O duelo dos reis
Folhas na água
– CARLEON – disse Logen.
– É – concordou Cachorrão.
A cidade se aninhava ali, na bifurcação do rio, sob as nuvens soturnas. Silhuetas rígidas de m uralhas altas e torres no penhasco íngrem e acim a da água rápida, onde um dia ficara o castelo de Skarling Sem Capuz. Tetos de ardósia e construções de pedra esprem idas na longa encosta que descia, am ontoadas em volta do pé da m ontanha e com m ais um a m uralha do lado de fora, tudo com um brilho frio, nítido, da chuva que havia acabado de cair.
Cachorrão não podia dizer que estava feliz em rever o lugar. Todas as suas visitas tinham acabado m al.
– Mudou um pouco desde a batalha, há tantos anos – com entou Logen e olhou para a m ão aberta, balançando o cotoco do dedo que faltava.
– Na época não havia essa m uralha em volta.
– Não. Mas tam bém não havia o exército da União em volta.
Cachorrão não podia negar que esse era um fato reconfortante. Os piquetes da União avançavam pelos cam pos vazios ao redor da cidade, um a linha sinuosa de fortificações, estacas e cercas, com hom ens m ovendo-se por trás, com o sol opaco refletindo-se em m etal de tem pos em tem pos. Milhares de hom ens, bem arm ados e vingativos, m antendo Bethod entocado.
– Tem certeza de que ele está aí?
– Não sei para onde m ais iria. Ele perdeu os m elhores rapazes lá nas m ontanhas. Acho que não restam am igos.
– Todos tem os m enos do que antigam ente – m urm urou Cachorrão. – Acho que só vam os ficar aqui sentados. Tem os tem po, afinal de contas. Muito tem po. Vam os ficar aqui sentados e ver o capim crescer e esperar Bethod desistir.
– É.
Mas Logen não parecia acreditar nisso.
– É – falou Cachorrão.
Ele sabia que desistir não parecia algo que Bethod fizesse.
Virou a cabeça ao ouvir o som de cascos rápidos na estrada e viu um daqueles m ensageiros com o elm o que parecia um a galinha raivosa surgir rápido das árvores, na direção da tenda de West, com o cavalo coberto de suor devido à corrida. Ele puxou as rédeas num a pressa desaj eitada, quase caiu da sela na ânsia de descer, passou cam baleando por alguns oficiais que olhavam e entrou. Cachorrão sentiu aquele peso fam iliar de preocupação na barriga.
– Isso tem cheiro de notícia ruim .
– E que outro tipo de notícia existe?
Agora havia algum a agitação lá em baixo: soldados gritando, balançando os braços.
– É m elhor ir ver o que aconteceu – m urm urou Cachorrão, se bem que preferiria andar na direção oposta.
Crum m ock estava parado j unto à tenda, franzindo a testa para aquela agitação.
– Tem algum a coisa acontecendo – disse o m ontanhês. – Mas não entendo nada que esses sulistas falam . Juro, são todos m alucos.
Falas enlouquecidas saíram m esm o da tenda quando Cachorrão em purrou a aba da entrada. Havia oficiais da União a toda a volta, e num a trem enda balbúrdia. West estava no m eio daquilo, o rosto pálido com o leite fresco, os punhos cerrados segurando nada.
– Furioso! – cham ou Cachorrão, agarrando-o pelo braço. – Que diabo está acontecendo?
– Os gurkenses invadiram a Terra do Meio.
West soltou o braço e com eçou a falar aos berros.
– Quem fez o quê? – resm ungou Crum m ock.
– Os gurkenses – explicou Logen, que franzia a testa profundam ente. – Gente m arrom , de m ais ao sul. Gente dura, segundo todos os relatos.
Pike apareceu, m uito sério.
– Eles desem barcaram um exército pelo m ar. Já podem ter chegado a Adua.
– Espere aí – falou Cachorrão. Ele não sabia nada sobre gurkenses, Adua e a Terra do Meio, m as sua sensação ruim piorava a cada instante. – O que você está dizendo, exatam ente?
– Recebem os ordem de voltar para casa. Agora.
Cachorrão ficou olhando para ele. Deveria ter sabido desde o com eço que nada seria tão sim ples quanto ele pensara. Agarrou West pelo braço outra vez, apontando o dedo suj o na direção de Carleon.
– Sem vocês, nós não tem os nem de longe os hom ens necessários para um cerco desses!
– Eu sei – disse West. – E sinto m uito. Mas não posso fazer nada. Encontre o general Poulder! – gritou para um rapaz que tinha um tique nervoso. – Diga para preparar a divisão dele para m archar im ediatam ente para o litoral!
Cachorrão piscou. Seu estôm ago revirava.
– Então lutam os sete dias nos Lugares Altos por nada? Tul m orreu, e só os m ortos sabem quantos m ais, em troca de nada?
Ele sem pre se surpreendia com a rapidez com que algo podia desm oronar quando a pessoa estava apoiada em cim a.
– Então é isso. De volta à floresta e ao frio e a fugir e a m atar. Isso não tem fim .
– Pode ser diferente – disse Crum m ock.
– De que m odo?
O chefe dos hom ens das m ontanhas estava com um sorriso m atreiro.
– Você sabe, não é, Nove Sangrento?
– É. Sei – confirm ou Logen, e sua expressão era a de um hom em que sabia que seria enforcado e encarasse a árvore onde isso aconteceria. – Quando você precisa partir, Furioso?
West franziu a testa.
– Tem os m uitos hom ens e pouca estrada. A divisão de Poulder am anhã, im agino, e a de Kroy depois de am anhã.
O sorriso de Crum m ock ficou um pouco m ais largo.
– Então durante o dia de am anhã haverá um m onte de hom ens sentados aqui, em volta do Bethod, dando a entender que não vão a lugar nenhum , não é?
– Acho que pode ser.
– Me dê o dia de am anhã – disse Logen. – Me dê só isso e talvez eu possa resolver a situação. Então vou para o sul com você, se ainda estiver vivo, e levo quem eu puder. Essa é a m inha palavra. Vam os aj udá-los com os gurkenses.
– Que diferença um dia pode fazer? – observou West.
– É – m urm urou Cachorrão. – O que é um dia?
O problem a era que ele j á previa a resposta.
A água corria por baixo da velha ponte, passando pelas árvores e descendo a colina verde. Na direção de Carleon. Logen olhou algum as folhas am arelas carregadas pela corrente, girando e girando, passando pelas pedras cobertas de m usgo. Desej ou poder sim plesm ente flutuar para longe, m as isso não parecia provável.
– Nós lutam os aqui – disse Cachorrão. – Três Árvores e Tul, Barca Negra e Sinistro e eu. Forley está enterrado na floresta, em algum lugar por aí.
– Querem ir até lá em cim a? – perguntou Logen. – Fazer um a visita a ele, ver se…
– Para quê? Duvido que um a visita m e faça bem e tenho certeza de que não vai fazer bem nenhum a ele. Nada vai fazer. Estar m orto é assim . Tem certeza do que vai fazer, Logen?
– Você vê outra saída? A União não vai ficar. Pode ser nossa últim a chance de acabar com Bethod. Não há m uito a perder, há?
– Há a sua vida.
Logen respirou fundo.
– Não consigo pensar em m uita gente que dê valor a isso. Você vem ?
Cachorrão balançou a cabeça.
– Acho que vou ficar aqui em cim a. Já estou farto do Bethod.
– Certo, então. Certo.
Era com o se todos os m om entos da vida de Logen, coisas ditas e coisas feitas, escolhas de que m al se lem brava, o tivessem trazido a isso. Agora não havia opção. Talvez nunca tivesse havido. Ele era com o as folhas na água – carregadas na direção de Carleon – e não podia fazer nada a respeito. Esporeou o cavalo e desceu a encosta sozinho, pela trilha de terra, seguindo a corrente fervilhante.
Tudo parecia m ais nítido do que o norm al à m edida que o dia avançava. Passou por árvores, folhas úm idas preparando-se para cair: am arelo-ouro, laranj a ardente, roxo vívido, todas as cores do fogo. Desceu em direção ao fundo do vale sentindo o ar pesado na garganta, com apenas um traço de névoa do outono. Os sons da sela estalando, dos arreios tilintando, dos cascos batendo no chão m acio chegavam abafados. Trotou por cam pos vazios, transform ados em lam a e cheios de m ato em bolado, passou pelos piquetes da União, um fosso e um a linha de estacas afiadas, a três vezes a distância de um disparo de flecha vindo da m uralha. Lá em cim a, soldados usando j aquetas com tachas e elm os de aço o olhavam com o rosto franzido.
Puxou as rédeas e fez o cavalo reduzir o trote. Passou sobre um a ponte de m adeira, um a das novas de Bethod, o rio em baixo agitado pelas chuvas de outono. Subiu a encosta suave, com a m uralha se erguendo acim a. Alta, íngrem e, escura e sólida. Am eaçadora, se é que se podia dizer isso a respeito de um a m uralha. Não podia ver hom ens nas fendas das am eias, m as supunha que estariam lá. Engoliu em seco, o cuspe descendo sem j eito pela garganta, depois se obrigou a ficar ereto, fingindo que não estava cortado e todo dolorido depois de sete dias de batalha nas m ontanhas. Im aginou se ouviria um a besta estalar, se sentiria a pontada de dor e depois cairia na lam a, m orto. Isso valeria um a canção vergonhosa.
– Ora, ora, ora! – disse um a voz profunda, e Logen a reconheceu im ediatam ente.
Quem m ais seria, senão Bethod? O estranho foi que ele ficou feliz em ouvi-la, ainda que por um instante brevíssim o. Até se lem brar de todo o sangue derram ado entre eles. Até lem brar que se odiavam . Você pode ter inim igos que j am ais conheceu de verdade; Logen tivera m uitos. Você pode m atar hom ens que não conhece; ele fizera isso com frequência. Mas não pode odiar de verdade um hom em sem am á-lo prim eiro, e sem pre resta um traço desse am or.
– Estou olhando de cim a do m eu portão e vej a só quem surge do passado? – gritou Bethod. – O Nove Sangrento! Dá para acreditar? Eu organizaria um a festa, m as não tem os com ida sobrando!
Ele ficou de pé, no parapeito acim a do portão, os punhos apoiados na pedra. Não exibia um sorriso de zom baria. Não sorria. Não fazia praticam ente nada.
– Se não é o rei dos nórdicos! – gritou Logen. – Ainda tem seu chapéu de ouro, então?
Bethod tocou o aro em volta da cabeça, e a grande j oia na testa reluziu ao sol poente.
– Por que não teria?
– Deixe-m e ver… – Logen olhou à esquerda e à direita, para cim a e para baixo da m uralha nua –… Só porque não lhe resta m erda nenhum a da qual ser rei, pelo que posso ver.
– Hã. Acho que nós dois estam os solitários. Onde estão seus am igos, Nove Sangrento? Aqueles m atadores que você gostava de ter ao redor. Cadê Cabeça de Trovão, Sinistro, Cachorrão e aquele desgraçado do Barca Negra?
– Todos se acabaram , Bethod. Morreram nas m ontanhas. Estão tão m ortos quanto Skarling. Eles e Ossinho e Goring e Mecha Branca e m uitos outros tam bém .
Diante disso Bethod ficou sério.
– Não há m uita coisa para com em orar, se quer saber. Alguns hom ens úteis foram para a lam a, de um m odo ou de outro. Alguns am igos m eus e alguns seus. Entre nós dois nunca há um resultado feliz, não é? É ruim quando som os am igos e pior quando som os inim igos. Por que você veio aqui, Nove Dedos?
Logen ficou sentado um m om ento, pensando em todas as outras vezes que tinha feito o que precisava fazer agora. Os desafios que lançara e os resultados deles, e não havia lem branças boas disso. Se um a coisa podia ser dita sobre Logen Nove Dedos, era que ele estava relutante. Mas não havia outro m odo.
– Vim aqui propor um desafio! – gritou, e o som ecoou na m uralha úm ida e escura e teve um a m orte lenta no ar enevoado.
Bethod j ogou a cabeça para trás e gargalhou. Um riso sem m uita alegria, achou Logen.
– Pelos m ortos, Nove Dedos, você nunca m uda. Parece um cachorro velho que ninguém consegue im pedir de latir. Desafio? O que resta para nós disputarm os num a luta?
– Se eu vencer, você abre os portões e se rende a m im . Meu prisioneiro. Se eu perder, a União faz as m alas e parte para casa e você está livre.
O sorriso de Bethod foi sum indo devagar e seus olhos se estreitaram , cheios de desconfiança. Logen conhecia esse olhar, de m uito tem po atrás. Avaliando as chances, exam inando os m otivos.
– Parece um a oferta e tanto, considerando a encrenca em que estou. É difícil acreditar. O que os seus am igos sulistas, ali adiante, ganham com isso?
Logen resfolegou.
– Eles vão esperar, se precisarem , m as não se interessam m uito por você, Bethod. Para eles você não é nada, apesar de toda a sua fanfarronice. Eles j á chutaram seu traseiro por todo o Norte e acham que você não vai incom odá-los de novo. Se eu vencer, eles ficam com sua cabeça. Se eu perder, eles podem ir para casa m ais cedo.
– Não sou nada para eles, é? – Bethod abriu um sorriso. – É a esse ponto que a coisa chegou, depois de todo o m eu trabalho, m eu suor e m inha dor? Está feliz, Nove Dedos? Ao ver tudo por que lutei j ogado na poeira?
– Por que não estaria? A culpa é toda sua. Foi você que trouxe a gente até aqui. Aceite m eu desafio, Bethod, então talvez um de nós possa ter paz!
O rei dos nórdicos olhou para baixo, boquiaberto e de olhos arregalados.
– A culpa é toda m inha? Toda m inha? Com o as pessoas se esquecem rápido! – Segurou a corrente pendurada nos om bros e a sacudiu. – Acha que eu queria isto? Acha que eu pedi algum a dessas coisas? Eu só queria m ais um a faixa de terra para alim entar m eu povo, para im pedir que os grandes clãs m e esprem essem . Só queria obter algum as vitórias para m e orgulhar, passar aos m eus filhos algo m elhor do que recebi do m eu pai. – Inclinou-se para a frente, as m ãos nas am eias. – Quem sem pre teve de forçar m ais um passo? Quem nunca m e deixou parar? Quem é que precisava sentir o gosto de sangue e, quando provava e ficava bêbado com ele, enlouquecia com ele, j am ais conseguia se fartar? – Seu dedo apontou para baixo. – Quem m ais, senão o Nove Sangrento?
– Não foi assim – rosnou Logen.
A gargalhada aguda de Bethod ecoou no vento.
– Não? Eu quis conversar com Sham a Sem Coração, m as você tinha de subir e acertar suas contas e com eçar m ais um a dúzia! Paz, você diz? Eu im plorei que você m e deixasse selar a paz em Uffrith, m as você precisava lutar com Três Árvores! Im plorei de j oelhos, m as você precisava ter o m aior nom e de todo o Norte! E, quando você o derrotou, faltou com a palavra dada a m im e o deixou viver, com o se não houvesse nada m aior do que seu m aldito orgulho!
– Não foi assim – disse Logen.
– Não há um hom em no Norte que não saiba a verdade! Paz? Rá! E o Pescoço Duro, hein? Eu teria pedido um resgate pelo filho dele, e todos poderíam os ter ido para casa em paz, m as não! O que você m e disse? É m ais fácil parar o Torrente Branca do que parar o Nove Sangrento! Então você precisou pregar a cabeça dele no m eu estandarte para que todo m undo visse, de m odo que a vingança j am ais encontrasse um fim ! Toda vez que eu tentei parar, você m e arrastou para a frente, cada vez m ais para o fundo do atoleiro! Até que não havia m ais com o parar! Até que era m atar ou m orrer! Até que precisei subj ugar todo o Norte! Você m e fez rei, Nove Dedos. Que outras opções você m e deixou?
– Não foi assim – sussurrou Logen.
Mas sabia que tinha sido.
– Diga a si m esm o que eu sou a causa de todos os seus sofrim entos, se isso o deixa feliz! Diga a si m esm o que sou eu o im placável, o assassino, o sedento de sangue, m as pergunte a si m esm o com quem aprendi. Eu tive o m elhor professor! Brinque de ser o hom em bom se quiser, o hom em que não tem escolha, m as nós dois sabem os o que você é de verdade. Paz? Você nunca terá paz, Nove Sangrento. Você é feito de m orte!
Logen queria negar, m as seria apenas outra m entira. Bethod o conhecia de verdade. Bethod o entendia de verdade. Melhor do que qualquer pessoa. Era seu pior inim igo, e ainda era seu m elhor am igo.
– Então por que não m e m atou quando teve a chance?
O rei dos nórdicos franziu a testa, com o se não conseguisse entender algum a coisa. Depois com eçou a rir de novo. Guinchava, de tanto rir.
– Não sabe por quê? Você ficou ao lado dele e não sabe? Não aprendeu nada com igo, Nove Dedos! Depois de tantos anos, ainda deixa a chuva lavar você onde quiser!
– O que você está dizendo? – rosnou Logen.
– Bay az!
– Bay az? O que é que tem ?
– Eu estava pronto para colocar a porcaria da cruz em você e afundar sua carcaça num pântano com todo o resto de seus idiotas desgarrados e estava feliz em fazer isso, até que aquele velho m entiroso m e fez um a visita!
– E?
– Eu devia a ele, e ele queria que você fosse solto. Foi aquele escroto introm etido que salvou seu traseiro im prestável, nada m ais do que isso!
– Por quê? – rosnou Logen, sem saber o que pensar, m as não gostando de descobrir isso tanto tem po depois de todo m undo.
Mas Bethod apenas deu um risinho.
– Talvez eu não tenha m e rebaixado o suficiente para o gosto dele. Foi você que ele salvou. Pergunte a ele o m otivo, se viver tem po o suficiente para isso. Mas não creio que você vá viver. Aceito o seu desafio! Aqui. Am anhã. Ao nascer do sol. – E esfregou as m ãos. – Hom em contra hom em , valendo o futuro sangrento do Norte! Com o antigam ente, hein, Logen? Nos velhos tem pos? Nos vales ensolarados do passado? Vam os j ogar os dados j untos m ais um a vez, vam os?
O rei dos nórdicos recuou lentam ente para longe das am eias.
– Mas algum as coisas m udaram – falou. – Agora eu tenho um novo cam peão! Se eu fosse você, faria as despedidas esta noite e m e prepararia para a lam a! Afinal de contas… Com o era m esm o que você costum ava m e dizer…? – Seu riso foi sum indo lentam ente no crepúsculo. – É preciso ser realista!
– Bom pedaço de carne – com entou Sinistro.
Um a fogueira quente e um bom pedaço de carne eram duas coisas pelas quais ser grato, e houve m uitas ocasiões em que Cachorrão tivera m uito m enos do que isso, m as ver o sangue pingar daquele naco de cordeiro o estava deixando enj oado. Fazia-o lem brar do sangue que saíra de Sham a Sem Coração quando Logen o abriu. Podiam ter se passado anos, m as Cachorrão ainda visualizava aquilo com o se tivesse acontecido na véspera. Podia ouvir os rugidos dos hom ens, os escudos chocando-se. Podia sentir o cheiro de suor azedo e o sangue fresco na neve.
– Pelos m ortos – grunhiu Cachorrão, a boca m inando água com o se ele fosse vom itar. – Com o vocês conseguem pensar em com er agora?
Barca Negra deu um sorriso cheio de dentes.
– A gente passar fom e não vai aj udar Nove Dedos nem um pouco. Nada vai aj udar. Esse é o sentido de um duelo, não é? Tudo tem a ver com um hom em só. – Cutucou a carne com a faca e fez o sangue escorrer no fogo, chiando. Depois se recostou, pensativo. – Vocês acham que ele vai conseguir? De verdade? Vocês se lem bram daquela coisa?
Cachorrão sentiu o fantasm a do m edo e da náusea que tivera no m eio da névoa. Estrem eceu até as botas. Provavelm ente j am ais esqueceria a visão daquele gigante vindo pela penum bra, de seu punho pintado subindo, o som daquilo batendo nas costelas de Três Árvores e fazendo a vida o abandonar esm agada.
– Se alguém pode – resm ungou entre os dentes trincados – acho que é o Logen.
– Uh – grunhiu Sinistro.
– É, m as vocês acham que ele vai conseguir? Essa é a m inha pergunta. Isso, e o que acontece se ele não conseguir?
Era um a pergunta para a qual Cachorrão não suportava pensar num a resposta. Logen estaria m orto, para início de conversa. E então não haveria m ais cerco a Carleon. Depois dos com bates nas m ontanhas, restavam pouquíssim os hom ens com Cachorrão, até m esm o para cercar um penico, quanto m ais a cidade m ais bem m urada do Norte. Bethod poderia fazer o que quisesse: buscar aj uda, encontrar novos am igos e recom eçar a lutar. Não havia ninguém m ais im placável quando estava encurralado.
– Logen consegue – sussurrou, fechando os punhos e sentindo um a ardência no corte com prido no braço. – Tem de conseguir.
Quase caiu no fogo quando um a m ão grande e gorda bateu em suas costas.
– Pelos m ortos, nunca vi um a fogueira tão cheia de caras preocupadas!
Cachorrão se encolheu. Não era do m ontanhês m aluco que ele precisava para anim á-lo, rindo na noite com os filhos atrás trazendo arm as enorm es nos om bros.
Agora Crum m ock tinha apenas dois, j á que um dos m eninos havia m orrido nas m ontanhas, m as ele não parecia incom odado. Além do m ais, tinha perdido a lança, partida em algum oriental, com o gostava de dizer, por isso ainda não precisava carregar nada. Nenhum a das crianças dissera grande coisa desde a batalha, pelo m enos que Cachorrão tivesse ouvido. Ver a coisa de perto podia sugar seu entusiasm o pela guerra. Cachorrão sabia m uito bem com o era.
Mas o próprio Crum m ock não tinha dificuldade em se m anter anim ado.
– Para onde foi o Nove Dedos?
– Saiu sozinho. Sem pre gostou de fazer isso antes de um duelo.
– Hum . – Crum m ock acariciou os ossos de dedos pendurados no pescoço. – Deve ter ido falar com a Lua, im agino.
– Mais provável que tenha ido cagar, im agino.
– Bom , desde que você term ine de cagar antes da luta, acho que ninguém precisa reclam ar. – Ele riu com o rosto inteiro. – Ninguém é am ado pela Lua com o o Nove Sangrento, isso eu digo! Ninguém em todo o Círculo do Mundo. Ele tem algum a chance de vencer um a luta j usta contra aquela coisa dem oníaca, e isso é o m áxim o que alguém pode esperar. Só há um problem a.
– Só um ?
– Não vai haver luta j usta enquanto a porcaria daquela bruxa estiver viva.
Cachorrão sentiu os om bros se afrouxarem m ais ainda.
– Com o assim ?
Crum m ock ficou girando um dos sím bolos de m adeira no cordão.
– Não consigo ver aquela m ulher deixando Bethod perder, e ela j unto, vocês conseguem ? Um a bruxa inteligente feito aquela? Ela consegue fazer todo tipo de m agia. Todo tipo de bênção e m aldição. Aquela vaca vai fazer todo tipo de coisa para o resultado pender para o lado deles, com o se j á não estivesse pendendo o suficiente.
– E?
– Quero dizer o seguinte: alguém precisa im pedir aquela m ulher.
Cachorrão não achara que poderia se sentir pior. Agora tinha certeza de que poderia.
– Boa sorte – m urm urou.
– Rá, rá, m eu garoto, rá, rá. Eu adoraria fazer isso, m as eles têm um m onte de m uralhas por lá, e eu não sou m uito bom em escalar. – Crum m ock bateu com a m ão gorda na barriga gorda. – Tenho carne de m ais para isso. Não, o que precisam os para essa tarefa é de um hom em pequeno, m as com bagos enorm es. Sem dúvida precisam os, e a Lua sabe. Um hom em com talento para se esgueirar, de olhos afiados e pés firm es. Precisam os de alguém com m ão ágil e pensam ento rápido. – Olhou para Cachorrão e riu. – Bom , onde é que a gente iria achar um hom em assim ?
– Sabe de um a coisa? – Cachorrão apoiou o rosto nas m ãos. – Não faço a m ínim a ideia, porra.
Logen levou o cantil am assado aos lábios e tom ou um gole. Sentiu a bebida forte arder na língua, coçar na garganta, aquela antiga necessidade de engolir. Inclinou-se para a frente, franziu os lábios e cuspiu um j orro fino. Um j ato de fogo subiu na noite fria. Espreitou a escuridão; não viu nada além das silhuetas negras dos troncos de árvores, as som bras negras e m óveis que seu fogo lançava entre elas.
Sacudiu o cantil, ouviu o resto da bebida chacoalhar. Encolheu os om bros, encostou-o na boca e o inclinou até o alto. Sentiu o álcool arder no estôm ago. Os espíritos podiam com partilhar a bebida com ele essa noite. Eram boas as chances de que, depois do dia seguinte, ele não os cham asse de novo.
– Nove Dedos – cham ou um a voz, farfalhando na direção dele com o folhas caindo.
Um espírito deslizou para fora das som bras, veio para a luz da fogueira. Logen não viu nada de fam iliar nele, o que foi um alívio. Tam bém não viu acusação, nem m edo ou desconfiança. O espírito não se im portava com o que ele era nem com o que tinha feito.
Logen j ogou o cantil vazio no chão ao lado.
– Veio sozinho?
– Vim .
– Bom , você nunca está sozinho se tiver trazido risos.
O espírito não disse nada.
– Acho que o riso é um a coisa dos hom ens, não dos espíritos – com entou Logen.
– É.
– Você não fala m uito, fala?
– Eu não invoquei você.
– Verdade. – Logen olho para o fogo. – Preciso lutar contra um hom em am anhã. Um hom em cham ado Fenris, o Tem ível.
– Ele não é hom em .
– Então você o conhece?
– Ele é velho.
– Velho para você?
– Nada é velho para m im , m as ele é do Tem po Antigo e de antes disso. Na época ele tinha outro senhor.
– Que senhor?
– Glustrod.
Ouvir isso foi com o levar um a facada no ouvido. Nenhum nom e poderia ser m enos esperado ou m enos bem -vindo. O vento soprava frio entre as árvores, e as lem branças das enorm es ruínas de Aulcus se apinharam sobre Logen e o fizeram trem er.
– Não há chance de ser um Glustrod diferente do que chegou perto de destruir m eio m undo?
– Não existe outro. Foi ele que escreveu os sím bolos na pele do Tem ível. Sím bolos na língua antiga, a língua dos dem ônios, do lado esquerdo do corpo. Essa carne é do m undo de baixo. Onde a palavra de Glustrod está escrita, o Tem ível não pode ser ferido.
– Não pode ser ferido? De j eito nenhum ? – Logen pensou nisso por um m om ento. – Por que não escrever dos dois lados?
– Pergunte a Glustrod.
– Não acho que isso sej a possível.
– Não – ouviu, e após um a longa pausa: – O que vai fazer, Nove Dedos?
Logen olhou de lado, para as árvores. A ideia de partir correndo e não olhar para trás parecia ótim a nesse m om ento. Às vezes é m elhor viver com m edo da coisa do que fazê-la, independentem ente do que seu pai tivesse dito.
– Já fugi antes – m urm urou – e só corri em círculos. Para m im , Bethod está no fim de todos os cam inhos.
– Então este é o fim da nossa conversa.
O espírito se levantou de perto da fogueira.
– Talvez eu vej a você de novo.
– Não creio. A m agia está vazando do m undo e m inha espécie dorm e. Acho que não. Mesm o que você vença o Tem ível, e não creio que vencerá.
– É um a m ensagem de esperança, então, hein? – bufou Logen. – Que a sorte o acom panhe.
O espírito foi desbotando na escuridão até que sum iu. Não desej ou sorte a Logen. Não se im portava.