O duelo dos reis
Velhos horríveis
AS JANELAS ALTAS estavam abertas e um a brisa m isericordiosa varria o am plo salão, fazendo as antigas e enorm es tapeçarias nas paredes balançarem e farfalharem e às vezes dando um beij o refrescante no rosto suado de Jezal. Tudo no aposento era grande dem ais – as portas tinham o triplo do tam anho de um hom em , o teto era pintado com im agens dos povos do Mundo fazendo reverência diante de um enorm e sol dourado e o pé-direito tinha o dobro da altura das portas. As telas im ensas nas paredes m ostravam figuras em tam anho real em várias poses m aj estosas e suas expressões de guerra provocavam desconforto em Jezal sem pre que ele se virava para elas.
Parecia um espaço para hom ens grandiosos, sábios, heróis épicos ou grandes vilões. Um espaço para gigantes. Jezal se sentia m inúsculo, inadequado, estúpido.
– Seu braço, por favor, m aj estade – m urm urou um dos alfaiates, conseguindo ao m esm o tem po dar ordens a Jezal e se m anter esm agadoram ente baj ulador.
– Sim , claro… Desculpe.
Jezal levantou o braço um pouco m ais, xingando-se por dentro por ter pedido desculpas outra vez. Agora ele era rei, com o Bay az lhe repetia sem parar. Se tivesse em purrado um dos alfaiates pela j anela, não precisaria se desculpar. O suj eito provavelm ente agradeceria por sua atenção enquanto m ergulhasse até o solo. Mas, não tendo sido lançado, o hom em apenas deu um sorriso rígido e desenrolou sua fita m étrica. Seu colega se aj oelhava fazendo algo sem elhante ao redor dos j oelhos de Jezal. Um terceiro registrava as observações deles num caderno com capa m arm orizada.
Jezal respirou devagar e franziu a testa para o espelho. Um j ovem idiota, de aparência insegura e com um a cicatriz no queixo, o encarava ali, enrolado num a vastidão de tecido reluzente com o se fosse um m anequim de alfaiate. Parecia – e certam ente era o que sentia – m ais com um palhaço do que com um rei. Um a piada. E sem dúvida teria gargalhado, se o m otivo ridículo não fosse ele m esm o.
– Talvez algo de acordo com a m oda ospriana, então? – sugeriu o j oalheiro real, que pôs com cuidado outro absurdo de m adeira na cabeça de Jezal e avaliou o resultado.
Não m elhorara nem um pouco. Aquela porcaria parecia um lustre invertido.
– Não, não! – exclam ou Bay az com irritação. – É chique dem ais, elaborada dem ais, grande dem ais. Ele m al vai conseguir ficar de pé com essa porcaria! Precisa ser sim ples, honesta, leve. Algo com que um hom em possa lutar!
O j oalheiro real piscou.
– Ele vai lutar com a coroa?
– Não, seu pateta! Mas deve parecer que sim ! – Bay az veio por trás de Jezal, tirou a coroa de m adeira de sua cabeça e a j ogou com estardalhaço no chão polido. Depois segurou Jezal pelos om bros e olhou sério para o reflexo dele. – Este é um rei guerreiro da m elhor tradição! Herdeiro natural do reino de Harod, o Grande! Um espadachim sem igual, que provocou e recebeu ferim entos, que com andou exércitos até a vitória, que m atou vintenas de hom ens!
– Vintenas? – m urm urou Jezal, sem entender.
Bay az o ignorou.
– Um hom em tão à vontade com sela e espada quanto com trono e cetro! Sua coroa deve com binar com um a arm adura. Deve com binar com arm as. Deve com binar com aço. Entende agora?
O j oalheiro assentiu devagar.
– Creio que sim , senhor.
– Bom . E m ais um a coisa.
– É só dizer, senhor.
– Coloque nela um diam ante do tam anho da sua bunda.
O j oalheiro baixou hum ildem ente a cabeça.
– Nem precisa dizer.
– Agora saiam . Fora, todos vocês! Sua Maj estade tem assuntos de Estado a resolver.
O livro foi fechado com um estalo, as fitas m étricas foram enroladas num instante, os m etros e m etros de tecido, guardados. Os alfaiates e o j oalheiro real recuaram fazendo reverências e saíram da sala com um a variedade de m urm úrios servis, depois fecharam em silêncio as enorm es portas incrustadas de ouro. Jezal precisou se conter para não sair com eles. Ainda se esquecia que agora Sua Maj estade era ele.
– Tenho assuntos a resolver? – perguntou, virando-se do espelho e esforçando-se ao m áxim o para parecer tranquilo e im perioso.
Bay az o levou para o grande corredor do lado de fora, onde as paredes eram cobertas com m apas da União ricam ente pintados.
– Você tem negócios a tratar com seu Conselho Fechado.
Jezal engoliu em seco. O sim ples nom e da instituição era assom broso. Ficar de pé em aposentos de m árm ore, ser m edido para novas roupas, ser cham ado de m aj estade, tudo isso o deixava tonto, m as não lhe exigia grande esforço. Agora esperavam que se apresentasse no coração do governo. Jezal dan Luthar, que j á fora loucam ente celebrado por sua enorm e ignorância, dividiria um a sala com os doze hom ens m ais poderosos da União. Esperariam que ele tom asse decisões que afetariam a vida de m ilhares de pessoas. Que se sustentasse nas arenas da política, do direito e da diplom acia, quando suas únicas áreas de conhecim ento verdadeiro eram a esgrim a, a bebida e as m ulheres – e era obrigado a adm itir que, pelo m enos nessa últim a área, não parecia o especialista que antes se considerava.
– O Conselho Fechado? – repetiu, e a voz saiu fina, m ais de m enina do que de rei, e ele foi obrigado a pigarrear. – Há algum assunto im portante em especial? – rosnou num tom grave pouco convincente.
– Chegou um a notícia m uito séria do Norte hoj e cedo.
– Chegou?
– Infelizm ente o lorde m arechal Burr m orreu. O exército precisa de um novo com andante. As discussões sobre isso devem dem orar um as boas horas. Por aqui, Maj estade.
– Horas? – m urm urou Jezal.
Os saltos de suas botas estalavam nos largos degraus de m árm ore. Horas na com panhia do Conselho Fechado. Esfregou as m ãos, nervoso.
Bay az pareceu adivinhar seu pensam ento.
– Não precisa tem er aqueles velhos lobos. Você é o senhor deles, independentem ente do que eles acreditem . A qualquer m om ento você pode substituí-los e até m andar que sej am arrastados a ferros, por sinal, caso desej e. Talvez eles tenham esquecido isso. Talvez precisem os lem brá-los, no devido m om ento.
Passaram por um portão alto flanqueado por cavaleiros do Grupo, com os elm os apertados sob os braços, m as de rostos tão inexpressivos que era com o se estivessem com as viseiras abaixadas. Do outro lado ficava um am plo j ardim delim itado por quatro colunatas à som bra, todas esculpidas em m árm ore na form a de árvores frondosas. Água espirrava de fontes e reluzia ao sol forte. Dois enorm es pássaros laranj a com pernas finas com o gravetos andavam cheios de im portância num j ardim aparado à perfeição. Olharam -no altivos por cim a dos bicos curvos, evidentem ente tão certos quanto Jezal de que ele era um perfeito im postor.
Olhou as flores brilhantes, o verde reluzente e as belas estátuas. Olhou as paredes antigas, cobertas de trepadeiras verm elhas, brancas e verdes. Será que tudo aquilo pertencia m esm o a ele? Tudo aquilo e todo o Agriont tam bém ? Será que agora ele seguia os poderosos passos dos reis de antigam ente? De Harod, Casam ir e Arnault? Isso o deixava tonto. Jezal precisou piscar e balançar a cabeça, com o j á fizera um a centena de vezes naquele dia, para não desm aiar. Ele não era o m esm o hom em da sem ana anterior? Coçou a barba, com o se quisesse verificar, e sentiu a cicatriz. O m esm o hom em que ficara encharcado na planície enorm e, que fora ferido entre as pedras, que havia com ido carne de cavalo quase crua e ficado satisfeito?
Pigarreou.
– Eu gostaria m uito… não sei se seria possível… de falar com o m eu pai.
– Seu pai m orreu.
Jezal xingou baixinho.
– Claro que m orreu. Eu quero dizer… o hom em que eu achava que era m eu pai.
– O que acha que ele iria lhe contar? Que tom ou decisões erradas? Que tinha dívidas? Que aceitou dinheiro de m im para criá-lo?
– Ele aceitou dinheiro? – m urm urou Jezal, sentindo-se m ais abandonado do que nunca.
– Raram ente as fam ílias aceitam órfãos de boa vontade, m esm o as que parecem ser de m elhor linhagem . As dívidas foram saldadas, e m ais do que saldadas. Deixei instruções de que você deveria ter aulas de esgrim a assim que conseguisse segurar um a espada. Que deveria ter um posto no Próprio do Rei e que fosse encoraj ado a participar do Cam peonato. Que deveria ser bem preparado, para o caso de este dia chegar. Ele cum priu m inhas instruções ao pé da letra. Mas você pode ver que um encontro dos dois seria um a cena extrem am ente incôm oda para am bos. É m elhor evitar.
Jezal soltou um suspiro entrecortado.
– Claro. É m elhor evitar. – Um pensam ento desagradável se esgueirou em sua m ente. – Meu… m eu nom e ao m enos é Jezal?
– É, agora que foi coroado. – Bay az levantou um a sobrancelha. – Por quê? Preferiria outro?
– Não. Não, claro que não.
Virou a cabeça e piscou para afastar as lágrim as. Sua vida antiga fora um a m entira. A nova lhe parecia um a farsa ainda m aior. Até seu nom e era invenção. Cam inharam em silêncio pelo j ardim , os pés fazendo barulho no cascalho tão novo e perfeito que Jezal se perguntou se cada pedra seria lim pa à m ão diariam ente.
– Lorde Isher procurará Vossa Maj estade nas próxim as sem anas e nos próxim os m eses.
– É? – Jezal tossiu, resfolegou e fez sua cara m ais coraj osa. – Por quê?
– Prom eti que os dois irm ãos dele se tornariam lorde cam arista e lorde chanceler no Conselho Fechado. Que a fam ília dele seria preferida acim a de todas as outras. Esse foi o preço do apoio dele na eleição.
– Entendo. Então devo honrar essa barganha?
– Absolutam ente não.
Jezal franziu a testa.
– Não sei se…
– Depois de alcançar o poder, precisam os nos distanciar im ediatam ente de todos os aliados. Eles sentem que você lhes deve a vitória, e nenhum a recom pensa j am ais irá satisfazê-los. Em vez disso, você deve agradar a seus inim igos. Eles vão adorar cada pequeno presente, por saber que não os m erecem . Heugen, Barezin, Skald, Meed: esses são os hom ens que deve trazer para o seu círculo.
– Brock não?
– Brock nunca. Ele chegou perto dem ais de usar a coroa para aceitar que outro a use. Cedo ou tarde deve ser chutado de volta para o seu lugar. Mas não antes de você estar seguro em sua posição e ter apoio suficiente.
– Entendi.
Jezal inflou as bochechas. Evidentem ente havia m ais coisas a fazer quando se era rei do que usar roupas bonitas, ter m odos altivos e sem pre ocupar a m aior cadeira.
– Por aqui.
Saíram do j ardim para um corredor som brio forrado de m adeira escura e adornado com um a quantidade atordoante de arm as antigas. Arm aduras variadas perm aneciam reluzentes em posição de sentido: chapas e cotas de m alha, couraças e peitorais, tudo estam pado com o brasão do sol da União. Espadas cerim oniais do tam anho de um hom em e alabardas consideravelm ente m ais altas estavam aparafusadas à parede, num a elaborada procissão. Sob elas havia m achados, m aças, m anguais e lâm inas curvas e retas, longas e curtas, grosas e finas suficientes para um exército. Arm as forj adas na União, arm as capturadas dos gurkenses, arm as roubadas de m ortos estirianos em cam pos de batalha sangrentos. Vitórias e derrotas com em oradas em aço. Lá em cim a, farrapos das bandeiras de regim entos gloriosam ente trucidados até o últim o hom em em guerras antigas pendiam sem vida em m astros cham uscados.
Um a pesada porta dupla se erguia na outra extrem idade dessa coleção, preta e sem adornos, tão convidativa quanto um cadafalso. Cavaleiros arautos se postavam dos dois lados dela, solenes com o carrascos, com os elm os alados reluzentes. Eram os hom ens encarregados de guardar o núcleo do governo e de levar as ordens reais a qualquer canto da União onde fosse necessário. Suas ordens, percebeu Jezal com outro súbito nervosism o.
– Sua Maj estade solicita audiência com o Conselho Fechado – entoou Bay az.
Os dois hom ens estenderam as m ãos e abriram a porta grossa. Um a voz irada escapou para o corredor.
– Não pode haver m ais concessões ou só haverá m ais inquietação! Não podem os sim plesm ente…
– Juiz suprem o, creio que tem os visita.
A Câm ara Branca era de certa form a decepcionante, depois da m agnificência do restante do palácio. Não era tão grande. Não havia enfeites nas paredes brancas e sim ples. As j anelas eram estreitas, quase com o de celas, o que deixava o espaço em leve penum bra, m esm o durante o dia. Não havia corrente de ar, e a atm osfera era desconfortavelm ente parada e rançosa. A única m obília era um a longa m esa de m adeira escura atulhada de papéis e seis cadeiras sim ples e duras arrum adas de cada lado, com outra ao pé e m ais um a, notavelm ente m ais alta que as dem ais, na cabeceira. Minha cadeira, supôs Jezal.
O Conselho Fechado se levantou quando ele entrou inseguro na sala. Era a seleção m ais apavorante de velhos que poderia ser reunida num só lugar, e cada um deles encarava Jezal num silêncio cheio de expectativa. Ele deu um pulo quando a porta foi fechada atrás dele e a tranca em itiu um estalo irritante que selava seu destino.
– Maj estade – disse o lorde cam arista Hoff com um a reverência –, m eus colegas e eu desej am os prim eiro lhe dar os parabéns por sua m erecida elevação ao trono. Todos sentim os que tem os no senhor um digno substituto do rei Guslav e estam os ansiosos para aconselhá-lo e cum prir suas ordens nos próxim os m eses e anos. – Fez outra reverência, e a seleção de velhos form idáveis bateu palm as de form a educada.
– Bom , obrigado a todos – disse Jezal, agradavelm ente surpreso, por m ais que não se sentisse um substituto digno de nada.
Talvez isso não fosse doer tanto quanto ele havia tem ido. Os velhos lobos pareciam bastante dom esticados.
– Por favor perm ita-m e fazer as apresentações – m urm urou Hoff. – Arquileitor Sult, chefe da Inquisição.
– É um a honra servi-lo, Maj estade.
– O j uiz suprem o Marovia, lorde-chefe das leis.
– Digo o m esm o, Maj estade. É um a honra.
– Acredito que o senhor j á conheça bem o lorde m arechal Varuz.
O velho soldado riu de orelha a orelha.
– Foi um privilégio treiná-lo no passado, Maj estade, e será um privilégio aconselhá-lo agora.
E continuaram assim , Jezal sorrindo e assentindo para cada hom em . Halleck, o lorde chanceler. Torlichorm , o cônsul suprem o. Reutzer, lorde alm irante da frota, e assim por diante. Por fim Hoff o guiou à cadeira alta na cabeceira e Jezal se sentou diante de um Conselho Fechado sorridente. Riu sem graça por um m om ento, depois percebeu o que faltava.
– Ah, por favor, sentem -se.
Os velhos obedeceram , dois deles com evidentes caretas de dor ao ranger dos j oelhos e estalar das costas. Bay az se deixou cair sem cuidado na cadeira ao pé da m esa, de frente para Jezal, com o se viesse ocupando-a por toda a vida. Mantos farfalharam acom panhando o rem exer de bundas velhas na m adeira polida e gradualm ente a sala ficou silenciosa com o um túm ulo. Um a cadeira estava vazia, ao lado de Varuz. Era onde o lorde m arechal Burr sentaria, se não estivesse encarregado do serviço no Norte. Se não estivesse m orto. Um a dúzia de velhos tenebrosos esperava educadam ente que Jezal falasse. Um a dúzia de velhos que ele pensara, até há m uito pouco tem po, representar o ápice do poder… e agora todos prestavam contas a ele. Um a situação que j am ais poderia ter im aginado, nem em seus sonhos m ais grandiosos. Pigarreou.
– Por favor, continuem , senhores. Tentarei acom panhá-los.
Hoff disparou um sorriso hum ilde.
– Claro, Maj estade. Se a qualquer m om ento precisar de um a explicação, basta pedir.
– Obrigado – disse Jezal. – Obrig…
A voz grossa de Halleck o interrom peu.
– Voltem os à questão da disciplina entre os cam poneses, portanto.
– Já preparam os concessões! – reagiu Sult com rispidez. – Concessões que os cam poneses ficaram felizes em aceitar.
– Um farrapo de bandagem para cobrir um ferim ento que está supurando! – retrucou Marovia. – É apenas questão de tem po até que a rebelião recom ece. O único m odo de evitarm os isso é dando ao hom em com um o que ele precisa. Não m ais do que é j usto! Devem os fazer com que participe do governo.
– Fazer com que participe! – zom bou Sult.
– Devem os transferir o fardo dos im postos para os proprietários de terras!
Os olhos de Halleck se viraram para o teto.
– Esse absurdo de novo, não.
– Nosso sistem a se m antém há séculos – rosnou Sult.
– Fracassa há séculos! – contra-atacou Marovia.
Jezal pigarreou e as cabeças dos velhos se viraram bruscam ente para olhá-lo.
– Será que cada hom em não poderia ser taxado na m esm a proporção de seus ganhos, independentem ente de ser cam ponês ou nobre… E então, talvez…
Ele deixou no ar. Tinha lhe parecido um a ideia bastante sim ples, m as agora todos os onze burocratas o encaravam , estupefatos, com o se um anim al dom éstico tivesse entrado sem perm issão na sala e decidido falar sobre o tem a dos im postos. Na outra ponta da m esa, Bay az exam inava as unhas em silêncio. Dali não viria aj uda.
– Ah, Maj estade – aventurou-se Torlichorm , em tom tranquilizador –, um sistem a assim seria quase im possível de adm inistrar – argum entou, depois piscou de um m odo que dizia: “Com o um a criatura tão ignorante com o o senhor consegue ao m enos se vestir?”
Jezal ficou verm elho até as pontas das orelhas.
– Com preendo.
– O tem a da taxação é im ensam ente com plexo – entoou Halleck e deu a Jezal um olhar de “É um assunto com plexo dem ais para entrar nessa sua cabeça”.
– Talvez fosse m elhor, Maj estade, se o senhor deixasse os detalhes tediosos para seus hum ildes servidores – propôs Marovia, com um sorriso com preensivo que traduzia suas palavras para: “Talvez fosse m elhor se o senhor ficasse de boca fechada e evitasse atrapalhar os adultos.”
– Claro. – Jezal recuou envergonhado em sua cadeira. – Claro.
E assim a coisa continuou à m edida que a m anhã se arrastava e as nesgas de luz que vinham das j anelas deslizavam devagar sobre os m ontes de papéis na m esa enorm e. Aos poucos Jezal com eçou a com preender as regras daquele j ogo. Era horrivelm ente com plexo e ao m esm o tem po horrivelm ente sim ples. Os j ogadores idosos estavam divididos em dois tim es. O arquileitor Sult e o j uiz suprem o Marovia eram os capitães e se enfrentavam de form a ferrenha em toda questão, por m ais irrelevante que fosse, cada qual com três seguidores, que concordavam com todas as palavras que eles diziam . Enquanto isso lorde Hoff, aj udado de m aneira nada eficaz pelo lorde m arechal Varuz, fazia o papel de j uiz e tentava criar pontes sobre a fenda intransponível entre as duas trincheiras.
O erro de Jezal não fora pensar que não saberia o que dizer – se bem que, claro, não sabia. Seu erro fora achar que alguém quereria que ele dissesse algum a coisa. Eles só se im portavam em continuar suas lutas infrutíferas. Talvez estivessem acostum ados a conduzir as questões de Estado com um im becil babão na cabeceira da m esa. Agora Jezal com preendia que nisso o viam com o um substituto à altura do antigo rei. Com eçou a se perguntar se estavam certos.
– Se Vossa Maj estade puder assinar aqui… e aqui… e aqui… e ali…
A pena rabiscava um papel depois do outro, as vozes velhas arengavam e iam em frente, e ficavam de birra um as com as outras. Os hom ens cinzentos sorriam , suspiravam e balançavam a cabeça com indulgência sem pre que ele falava, por isso ele falava cada vez m enos. Eles o pressionavam com elogios e o cegavam com explicações. Enrolavam -no por horas em leis, form ulários e tradições sem sentido. Ele foi se afrouxando cada vez m ais, afundando na cadeira desconfortável. Um serviçal trouxe vinho e ele bebeu. Ficou bêbado e entediado, depois m ais bêbado e entediado ainda. A cada m inuto lento que se estendia, Jezal com eçou a perceber: na prática, não havia nada tão indescritivelm ente chato quanto o poder.
– Agora um assunto triste – observou Hoff assim que a discussão m ais recente se reduziu a um m eio-term o relutante. – Nosso colega, o lorde m arechal Burr, m orreu. Seu corpo está voltando para nós, do Norte, e será enterrado com m áxim as honrarias. Mas enquanto isso é nosso dever recom endar um substituto. Será a prim eira cadeira a ser preenchida nesta sala desde a m orte do estim ado chanceler Feekt. Lorde m arechal Varuz – cham ou.
O velho soldado pigarreou e se encolheu com o se estivesse prestes a abrir um a com porta que poderia afogar todos eles.
– Há dois concorrentes óbvios para o posto. Am bos são hom ens de coragem e experiência inquestionáveis, cuj os m éritos são bem conhecidos deste conselho. Não tenho dúvida de que tanto o general Poulder quanto o general Kroy seriam …
– Não pode haver a m enor dúvida de que Poulder é o m elhor hom em ! – rosnou Sult, sendo im ediatam ente apoiado por Halleck.
– Pelo contrário! – sibilou Marovia, com m urm úrios furiosos de seu grupo. – Kroy é, com toda a clareza, a m elhor opção.
Essa era um a área em que, sendo um oficial com algum a experiência, Jezal acreditava poder ter algum valor, por m inúsculo que fosse, m as ninguém do Conselho Fechado parecia ao m enos pensar em pedir sua opinião. Ele se deixou afundar carrancudo na cadeira e tom ou outro gole de vinho de sua taça enquanto os velhos lobos continuavam a latir uns para os outros.
– Talvez devêssem os discutir este assunto m ais detidam ente em outra ocasião! – sugeriu lorde Hoff por cim a do debate cada vez m ais acalorado. – Sua Maj estade está ficando fatigado com os detalhes desta questão e não há urgência especial!
Sult e Marovia se entreolharam com raiva m as não falaram nada. Hoff soltou um suspiro de alívio.
– Muito bem . Nosso próxim o assunto tem a ver com o suprim ento de nosso exército em Angland. O coronel West escreve nos seus despachos…
– West? – falou Jezal, em pertigando-se rapidam ente, a voz enrouquecida de vinho.
Ouvir aquele nom e foi com o sais arom áticos para um a garota desm aiando, um a rocha sólida e confiável na qual se agarrar no m eio de todo aquele caos. Se ao m enos West estivesse ali agora, para aj udá-lo, as coisas fariam m uito m ais sentido… Jezal piscou para a cadeira que Burr havia deixado vazia perto de Varuz. Estava bêbado, talvez, m as era rei. Pigarreou com a garganta m olhada.
– O coronel West será o m eu lorde m arechal!
Houve um silêncio atônito. Os doze velhos ficaram encarando-o. Então Torlichorm deu um risinho indulgente, de um m odo que dizia: “Com o vam os fazê-lo se calar?”
– Maj estade, o coronel West é seu conhecido pessoal e é um hom em coraj oso, claro…
Parecia que todos os conselheiros finalm ente haviam encontrado um tem a com o qual poderiam concordar.
– Foi o prim eiro a atravessar a brecha em Ulrioch e coisa e tal – m urm urou Varuz, balançando a cabeça –, m as realm ente…
– Ele tem um posto inferior, é inexperiente e…
– É um plebeu – em endou Hoff, com as sobrancelhas erguidas.
– Esta é um a quebra inadequada da tradição – lam entou Halleck.
– Poulder seria m uito superior! – rosnou Sult para Marovia.
– Kroy é o hom em ! – vociferou Marovia em resposta.
Torlichorm deu um sorriso doce, do tipo que um a am a de leite usaria ao tentar acalm ar um bebê problem ático.
– Portanto vej a, Maj estade, não podem os considerar o coronel West com o…
A taça vazia de Jezal atingiu a testa de Torlichorm com um estalo e rolou até um canto da sala. O velho soltou um uivo de surpresa e dor e deslizou da cadeira, com o sangue escorrendo de um talho com prido.
– Não podem os? – gritou Jezal, de pé, os olhos saltados. – Você ousa m e dirigir a porra de um “não podem os”, seu velho idiota? Vocês obedecem a m im , todos vocês! – Seu dedo feriu o ar furiosam ente. – Estão aqui para m e aconselhar, não para m e dar ordens! Eu governo aqui! Eu!
Ele pegou o tinteiro e j ogou-o pela sala. O vidro estourou contra um a parede, espalhando um a enorm e m ancha preta no reboco e suj ando de pintas pretas a m anga do im pecável casaco branco do arquileitor Sult.
– Eu! Eu! A tradição de que precisam os aqui é a da porra da obediência! – Ele agarrou um m aço de docum entos e o j ogou na direção de Marovia, enchendo o ar com papéis. – Nunca m ais m e venham com “não podem os”! Nunca!
Onze pares de olhos atarantados encaravam Jezal. Um par sorria, na ponta da m esa. Isso o deixou com m ais raiva do que nunca.
– Collem West será m eu novo lorde m arechal! – berrou e chutou sua cadeira, em fúria. – Na próxim a reunião, eu serei tratado com o devido respeito ou m andarei acorrentar todos vocês! Acorrentar, porra… e… e…
Sua cabeça doía agora, m uito, e ele havia j ogado longe tudo o que estivera ao alcance e com eçava a ficar desesperadam ente inseguro quanto ao que fazer.
Bay az se levantou, sério.
– Senhores, por hoj e é só.
O Conselho Fechado não precisou de m ais encoraj am ento. Papéis se agitaram , m antos farfalharam , cadeiras foram arrastadas e cada qual se apressou para ser o prim eiro a sair da sala. Hoff chegou ao corredor. Marovia foi logo atrás e Sult o seguiu a passos largos. Varuz aj udou Torlichorm a se levantar do chão e o guiou pelo cotovelo.
– Peço desculpas – ia chiando ele ao ser arrastado, de rosto ensanguentado, pela porta. – Maj estade, peço profusas desculpas…
Bay az ficou parado, sério, j unto à ponta da m esa, olhando os conselheiros saírem correndo da sala. Jezal estava do lado oposto, im obilizado em algum ponto entre m ais raiva ainda e o em baraço m oral, m as tendendo cada vez m ais para a segunda opção. Pareceu dem orar um a eternidade para que o últim o m em bro do Conselho Fechado escapasse da sala e as grandes portas pretas se fechassem .
O Prim eiro dos Magos se virou para Jezal com um sorriso largo.
– Maravilhosam ente feito, Maj estade, m aravilhosam ente feito.
– O quê?
Jezal tinha certeza de que havia bancado o im becil num nível do qual j am ais poderia se recuperar.
– Seus conselheiros vão pensar duas vezes antes de não o levarem a sério, eu creio. Não é um a estratégia nova, m as nem por isso é m enos eficaz. Harod, o Grande, tam bém possuía um tem peram ento tem ível, e fazia excelente uso dele. Depois de um dos seus chiliques, ninguém ousava questionar suas decisões durante sem anas. – Bay az deu um risinho. – Mas suspeito que até m esm o Harod hesitaria antes de causar um ferim ento em seu próprio cônsul suprem o.
– Não foi um chilique! – rosnou Jezal, com o tem peram ento se acendendo de novo. Se ele fora atorm entado por velhos horríveis, o próprio Bay az era o pior culpado, de longe. – Se eu sou rei, serei tratado com o rei! Recuso-m e a receber ordens em m eu próprio palácio! De ninguém … de… quero dizer…
Bay az o encarava irritado, os olhos verdes assustadoram ente frios, e falou com um a calm a gélida:
– Se tem intenção de perder as estribeiras com igo, Maj estade, eu o aconselharia enfaticam ente a não fazê-lo.
A fúria de Jezal j á se esvaía e, sob o olhar gélido do m ago, secou de vez.
– Claro… desculpe… desculpe m esm o.
Fechou os olhos e olhou atordoado para o tam po brilhante da m esa. Não estava acostum ado a pedir desculpas. Agora que era rei e que não precisava se desculpar, nunca parava.
– Eu não pedi isso – m urm urou debilm ente, deixando-se cair na cadeira. – Não sei com o aconteceu. Não fiz nada para m erecer.
– Claro que não. – Bay az rodeou a m esa devagar. – Nenhum hom em j am ais pode m erecer o trono. É por isso que agora você deve lutar para ser digno dele. Todo dia. Assim com o seus grandes predecessores: Casam ir, Arnault, o próprio Harod.
Jezal respirou fundo e deixou o ar sair pela boca.
– Você está certo, claro. Com o consegue estar sem pre certo?
Bay az levantou a m ão, hum ilde.
– Sem pre certo? Dificilm ente. Mas tenho o benefício da longa experiência e estou aqui para orientá-lo do m elhor m odo que puder. Você com eçou m uito bem , num a estrada difícil, e deveria estar orgulhoso, com o eu estou. Mas existem alguns passos que não podem os adiar. O principal é o seu casam ento.
Jezal ficou boquiaberto.
– Casam ento?
– Um rei solteiro é com o um a cadeira com três pernas, Maj estade. Pode cair. O seu traseiro apenas tocou o trono, e não está nem um pouco acom odado nele. Precisa de um a esposa que lhe traga apoio e precisa de herdeiros para que seus súditos possam se sentir seguros. Quanto m ais dem orar para resolver isso, m ais oportunidades seus inim igos terão de tram ar contra você.
Os golpes vieram tão depressa que Jezal precisou segurar a cabeça para im pedir que ela se despedaçasse.
– Meus inim igos?
Ele não havia tentado sem pre se dar bem com todo m undo?
– Será que pode ser tão ingênuo assim ? Sem dúvida lorde Brock j á está tram ando algo. Lorde Isher não será detido para sem pre. Outros no Conselho Aberto o apoiaram por m edo ou foram pagos para isso.
– Pagos? – ofegou Jezal.
– Esse tipo de apoio não dura para sem pre. Você deve se casar e sua esposa deve lhe trazer aliados poderosos.
– Mas eu tenho… – Jezal lam beu os lábios, sem saber com o abordar o assunto. –… alguns com prom issos… nesse sentido.
– Ardee West?
Jezal abriu a boca para perguntar com o Bay az sabia tanto sobre suas com plicações rom ânticas, m as logo decidiu não fazer isso. O velho parecia saber m uito m ais a seu respeito do que ele m esm o, afinal de contas.
– Sei com o é, Jezal. Eu tive um a longa vida. Claro que você a am a. Claro que agora você abriria m ão de tudo por ela. Mas, confie em m im , esse sentim ento não vai durar.
Jezal se rem exeu, desconfortável. Tentou im aginar o sorriso torto de Ardee, a suavidade de seu cabelo, o som de sua risada. O m odo com o isso lhe dera tanto conforto, lá na planície. Mas era difícil pensar nela agora sem se lem brar dos dentes se cravando em seu lábio, do rosto ardendo com o tapa dado por ela, do som da m esa rangendo ao m ovim ento deles. A vergonha, a culpa e a com plexidade.
– É natural que tenha assum ido com prom issos, m as sua vida passada se foi e seus com prom issos se foram com ela – continuou Bay az, a voz im piedosam ente calm a, brutalm ente realista, im placavelm ente racional. – Você é rei agora, e seu povo exige que se com porte com o tal. Ele precisa de algo para adm irar. Algo que estej a acim a deles sem nenhum esforço. Estam os falando da rainha suprem a da União. De um a m ãe de reis. Um a filha de fazendeiro de com portam ento im previsível e com um a queda para a bebida? Acho que não.
Jezal se encolheu ao ouvir Ardee descrita daquele m odo, m as não podia questionar.
– Você é o filho natural de um rei. Um a esposa de origem im pecável daria um peso m uito m aior à sua linhagem . Um respeito m uito m aior. Existe um m undo cheio de m ulheres possíveis, m aj estade, filhas de duques, irm ãs de reis, todas lindas e cultas. Um m undo de princesas para escolher.
Jezal sentiu as sobrancelhas subirem . Ele am ava Ardee, claro, m as Bay az tinha argum entos devastadores. Agora havia m uito m ais a levar em conta, além de suas necessidades. Se pensar em si m esm o com o rei era absurdo, pensar em Ardee com o rainha era triplam ente absurdo. Ele a am ava, claro. De certa form a. Mas um m undo de princesas para escolher? Essa era um a frase na qual era decididam ente difícil achar um problem a.
– Você com preendeu! – disse o Prim eiro dos Magos e estalou os dedos em triunfo. – Vou m andar avisar ao duque Orso, de Talins, que sua filha Terez deve ser apresentada a você. – Ergueu a m ão para acalm á-lo. – Só para com eçar. Talins seria um aliado poderoso – explicou, depois sorriu e se inclinou para m urm urar no ouvido de Jezal: – Mas não precisa deixar tudo para trás, se está realm ente ligado a essa j ovem . Os reis costum am ter am antes, com o sabe.
E isso, claro, decidiu a questão.