O duelo dos reis
O dia do juízo
O LORDE MARECHAL West estava parado à som bra de um celeiro abandonado, num a encosta acim a das planícies férteis da Terra do Meio, com sua luneta segura com força pela m ão enluvada. Ainda havia um pouco da névoa m atinal nos cam pos de outono – colchas de retalhos feitas de m arrom , verde, am arelo, salpicadas de árvores, retalhadas por cercas vivas desfolhadas. A distância West podia ver as m uralhas externas de Adua, um a séria linha cinza crivada de torres. Atrás, num cinza m ais claro, os contornos vagos de construções se proj etavam em direção ao céu. Acim a delas se erguia o fantasm a altíssim o da Casa do Artífice, nítido e im placável. No fim das contas, era um a recepção sinistra.
Não havia sequer um sopro de vento. Era estranho que o ar frio estivesse tão parado. Com o se não houvesse guerra, nem exércitos rivais aproxim ando-se, nem batalhas sangrentas program adas para com eçar. West vasculhou de um lado a outro com a luneta, porém não conseguiu encontrar qualquer indício dos gurkenses. Podia ser sua im aginação que criara um a cerca m inúscula, lá em baixo diante da m uralha, uns contornos de lanças afiadas, m as àquela distância, àquela luz, não podia ter certeza de nada.
– Eles devem estar à nossa espera. Devem estar.
– Talvez estej am dorm indo até tarde – sugeriu Jalenhorm , sem pre otim ista.
Pike foi m ais direto:
– Que diferença faz se estiverem ?
– Não m uita – adm itiu West.
As ordens do rei Jezal tinham sido específicas. A cidade estava infestada de tropas gurkenses, e as defesas, à beira do colapso total. Não havia tem po para estratagem as inteligentes, abordagens cautelosas, sondar o inim igo em busca de pontos fracos. Ironicam ente, o príncipe Ladisla decerto seria um com andante tão bom para essa situação quanto qualquer outro. Pela prim eira vez as circunstâncias exigiam um ataque im pressionante, seguido de perto pela m orte ou a glória. Só o que West controlava era o m om ento em que isso aconteceria.
Brint parou seu cavalo ali perto, lançando um a chuva de terra no ar frio. Desceu da sela e fez um a saudação elegante.
– A cavalaria do general Kroy está posicionada na ala direita, lorde m arechal, e pronta para atacar às suas ordens.
– Obrigado, capitão. E a infantaria dele?
– Talvez na m etade do cam inho para entrar em form ação. Algum as com panhias ainda estão espalhadas nas estradas.
– Ainda?
– Está lam acento, senhor.
– Hã – fez ele. Sabia que os exércitos deixavam lam a para trás com o as lesm as deixavam um a trilha. – E Poulder?
– Num a posição sem elhante, pelo que sei – respondeu Brint. – Nenhum a m ensagem ?
Jalenhorm balançou a cabeça.
– O general Poulder não está m uito sociável esta m anhã.
West olhou para a cidade, aquela distante linha cinzenta depois das plantações.
– Vai ser logo. – Mordeu o lábio, j á esfolado devido a suas preocupações constantes. – Daqui a pouco. Não devem os deixar a braguilha aberta pela m etade. Quando um pouco m ais da infantaria chegar…
Brint estava olhando para o sul com a testa franzida.
– Senhor, aquilo é…
West acom panhou o dedo de Brint na direção que ele apontava. Na ala esquerda, onde Poulder estivera reunindo sua divisão, a cavalaria j á avançava. Os cavaleiros aceleravam diante de seus olhos.
– Que diab…
Dois regim entos inteiros de cavalaria pesada partiram num galope m aj estoso. Milhares de hom ens avançando pelo terreno agrícola aberto, rodeando as árvores e as casas espalhadas, levantando um rastro de poeira. Agora West podia ouvir as batidas dos cascos, com o trovão distante; quase podia sentir a vibração através das botas. O sol brilhava sobre espadas e lanças erguidas, sobre escudos e arm aduras com pletas. Estandartes balançavam e estalavam ao vento. Era um a bela dem onstração de grandeza m arcial. Um a cena vívida de livro de história, com um herói m usculoso, no qual palavras sem sentido com o honra e j ustiça eram repetidas com frequência.
– Merda – rosnou West por entre os dentes trincados, sentindo a pulsação fam iliar atrás dos olhos.
O general Poulder estivera se coçando para m ontar um a de suas fabulosas cargas de cavalaria durante todo o tem po passado no Norte e no trecho de volta. Lá o terreno ruim ou o tem po ruim ou as circunstâncias ruins o haviam im pedido. Agora, com as condições perfeitas, tudo levava a crer que ele não conseguira resistir à oportunidade.
– Maldito! – xingou Jalenhorm , balançando a cabeça devagar.
West soltou um rosnado de frustração e ergueu a luneta, pronto para atirá-la longe. Conseguiu se conter no últim o instante, obrigou-se a respirar fundo e fechou-a com raiva. Hoj e não podia se dar ao luxo de ceder à raiva.
– Bom , então é isso, não é? Ordene a carga por toda a linha!
– Soar o toque de carga! – rugiu Pike. – Soar o toque de carga!
O toque agudo da corneta soou, alto dem ais no ar frio da m anhã, o que não aj udou nem um pouco a aliviar a dor de cabeça latej ante de West. Ele enfiou um a bota enlam eada no estribo e se içou de form a relutante para a sela, j á dolorido por ter cavalgado a noite toda.
– Acho que devem os seguir o general Poulder para a glória. Talvez a um a distância m enos honorável. Alguém ainda precisa coordenar essa trapalhada.
O som de cornetas respondendo m ais adiante na linha chegou até eles e, à direita, os cavaleiros de Kroy com eçaram a trotar.
– Maj or Jalenhorm , ordene que a infantaria avance em apoio assim que ela chegar. – West rem exeu a boca. – Aos poucos, se for preciso.
– Claro, lorde m arechal – respondeu o grandalhão, j á virando o cavalo para dar as ordens.
– Guerra – m urm urou West. – Um negócio nobre.
– Senhor? – perguntou Pike.
– Nada.
Jezal subiu os últim os degraus de dois em dois, com Gorst e um a dúzia de cavaleiros nos seus calcanhares com o som bras ruidosas. Passou im periosam ente pelo guarda e saiu à luz forte da m anhã no topo da Torre das Correntes, m uito acim a da cidade invadida. O lorde m arechal Varuz j á estava j unto ao parapeito, cercado por um punhado de seus auxiliares, todos olhando irritados para Adua. O velho soldado se m antinha de pé, rígido, as m ãos cruzadas às costas, com o fazia nos treinos de esgrim a, m uito tem po atrás. Mas naquele tem po Jezal nunca vira as m ãos dele trem er. Agora trem iam , e m uito. O j uiz suprem o Marovia se encontrava ao lado dele, com o m anto preto agitado pela brisa suave.
– Quais as notícias? – perguntou Jezal.
A língua do lorde m arechal passou de form a nervosa sobre os lábios.
– Os gurkenses m ontaram um ataque antes do alvorecer. As defesas da m uralha de Arnault foram dom inadas. Pouco depois, eles conseguiram desem barcar nas docas. Um grande núm ero de hom ens. Lutam os bravam ente para tentar m anter a retaguarda, m as… bem …
Não era necessário dizer m ais. À m edida que Jezal se aproxim ava do parapeito e um a Adua ferida ficava visível, dava para enxergar claram ente os gurkenses inundarem a via do Meio, os m inúsculos estandartes dourados das legiões do im perador balançando acim a da m assa de hom ens com o destroços na m aré reluzente. Com o se notasse um a form iga no tapete e em seguida percebesse centenas delas na sala de estar, Jezal com eçou a perceber m ovim entos em outras partes, depois em todos os lugares. O coração da cidade estava coalhado de soldados gurkenses.
– Lutam os bravam ente para tentar m anter a retaguarda com … sucesso apenas relativo – term inou Varuz sem ânim o.
Lá em baixo uns poucos hom ens saíram das construções perto do portão oeste do Agriont e correram pela praça calçada de pedras diante do fosso, indo para a ponte.
– Gurkenses? – guinchou alguém .
– Não – m urm urou o lorde m arechal. – Aqueles são nossos.
Hom ens num últim o esforço para escapar da m atança que sem dúvida acontecia na cidade arruinada. Jezal havia encarado a m orte vezes suficientes para saber com o eles se sentiam .
– Faça com que aqueles hom ens sej am trazidos para a segurança – disse com a voz ligeiram ente em bargada.
– Infelizm ente… os portões foram lacrados, Maj estade.
– Então deslacre!
Os olhos úm idos de Varuz se viraram nervosos para Marovia.
– Isso não… seria sensato.
Um a dúzia ou m ais de hom ens havia chegado à ponte. Agora gritavam e balançavam os braços. Suas palavras se perdiam na distância, m as era im possível não perceber o tom de terror e im potência.
– Precisam os fazer algum a coisa – falou Jezal, apertando o parapeito com força. – Precisam os fazer algum a coisa! Deve haver outros lá fora, m uitos outros!
Varuz pigarreou.
– Maj estade…
– Não! Mande selar m eu cavalo. Reúna os cavaleiros do Grupo. Eu m e recuso a…
O j uiz suprem o Marovia havia se m ovido de form a a bloquear o cam inho para a escada e agora olhava calm am ente, com tristeza, o rosto de Jezal.
– Se o senhor abrisse o portão agora, colocaria em risco todo m undo que está dentro do Agriont. Muitos m ilhares de cidadãos, todos os que vieram em busca de sua proteção. Aqui podem os m antê-los a salvo, pelo m enos por enquanto. Devem os m antê-los em segurança.
O olhar de Marovia deslizou para as ruas. Olhos de cores diferentes, notou Jezal, um azul e um verde.
– Devem os avaliar o bem m aior – com pletou o j uiz suprem o.
– O bem m aior – repetiu Jezal.
Olhou para o outro lado, para dentro do Agriont. Coraj osos defensores estavam dispostos em volta da m uralha, ele sabia, prontos para lutar até a m orte pelo rei e pelo país, por m enos estes que m erecessem . Visualizou civis tam bém , correndo pelas ruas estreitas em busca de segurança. Hom ens, m ulheres, crianças, idosos e j ovens, todos expulsos de seus lares arruinados. Pessoas a quem ele prom etera proteção. Seu olhar passou por cim a dos altos prédios brancos ao redor do parque verde, da am pla praça dos Marechais, pela longa via do Rei com suas estátuas grandiosas. Sabia que o Agriont estava cheio de desam parados e necessitados. Os que tinham o azar de não contar com ninguém m elhor do que Jezal dan Luthar, aquela fraude covarde.
Aquilo ficou preso em sua garganta, m as ele sabia que o velho burocrata estava certo. Não havia nada que ele pudesse fazer. Tivera um a sorte terrível ao sobreviver a seu últim o ataque portentoso e era tarde dem ais para outro. Do lado de fora do Agriont, soldados gurkenses com eçavam a j orrar na praça diante do portão. Alguns se aj oelharam , com arcos nas m ãos, e dispararam um a saraivada de flechas na direção da ponte. Gritos abafados chegaram ao topo da Torre das Correntes.
Um a saraivada em resposta estalou na m uralha, salpicando os gurkenses com setas de bestas. Hom ens caíram , outros hesitaram e recuaram , deixando alguns corpos espalhados nas pedras do calçam ento. Tentaram se abrigar nas construções ao redor da praça, hom ens correndo pelas som bras, de casa em casa. Um soldado da União pulou da ponte e deu algum as braçadas no fosso antes de desaparecer. Não voltou à superfície. Atrás dele um últim o punhado de defensores ainda se agarrava às arm as em desespero. A ideia do bem m aior provavelm ente pouco serviria de consolo para eles ao darem o últim o suspiro. Jezal fechou os olhos com força e se virou para o outro lado.
– Ali! A leste!
Varuz e alguns m em bros de seu estado-m aior haviam se apinhado em volta do parapeito m ais distante, olhando para além da Casa do Artífice e na direção dos cam pos distantes do lado de fora da cidade. Jezal foi até eles, protegendo os olhos por causa do sol nascente. Depois da grande m uralha do Agriont, passando o rio brilhante e a curva am pla da cidade, acreditou ter visto algum tipo de m ovim entação. Um a am pla m eia-lua que se m ovia devagar para Adua.
Um dos oficiais baixou a luneta.
– Cavalaria! Cavalaria da União!
– Tem certeza?
– É o exército!
– Chegando atrasado à festa – m urm urou Varuz –, m as nem por isso é m enos bem -vindo.
– Viva o m arechal West!
– Estam os salvos!
Jezal não estava com disposição para gritar de alegria. A esperança era um a coisa ótim a, claro, e andara escassa por longo tem po, m as as com em orações eram decididam ente prem aturas. Foi até o outro lado da torre e franziu a testa olhando para baixo.
Mais gurkenses j orravam na praça do lado de fora da cidadela, e m ais ainda, e vinham bem preparados. Traziam grandes proteções de vim e, cada qual suficiente para esconder vinte hom ens ou m ais. A da frente j á estava crivada de setas de bestas, m as eles continuavam a se esgueirar para a ponte. Flechas subiam e desciam . Os feridos caíam , lutavam para se arrastar para a retaguarda. Um a das construções na lateral da praça j á havia pegado fogo e as cham as lam biam fam intas os beirais do telhado.
– O exército! – gritou alguém nas am eias do outro lado. – O m arechal West!
– É m esm o – falou Marovia e franziu a testa para a carnificina abaixo, com os sons da batalha crescendo e ficando m ais frenéticos. – Tom ara que não tenha chegado tarde dem ais.
O estrépito da luta subia pelo ar frio. Estrondos e estalos, gritos ecoantes. Logen olhou rápido para a esquerda e a direita, para os hom ens que corriam ao redor pelos cam pos abertos. A respiração acelerada sibilava, o equipam ento chacoalhava, todos com carrancas rudes e arm as afiadas.
Não era m uito anim ador fazer parte daquilo outra vez.
O triste era que Logen sentira m ais calor e m ais confiança com Ferro e Jezal, Bay az e Quai do que agora, entre outros com o ele próprio. Aquele grupo fora bem difícil, cada um a seu m odo. Não que ele os tivesse entendido de fato, ou m esm o gostado m uito deles. Mas Logen gostara de si m esm o no tem po que passara com eles. Longe, no ocidente deserto do Mundo, ele fora um hom em em quem era possível confiar, com o seu pai. Um hom em sem um a história sangrenta bafej ando no om bro, sem um nom e m ais som brio do que o inferno, sem necessidade de proteger a retaguarda a todo m om ento. Um hom em com esperanças de algo m elhor.
Pensar em ver aquelas pessoas de novo, ter a chance de ser aquele hom em de novo, o instigava, fazia Logen querer seguir m uito m ais rápido para a grande m uralha de Adua. Parecia, pelo m enos naquele instante, que ele seria capaz de deixar o Nove Sangrento para trás.
Mas o restante dos nórdicos não com partilhava sua ansiedade. Pareciam m ais se arrastar do que se preparar para um ataque. Seguiram até um agrupam ento de árvores, alguns pássaros voaram para o céu branco e eles pararam de vez. Ninguém disse nada. Um rapaz chegou a se sentar, encostado num a árvore, e com eçou a beber água de um cantil.
Logen o encarou.
– Pelos m ortos, acho que nunca vi um a carga tão m olenga com o esta. Deixaram os bagos no Norte?
Houve alguns m urm úrios, alguns olhares inquietos. Gorro Verm elho deu um olhar de esguelha, com a língua enfiada no lábio inferior.
– Talvez sim . Não m e leve a m al, chefe, ou Vossa Alteza Real, ou sei lá o que é agora. – Baixou a cabeça dem onstrando que não queria ser desrespeitoso. – Já lutei antes, e m uito, estive com a vida equilibrada num gum e de espada e coisa e tal. Só que, bem … por que lutar agora?, é o que estou dizendo. É o que todos nós estam os pensando, acho. Não é da nossa conta, é? Esta luta não é nossa.
– A União vai achar que nós som os um bando de covardes – falou Cachorrão, balançando a cabeça.
– Quem se im porta com o que eles acham ? – rebateu alguém .
Gorro Verm elho chegou perto.
– Olha, chefe, eu estou cagando e andando se algum idiota que eu nem conheço achar que sou covarde. Já derram ei sangue dem ais por causa disso. Nós todos j á derram am os.
– Uh – grunhiu Logen. – Então vocês votam por ficar aqui, é isso?
Gorro Verm elho deu de om bros.
– Bom , eu acho…
Ele guinchou de dor quando a testa de Logen se chocou contra seu rosto, esm agando-lhe o nariz com o um a noz num a bigorna. Caiu de bunda, com força, sangue espirrando no queixo.
Logen virou-se para os outros e deixou a cabeça inclinada de lado, com o costum ava fazer. A expressão do Nove Sangrento – fria e m orta, de quem não se im portava com nada. Era fácil fazer isso. Parecia tão natural quanto um par de botas predileto. Sua m ão encontrou o cabo frio da espada do Artífice, e a toda a volta os hom ens recuaram , arrastaram os pés, m urm uraram e sussurraram .
– Algum outro babaca quer votar?
O garoto largou o cantil no m ato e se levantou de um salto. Logen encarou alguns dos outros, um a um , quem parecesse m ais durão, e um a um eles desviaram o foco para o chão, para as árvores, para qualquer coisa que não fosse ele. Até que ele se virou para Trem edeira. Aquele desgraçado cabeludo o encarou. Logen estreitou os olhos.
– E você?
Trem edeira balançou a cabeça, com o cabelo oscilando sobre o rosto.
– Ah, não. Agora, não.
– Quando você estiver preparado, então. Quando qualquer um de vocês estiver preparado. Até lá, tenho um trabalho para vocês. Arm as! – rosnou.
Espadas e m achados, lanças e escudos logo ficaram em posição. Hom ens se m exeram , encontrando seus lugares, de repente com petindo para ser o prim eiro a atacar. Gorro Verm elho estava se levantando, encolhendo-se com um a das m ãos no rosto ensanguentado. Logen o encarou.
– Se está achando que foi inj ustiçado, pense no seguinte: se fosse nos velhos tem pos, agora você estaria tentando m anter as tripas dentro da barriga.
– É – grunhiu ele, enxugando a boca. – Está certo.
Logen o observou voltar aos seus rapazes, cuspindo sangue. Se um a coisa podia ser dita sobre Logen Nove Dedos, era que tinha talento para transform ar um am igo em inim igo.
– Precisava fazer isso? – perguntou Cachorrão.
Logen deu de om bros. Não quisera ser líder, m as agora era. Isso sem pre term inava em desastre, m as ali estava ele, e um hom em que com anda não pode ter hom ens que o questionem . Sim plesm ente não pode. Prim eiro eles vêm com perguntas, depois com facas.
– Não consegui ver outro m odo. É com o sem pre foi, não é?
– Eu esperava que os tem pos tivessem m udado.
– Os tem pos nunca m udam . É preciso ser realista, Cachorrão.
– É. Mas é um a pena.
Muitas coisas eram um a pena. Logen havia desistido de tentar consertá-las fazia m uito tem po. Desem bainhou a espada do Artífice e a ergueu.
– Vam os, então! E desta vez com o se a gente se im portasse ao m enos um pouco!
Ele partiu por entre as árvores, ouvindo o restante dos rapazes acom panhá-lo. Chegaram ao descam pado: as m uralhas de Adua se erguiam adiante, um penhasco cinza e íngrem e no topo de um a encosta coberta de gram a, guarnecido de torres redondas. Havia um bom núm ero de cadáveres caídos ao redor. O bastante para desanim ar até m esm o um Carl endurecido pelas batalhas. Pela cor da pele, a m aioria era de cadáveres gurkenses, esparram ados em m eio a todo tipo de equipam ento quebrado, esm agados na terra lam acenta, pisoteados com m arcas de cascos.
– Firm es! – gritou Logen enquanto corria por entre eles. – Firm es!
Viu algo adiante, um a cerca de estacas afiadas, o corpo de um cavalo pendendo num a delas. Atrás das estacas hom ens se m oviam . Hom ens com arcos.
– Escudos!
Algum as setas caíram zunindo. Um a se cravou no escudo de Trem edeira, outras duas no chão em volta dos pés de Logen. Um Carl a m enos de um passo dele levou um a no peito e tom bou.
Logen correu. Ia se aproxim ando da cerca oscilante, um pouco m ais devagar do que gostaria. Havia alguém entre duas estacas, um hom em de rosto escuro, com um peitoral brilhante e um a plum a verm elha no elm o pontudo. Gritava para um a m ultidão reunida atrás e brandia um a espada curva. Um oficial gurkense, talvez. Um alvo tão bom para atacar quanto qualquer outro. As botas de Logen chapinhavam no chão revirado. Mais duas flechas passaram por ele, girando, m iradas com pressa. Os olhos do oficial se arregalaram . Ele deu um passo nervoso para trás, ergueu a espada.
Logen se desviou rápido para a esquerda e a lâm ina curva bateu no chão aos seus pés. Rosnou ao girar a espada do Artífice e o m etal pesado retiniu contra o peitoral brilhante do oficial, deixando um a grande m ossa. Ele guinchou, depois cam baleou para a frente, todo dobrado e praticam ente incapaz de respirar. Sua espada voou longe e Logen o acertou na nuca, esm agou seu elm o e o j ogou esparram ado na lam a.
Olhou para os outros, m as nenhum deles havia se m ovido. Eram um grupo m altrapilho, um a versão m orena dos servos m ais fracos que ele j á vira. Nem de longe os hom ens im placáveis que havia esperado, pelo m odo com o Ferro falava dos gurkenses. Eles se am ontoaram , as lanças proj etando-se para um lado e para outro. Uns dois até tinham flechas preparadas nos arcos, provavelm ente poderiam deixá-lo com o um porco-espinho, m as não fizeram isso. Mesm o assim , partir direto para eles poderia acordá-los. Logen j á havia sido flechado um a ou duas vezes e não queria repetir a dose.
Por isso, em vez de avançar, inflou o peito, m ostrou toda a sua envergadura e soltou um rugido. Um rugido de luta, com o o que dera ao descer a colina atacando em Carleon, tantos anos antes, quando ainda tinha todos os dedos e todas as esperanças intactas. Sentiu Cachorrão chegar ao seu lado, levantar a espada e tam bém soltar um grito. E então Trem edeira estava com eles, urrando feito um touro e batendo o m achado contra o escudo. Em seguida Gorro Verm elho, com o rosto ensanguentado, e Sinistro, e todos os dem ais soltavam seus gritos de guerra.
Form avam um a fila com prida, sacudindo as arm as, batendo-as, rugindo, gritando e uivando a plenos pulm ões, fazendo um barulho com o se o próprio inferno tivesse se aberto e um a m ultidão de dem ônios cantasse as boas-vindas. Os hom ens m arrons olharam para eles, trêm ulos, de bocas escancaradas e olhos arregalados. Logen im aginou que eles nunca teriam visto nada assim .
Um deles largou a lança. Talvez não pretendesse fazer isso; sim plesm ente estava tão perplexo por causa do barulho e de ver tantos desgraçados m alucos e cabeludos que seus dedos se abriram . Mas, tivesse sido de propósito ou não, a lança caiu, e foi o bastante. Todos com eçaram a largar seus equipam entos. O m ais rápido que podiam , as arm as batiam no capim . Parecia idiotice continuar berrando, então os gritos de guerra m orreram , deixando os dois grupos a se encarar em silêncio naquele terreno lam acento, plantado com estacas inclinadas e corpos retorcidos.
– Tipo estranho de batalha, este – m urm urou Trem edeira.
Cachorrão se inclinou na direção de Logen.
– O que a gente faz com eles agora?
– Não podem os ficar sentados aqui cuidando deles.
– Uh – fez Sinistro.
Logen m ordeu o lábio, girou a espada várias vezes na m ão, tentando pensar em algum m odo inteligente de resolver isso. Não conseguia encontrar nenhum .
– Talvez a gente devesse deixar que vão em bora – falou Logen.
Ele sacudiu a cabeça em direção ao norte. Nenhum deles se m oveu, por isso Logen tentou de novo e apontou com a espada. Eles se encolheram e cochicharam uns com os outros quando ele a ergueu, e um deles caiu na lam a.
– É só se m andarem naquela direção – disse Logen – e pronto. Só… deem o fora… Vão naquela direção! – tentou, apontando com a espada outra vez.
Um deles captou a ideia e deu um passo cauteloso para longe do grupo. Com o ninguém o m atou, com eçou a correr. Logo os outros foram atrás. Cachorrão observou os últim os partirem . Depois encolheu os om bros.
– Boa sorte para eles, acho.
– É – m urm urou Logen. – Boa sorte. – Depois, tão baixo que ninguém pudesse ouvir: – Ainda estou vivo, ainda estou vivo, ainda estou vivo…
Glokta m ancava pela escuridão repugnante, seguindo por um trilho fétido que não teria m ais de m eio passo de largura. Sua língua se rem exia nas gengivas vazias. Com seu esforço de perm anecer de pé, a dor na perna piorava a ponto de fazê-lo trem er de tem pos em tem pos e ele se esforçava ao m áxim o para não respirar pelo nariz. Quando eu estava de cama, aleijado depois de voltar de Gurkhul, pensei que nunca poderia afundar mais. Quando dirigi a brutalidade de uma prisão fedorenta em Angland, pensei o mesmo. Quando trucidei um homem num abatedouro, imaginei que havia chegado ao fundo. Como estava errado!
Cosca e seus m ercenários form avam um a fila única, com Glokta entre eles. Palavrões, resm ungos e passos ecoavam no túnel, a luz dos lam piões trem eluzindo e lançando som bras oscilantes na pedra lustrosa. Um a água podre e preta pingava de cim a, escorria pelas paredes cheias de m usgo, gorgolej ava em ralos gosm entos, corria e espum ava pelo canal fétido ao lado dele. Ardee arrastava os pés atrás dele, carregando seus instrum entos sob o braço. Desistira de erguer a bainha do vestido, e o tecido estava bastante m anchado pela gosm a negra. Ela olhou para Glokta e, com o cabelo úm ido pendendo sobre o rosto, fez um esforço débil para sorrir.
– Você sem dúvida só leva as m ulheres aos m elhores lugares.
– Ah, é m esm o. Minha capacidade de encontrar cenários rom ânticos explica m inha popularidade com o sexo oposto. – Glokta se encolheu com um a pontada de dor. – Apesar de ser um a m onstruosidade aleij ada. Para onde estam os indo agora?
Pé Com prido ia m ancando à frente, am arrado por um a corda que um dos m ercenários segurava.
– Para o norte! Vam os para o norte, m ais ou m enos. Estam os ao lado da via do Meio.
– Hã. – Acima de nós, a menos de dez passos, estão alguns dos endereços mais elegantes da cidade. Os palácios reluzentes e um rio de merda, muito mais próximos do que a maioria gostaria de acreditar. Tudo o que é lindo tem um lado sombrio, e alguns de nós precisamos viver nele, para que outros possam rir à luz.
O ronco de sua risada virou um guincho de pânico quando seu pé sem dedos deslizou no cam inho escorregadio. Tentou se apoiar na parede com a m ão livre, m as apenas deixou a bengala cair com estrondo nas pedras gosm entas.
Ardee o segurou pelo cotovelo antes que ele caísse e o puxou para que ficasse de pé. Glokta não conseguiu evitar que um doloroso gem ido de m enininha saísse por entre os dentes falhados.
– Não está se divertindo, não é? – falou ela.
– Já tive dias m elhores.
Ele apoiou a nuca na pedra enquanto Ardee se inclinava para pegar a bengala.
– Ser traído pelos dois – pegou-se m urm urando. – Isso dói. Até em m im . Um eu esperava. Um eu poderia ter aceitado. Mas os dois? Por quê?
– Porque você é um vilão im placável, calculista, am argo, pervertido e cheio de autopiedade?
Glokta a encarou e ela deu de om bros.
– Foi você que perguntou.
E partiram de novo pela escuridão nauseante.
– Era um a pergunta retórica.
– Retórica? Num esgoto?
– Esperem ! – avisou Cosca.
Ergueu a m ão e a procissão queixosa parou. Um som vinha de cim a, a princípio baixo, depois m ais alto – o estrondo rítm ico de pés batendo, aproxim ando-se de todos os lados ao m esm o tem po, para consternação geral. Cosca se grudou à parede pegaj osa, com tiras da luz do dia caindo em seu rosto de um a grade acim a, a pena com prida de seu gorro pingando suj eira. Vozes desciam pela escuridão. Vozes kanticences. Cosca riu e apontou um dedo para cim a.
– Nossos velhos am igos, os gurkenses. Esses desgraçados não desistem , não é?
– Eles se m overam depressa – grunhiu Glokta enquanto tentava recuperar o fôlego.
– Im agino que não haj a m ais m uita luta nas ruas. Todo m undo recuou para o Agriont ou se rendeu.
Render-se aos gurkenses. Glokta estrem eceu ao esticar a perna. Raramente é boa ideia, e não é algo que alguém pensaria em fazer uma segunda vez.
– Então precisam os nos apressar. Ande logo, irm ão Pé Com prido!
O navegador seguiu m ancando.
– Agora não falta m uito! Não guiei o senhor errado, ah, não, eu, não! Não seria do m eu feitio. Agora estam os m ais perto do fosso, m uito perto. Se há um cam inho para dentro da m uralha, eu vou achar, pode contar com isso. Vou colocar o senhor dentro da m uralha num …
– Cale a boca e ande logo – rosnou Glokta.
Um dos trabalhadores j ogou o que restava de serragem em seu barril, outro passou um ancinho para alisar o m onte de pó claro, e estava pronto. Toda a praça dos Marechais, desde as altíssim as paredes brancas do Palácio Marcial à direita de Ferro até os portões dourados da rotunda dos Lordes à esquerda, fora coberta de serragem . Era com o se neve tivesse caído de repente, apenas ali, e tivesse deixado um fino cobertor sobre o calçam ento. Por cim a da pedra escura e do m etal brilhante.
– Bom – disse Bay az, e m eneou a cabeça com satisfação. – Muito bom !
– É só isso, senhor? – gritou o capataz no m eio do grupo encolhido.
– A não ser que algum de vocês queira ficar e testem unhar a destruição dos indestrutíveis Cem Palavras.
O capataz olhou de esguelha para um dos seus colegas, confuso.
– Não. Não, acho que só vam os… O senhor sabe…
Ele e os dem ais trabalhadores com eçaram a se afastar, levando os barris vazios. Logo estavam longe, em m eio aos palácios brancos. Ferro e Bay az ficaram sozinhos naquela vastidão plana coberta de serragem .
Só os dois e a caixa do Artífice – além do que ela continha.
– Pronto. A arm adilha está preparada. Só precisam os esperar nossa presa.
Bay az tentou dar sua risada sagaz, m as Ferro não se enganou. Viu as m ãos nodosas do m ago esfregando um a à outra, os m úsculos se contraindo e descontraindo na lateral da cabeça careca. Ele não tinha certeza se o plano iria funcionar. Por m ais sábio que fosse, por m ais sutil que fosse, por m ais esperto que fosse, não podia ter certeza. A coisa na caixa, a coisa fria e pesada que Ferro ansiava por tocar era algo desconhecido. Só fora usada um a vez, longe, nas vastidões vazias do Antigo Im pério. A enorm e ruína da destruída Aulcus.
Ferro franziu a testa e afrouxou a espada na bainha.
– Se eles vierem , isso não vai salvar você – com entou Bay az.
– Facas nunca são dem ais – rosnou ela. – Com o você sabe que eles ao m enos virão para cá?
– O que m ais eles podem fazer? Eles precisam vir para onde eu estiver. Esse é o obj etivo. – Bay az puxou o ar de form a entrecortada pelo nariz, depois o deixou sair pela boca. – E eu estou aqui.