O duelo dos reis
Despertar violento
JEZAL ESTAVA SORRINDO quando com eçou a acordar. Aquela m issão m aluca tinha acabado e logo ele estaria de volta a Adua. De volta aos braços de Ardee. Quente e em segurança. Aninhou-se nos cobertores enquanto pensava nisso. Depois franziu a testa. Ouviu um som de batidas na porta vindo de algum lugar. Abriu um pouco os olhos. Alguém sibilou para ele do outro lado do quarto e ele virou a cabeça.
Viu o rosto de Terez, pálido no escuro, olhando, irritada, por entre as cortinas da cam a, e as últim as sem anas lhe voltaram num j orro terrível. Terez tinha as m esm as feições do dia em que se casaram , sem dúvida, m as agora o rosto perfeito de sua rainha parecia feio e odioso.
O quarto real havia se tornado um cam po de batalha. A fronteira, observada com determ inação férrea, era um a linha invisível entre a porta e a lareira, que Jezal atravessava correndo perigo. O outro lado do quarto era território estiriano, e a cam a portentosa era a cidadela m ais fortificada de Terez, com as defesas aparentem ente inexpugnáveis. Na segunda noite do casam ento, talvez esperando que tivesse havido algum m al-entendido na prim eira, m esm o sem m uito em penho, ele m ontara um ataque, m as saíra dele de nariz sangrando. Desde então, sem esperança, tinha se assentado para um cerco longo e infrutífero.
Terez era o fingim ento em pessoa. Ele dorm ia no chão, ou em algum m óvel, j am ais por tem po suficiente, ou onde ele quisesse, desde que não fosse com ela. Então, ao desj ej um , ela sorria para ele e falava sobre nada, às vezes até colocava a m ão sobre a dele, com carinho, quando sabia que estavam sendo observados. Ocasionalm ente até fazia com que ele acreditasse que tudo estava bem , m as, assim que ficavam sozinhos, ela lhe dava as costas e o golpeava com silêncio, esfaqueava-o com olhares de tam anho escárnio e noj o épicos que ele sentia vontade de vom itar.
As dam as de com panhia se com portavam com pouco m enos desprezo com relação a ele, sem pre que Jezal tinha o infortúnio de se encontrar em sua presença cheia de sussurros. Um a, em particular, a condessa Shalere, que devia ser a a am iga m ais íntim a da esposa desde que eram bem pequenas, o olhava sem pre com ódio assassino. Num a ocasião ele havia entrado abruptam ente no salão onde as doze estavam sentadas ao redor de Terez, m urm urando em estiriano. Ele se sentira com o um m enino cam ponês esbarrando num a assem bleia de bruxas extrem am ente bem -arrum adas, todas entoando algum a m aldição som bria. Contra ele, era provável. Era levado a sentir-se o m ais baixo e m ais repulsivo anim al vivo. E ele era o rei e estava no próprio palácio.
Por algum m otivo inexplicável, ele vivia horrorizado de que alguém percebesse a verdade, m as, se algum serviçal notava, não dava sinal disso. Im aginava se deveria contar a alguém , m as a quem ? E o quê? Lorde cam arista, bom dia. Minha esposa se recusa a trepar com igo. Em inência, que prazer em vê-lo. Minha esposa nem olha para m im . Juiz suprem o, com o vai? A propósito, a rainha m e despreza. Acim a de tudo tem ia contar a Bay az. Ele havia explicitam ente alertado o m ago para que se afastasse de seus assuntos pessoais, e agora não podia rastej ar pedindo aj uda.
Assim , ele levava a falsa história adiante, arrasado e confuso, e, a cada dia em que fingia a felicidade conj ugal, ficava m ais e m ais im possível enxergar um a saída. Tinha a vida inteira pela frente – sem am or, sem am igos e dorm indo no chão.
– E então? – sibilou Terez.
– E então o quê? – rosnou ele em resposta.
– A porta!
Com o se aproveitasse a deixa, houve um a batida na porta que a fez sacudir.
– Nada de bom j am ais vem de Talins – sussurrou Jezal baixinho enquanto j ogava longe as cobertas e lutava para se levantar do tapete.
Foi cam baleando com raiva pelo quarto e virou a chave na fechadura.
Gorst estava no corredor, com arm adura com pleta, espada desem bainhada e um a lanterna na m ão. A luz batia num a das faces do rosto pesado e preocupado. De algum lugar no corredor veio o som de passos ecoando, de gritos confusos, o trem eluzir de lam piões distantes. Jezal franziu a testa, subitam ente desperto. Não estava gostando daquilo.
– Maj estade – disse Gorst.
– Que diabo está acontecendo?
– Os gurkenses invadiram a Terra do Meio.
Os olhos de Ferro se abriram bruscam ente. Ela saltou do banco, os pés plantados bem separados, num a postura de luta, segurando com força a perna de m esa que arrancara. Xingou baixinho. Tinha caído no sono, e nada de bom acontecia quando ela dorm ia. Mas não havia ninguém no côm odo.
Estava tudo escuro e silencioso.
Nenhum sinal do aleij ado nem de seus serviçais m ascarados. Nenhum sinal dos guardas com arm aduras que a observavam com os olhos estreitados sem pre que ela dava um passo pelos corredores ladrilhados do m aldito lugar. Apenas um a m inúscula réstia de luz por baixo da porta que levava ao quarto de Bay az. Isso e um m urm úrio de vozes. Franziu a testa e foi até lá, aj oelhando-se em silêncio diante do buraco da fechadura.
– Onde eles desem barcaram ? – perguntou Bay az, a voz abafada através da m adeira.
– Os prim eiros barcos chegaram no crepúsculo cinzento, nas praias vazias da ponta sul da Terra do Meio, perto de Keln.
Era Yulwei. Ferro sentiu um arrepio, a respiração saindo rápida e fria pelas narinas.
– Vocês estão preparados?
Bay az bufou.
– Não poderíam os estar m enos preparados. Eu não esperava que Khalul agisse tão cedo, ou tão de repente. Então eles desem barcaram à noite? Sem alarde. Lorde Brock não os viu chegar?
– Acho que ele viu bem dem ais e até os recebeu, seguindo algum acordo prévio. Sem dúvida o trono da União foi prom etido a ele, assim que os gurkenses esm agassem toda a resistência e enforcassem o seu bastardo nos portões do Agriont. Ele será o rei, suj eito ao poder de Uthm an-ul-Dosht, claro.
– Traição.
– De um tipo pouco notável. Não deveria chocar gente com o nós, hein, irm ão? Já vim os coisa pior, acho, e talvez tam bém tenham os feito coisa pior.
– Algum as coisas precisam ser feitas.
Ela ouviu Yulwei suspirar.
– Nunca neguei isso.
– Quantos gurkenses?
– Eles nunca vêm de um em um nem de dois em dois. Cinco legiões, talvez, até agora, m as são apenas a prim eira leva. Muitos outros estão a cam inho. Milhares. Todo o Sul se m ove para a guerra.
– Khalul está com eles?
– Por que estaria? Ele perm anece em Sarkant, em seus j ardins ensolarados nas m ontanhas, e espera notícias da sua destruição. Mam un os lidera. O fruto do deserto, três vezes abençoado e três vezes…
– Sei de que nom es ele se cham a, aquele verm e arrogante!
– Independentem ente de com o se cham e, ele está ficando forte, e os Cem Palavras estão com ele. Estão aqui por sua causa, irm ão. Vieram . Se eu fosse você, iria para longe. Para o Norte frio, enquanto ainda há tem po.
– E depois fazer o quê? Eles não vão m e seguir? Devo fugir para a borda do Mundo? Eu estive lá, não faz m uito tem po, e não é um lugar m uito agradável. Ainda tenho algum as cartas na m anga.
Um a longa pausa.
– Você encontrou a Sem ente?
– Não.
Outra pausa.
– Não lam ento. Mexer com aquelas forças… distorcer a Prim eira Lei, se não violá-la. A últim a vez em que aquela coisa foi usada causou a ruína de Aulcus e praticam ente do m undo inteiro. É m elhor que continue enterrada.
– Mesm o que nossas esperanças sej am enterradas j unto?
– Há coisas m ais im portantes em risco do que m inhas esperanças ou as suas.
Ferro não ligava a m ínim a para as esperanças de Bay az – ou as de Yulwei, por sinal. Os dois a haviam enganado. Ela estava farta de suas m entiras, seus segredos e suas prom essas. Não tinha feito nada além de falar, esperar e falar de novo por tem po de m ais. Levantou-se, ergueu a perna e soltou um grito de guerra. Seu calcanhar acertou a fechadura e a arrancou do portal, abrindo a porta com violência. Os dois velhos estavam sentados a um a m esa ali perto, com um único lam pião lançando luz sobre o rosto escuro e o pálido. Um a terceira pessoa estava sentada nas som bras do canto distante. Quai, silencioso e afundado na escuridão.
– Você não poderia ter batido? – perguntou Bay az.
O sorriso de Yulwei era um a curva lum inosa em sua pele escura.
– Ferro! Que bom ver você ainda…
– Quando os gurkenses vão chegar?
O sorriso dele sum iu e ele deu um longo suspiro.
– Vej o que você não aprendeu a ter paciência.
– Aprendi, depois fiquei sem nenhum a. Quando eles vão chegar?
– Logo. Os batedores j á estão se m ovendo pelo interior da Terra do Meio, tom ando os povoados e sitiando as fortalezas, tornando o país seguro para o resto que virá atrás.
– Alguém deveria im pedir – m urm urou Ferro, com as unhas cravadas nas palm as das m ãos.
Bay az se recostou na cadeira, as som bras j untando-se em seu rosto severo.
– Tirou as palavras da m inha boca. Sua sorte m udou, hein, Ferro? Eu lhe prom eti vingança, e agora ela cai, m adura e sangrenta, no seu colo. O exército de Uthm an desem barcou. Milhares de gurkenses, prontos para a guerra. Podem estar às portas da cidade em duas sem anas.
– Duas sem anas – sussurrou Ferro.
– Mas não tenho dúvida de que alguns soldados da União vão sair para recebê-los antes disso. Posso arranj ar um lugar para você j unto deles, se não puder esperar.
Ela havia esperado o suficiente. Milhares de gurkenses, prontos para a guerra. O sorriso repuxou um canto da boca de Ferro, depois cresceu e cresceu, até que suas bochechas com eçaram a doer.