sem elhanças com as recordações alegres de Jezal term inavam aí. Um a fina cam ada de m usgo havia se esgueirado pelos pés das cadeiras, a superfície da m esa adquirira um a grossa crosta de cocô de pássaros, a gram a não era cortada fazia sem anas e os pendões com sem entes batiam em seus tornozelos enquanto Jezal passava.
Os próprios j ogadores haviam partido fazia m uito tem po. Ele ficou olhando as som bras que se m oviam na m adeira cinzenta. Lem brava-se do som dos risos, do gosto da fum aça e das bebidas fortes, da sensação das cartas na m ão. Ali Jalenhorm havia sentado, bancando o forte e durão. Ali Kaspa rira de piadas feitas às suas custas. Ali West havia se recostado e balançado a cabeça, desaprovando algo, porém resignado. Ali Brint em baralhara nervoso sua m ão de cartas, esperando por ganhos que nunca vinham .
E ali fora o lugar de Jezal. Ele arrastou a cadeira da gram a que parecia agarrá-la, sentou-se com o solado de um a das botas na m esa e a inclinou sobre as pernas de trás. Parecia difícil acreditar que havia se sentado ali, observando e tram ando, pensando na m elhor form a de dim inuir os am igos. Disse a si m esm o que agora era um hom em que j am ais teria participado de um a bobagem tão grande. Ou, pelo m enos, que não ficaria para m ais do que um as duas partidas.
Se havia pensado que tom ar um bom banho, barbear-se com cuidado, arrancar pelos das sobrancelhas e aj eitar o cabelo iriam fazer com que se sentisse em casa, ficou desapontado. As rotinas fam iliares o deixaram sentindo-se um estranho em m eio à poeira dos próprios aposentos. Era difícil se em polgar com o lustro das botas e dos botões ou com a disposição da trança de ouro.
Quando por fim parou diante do espelho, onde m uito tem po antes havia se dem orado horas deliciadas, achou o reflexo decididam ente irritante. Um aventureiro m agro e de pele m altratada pelo clim a espiava com olhos brilhantes do espelho trazido de Visserine, a barba cor de areia fazendo pouco para disfarçar a feia cicatriz que descia pelo m axilar torto. Todos os antigos uniform es eram apertados dem ais, engom ados a ponto de coçar, sufocavam no colarinho. Já não sentia que pertencesse a eles. Não se sentia um soldado.
Nem sabia direito a quem se apresentar, depois de tanto tem po longe. Praticam ente todos os oficiais que conhecia estavam com o exército em Angland. Supôs que poderia procurar o lorde m arechal Varuz se realm ente quisesse, m as o fato é que havia aprendido o suficiente sobre o perigo para não querer correr na direção dele. Cum priria com seu dever se fosse necessário. Mas prim eiro o dever precisaria encontrá-lo.
Enquanto isso, tinha outras coisas a fazer. Só de pensar nisso, ficou ao m esm o tem po aterrorizado e em polgado. Enfiou um dedo no colarinho e o puxou, num esforço para aliviar a pressão na garganta. Não adiantou. Por outro lado, com o Logen Nove Dedos gostava tanto de dizer: era m elhor fazer um a coisa do que viver com m edo de fazê-la. Pegou a espada de gala, m as depois de um m inuto olhando os relevos absurdos em latão no cabo, j ogou-a no chão e chutou-a para baixo da cam a. Aparente ser m enos do que você é, diria Logen. Pegou a espada longa, gasta pela viagem , enfiou-a pela presilha no cinto, respirou fundo e seguiu para a porta.
Não havia nada de intim idante na rua. Era um a parte calm a da cidade, longe do burburinho do com ércio e do barulho das oficinas. Na rua seguinte um am olador de facas proclam ava seu ofício a plenos pulm ões. Sob os beirais das casas m odestas, um pom bo arrulhava m eio desanim ado. Em algum lugar próxim o, o som de cascos e de rodas de carruagens aum entava e dim inuía. Afora isso, tudo estava silencioso.
Já havia passado pela casa um a vez em cada direção. Não ousava fazer isso de novo por m edo de que Ardee o visse por um a j anela, o reconhecesse e se perguntasse o que diabo ele estava fazendo. Por isso ficou percorrendo a parte de cim a da rua, ensaiando o que dizer quando ela aparecesse à porta.
“Voltei.” Não, não: presunçoso dem ais. “Olá, com o vai?” Não: casual dem ais. “Sou eu, Luthar.” Rígido dem ais. “Ardee… senti saudades.” Carente dem ais.
Viu um hom em franzindo a testa para ele num a j anela de um andar alto, então tossiu e foi rapidam ente na direção da casa, m urm urando para si m esm o sem parar:
– É m elhor fazer logo, é m elhor fazer logo, é m elhor fazer logo…
Seu punho bateu na m adeira. Ficou parado e esperou, com o coração m artelando nos dentes. A fechadura estalou e Jezal preparou seu sorriso m ais agradável. A porta se abriu a um a garota baixa, de rosto redondo e m uito pouco atraente o encarou. Mas, por m ais que as coisas tivessem m udado, não podia haver dúvida de que ela não era Ardee.
– Sim …?
– É…
Era um a em pregada. Com o ele poderia ser idiota a ponto de achar que Ardee abriria a porta? Ela era um a plebeia, não um a m endiga. Pigarreou.
– Eu retornei… Quero dizer… Ardee West m ora aqui?
– Mora. – A em pregada abriu a porta o suficiente para Jezal entrar na penum bra do corredor. – Quem devo anunciar?
– O capitão Luthar.
A cabeça dela se virou bruscam ente, com o se estivesse presa por um fio invisível que recebera um puxão.
– Capitão… Jezal dan Luthar?
– É – m urm urou ele, perplexo. Será que Ardee teria falado dele com a em pregada?
– Ah… ah, se o senhor esperar…
A em pregada apontou para um a porta e se afastou às pressas, os olhos arregalados com o se o im perador de Gurkhul tivesse aparecido para um a visita.
A sala de estar, m al ilum inada, dava a im pressão de ter sido decorada por alguém com dinheiro de m ais e gosto de m enos e não era nem um pouco espaçosa para as am bições de quem fizera aquilo. Havia várias poltronas espalhafatosas e fofas, um arm ário excessivam ente grande e enfeitado e, num a parede, um a tela m onum ental que, se fosse m aior, teria exigido que o aposento invadisse a casa vizinha. Dois fachos de luz poeirenta entravam pelas aberturas nas cortinas, reluzindo na superfície m uito polida, ainda que ligeiram ente instável, de um a m esa antiga. Cada peça poderia ser aceitável sozinha, m as apinhadas criavam um efeito sufocante. Porém , disse a si m esm o, franzindo a testa para tudo aquilo, viera por causa de Ardee, não dos m óveis.
Era ridículo. Seus j oelhos estavam fracos, a boca seca, a cabeça girava e só ficava pior a cada instante. Não se sentira tão apavorado em Aulcus, com um a m ultidão de shankas guinchando e partindo para cim a dele. Percorreu a sala, nervoso, cerrando e abrindo os punhos. Espiou a rua silenciosa. Inclinou-se por cim a de um a poltrona para exam inar a pintura enorm e. Um rei m usculoso estava relaxado, com um a coroa grande dem ais, enquanto nobres em roupas com acabam entos em pele faziam reverências a seus pés. Harod, o Grande, supôs Jezal, m as reconhecê-lo lhe deu pouca alegria. O assunto predileto e m ais cansativo de Bay az tinha sido os feitos daquele hom em . Para Jezal, Harod, o Grande, podia m uito bem virar conserva em vinagre. Harod, o Grande, poderia ir para…
– Ora, ora, ora…
Ela estava j unto à porta, com a luz forte do corredor atrás reluzindo no cabelo escuro e nas bordas do vestido branco, a cabeça inclinada de lado e um a levíssim a sugestão de sorriso no rosto som breado. Não parecia ter m udado nem um pouco. Muitas vezes na vida, os m om entos m ais esperados acabam se tornando grandes decepções. Ver Ardee de novo, depois de todo o tem po que passaram longe, foi um a exceção. Toda a conversa preparada com cuidado se evaporou naquele instante, deixando-o com a cabeça tão vazia quanto na prim eira vez que pusera os olhos nela.
– Então você está vivo – m urm urou ela.
– É… é… por pouco. – Ele conseguiu dar um sorriso sem j eito. – Achou que eu tinha m orrido?
– Tive esperanças de que tivesse. – Isso apagou o sorriso no rosto dele de im ediato. – Quando não recebi ao m enos um a carta. Mas na verdade achei que tinha apenas se esquecido de m im .
Jezal se encolheu.
– Sinto m uito não ter escrito. Muito m esm o. Eu queria…
Ela fechou a porta e se encostou nela, com as m ãos às costas, o tem po todo franzindo a testa para ele.
– Não houve um dia em que eu não quisesse. Mas fui convocado e não tive chance de contar a ninguém , nem à m inha fam ília. Eu estava… estava longe, no ocidente.
– Eu sei. O burburinho está pela cidade inteira e, se a notícia chegou a m im , todo m undo j á deve saber m esm o.
– A notícia chegou…?
Ardee virou a cabeça na direção do corredor.
– Fiquei sabendo pela em pregada.
– Pela em pregada?
Com o diabo alguém em Adua poderia ter ouvido algo sobre suas desventuras, quanto m ais a em pregada de Ardee West? Jezal foi assaltado por im agens súbitas e desagradáveis. Multidões de serviçais rindo ao pensar nele caído e chorando por causa do rosto quebrado. Todas as pessoas im portantes fofocando sobre com o ele deveria ter parecido idiota ao ser alim entado com um a colher por um brutam ontes nórdico. Sentiu-se ruborizado até as pontas das orelhas.
– O que ela disse?
– Ah, você sabe. – Ardee andou distraidam ente pela sala. – Que você escalou as m uralhas no cerco de Darm ium , não foi? Abriu os portões para os hom ens do im perador, coisa e tal.
– O quê? – Ele ficou m ais pasm o do que antes. – Darm ium ? Quero dizer… Quem falou isso a ela…
Ardee chegou m ais perto, e m ais perto, e ele ficou m ais e m ais sem graça até que, gaguej ando, decidiu parar de vez de falar. Mais perto ainda, e ela estava olhando ligeiram ente para cim a, com os lábios afastados. Tão perto que ele achou que ela iria pegá-lo nos braços e beij á-lo. Tão perto que ele se inclinou ligeiram ente, na expectativa, os olhos entreabertos, os lábios form igando… Então ela passou por ele, o cabelo quase batendo em seu rosto, foi até o arm ário, abriu a porta e pegou um a garrafa. Deixou-o para trás, abandonado no tapete.
Num silêncio atarantado, ele a observou encher duas taças e estender um a, o vinho balançando e escorrendo pela lateral.
– Você está diferente.
Jezal sentiu um j orro súbito de vergonha e, por instinto, sua m ão subiu para cobrir a cicatriz no m axilar.
– Não estou falando disso. Pelo m enos não só disso. Tudo. Você m udou, de algum a form a.
– Eu…
O efeito que ela provocava era, no m ínim o, m ais forte do que antes. Antigam ente não havia todo o peso da expectativa, todos os longos devaneios e a ansiedade sentida no erm o.
– Senti saudade. – Ele falou sem pensar, depois se pegou ruborizando e precisou tentar um a m udança de assunto: – Tem notícias do seu irm ão?
– Ele escreve toda sem ana. – Ela inclinou a cabeça para trás e esvaziou a taça, então a encheu de novo. – Pelo m enos desde que descobri que ele estava vivo.
– O quê?
– Passei m ais de um m ês acreditando que ele havia m orrido. Ele conseguiu sair vivo da batalha.
– Houve um a batalha? – guinchou Jezal, logo antes de lem brar que um a guerra estava em curso. Claro que houvera batalhas. Voltou a controlar a voz. – Que batalha?
– Aquela em que o príncipe Ladisla m orreu.
– Ladisla m orreu?! – exclam ou ele, a voz saindo fina com o a de um a m ulher.
Nas poucas vezes que vira o príncipe herdeiro, o suj eito parecera tão absorto em si m esm o a ponto de parecer indestrutível. Era difícil acreditar que ele poderia sim plesm ente ser golpeado com um a espada, ou atingido por um a flecha, e m orrer, com o qualquer outra pessoa, m as ali estava.
– E depois o irm ão dele foi assassinado…
– Ray nault? Assassinado?
– Na própria cam a, no palácio. Quando o rei m orrer, vão escolher outro por eleição no Conselho Aberto.
– Um a eleição? – Sua voz saiu tão aguda que ele quase sentiu um a náusea no fundo da garganta.
Ardee j á enchia a própria taça outra vez.
– O em issário de Uthm an foi enforcado pelo assassinato dele, apesar de provavelm ente ser inocente, e assim a guerra com Gurkhul está se arrastando…
– Estam os em guerra com os gurkenses tam bém ?
– Perdem os Dagoska no início do ano.
– Dagoska… perdida.
Jezal esvaziou a taça num gole dem orado e olhou para o tapete, tentando encaixar tudo aquilo na cabeça. Não deveria estar surpreso, claro, porque as coisas seguiram seu curso enquanto ele estava longe, m as não tinha esperado que o m undo virasse de cabeça para baixo. Guerra com os gurkenses, batalhas no Norte, um a eleição para escolher um novo rei?
– Precisa de m ais? – perguntou Ardee, inclinando a garrafa.
– Acho m elhor.
Grandes acontecim entos, claro, com o Bay az dissera. Olhou-a servir o vinho, franzindo a testa intensam ente, quase com raiva, enquanto a bebida gorgolej ava. Viu um a pequena cicatriz que nunca havia notado no lábio superior dela e sentiu um a com pulsão súbita de tocá-la, e de enfiar os dedos em seu cabelo, e apertá-la contra seu corpo. Grandes acontecim entos, m as tudo parecia ter pouca im portância com parado ao que acontecia agora, naquela sala. Quem sabia? O rum o da sua vida poderia m udar nos próxim os instantes, se ele encontrasse as palavras certas e se obrigasse a dizê-las.
– Senti m esm o saudade de você – conseguiu dizer.
Um a declaração sofrida que ela dispensou com um a fungadela am arga.
– Não sej a idiota.
Ele segurou a m ão dela, obrigando-a a encará-lo.
– Fui idiota a vida inteira. Não agora. Houve ocasiões, lá na planície, em que a única coisa que m e m antinha vivo era pensar que… que eu poderia estar com você de novo. Todo dia eu queria vê-la…
Ela não fez nada além de franzir a testa, absolutam ente inabalável. O fato de Ardee não se derreter em seus braços era m uito frustrante, depois de tudo por que ele havia passado.
– Ardee, por favor, eu não vim aqui para discutir.
Ela fez um a careta para o chão enquanto bebia m ais um a taça.
– Não sei por que você veio.
“Porque eu a am o e nunca m ais quero m e separar de você! Por favor, diga que será m inha esposa!” Quase falou isso, m as no últim o instante viu o riso de escárnio dela e se conteve. Tinha esquecido com o ela podia ser difícil.
– Vim aqui para m e desculpar. Eu frustrei você, sei disso. Vim assim que pude, m as vej o que você não está no clim a. Volto depois.
Passou por ela e foi em direção à porta, m as Ardee chegou prim eiro, virou a chave na fechadura e tirou-a.
– Você m e deixa sozinha aqui, sem ao m enos um a carta, e quando volta quer ir em bora sem nem um beij o?
Ela deu um passo brusco em sua direção e Jezal se flagrou recuando.
– Ardee, você está bêbada.
Ela balançou a cabeça, irritada.
– Estou sem pre bêbada. Não disse que sentiu saudade de m im ?
– Mas – m urm urou ele, com eçando a se sentir m eio assustado por algum m otivo. – Eu pensei…
– Esse é o seu problem a, está vendo? Pensar. Você não é bom nisso.
Ela o encurralou contra a borda da m esa e ele em bolou a espada nas pernas de tal m odo que precisou usar a m ão para se apoiar e não cair.
– Eu não fiquei esperando? – sussurrou Ardee, e a respiração dela em seu rosto estava quente e agridoce de vinho. – Com o você pediu?
Sua boca roçou devagar na dele, a ponta da língua bateu em seus lábios e ela em itiu sons suaves e gorgolej antes, encostando-se nele. Jezal sentiu a m ão dela descer até sua virilha, alisando gentilm ente através da calça.
A sensação foi agradável, claro, e provocou um enrij ecim ento instantâneo. Extrem am ente agradável, porém m ais do que um pouco preocupante. Ele olhou nervoso para a porta.
– E os em pregados? – grasnou.
– Se eles não gostarem , podem procurar outra porra de trabalho, não é? Não foram ideia m inha.
– Então de quem … ah!
Ela torceu os dedos em seu cabelo e girou sua cabeça dolorosam ente de m odo a falar direto em seu rosto.
– Esqueça-se deles! Foi por m inha causa que você veio, não foi?
– Foi… é claro!
– Então diga!
A m ão dela se com prim iu com força contra sua calça, quase fazendo-o sentir dor, m as não exatam ente.
– Ah… eu vim por sua causa.
– E então? Aqui estou.
Os dedos dela seguraram seu cinto e o abriram .
– Agora não precisa ficar tím ido.
Ele tentou segurar o pulso dela.
– Ardee, espere…
A outra m ão dela lhe deu um tapa ardido que fez seu ouvido zum bir e sua cabeça virar de lado.
– Fiquei aqui sentada durante seis m eses sem fazer nada! – sibilou ela em seu rosto, as palavras m eio engroladas. – Você sabe com o fiquei m orrendo de tédio? E agora está dizendo para eu esperar? Foda-se!
Ela enfiou a m ão rudem ente em sua calça e puxou o pau para fora, esfregando-o com um a das m ãos, apertando o rosto dele com a outra, enquanto Jezal fechava os olhos e ofegava na boca de Ardee, sem ter nada na m ente além dos dedos dela.
Os dentes de Ardee m ordiscaram seu lábio quase dolorosam ente, e depois com m ais força.
– Ah! – grunhiu ele. – Ah!
Sem dúvida ela o estava m ordendo. Com vontade, com o se seu lábio fosse um pedaço de cartilagem que devesse ser m astigado. Ele tentou se afastar, m as a m esa estava às suas costas e ela acelerara o m ovim ento. A dor era quase tão grande quanto a surpresa, e então, enquanto as m ordidas continuavam , ficou consideravelm ente m ais forte.
– Aarg!
Ele agarrou o pulso de Ardee com um a das m ãos e o torceu às costas dela, puxou seu braço e a em purrou sobre a m esa. Ouviu-a ofegar quando o rosto bateu com força na m adeira polida.
Ficou parado acim a dela, im obilizado de consternação, o gosto salgado de sangue na boca. Por cim a do om bro retorcido, podia ver o olho escuro e sem expressão de Ardee observando-o através do cabelo em aranhado. O cabelo se m ovia em volta da boca enquanto ela ofegava rápido. Ele soltou seu pulso e viu o braço dela se m over, as m arcas de seus dedos deixadas em um tom rosa furioso na pele. A m ão dela deslizou para baixo, segurou um a parte do vestido e a puxou para cim a. Pegou outra parte e puxou de novo, até que as saias estivessem totalm ente em boladas em volta da cintura e sua bunda, nua e pálida, ficasse proj etada para ele.
Bom , ele podia ser um novo hom em , m as ainda era hom em .
A cada estocada, a cabeça de Ardee batia no tam po da m esa e a pele de Jezal raspava na parte de trás da coxa dela, e as calças dele foram descendo cada vez m ais pelas pernas até que o punho da espada roçava o tapete. A cada estocada, a m esa rangia de m odo ultraj ante, cada vez m ais alto, com o se eles estivessem trepando nas costas de algum velho que desaprovasse. A cada estocada, ela soltava um grunhido e ele ofegava, não de prazer nem de dor, m as era um m ovim ento necessário do ar naquele exercício vigoroso. Tudo acabou com m isericordiosa rapidez.
Muitas vezes na vida, os m om entos m ais esperados acabam se tornando grandes decepções. Essa, sem dúvida, foi um a ocasião assim . Todas aquelas horas interm ináveis que ele passara na planície, com feridas provocadas pela sela e m edo de perder a vida, sonhando em ver Ardee outra vez… Um a cópula rápida e violenta sobre a m esa na sala de estar deselegante não era bem o que ele tivera em m ente. Quando term inaram , ele enfiou o pau m eio m urcho de volta na calça, cheio de culpa e de vergonha e extrem am ente arrasado. O som da fivela estalando lhe deu vontade de bater o rosto contra a parede.
Ela se levantou e deixou as saias baixarem , depois as alisou com o rosto virado para o chão. Jezal estendeu a m ão para seu om bro.
– Ardee…
Ela se soltou com raiva e se afastou. Jogou algo no chão atrás, que retiniu ao cair no tapete. Era a chave da porta.
– Pode ir!
– Posso o quê?
– Ir! Você conseguiu o que queria, não foi?
Ele lam beu o lábio ensanguentado, incrédulo.
– Você acha que era isso que eu queria?
Não houve nada em resposta além de silêncio.
– Eu am o você – falou ele.
Ela deu um a espécie de tosse, com o se fosse vom itar, e balançou lentam ente a cabeça.
– Por quê?
Ele não tinha certeza do m otivo. Já não tinha certeza de suas intenções ou do que sentia. Queria recom eçar, m as não sabia de que form a. A coisa toda era um pesadelo inexplicável do qual ele esperava acordar em breve.
– Com o assim , por quê?
Ela se curvou com os punhos fechados e gritou para ele:
– Eu não sou nada, porra! Todo m undo que m e conhece m e odeia! Meu próprio pai m e odiava! Meu próprio irm ão! – Sua voz falhou e seu rosto se franziu, e a boca cuspiu com raiva e sofrim ento: – Eu arruíno tudo o que toco! Não passo de um a m erda! Por que você não vê isso?
E ela cobriu o rosto com as m ãos e se virou de costas, com os om bros sacudindo.
Jezal piscou. Seus lábios trem iam . O antigo Jezal dan Luthar na certa teria pegado aquela chave, corrido da sala e partido pela rua para nunca m ais voltar. E se consideraria com sorte por ter se livrado tão facilm ente. O novo Jezal pensou em fazer o m esm o. Pensou bastante. Mas tinha m ais caráter do que isso. Ou, pelo m enos, foi o que disse a si m esm o.
– Eu am o você.
As palavras tinham gosto de m entira em sua boca ensanguentada, m as ele fora longe dem ais para recuar.
– Eu am o você.
Cruzou a sala para encontrá-la e, apesar de ela tentar em purrá-lo, a envolveu com os braços.
– Nada m udou.
Ele enfiou os dedos no cabelo dela e segurou-a contra o peito enquanto ela chorava baixinho, soluçando e fazendo o ranho escorrer pela frente de seu uniform e espalhafatoso.
– Nada m udou – sussurrou ele.
Mas, claro, havia m udado.