O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 51 de 61

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O duelo dos reis

Os feridos

 

WEST ACORDOU COM um susto e tentou sentar-se. A dor disparou por um a perna, atravessou o peito, o braço direito e ficou ali, latej ando. Ele tom bou de volta com um gem ido e olhou para o teto. Um teto de pedra em abóbada, coberto por som bras densas.

Agora sons se esgueiravam até ele, vindos de toda a volta. Grunhidos e gem idos, tosses e soluços, respirações ofegantes, resm ungos lentos. Um berro ocasional de dor. Sons algo hum anos, algo anim alescos. Um a voz gutural sussurrava em algum lugar à esquerda, arengando sem fim , com o um rato raspando as paredes.

– Não consigo enxergar. Vento desgraçado. Não consigo enxergar. Onde estou? Alguém . Não consigo enxergar.

West engoliu em seco, sentindo que a dor piorava. Tinha ouvido sons assim nos hospitais de Gurkhul, quando fora visitar soldados feridos de sua com panhia. Lem brava-se do fedor e do barulho daquelas tendas horríveis, do sofrim ento dos hom ens dentro delas e, acim a de tudo, do desej o avassalador de ir em bora e ficar entre os saudáveis. Mas j á estava m edonham ente claro que desta vez não seria tão fácil.

Ele era um dos feridos. Um a espécie diferente, desprezível e noj enta. O horror se esgueirou por seu corpo e se m isturou à dor. Qual era o grau de seus ferim entos? Ainda tinha todos os m em bros? Tentou m exer os dedos das m ãos, dos pés. Trincou os dentes quando a dor no braço e na perna piorou. Levou a m ão esquerda, trêm ula, diante do rosto, virou-a na penum bra. Parecia intacta, ao m enos, m as era o único m em bro que ele conseguia m exer, e m esm o isso exigia um esforço esm agador. O pânico subiu pela garganta e a deixou apertada.

– Onde estou? Vento desgraçado. Não consigo enxergar. Socorro. Socorro. Onde estou?

– Cala a boca, porra! – gritou West, m as as palavras m orreram na garganta. Tudo o que saiu foi um a tosse oca que pôs fogo nas costelas outra vez.

– Shhhh. – Um toque suave no peito. – Fique parado.

Um rosto surgiu, turvo e oscilante. Um rosto de m ulher, pensou ele, de cabelos claros, m as era difícil focalizar. Fechou os olhos e parou de tentar. Isso não parecia im portar m uito. Sentiu algo encostando nos lábios, o gargalo de um a garrafa. Bebeu rápido dem ais, tossiu e sentiu a água fria escorrendo pelo pescoço.

– O que aconteceu? – grasnou.

– O senhor foi ferido.

– Eu sei. Quero dizer… na cidade. O vento.

– Não sei. Acho que ninguém sabe.

– Nós vencem os?

– Acho que… os gurkenses foram expulsos, sim . Mas há m uitos feridos. Muitos m ortos.

Outro gole d’água. Desta vez ele conseguiu beber sem engasgar. Abriu os olhos.

– Quem é você?

– Meu nom e é Ariss. Ariss dan Kaspa.

– Ariss… – West procurou o nom e na m ente. – Eu conheci seu prim o. Conheci bem … Era um hom em bom . Costum ava falar sobre… com o você era linda. E rica – m urm urou, vagam ente consciente de que não deveria estar dizendo isso, m as incapaz de im pedir que a boca se m exesse. – Muito rica. Ele m orreu. Nas m ontanhas.

– Eu sei.

– O que você está fazendo aqui?

– Tentando aj udar os feridos. Seria m elhor se o senhor dorm isse agora, se…

– Estou inteiro?

Um a pausa.

– Está. Agora durm a, se puder.

O rosto dela ficou turvo e West deixou os olhos se fecharem . Os sons de agonia foram dim inuindo ao redor. Ele estava inteiro. Tudo ficaria bem .

 

Alguém estava sentado ao lado de sua cam a. Ardee. Sua irm ã. Ele piscou e rem exeu a boca azeda, por um m om ento sem saber onde estava.

– Estou sonhando?

Ela estendeu a m ão e cravou as unhas no braço dele.

– Ah!

– Sonho doloroso, hein?

– Não, isso é real – ele foi obrigado a adm itir.

Ela parecia estar bem . Muito m elhor do que na últim a vez em que a vira, isso era certo. Para com eçar, não tinha sangue no rosto. Nem expressão de ódio. Apenas a testa franzida e pensativa. Ele tentou se sentar, não conseguiu e se deixou cair de volta. Ela não ofereceu aj uda. Ele não havia esperado que ela aj udasse.

– Está m uito ruim ? – perguntou ele.

– Parece que não é nada sério. Um braço quebrado, algum as costelas quebradas e um a perna m uito m achucada, pelo que disseram . Alguns cortes no rosto que podem deixar um a ou duas cicatrizes, m as, de qualquer m odo, toda a beleza da fam ília ficou para m im .

Ele riu, fungando, e se encolheu com a dor no peito.

– Verdade. A inteligência tam bém .

– Não se sinta m al com isso. Eu usei essas coisas para obter esse sucesso gigantesco que tenho na vida. É o tipo de feito com que você, com o lorde m arechal da União, só pode sonhar.

– Pare de m e fazer rir – sibilou ele, com a m ão boa nas costelas. – Dói.

– Não m enos do que você m erece.

O riso dele parou logo, entrecortado, e os dois ficaram em silêncio um m om ento, encarando-se. Até isso era difícil.

– Ardee… – A voz dele ficou presa na garganta dolorida. – Você pode… m e perdoar?

– Já perdoei. Na prim eira vez que ouvi dizer que você estava m orto.

Ela tentava sorrir, dava para ver. Mas ainda tinha aquele esgar de raiva na boca. Provavelm ente gostaria de cravar as unhas no rosto dele, em vez de no braço. Ele ficou quase feliz, então, por um m om ento, porque estava ferido. Ela não tinha opção, além de ser branda com ele.

– É bom que você não estej a. Quero dizer, m orto… – Franziu a testa por cim a do om bro. Havia algum a agitação na outra ponta do porão com prido. Vozes exaltadas, som de passos com arm aduras.

– O rei! – Alguém ali perto guinchou, em polgado. – O rei veio de novo!

Nas cam as ao redor, hom ens viraram a cabeça, apoiaram -se nos braços. Um a em polgação nervosa se espalhou de catre em catre.

– O rei? – sussurravam , rostos ansiosos e cheios de expectativa, com o se fossem privilegiados por testem unhar um a visita divina.

Várias figuras se m oviam pelas som bras na outra extrem idade do porão. West se esforçou para olhar, m as conseguiu ver pouco m ais do que m etal brilhando na escuridão. A silhueta m ais à frente do grupo parou ao lado de um hom em ferido, a algum as cam as de distância.

– Estão cuidando bem de você?

Era um a voz estranham ente fam iliar, estranham ente diferente.

– Sim , senhor.

– Precisa de algum a coisa?

– Um beij o de um a boa m ulher?

– Eu adoraria lhe dar isso, m as acho que sou só o rei. Nós som os m uitíssim o m ais com uns do que as boas m ulheres.

Hom ens riram , m esm o isso não sendo engraçado. West im aginou que as pessoas rirem de suas piadas ruins era um a vantagem de ser m onarca.

– Mais algum a coisa?

– Talvez… talvez outro cobertor, senhor. Faz frio aqui em baixo, à noite.

– Claro.

A figura apontou o polegar para um hom em que vinha atrás. Era lorde Hoff, percebeu West, seguindo a um a distância respeitosa.

– Outro cobertor para cada hom em aqui.

O lorde cam arista, aquele tem ível flagelo da câm ara de audiências, assentiu com hum ildade com o um a criança afável. O rei se levantou e ficou visível.

Era Jezal dan Luthar, claro, no entanto era difícil crer que fosse o m esm o hom em , e não só por causa do rico m anto de pele e do aro de ouro na cabeça. Ele parecia m ais alto. Ainda bonito, m as não m ais j uvenil. Um a cicatriz funda no queixo barbudo lhe dava um ar de força. O riso arrogante havia se tornado um a séria expressão de com ando. O passo despreocupado se transform ara em um cam inhar obj etivo. Ele seguiu lentam ente pelo corredor entre as m acas, falando com cada hom em , apertando m ãos, agradecendo, prom etendo aj uda. Ninguém foi deixado de lado.

– Viva o rei! – gorgolej ou alguém com os dentes trincados.

– Não! Não. Os vivas devem ser para vocês, bravos am igos! Foram vocês que fizeram sacrifícios em m eu nom e. Eu lhes devo tudo. Só com sua aj uda os gurkenses foram derrotados. Só com sua aj uda a União foi salva. Eu não esqueço um a dívida, isso garanto!

West ficou olhando. Quem quer que fosse aquela estranha aparição tão parecida com Jezal dan Luthar, falava com o um m onarca. West quase sentiu um desej o absurdo de se arrastar da m aca e se aj oelhar. Um ferido tentou fazer exatam ente isso quando o rei passou pela sua cam a. Jezal o conteve com a m ão gentil no peito, sorriu e deu um tapinha no seu om bro com o se tivesse oferecido socorro aos feridos a vida toda em vez de se em bebedar em buracos horríveis com outros oficiais e reclam ar das tarefas que recebia.

Ele chegou perto e viu West deitado ali. Seu rosto se ilum inou, apesar de faltar um dente no sorriso.

– Collem West! – disse ele, chegando perto. – Posso dizer, com toda a honestidade, que nunca na vida fiquei tão feliz em ver seu rosto.

– É… – West m exeu a boca um pouco, m as não sabia o que dizer.

Jezal se virou para sua irm ã.

– Ardee… espero que você estej a bem .

– Estou.

Ela não disse m ais nada. Os dois se entreolharam por um m om ento longo e intensam ente incôm odo, sem falar.

Lorde Hoff franziu a testa para o rei, depois para West, em seguida para Ardee. Ele conseguiu se insinuar um tanto entre os dois.

– Maj estade, deveríam os…

Jezal o silenciou sem esforço, levantando a m ão.

– Espero que se j unte logo a m im no Conselho Fechado, West. Na verdade, preciso de um rosto am igável lá. Para não m encionar os bons conselhos. Você sem pre foi um a m ina de bons conselhos. Nunca agradeci por isso. Bom , agora posso agradecer.

– Jezal… quero dizer, Maj estade…

– Não, não. Para você serei sem pre Jezal, espero. Você terá aposentos no palácio, claro. Terá o cirurgião real. Tudo que for possível. Cuide disso, por favor, Hoff.

O lorde cam arista fez um a reverência.

– Claro. Tudo será providenciado.

– Bom . Bom . Fico feliz por você estar bem , West. Não posso m e dar ao luxo de perdê-lo.

O rei m enou a cabeça para ele e para sua irm ã. Depois virou e foi em frente, apertando m ãos, dizendo palavras suaves. Um poço de esperança parecia cercá-lo à m edida que passava. O desespero retornava atrás. Sorrisos sum iam quando ele se afastava. Hom ens tom bavam de volta nas m acas, os rostos se nublando de dor.

– A responsabilidade parece tê-lo m elhorado – m urm urou West. – Quase nem se pode reconhecê-lo.

– Quanto tem po você acha que isso vai durar?

– Quero acreditar que dure para sem pre. Mas, afinal de contas, sem pre fui otim ista.

– Isso é bom . – Ardee olhou o m agnífico novo rei da União se afastar, com hom ens feridos esforçando-se nas m acas para conseguir um toque levíssim o em sua capa. – É bom que um de nós possa ser.

 

– Marechal West!

– Jalenhorm . Que bom vê-lo.

West em purrou os cobertores com a m ão boa, passou as pernas pela beira da cam a e sentou-se com um a pontada de dor. O grandalhão o cum prim entou com um aperto de m ão e um tapa no om bro.

– O senhor está com boa aparência!

West deu um leve sorriso.

– Melhorando a cada dia, m aj or. Com o está o m eu exército?

– Esforçando-se sem o senhor. Kroy está segurando as pontas. Não é m au suj eito, o general, quando a gente se acostum a com ele.

– Se você diz. Quantos hom ens nós perdem os?

– Ainda é difícil dizer. As coisas estão m eio caóticas. Com panhias inteiras sum iram . Unidades im provisadas continuam perseguindo os gurkenses desgarrados por m etade do país. Acho que por enquanto não terem os os núm eros. Não sei se algum dia irem os tê-los. Ninguém se saiu bem , m as o nono regim ento é que estava lutando no lim ite oeste do Agriont. Eles receberam o pior do… – Ele procurou a palavra. –… da coisa.

West fez um a careta. Lem brava-se daquela coluna preta de m atéria em redem oinho indo da terra torturada até as nuvens. Os escom bros batendo na sua pele, o grito do vento ao redor.

– O que foi… a coisa?

– Não faço a m ínim a ideia. – Jalenhorm balançou a cabeça. – Não creio que alguém saiba. Mas o boato é que o tal de Bay az estava envolvido, de algum m odo. Metade do Agriont está em ruínas, e m al com eçaram a tirar os destroços. O senhor nunca viu nada igual, garanto. Muita gente m orta. Corpos em pilhados ao ar livre…

Jalenhorm respirou fundo.

– E há m ais gente m orrendo a cada dia. Muita gente adoecendo – falou com um trem or. – Um a tal… doença.

– Doença. Sem pre faz parte da guerra.

– Assim , não. Agora são centenas de casos. Alguns m orrem em um dia, quase diante dos nossos olhos. Outros dem oram m ais. Eles definham até só restar pele e osso. Mas não se preocupe com isso – concluiu. – Preciso ir.

– Já?

– É só um a visita rápida, senhor. Estou aj udando a organizar o enterro de Poulder, dá para acreditar? Ele vai ser enterrado com honras de Estado, por ordem do rei… Quer dizer, do Jezal. Jezal dan Luthar – Jalenhorm falou estufando as bochechas. – Que negócio estranho.

– Muito estranho.

– Todo aquele tem po, um rei sentado j unto com a gente. Eu sabia que havia um m otivo para ele ser tão bom com as cartas.

Jalenhorm deu um tapa nas costas de West outra vez.

– É bom vê-lo tão bem , senhor. Sabia que não poderiam m antê-lo de m olho por m uito tem po!

– Fique longe de encrenca – gritou West enquanto ele se afastava.

– Sem pre! – respondeu o grandalhão rindo ao fechar a porta.

West pegou sua bengala ao lado da cam a, trincando os dentes ao se levantar. Foi m ancando pela vastidão de ladrilhos xadrez até a j anela, um passo doloroso de cada vez, e parou, piscando, ao sol da m anhã.

Olhando para o j ardim do palácio, era difícil acreditar que houvera algum a guerra, que havia quilôm etros de ruínas e m ontes de m ortos. Os gram ados estavam bem aparados, o cascalho, bem varrido. As últim as folhas m arrons tinham caído das árvores, deixando a m adeira lisa preta e nua.

Era outono quando ele partira para Angland. Será que teria sido m esm o apenas um ano antes? Sobrevivera a quatro grandes batalhas, um cerco, um a em boscada, um a confusão sangrenta. Testem unhara um duelo até a m orte. Estivera no centro de grandes acontecim entos. Sobrevivera a um a cam inhada de centenas de quilôm etros através do terrível inverno de Angland. Encontrara novos com panheiros em locais im prováveis e vira am igos serem m ortos diante dos olhos. Burr, Kaspa, Cathil, Três Árvores, todos de volta à lam a, com o diziam os nórdicos. Encarara a m orte e tam bém m atara. Mexeu o braço dolorido na tipoia com desconforto. Havia assassinado o herdeiro do trono da União. Havia ascendido, por um golpe do acaso que beirava o im possível, a um dos postos m ais elevados da nação.

Ano m ovim entado.

E agora estava no fim . Um a espécie de paz. A cidade se achava em ruínas e cada hom em precisava fazer sua parte, m as ele m erecia um descanso. Decerto ninguém questionaria isso. Talvez pudesse insistir que Ariss dan Kaspa cuidasse dele. Um a enferm eira rica e linda parecia exatam ente a coisa da qual necessitava…

– Você não deveria se levantar.

Ardee estava j unto à porta.

Ele riu. Era bom vê-la. Os dois haviam estado próxim os nos últim os dias. Quase com o antigam ente, quando eram crianças.

– Não se preocupe. Estou ficando m ais forte a cada dia.

Ela foi até a j anela.

– Ah, é, em algum as sem anas você vai estar forte feito um a m enininha. Volte para a cam a.

Ela passou um braço em baixo do dele, tirou a bengala de sua m ão e com eçou a guiá-lo de volta pelo quarto. West não ofereceu resistência. Para ser honesto, com eçava a sentir-se cansado.

– Não vam os nos arriscar – disse ela. – Você é tudo o que eu tenho, lam ento dizer. A não ser que a gente conte com aquele outro inválido, m eu bom am igo Sand dan Glokta.

West quase engasgou com um a gargalhada.

– Essa am izade vingou?

– O suj eito é desprezível, claro, de certa form a. Aterrorizante e digno de pena ao m esm o tem po. E no entanto… com o não tenho m ais ninguém com quem conversar, m e descobri estranham ente gostando dele.

– Hum . Antes ele era desprezível de um m odo diferente. Nunca tive certeza de por que eu gostava dele na época. Mas gostava. Acho que não existe…

West sentiu um a súbita onda de náusea apertar suas entranhas, tropeçou e quase caiu. Afundou na cam a, a perna rígida estendida à frente do corpo. Sua visão ficou turva, a cabeça girava. Levou as m ãos ao rosto, os dentes trincados, enquanto a saliva se j untava na boca. Sentiu o toque de Ardee em seu om bro.

– Você está bem ?

– Ah, estou, é só… Tenho tido uns ataques de enj oo.

A sensação j á estava passando. Ele esfregou as têm poras doloridas, depois a nuca. Levantou a cabeça e sorriu para ela de novo.

– Tenho certeza de que não é nada.

– Collem …

Havia fios de cabelo entre seus dedos. Muitos fios. Dele m esm o, pela cor. West piscou olhando aquilo, perplexo, depois tossiu com um riso incrédulo. Um a tosse úm ida, salgada, vinda do fundo das costelas.

– Sei que m eu cabelo está ficando ralo há anos – grasnou –, m as isso é dem ais.

Ardee não riu. Estava fitando as m ãos dele com os olhos arregalados de horror.