O duelo dos reis
Caminhos sombrios
JEZAL PASSOU ÀS pressas pelo arco alto e entrou nos j ardins do palácio, com os cavaleiros em volta. Era incrível que o j uiz suprem o Marovia tivesse conseguido acom panhar seus passos durante a corrida através do Agriont, m as o velho nem parecia cansado.
– Lacrem os portões! – gritou. – Os portões!
A enorm e porta dupla foi fechada e duas traves grossas com o m astros de navio giraram para se posicionar atrás. Jezal se perm itiu respirar um pouco m ais tranquilam ente. O peso daqueles portões, o tam anho e a largura da m uralha do palácio, o grupo considerável de hom ens bem treinados e com arm aduras que a defendiam , tudo isso dava um a sensação tranquilizadora.
Marovia pôs a m ão gentilm ente no om bro de Jezal e com eçou a guiá-lo para o cam inho calçado de pedras em direção à porta m ais próxim a do palácio.
– Devem os encontrar o local m ais seguro possível, Maj es…
Jezal o em purrou.
– Quer m e trancar no m eu quarto? Ou devo m e esconder no porão? Vou ficar aqui e coordenar a defesa do…
Um grito longo, de gelar o sangue, veio do outro lado da m uralha e ecoou nos j ardins vazios. Foi com o se aquele som fizesse um buraco em Jezal, através do qual toda a confiança escorreu num instante. O portão sacudiu de leve contra as traves poderosas e a ideia de se esconder no porão ganhou espantoso apelo.
– Form ação! – gritou a voz esganiçada de Gorst. – Protej am o rei!
Um a parede de hom ens com arm aduras pesadas se form ou de im ediato ao redor de Jezal, espadas desem bainhadas, escudos erguidos. Outros se aj oelharam na frente, tirando setas de alj avas, girando as m anivelas das bestas pesadas. Todos os olhos estavam voltados para a enorm e porta dupla. Ela sacudiu de novo de form a suave e oscilou ligeiram ente.
– Ali em baixo! – gritou alguém de cim a da m uralha. – Em ba…
Ouviu-se um berro agudo e um hom em com arm adura m ergulhou das am eias, chocando-se contra a terra. Seu corpo trem eu e depois ficou frouxo.
– Com o… – m urm urou alguém .
Um a figura branca m ergulhou da m uralha, deu um gracioso salto m ortal no ar e bateu no cam inho à frente deles. Levantou-se. Era um hom em de pele m orena. Usava um a arm adura em branco e ouro e tinha o rosto liso com o o de um m enino. Num a das m ãos segurava um a lança de m adeira escura com um a lâm ina com prida e curva. Jezal o encarou e ele olhou de volta, inexpressivo. Havia algo naqueles olhos negros, ou m elhor, faltava algo neles. Jezal sabia que aquilo não era um hom em . Era um com edor. Um violador da Segunda Lei. Um dos Cem Palavras de Khalul. Parecia, de m odo inj usto, que a rixa deles passara a incluir Jezal. O com edor levantou um a das m ãos, com o se abençoasse.
– Que Deus nos adm ita a todos no céu.
– Disparar! – guinchou Gorst.
As bestas trem eram e estalaram . Duas setas resvalaram na arm adura do com edor, outras duas se cravaram em sua carne, um a em baixo do peitoral e outra no om bro. Um a seta atravessou direto o rosto, com as penas proj etando-se logo abaixo do olho. Qualquer hom em teria caído m orto diante deles. O com edor deu um salto à frente com velocidade espantosa.
Um dos cavaleiros levantou sua besta num a tentativa débil de se defender. A lança dividiu-a em duas e o cortou ao m eio na altura da barriga, cravou-se em outro hom em com um clangor ecoante e o lançou rolando pelo ar até bater num a árvore a dez passos de distância. Fragm entos de arm adura serrilhada e lascas de m adeira voaram . O prim eiro cavaleiro soltou um assobio estranho quando sua m etade superior caiu no chão, cobrindo seus colegas perplexos com um a chuva de sangue.
Jezal foi em purrado para trás e não pôde ver nada além de lam pej os de m ovim ento entre os guarda-costas. Ouviu gritos e gem idos, m etal chocando-se, viu espadas brilhando, j atos de sangue espirrando. Um corpo com arm adura voou no ar, frouxo com o um a boneca de pano, e chocou-se num a parede do outro lado do j ardim .
Os corpos se m overam . O com edor foi cercado e girava a lança em círculos ofuscantes. Um giro cortou o om bro de um hom em e o derrubou no chão aos berros. O cabo se partiu com a força do golpe e a lâm ina girou e bateu com o gum e no chão. O cavaleiro atacou por trás e furou as costas do com edor, a ponta brilhante de sua alabarda deslizando sem sangue através do peito da arm adura branca. Outro cavaleiro decepou seu braço com um m achado. Poeira choveu do cotoco que restou. O com edor guinchou e o acertou no peito com um golpe das costas da m ão que esm agou seu peitoral e o lançou sem fôlego por terra.
Um a espada cortou a arm adura branca com um guincho alto, fazendo poeira j orrar para cim a com o de um tapete batido. Jezal olhou atordoado o com edor se virar em sua direção. Gorst o em purrou para fora do cam inho, rosnando enquanto girava sua espada longa para cravá-la fundo no pescoço do com edor com um a pancada m etálica. A criatura balançou os braços, em silêncio, a cabeça pendendo por um a tira de cartilagem , poeira m arrom j orrando dos ferim entos enorm es. Ela agarrou Gorst com a m ão que restava e ele cam baleou, o rosto retorcido de dor, e foi tom bando de j oelhos à m edida que ela torcia seu braço.
– Olha aqui o céu, seu desgraçado!
A espada de Jezal atravessou o últim o pedaço de pescoço e a cabeça do com edor caiu na gram a. A criatura soltou Gorst, que apertou o antebraço ferido, com o form ato da m ão do com edor gravado fundo em sua arm adura grossa. O corpo sem cabeça tom bou devagar.
– Coisa m aldita!
Jezal avançou um passo, chutou a cabeça da criatura pelo j ardim e viu-a rolar para um canteiro de flores, deixando um a trilha de poeira pela gram a. Três hom ens pararam j unto do corpo, a respiração pesada ecoando dentro dos elm os, as espadas brilhando ao sol enquanto o despedaçavam . Os dedos do com edor continuavam a se m exer.
– Eles são feitos de poeira – sussurrou alguém .
Marovia franziu os olhos para os restos.
– Alguns são. Alguns sangram . Cada um é diferente. É m elhor entrarm os no palácio! – gritou, andando apressado pelo j ardim . – Haverá m ais deles!
– Mais?
Doze cavaleiros do Grupo estavam m ortos. Jezal engoliu em seco contando os cadáveres despedaçados e cobertos de sangue, am assados e espancados. Os m elhores hom ens que a União tinha a oferecer, espalhados no j ardim do palácio com o m ontes de ferro-velho em m eio às folhas m arrons.
– Mais? Mas com o é que nós…?
O portão estrem eceu. A cabeça de Jezal voltou-se de súbito na direção dele, a coragem cega da luta sum indo de im ediato e o pânico doentio j orrando em seu lugar.
– Por aqui! – rugiu Marovia, segurando um a porta aberta e cham ando-o em desespero.
Pelo j eito, não havia outras opções. Jezal correu para ele, m as, depois de três passos, um a de suas botas douradas tropeçou na outra e ele caiu dolorosam ente esparram ado de cara. Houve um estalo, um som de algo sendo rasgado, um guincho de m adeira e m etal atrás. Ele virou de costas e se arrastou quando viu o portão se partir num a nuvem de m adeira. Tábuas quebradas giravam pelo ar, pregos tortos caíam tilintando nos cam inhos, lascas pousavam no gram ado.
Um a m ulher surgiu com expressão presunçosa na passagem aberta, com o ar ainda trem eluzindo suavem ente ao redor de seu corpo alto e esguio. Era pálida, com cabelo com prido dourado. Outra a acom panhava, exatam ente igual, só que seu lado esquerdo estava suj o, da cabeça aos pés, de sangue. Duas m ulheres, sorrisos felizes nos rostos lindos, perfeitos, idênticos. Um a delas deu um tapa na cabeça de um cavaleiro arauto quando ele tentou atacá-la. O golpe arrancou o elm o alado do crânio partido e o fez sair voando.
A outra virou os olhos negros e vazios para Jezal. Ele lutou para se levantar e correu, chiando de m edo, deslizou pela porta ao lado de Marovia e entrou no corredor som brio ladeado por arm as e arm aduras antigas. Gorst e alguns cavaleiros do Grupo passaram aos tropeços atrás dele.
No j ardim , a batalha desigual continuava. Um hom em levantou um a besta e explodiu num a chuva de sangue. Um cadáver com arm adura se chocou contra um cavaleiro no instante que ele se virava para correr e lançou-o através de um a j anela, com a espada voando da m ão. Outro hom em correu para cim a delas girando as arm as e tom bou a poucos passos de distância, debatendo-se no chão com cham as brotando das j untas da arm adura.
– Socorro! – uivou alguém . – Socorro! So…
Gorst fechou a porta pesada com o braço bom e um dos seus colegas baixou a trave grossa nos suportes. Arrancaram antigas alabardas da parede, um a com um a velha bandeira de batalha presa, e as usaram para firm ar a porta.
Jezal j á se afastava, o suor frio escorrendo na pele em baixo da arm adura, apertando com força o cabo da espada m ais para se tranquilizar do que para se defender. Seu séquito drasticam ente reduzido recuava cam baleante na direção dele: Gorst, Marovia e apenas cinco outros, ofegantes e horrorizados, com a respiração ecoando no corredor escuro, todos olhando para a porta.
– O últim o portão não os segurou – sussurrou Jezal. – Por que este seguraria?
Ninguém respondeu.
– Fiquem firm es, cavalheiros – disse Glokta. – A porta, por favor.
O m ercenário gordo bateu com o m achado na porta da frente da Universidade. Lascas voaram . Ela balançou com o prim eiro golpe, estrem eceu com o segundo e se escancarou com o terceiro. O anão caolho entrou com um a faca em cada m ão, seguido de perto por Cosca com a espada desem bainhada.
– Cam inho lim po – disse ele em seu sotaque estiriano. – Ainda que m ofado.
– Excelente. – Glokta olhou para Ardee. – Talvez fosse m elhor se você ficasse atrás.
Ela assentiu, exausta.
– Eu estava pensando a m esm a coisa.
Ele passou m ancando dolorosam ente, com os m ercenários vestidos de preto j orrando pela porta atrás dele, o últim o arrastando um Goy le relutante pelos pulsos cobertos com bandagens. Pelo mesmo caminho que usei na primeira vez que visitei este monte de poeira, tantos meses atrás. Antes da eleição. Antes mesmo de Dagoska. Como é adorável retornar…
Seguiram pelo corredor escuro, passando pelos retratos suj os de adeptos esquecidos. As tábuas torturadas do piso gem iam sob as botas dos m ercenários. Glokta saiu no am plo salão de j antar.
O show de aberrações que eram os práticos com andados por Vitari se espalhava na câm ara na penum bra exatam ente com o quando ele fizera sua últim a visita. Os dois hom ens idênticos, de Sulj uk, com suas espadas curvas. O alto e m agro, o escuro com os m achados, o enorm e nórdico com rosto arruinado. E assim por diante. Uns bons vinte, no total. Será que ficaram sentados aqui todo esse tempo, simplesmente parecendo ameaçadores uns para os outros?
Vitari j á havia se levantado de sua cadeira.
– Achei que tinha dito para você ficar longe daqui, aleij ado.
– Eu tentei, tentei m esm o, m as não consegui afastar da lem brança esse seu sorriso.
– Ora, ora, Shy lo! – disse Cosca vindo do corredor, torcendo as pontas enceradas do bigode com um a das m ãos, a espada na outra.
– Cosca! Você não m orre nunca? – falou Vitari, deixando suas lâm inas em form a de cruz pender na ponta da corrente até bater nas tábuas do chão. – Parece que hoj e é o dia dos hom ens que eu esperava nunca m ais ver.
Seus práticos se espalharam ao redor dela, espadas deslizando para fora de bainhas, m achados, m aças, lanças sendo preparados. Os m ercenários entraram no salão com as arm as em punho. Glokta pigarreou.
– Acho que seria m elhor para todos se nós pudéssem os discutir isso de m odo civilizado…
– Está vendo alguém civilizado aqui? – rosnou Vitari.
Bom argumento. Um prático saltou sobre a m esa, fazendo os pratos e talheres pularem . O m ercenário m aneta brandiu seu gancho. Os dois grupos bem arm ados foram se aproxim ando devagar. Parecia que Cosca e seus contratados iriam se esforçar para m erecer o pagam ento. Acho que vai ser um alegre banho de sangue, e o resultado de um banho de sangue é notoriamente difícil de prever. No todo, eu preferiria não apostar.
– Um a pena o que aconteceu com seus filhos! Um a pena não ter havido ninguém civilizado por perto!
As sobrancelhas laranj a de Vitari se j untaram furiosam ente.
– Eles estão longe!
– Ah, infelizm ente não. Duas m eninas e um m enino? Cabelos lindos, flam ej antes e ruivos, com o os da m ãe? – Por qual porta da cidade eles passariam? Os gurkenses vieram do oeste, portanto… – Eles foram detidos no portão leste e aprisionados – m entiu Glokta, depois esticou o lábio inferior. – Custódia protetora. São tem pos perigosos para que as crianças fiquem andando pelas ruas, sabe?
Mesm o com a m áscara, Glokta pôde ver o horror dela.
– Quando?
Quando uma mãe amorosa mandaria seus filhos para a segurança?
– Ora, no m esm o dia que os gurkenses chegaram , claro.
O m odo com o os olhos dela se arregalaram confirm ou que ele acertara. Agora, para torcer a faca.
– Mas não se preocupe, eles estão em segurança. O prático Severard está bancando a babá. Mas se eu não voltar…
– Você não iria m achucá-los.
– O que está acontecendo com todo m undo hoj e? Lim ites que eu não ultrapassaria? Pessoas que eu não feriria? – argum entou Glokta, m ostrando a ela seu riso m ais repugnante. – Crianças? Esperança, perspectivas e toda aquela vida feliz pela frente? Eu desprezo aqueles fedelhos!
Ele encolheu os om bros tortos.
– Mas talvez você m e conheça m elhor. Se quer arriscar a vida dos seus filhos, acho que podem os descobrir. Ou podem os chegar a um acordo, com o fizem os em Dagoska.
– À m erda com isso! – rosnou um dos práticos, sopesando o m achado e dando um passo à frente. E a atmosfera de violência dá outro passo estonteante na direção da beira do…
Vitari esticou o braço com a m ão aberta.
– Não se m exa.
– Você tem filhos, e daí? Para m im isso não quer dizer nada. Não vai significar nada para o Sult urrrr…
Houve um clarão de m etal, o tilintar de um a corrente e o prático cam baleou para a frente, com sangue j orrando da garganta aberta.
A lâm ina em form a de cruz bateu de volta na palm a da m ão de Vitari e os olhos dela voltaram a se fixar em Glokta.
– Um acordo?
– Exato. Você fica aqui. Nós passam os. Você não viu nada, com o dizem nas partes m ais antigas da cidade. Você sabe m uito bem que não pode confiar em Sult. Ele deixou você para os cães em Dagoska, não foi? E ele está acabado, de qualquer form a. Os gurkenses estão batendo à porta. É hora de tentarm os algo diferente, não acha?
A m áscara de Vitari se m exeu j unto com sua boca. Pensando, pensando. Os olhos de seus m atadores soltavam fagulhas, as lâm inas das arm as brilhavam . Não pague para ver, sua vaca, não ouse…
– Certo!
Ela fez um gesto com o braço e os práticos recuaram , descontentes, ainda olhando furiosos para os m ercenários do outro lado da sala. Vitari virou a cabeça na direção de um a porta na extrem idade do salão. Um a porta com rebites de ferro preto.
– Excelente. – Algumas palavras podem ser mais eficazes do que muitas lâminas, mesmo em ocasiões assim.
Glokta com eçou a m ancar naquela direção, com Cosca e seus hom ens atrás.
Vitari franziu a testa para eles, e os olhos dela eram fendas m ortais.
– Se você tocar nos m eus…
– Já sei, j á sei – desdenhou Glokta, balançando a m ão. – E sinto um m edo sem fim .
Houve um m om ento de silêncio enquanto os restos do prédio estripado se acom odavam num dos lados da praça dos Marechais. Os com edores ficaram im óveis, tão chocados quanto Ferro, num círculo de espanto. Bay az parecia ser o único não aterrorizado com a escala da destruição. Sua risada cortante ecoou.
– Funciona! – gritou.
– Não! – berrou Mam un, e os Cem Palavras avançaram correndo.
Chegaram m ais perto, as lâm inas polidas de suas lindas arm as relam pej ando, as bocas fam intas abertas, os dentes brancos reluzindo. Mais perto ainda, j orrando com velocidade terrível, berrando um coro de ódio que fez até o sangue de Ferro esfriar.
Mas Bay az apenas gargalhou.
– Que com ece o j ulgam ento!
Ferro rosnou por entre os dentes trincados enquanto a Sem ente queim ava de tão fria em sua m ão. Um sopro de vento poderosíssim o varreu a praça a partir do centro, abateu com edores, que saíram rolando e sacudindo os m em bros, despedaçou as j anelas, escancarou as portas, desnudou os telhados dos prédios.
O grande portão incrustado da rotunda dos Lordes foi sugado e depois arrancado das dobradiças e arrastado pela praça. Toneladas de m adeira girando feito papel num vendaval saíram ceifando com edores im potentes. Despedaçaram corpos com arm aduras brancas, fazendo voar pedaços de m em bros, com sangue e poeira subindo em j atos e borrifos.
A m ão de Ferro reluzia, assim com o m etade de seu braço. Ela arfava e o frio se espalhava pelas veias, por todo o seu corpo, queim ando as entranhas. A Sem ente ficara turva e trem ia com o se fosse vista através de água corrente. O vento chicoteava seus olhos enquanto figuras brancas eram j ogadas pelo ar com o brinquedos, contorcendo-se num a tem pestade de vidro estilhaçado, m adeira lascada, pedra quebrada. Não m ais de um a dúzia deles se m antinha de pé, encolhendo-se, esforçando-se desesperadam ente contra o vendaval, agarrando-se ao chão com o cabelo brilhante esticado.
Um deles estendeu a m ão para Ferro, rosnando ao vento. Era um a m ulher. Sua cota de m alha reluzente se sacudia e suas m ãos tentavam agarrar o vento que gritava. Chegou m ais perto e m ais perto. Um rosto liso, orgulhoso, destilando desprezo.
Com o o rosto dos com edores que tinham ido atrás dela perto de Dagoska. Com o o rosto dos traficantes de escravos que haviam roubado sua vida. Com o o rosto de Uthm an-ul-Dosht, que sorria de sua raiva e seu desam paro.
O berro de fúria de Ferro se fundiu com os berros do vento. Ela não sabia que era capaz de brandir um a espada com tanta força. O com edor só teve tem po de expressar surpresa em seu rosto perfeito antes que a lâm ina curva decepasse seu braço estendido e arrancasse sua cabeça dos om bros. O cadáver foi levado para longe, frouxo, com poeira voando dos ferim entos enorm es.
O ar estava cheio de form as relam pej antes. Escom bros passavam voando por Ferro. Um a trave bateu contra o peito de um com edor que lutava contra o vento e o carregou aos gritos para longe, alto no ar, com o um gafanhoto preso num espeto. Outro explodiu subitam ente num a nuvem de sangue e carne, os restos sugados em espirais para o céu trêm ulo.
O com edor barbudo im enso avançou com esforço, levantando o porrete enorm e acim a da cabeça, berrando palavras que ninguém podia ouvir. Através do ar que pulsava e girava, Ferro viu Bay az levantar um a sobrancelha para ele, viu seus lábios form arem um a palavra.
– Queim e.
Por um instante efêm ero, ele brilhou forte com o um a estrela, a im agem gravando-se nos olhos de Ferro. Em seguida seus ossos enegrecidos foram sugados pela tem pestade.
Só restava Mam un. Ele se im pulsionava com dificuldade para a frente, arrastando os pés pela pedra, pelo ferro, desesperado a cada centím etro na direção de Bay az. Um a placa da arm adura foi arrancada da perna e voou para trás, girando no ar enlouquecido; então um a parte do om bro a seguiu. O tecido rasgado se sacudia. A pele do rosto que rosnava com eçou a ondular e se esticar.
– Não!
Um braço com a m ão em garra se estendeu em desespero na direção do Prim eiro dos Magos, as pontas dos dedos se esforçando.
– Sim – disse Bay az, com o ar ao redor do rosto sorridente oscilando com o a aragem do deserto. As unhas de Mam un foram arrancadas, o braço estendido se dobrou para trás, partiu-se, foi arrancado do om bro. A pele im pecável se desgrudou dos ossos, balançando com o velam e num tem poral, poeira m arrom voando do corpo rasgado com o um a tem pestade de areia nas dunas.
Foi j ogado subitam ente para longe, e atravessou um a parede perto do topo de um prédio alto. Blocos foram sugados das bordas do buraco que ele deixou e caíram para fora, voaram para cim a. Juntaram -se aos papéis que chicoteavam , às pedras que zuniam , às tábuas que giravam , aos cadáveres sacudidos pelo ar ao longo da praça, cada vez m ais rápido, um círculo de destruição que acom panhava os círculos de ferro no chão. Agora ele chegava à altura dos prédios m ais altos, e então m ais alto ainda. O redem oinho ia arrancando tudo por onde passava, sugando m ais pedras, vidro, m adeira, m etal, carne, ficando m ais escuro, m ais rápido, m ais ruidoso e m ais poderoso a cada m om ento.
Acim a da raiva insensata do vento, Ferro pôde escutar de leve a voz de Bay az:
– Deus aprova os resultados.
Cachorrão se levantou e balançou a cabeça dolorida, fazendo poeira voar do cabelo. Sangue escorria de seu braço, verm elho sobre branco. Mas o m undo não havia acabado, afinal de contas.
Mas parecia ter chegado perto.
A ponte e a guarita tinham desaparecido. Onde haviam estado não existia nada além de um m onte de pedras quebradas e um enorm e desfiladeiro aberto na m uralha. Isso e um a infinidade de poeira. Algum as pessoas continuavam a lutar, m as um núm ero m uito m aior andava às tontas, ofegando ou gem endo, cam baleando no m eio do entulho, sem qualquer vontade de atacar o inim igo. Cachorrão sabia com o eles se sentiam .
Alguém estava escalando a m assa de detritos onde antes ficava o fosso, indo para a brecha. Alguém com cabelos em aranhados e um a espada longa na m ão.
Quem m ais, senão Logen Nove Dedos?
– Ah, m erda! – xingou Cachorrão.
Logen tivera algum a ideia idiota de repente, m as isso não era nem de longe o pior. Alguém o seguia pela ponte de escom bros. Trem edeira, com o m achado na m ão, o escudo no braço e, no rosto suj o, a carranca de alguém que tivesse algo m acabro em m ente.
– Merda!
Sinistro encolheu os om bros em poeirados.
– É m elhor ir atrás deles.
– É.
Cachorrão sacudiu o polegar para Gorro Verm elho, que estava se levantando e espanando suj eira do casaco.
– Junte alguns rapazes, certo? – falou, apontando para a brecha com a espada. – Vam os para lá.
Maldição, ele precisava m ij ar, com o sem pre.
Jezal recuou pelo corredor na penum bra, praticam ente não ousando respirar, sentindo o suor encharcar as palm as das m ãos, o pescoço, as costas.
– O que eles estão esperando? – m urm urou alguém .
Houve um estalo suave acim a. Jezal olhou para os caibros pretos.
– Vocês ouviram …
Um a silhueta atravessou o teto e caiu no corredor, um borrão branco que achatou um dos cavaleiros do Grupo, deixando duas grandes m ossas com form ato de pés no peitoral dele e fazendo sangue espirrar de sua viseira.
Ela sorriu para Jezal.
– Com os cum prim entos do profeta Khalul.
– Pela União! – rugiu outro cavaleiro, atacando.
Num instante sua espada ia na direção da m ulher. No outro ela estava do lado oposto do corredor. A lâm ina bateu inofensiva no chão de pedra e o hom em cam baleou para a frente. Ela o agarrou pela axila, dobrou um pouco os j oelhos e o j ogou berrando pelo teto. O reboco quebrado choveu enquanto ela agarrava outro cavaleiro pelo pescoço e batia sua cabeça contra a parede com tanta força que ele ficou engastado nas pedras com as pernas pendendo. Espadas antigas caíram dos suportes e bateram ruidosam ente no piso do corredor, em volta do cadáver.
– Por aqui! – gritou o j uiz suprem o.
Ele arrastou um Jezal entorpecido e im potente na direção de um a porta dupla folheada a ouro. Gorst levantou um a bota pesada e deu um chute violento, abrindo-a. Entraram no salão dos Espelhos. Sem as m uitas m esas que haviam estado lá na noite do casam ento de Jezal, era um a im ensidão vazia de ladrilhos polidos.
O rei correu para a porta m ais distante, os passos fazendo barulho e a respiração chiada, horrorizada, ecoando na sala gigantesca. Viu-se correndo, distorcido, nos espelhos à frente, nos espelhos de cada lado. Um a visão ridícula. Um rei bufão fugindo por seu próprio palácio, a coroa torta, o rosto com a cicatriz m olhado de suor, a boca aberta de terror e exaustão. Parou escorregando, quase caindo para trás na pressa de parar, com Gorst quase trom bando em suas costas.
Um a das gêm eas estava sentada no chão diante da porta, encostada na parede espelhada, refletida nela, com o se estivesse apoiada na irm ã. Levantou um a das m ãos, lânguida, verm elha de sangue, e acenou.
Jezal girou para as j anelas. Antes m esm o que pudesse pensar em correr, um a delas explodiu para dentro da sala. A outra gêm ea caiu em m eio a um a chuva de vidro brilhante, rolou no chão polido, esticou as pernas e parou deslizando.
Passou a m ão com prida pelo cabelo dourado, bocej ou e estalou os lábios.
– Você j á teve a sensação de que só a outra pessoa estava se divertindo? – perguntou.