O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 12 de 61

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O duelo dos reis

Flores e aplausos

 

JEZAL AINDA NÃO fazia ideia de por que era necessário usar seu m elhor uniform e. Aquela porcaria estalava de tantas tranças e era rígida feito um a tábua. Tinha sido desenhado m ais para ficar em posição de sentido do que para m ontar e, com o resultado, se cravava dolorosam ente em sua barriga a cada m ovim ento do cavalo. Mas Bay az havia insistido, e era difícil dizer não ao velho idiota, ainda que Jezal estivesse no com ando daquela expedição. Parecera m ais fácil, no final, sim plesm ente fazer o que ele dizia. Por isso, m esm o com algum desconforto, cavalgava na frente da longa coluna, repuxando constantem ente a túnica e suando m uito sob o sol forte. O único consolo era que podia respirar ar puro. Todos os outros com iam sua poeira.

Para aum entar o sofrim ento, Bay az continuava a entediá-lo com os m esm os assuntos que m artelara em sua cabeça por todo o cam inho até a borda do Mundo e de volta.

– É vital para um rei m anter-se bem -visto por seus súditos. E isso não é m uito difícil. Os hum ildes têm am bições pequenas e ficam satisfeitos com pequenas indulgências. Não precisam receber tratam ento j usto. Só precisam pensar que recebem …

Jezal descobriu que, depois de um tem po, conseguia ignorar o zum bido da voz do velho, do m esm o m odo que era possível ignorar um cachorro que latia o tem po todo. Relaxou na sela e perm itiu que os pensam entos vagueassem . E para onde eles iriam , senão para Ardee?

Ele havia se enfiado num a trem enda enrascada, sem dúvida. Na planície as coisas tinham parecido m uito sim ples. Chegar em casa, casar-se com ela, viver feliz para sem pre. Agora, em Adua, de novo em m eio aos poderosos e de volta aos antigos hábitos, tudo ficava m ais com plicado a cada dia. A possibilidade de danos à própria reputação e às suas perspectivas era um a questão que não poderia sim plesm ente ser descartada. Ele era um coronel do Próprio do Rei, o que significava m anter certos padrões.

– Harod, o Grande, sem pre teve o respeito dos hom ens com uns. Mais de um a vez esse foi o segredo de suas vitórias sobre seus pares…

Além disso, a própria Ardee era m uito m ais com plicada pessoalm ente do que em suas antigas lem branças. Noventa por cento espirituosa, inteligente, audaz, bonita. Dez por cento bêbada, m á e destrutiva. Cada m om ento com ela era um a loteria, m as talvez fosse esse perigo que provocasse faíscas quando eles se tocavam , que fazia sua pele form igar e a boca ficar seca… Sua pele ardia agora, só de pensar nela. Ele nunca sentira isso por um a m ulher, nunca. Sem dúvida era am or. Tinha de ser. Mas será que o am or bastava? Quanto tem po duraria? Afinal de contas, o casam ento era para sem pre, e para sem pre era um tem po m uito longo.

Prolongar indefinidam ente seu rom ance atual não tão secreto seria sua opção preferida, m as aquele desgraçado do Glokta chutara essa possibilidade com sua perna arruinada. Bigornas, sacos e canais. Jezal se lem brava daquele m onstro branco enfiando um saco sobre a cabeça de um prisioneiro num a via pública. Estrem eceu ao pensar nisso. Mas precisava adm itir que o aleij ado tinha razão. As visitas de Jezal não eram boas para a reputação da j ovem . Com o Nove Dedos dissera, as pessoas devem tratar as outras com o querem ser tratadas. Mas sem dúvida isso era um a baita inconveniência.

– Você está ao m enos ouvindo, m eu rapaz?

– Hein? É… estou, claro. Harod, o Grande, e coisa e tal. O respeito que ele sentia pelo hom em com um .

– Que aparentava sentir – resm ungou Bay az. – E ele sabia ficar atento a um a lição, tam bém .

Aproxim avam -se de Adua, saindo das terras agrícolas e atravessando um dos agrupam entos de barracos, m oradias im provisadas, estalagens baratas e bordéis m ais baratos ainda que haviam crescido ao redor das portas da cidade, am ontoados na estrada, cada um quase um a cidade por si. Penetravam a longa som bra da m uralha de Casam ir, a linha m ais externa de defesa de Adua. Havia um guarda carrancudo de cada lado do arco alto, as portas ornadas com o sol dourado da União abertas. Atravessaram a escuridão e saíram à luz. Jezal piscou.

Um núm ero considerável de pessoas havia se reunido no espaço calçado de pedras, com prim indo-se dos dois lados da rua, contidas por m em bros da guarda da cidade. Elas explodiram num coro de aplausos felizes ao vê-lo passar pelo portão. Jezal se perguntou por um m om ento se seria o caso de o estarem confundindo com outro, de estarem ali à espera de alguém realm ente im portante. Harod, o Grande, talvez. Mas logo com eçou a perceber o nom e “Luthar” repetido no m eio do barulho. Um a garota na frente j ogou para ele um a flor, que se perdeu sob os cascos de seu cavalo, e gritou algo que ele não entendeu. Mas os m odos dela não deixaram dúvida. Todas aquelas pessoas estavam reunidas por causa dele.

– O que está acontecendo? – sussurrou ao Prim eiro dos Magos.

Bay az riu com o se ele, pelo m enos, esperasse aquilo.

– Im agino que o povo de Adua desej e com em orar sua vitória sobre os rebeldes.

– É m esm o?

Ele estrem eceu e deu um aceno vago, e os gritos e aplausos aum entaram sensivelm ente. A m ultidão só ficava m ais densa à m edida que eles entravam na cidade e o espaço se reduzia. Havia pessoas espalhadas pelas ruas estreitas, nas j anelas dos andares térreos e no alto das casas, gritando e aplaudindo. Mais flores foram j ogadas de um a sacada adiante na rua. Um a ficou presa na sela e Jezal a pegou e girou algum as vezes na m ão.

– Tudo isso… para m im ?

– Você não salvou a cidade? Não conteve os rebeldes, e sem derram ar um a gota de sangue de nenhum dos lados?

– Mas eles desistiram sem m otivo. Eu não fiz nada!

Bay az deu de om bros, pegou a flor da m ão de Jezal e a cheirou, depois j ogou longe e assentiu na direção de um grupo de com erciantes que aplaudiam , apinhados num a esquina.

– Parece que eles discordam . Só fique de boca fechada e sorria. Esse é sem pre um bom conselho.

Jezal se esforçou ao m áxim o para obedecer, m as não era tão fácil sorrir. Tinha quase certeza de que Logen Nove Dedos não teria aprovado aquilo. Se existia algo oposto a exibir m enos do que suas capacidades, sem dúvida era aquilo ali. Olhava nervoso ao redor, convencido de que, em algum m om ento, a m ultidão veria a fraude absoluta que ele acreditava ser e substituiria as flores e os gritos de adm iração por urros de fúria e o conteúdo de seus penicos.

Mas isso não aconteceu. Os aplausos continuaram , e Jezal e sua longa coluna de soldados seguiram lentam ente pelo distrito de Três Fazendas. A cada rua por onde passava, Jezal relaxava m ais. Aos poucos com eçou a sentir-se com o se de fato houvesse feito algo digno daquela hom enagem . A im aginar que poderia m esm o ter sido um com andante intrépido, um negociador m agistral. Com eçava a acreditar que, se as pessoas da cidade queriam tratá-lo com o herói, provavelm ente seria grosseria de sua parte recusar.

Passaram por um portão na m uralha de Arnault e entraram no distrito central da cidade. Jezal se em pertigou na sela e estufou o peito. Bay az se deixou ficar a um a distância respeitosa, de form a que Jezal liderasse a coluna sozinho. Os aplausos foram aum entando à m edida que seguiam pela am pla via do Meio e atravessavam os Quatro Cantos na direção do Agriont. Era a m esm a sensação que tivera ao vencer o Cam peonato, só que lhe dera m uito m enos trabalho – e será que isso era m esm o um a coisa m edonha? Que m al poderia haver? Nove Dedos e sua hum ildade que se danassem . Jezal havia m erecido a atenção. Estam pou um sorriso radiante no rosto. Levantou o braço com confiança e satisfação e com eçou a acenar.

As grandes m uralhas do Agriont se erguiam adiante. Jezal atravessou o fosso da enorm e guarita sul e cavalgou pelo túnel longo fortaleza adentro, com os cascos dos cavalos e as botas dos hom ens do Próprio do Rei ecoando na escuridão atrás dele. Seguiu devagar pela via do Rei, observado com aprovação pelas estátuas de grandes m onarcas de antigam ente e seus conselheiros de pedra, passando entre os prédios altos apinhados de espectadores e afinal entrando na praça dos Marechais.

A m ultidão fora cuidadosam ente organizada de cada lado do am plo espaço aberto, de form a a deixar livre um a longa trilha de pedras no m eio. Na outra extrem idade um a grande arquibancada fora erguida, com um toldo carm im no centro que indicava a presença da fam ília real. A algazarra e a vista eram im pressionantes.

Jezal se lem brou da recepção organizada para o m arechal Varuz quando este retornou de sua vitória sobre os gurkenses. Ele era pouco m ais do que um a criança e assistira de olhos arregalados. Havia captado um vislum bre rápido do m arechal, m ontado num cavalo de batalha cinza, m as j am ais im aginara um dia poder cavalgar naquele lugar de honra. Para ser honesto, isso ainda parecia estranho. Afinal de contas, havia derrotado um punhado de cam poneses, não a nação m ais poderosa do Círculo do Mundo. Mesm o assim , não seria ele que iria j ulgar quem m erecia um a hom enagem e quem não m erecia, não era?

Assim , Jezal esporeou o cavalo e foi passando entre as fileiras de acenos, sorrisos, apoio e aprovação. Viu que os grandes hom ens do Conselho Fechado estavam na prim eira fila de bancos. Reconheceu o arquileitor Sult vestido de branco reluzente, o j uiz suprem o Marovia de preto solene. Seu antigo m estre de esgrim a, o lorde m arechal Varuz, estava ali, com o lorde cam arista Hoff logo ao lado. Todos aplaudiam , a m aioria com um leve desdém que Jezal achou um tanto deselegante. No m eio, aboletado num a cadeira dourada, estava o rei em pessoa.

Já adaptado ao seu papel de herói conquistador, Jezal puxou as rédeas e fez seu garanhão em pinar, sacudindo os cascos da frente. Saltou da sela, aproxim ou-se do tablado real e se curvou graciosam ente sobre um dos j oelhos, a cabeça inclinada para esperar a gratidão do rei, enquanto os aplausos da m ultidão ecoavam ao redor. Seria dem ais esperar outra prom oção? Talvez até um título? De repente parecia difícil acreditar que fora obrigado a cogitar um a vida de obscuridade não fazia m uito tem po.

– Maj estade… – ouviu Hoff dizer, e espiou por baixo das sobrancelhas.

O rei dorm ia, os olhos fechados, a boca aberta. De certa form a não era surpresa, j á que o suj eito havia m uito passara do auge da vida, m as Jezal não conseguiu evitar a irritação. Afinal, era a segunda vez que o rei ressonava durante seu m om ento de glória. Hoff cutucou o m onarca do m odo m ais sutil possível, com o cotovelo, m as, com o ele não acordou, o lorde cam arista foi obrigado a se inclinar e sussurrar em seu ouvido:

– Maj estade…

Não fez m ais do que isso. O rei tom bou de lado, sua cabeça pendeu e, para espanto dos m em bros do Conselho Fechado, de repente se esparram ou no chão feito um a baleia encalhada. Seu m anto escarlate se abriu revelando um a grande m ancha m olhada nas calças e a coroa caiu da cabeça, quicou um a vez e rolou com estardalhaço nas pedras.

Houve um ofegar coletivo e um berro estridente de um a dam a próxim a, ao fundo da arquibancada. Tudo o que Jezal conseguiu fazer foi observar, boquiaberto, enquanto o lorde cam arista se j ogava de j oelhos, curvado sobre o rei caído. Um m om ento de silêncio se passou, um m om ento em que cada pessoa na praça dos Marechais prendeu o fôlego, e então Hoff se levantou devagar. Seu rosto havia perdido toda a cor.

– O rei está m orto! – gem eu, e os ecos sofridos ressoaram nas torres e nos prédios ao redor da praça.

Jezal só conseguiu fazer um a careta. Trem endo azar. Agora ninguém iria aplaudi-lo.