O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 7 de 61

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O duelo dos reis

Honestidade

 

JEZAL ESTAVA DEITADO de costas, as m ãos atrás da cabeça, os lençóis ao redor da cintura. Observava Ardee, que olhava pela j anela com os cotovelos no parapeito e o queixo apoiado nas m ãos. Observava Ardee e agradecia ao destino porque algum antigo proj etista de equipam entos m ilitares achara adequado dar um casaco acinturado aos oficiais do Próprio do Rei. Agradecia profunda e solenem ente, porque seu casaco era tudo o que ela usava.

Era incrível com o as coisas haviam m udado entre os dois desde aquele reencontro am argo e desconcertante. Durante um a sem ana não tinham passado sequer um a noite longe um do outro e durante um a sem ana o sorriso praticam ente não saíra do rosto dele. Às vezes a lem brança surgia, claro, um a intrusa com terríveis surpresas, com o um cadáver inchado que subisse à superfície de um lago durante um piquenique à sua m argem : Ardee m ordendo-o e batendo nele, chorando e gritando com ele. Mas, quando isso acontecia, ele forçava um sorriso e a via sorrir em resposta, e logo podia em purrar para longe esses pensam entos desagradáveis, pelo m enos por algum tem po. Depois se parabenizava por ser adulto o bastante para fazer isso e por dar a ela o benefício da dúvida.

– Ardee – cham ou.

– Huum ?

– Volte para a cam a.

– Por quê?

– Porque eu am o você.

Era estranho com o, quanto m ais ele dizia, m ais fácil ficava.

Ela deu um suspiro entediado.

– É o que você vive dizendo.

– É verdade.

Ela girou, as m ãos apoiadas no parapeito, o corpo um a silhueta escura contra a j anela ilum inada.

– E o que isso significa, exatam ente? Que você está m e com endo há um a sem ana e ainda não se fartou?

– Acho que nunca vou m e fartar.

– Bom … – Ela se afastou da j anela e foi andando na direção dele. –… acho que não há m al em descobrir, não é? Pelo m enos não há m al a m ais. – Ela parou ao pé da cam a. – Só m e prom eta um a coisa.

Jezal engoliu em seco, preocupado com o que ela poderia pedir, preocupado com o que ele poderia dizer em resposta.

– Qualquer coisa – m urm urou, obrigando-se a sorrir.

– Não m e decepcione.

O sorriso dele ficou m ais fácil. Não era tão difícil concordar com isso. Ele era um novo hom em , afinal de contas.

– Claro, prom eto.

– Que bom .

Ela subiu na cam a, de quatro, o olhar fixo no rosto dele enquanto Jezal retorcia os dedos dos pés, ansioso, em baixo do lençol. Ela se aj oelhou com um a perna de cada lado dele e alisou o casaco no peito.

– E então, capitão, eu passo na sua inspeção?

– Eu diria… – E ele agarrou a frente do casaco e o puxou para baixo, depois enfiou as m ãos dentro dele. –… que você é sem dúvida… – Colocou a m ão em baixo do seio e esfregou o m am ilo com o polegar. –… o soldado m ais apresentável da m inha com panhia.

Ela apertou a virilha contra a dele, através do lençol, e m oveu o quadril para a frente e para trás.

– Ah, o capitão j á está em posição de sentido…

– Para você? Sem pre…

A boca de Ardee lam beu e sugou a dele, espalhando saliva em seu rosto, e ele enfiou a m ão entre as pernas dela enquanto ela se esfregava de encontro a ele, os dedos úm idos entrando e saindo sonoram ente. Ardee gem eu e deixou escapar um suspiro do fundo da garganta, e ele fez o m esm o. Ela baixou a m ão e tirou o lençol do cam inho. Ele segurou o pau e ela m exeu o quadril até encontrarem o lugar certo e então ela desceu sobre ele, com o cabelo fazendo cócegas em seu rosto, a respiração irregular em seu ouvido estim ulando-o.

Duas batidas fortes soaram à porta e eles se im obilizaram . Mais duas batidas. Ardee levantou a cabeça e afastou o cabelo do rosto enrubescido.

– O que é? – gritou ela, a voz rouca e pesada.

– Tem alguém procurando o capitão – falou a em pregada. – Ele… ele ainda está aqui?

Os olhos de Ardee se reviraram na direção de Jezal.

– Acho que posso m andar um a m ensagem a ele.

Jezal m ordeu o lábio para conter um a gargalhada, depois beliscou o m am ilo dela. Ardee deu um tapa em sua m ão.

– Quem é?

– Um cavaleiro arauto!

Jezal sentiu o sorriso sum ir. Aqueles desgraçados nunca traziam boas notícias e sem pre chegavam nos piores m om entos.

– O lorde m arechal Varuz precisa falar urgentem ente com o capitão. Estão procurando por ele por toda a cidade.

Jezal xingou baixinho. O exército havia percebido que ele voltara.

– Diga a ele que avisarei o capitão quando o vir! – gritou Ardee, e o som de passos foi sum indo pelo corredor.

– Merda! – sussurrou Jezal quando teve certeza de que a em pregada estava longe. Não que ela pudesse ter m uita dúvida do que estivera acontecendo ali nos últim os dias e noites. – Preciso ir.

– Agora?

– Agora. Desgraçados! Se eu não for, vão continuar procurando. Quanto antes eu for, m ais cedo posso voltar.

Ela suspirou e rolou de costas. Jezal deslizou para fora da cam a e com eçou a procurar as roupas espalhadas pelo quarto. A cam isa tinha um a m ancha de vinho na frente, as calças estavam am arrotadas e em boladas, m as teriam de servir. Exibir um a im agem perfeita não era m ais seu único obj etivo na vida. Sentou-se na cam a para calçar as botas e sentiu Ardee se aj oelhar atrás, com as m ãos deslizando em seu peito, os lábios roçando sua orelha enquanto sussurrava:

– Então vai m e deixar sozinha de novo, não é? Vai para Angland, trucidar nórdicos com o m eu irm ão?

Jezal se inclinou para baixo com algum a dificuldade e enfiou um a bota.

– Talvez. Talvez não.

A ideia de viver com o soldado j á não o em polgava. Vira violência suficiente de perto para saber que ela era apavorante dem ais e doía feito o diabo. Fam a e glória parecia um a recom pensa m agra por todos os riscos envolvidos.

– Estou pensando seriam ente em abandonar m inha patente.

– Está? E vai fazer o quê?

– Não sei – confessou ele e virou a cabeça na direção dela, erguendo um a sobrancelha. – Talvez eu encontre um a boa m ulher e sossegue.

– Um a boa m ulher? Você conhece algum a?

– Eu esperava que você tivesse algum a sugestão.

Ela franziu os lábios.

– Deixe-m e pensar. Ela precisa ser bonita?

– Não, não, as m ulheres bonitas são exigentes dem ais. Deve ser sim ples com o água, por favor.

– Inteligente?

Jezal bufou.

– Tudo m enos isso. Sou conhecido por m inha cabeça oca. Um a m ulher inteligente só m e faria parecer um pateta o tem po todo – garantiu ele e, calçando a outra bota, afastou as m ãos dela e se levantou. – Um a bezerra de olhos arregalados e sem pensam entos seria ideal. Alguém que concordasse com igo o tem po todo.

Ardee bateu palm as.

– Ah, sim , posso vê-la pendurada no seu braço com o um vestido vazio, um a espécie de eco seu com um a voz m ais aguda. Mas de sangue nobre, não é?

– Claro, nada a não ser o m elhor. Este é um ponto em que eu j am ais poderia ceder. E de cabelos claros, porque tenho um a queda por cabelos claros.

– Ah, concordo plenam ente. Cabelo escuro é m uito com um , tem m uita cor de terra, de suj eira, im undície. – Ela estrem eceu. – Eu m e sinto suj a só de pensar.

– Acim a de tudo – ele enfiou a espada pela presilha do cinto –, alguém de tem peram ento dócil e estável. Já tive surpresas suficientes.

– É claro. A vida j á é bem difícil sem um a m ulher causando problem as, o que é terrivelm ente indigno – brincou ela e, erguendo as sobrancelhas, com pletou: – Vou pensar nas m inhas conhecidas.

– Excelente. Enquanto isso, e apesar de você usá-lo com m uito m ais brilho do que eu j am ais poderia, vou precisar do m eu casaco.

– Ah, sim , senhor.

Ela o tirou e j ogou para ele, depois se esticou na cam a, totalm ente nua, as costas arqueadas, as m ãos acim a da cabeça, contorcendo o quadril devagar, para trás e para a frente, um dos j oelhos no ar, a outra perna estendida, o dedão do pé apontado para ele.

– Mas você não vai m e deixar sozinha m uito tem po, vai?

Ele a encarou por um instante.

– Não ouse se m over um centím etro que sej a – conseguiu dizer.

Depois vestiu o casaco, enfiou o pau entre as pernas das calças e saiu m eio encurvado pela porta. Esperava que ele am olecesse antes da reunião com o lorde m arechal, m as não podia garantir.

 

Mais um a vez Jezal se via num a das gigantescas e som brias salas do j uiz suprem o Marovia, sozinho no piso vazio, diante da enorm e m esa polida onde três velhos o olhavam sérios do outro lado.

Quando o funcionário fechou a grande porta dupla com um estrondo que ecoou, ele experim entou a sensação profundam ente preocupante de j á ter passado por aquela experiência. O dia em que fora tirado do barco que ia para Angland, afastado dos am igos e das am bições, para ser m andado num a j ornada louca e condenada ao fracasso no m eio do nada. Um a j ornada que lhe custara parte da aparência e quase a vida. Era seguro dizer que não gostava de estar ali de novo e esperava com fervor obter um resultado m elhor dessa vez.

Sob esse ângulo, a ausência do Prim eiro dos Magos era um ponto um tanto positivo, m esm o que, afora isso, o grupo não fosse nem um pouco reconfortante. Encarando-o estavam os rostos duros e velhos do lorde m arechal Varuz, do j uiz suprem o Marovia e do lorde cam arista Hoff.

Varuz estava ocupado alardeando os belos feitos de Jezal no Antigo Im pério. Evidentem ente, ele ouvira um a versão dos acontecim entos m uito diferente do que o próprio Jezal recordava.

– Grandes aventuras no ocidente, pelo que eu soube, trazendo honra para a União em cam pos estrangeiros. Fiquei particularm ente im pressionado com a história de seu ataque ao atravessar a ponte em Darm ium . Isso aconteceu m esm o com o m e contaram ?

– Ao atravessar a ponte, senhor, bem , na verdade, é…

Ele deveria perguntar ao velho idiota de que diabo ele falava, m as estava ocupado dem ais pensando em Ardee, deitada nua. À m erda seu país. O dever que se danasse. Ele podia abandonar tudo agora e estar de volta à cam a dela em m enos de um a hora.

– O negócio é que… – tentou falar Jezal m ais um a vez.

– Essa foi a sua predileta, foi? – perguntou Hoff, baixando a taça. – A que m ais m e atraiu foi a história da filha do im perador.

Ele olhou para Jezal com um brilho nos olhos que sugeria um a história picante.

– Honestam ente, Vossa Excelência, não faço a m ínim a ideia de com o esse boato com eçou. Nada desse tipo ocorreu, garanto. Parece que a coisa toda foi bastante exagerada…

– Bom , um boato glorioso vale dez verdades decepcionantes, não concorda?

Jezal piscou.

– Bom , hum , creio que…

– De qualquer m odo – interveio Varuz –, o Conselho Fechado recebeu relatórios excelentes sobre sua conduta no estrangeiro.

– Recebeu?

– Relatórios m últiplos e variados, todos im pecáveis.

Jezal não pôde deixar de rir, m as precisou se perguntar de onde teriam vindo esses relatórios. Não conseguia im aginar Ferro Malj inn elogiando suas ótim as qualidades.

– Bom , os senhores são m uito gentis, m as devo…

– Em recom pensa por sua dedicação e coragem nessa tarefa difícil e vital, tenho o enorm e prazer de anunciar que o senhor foi prom ovido ao posto de coronel, com efeito im ediato.

Os olhos de Jezal se arregalaram .

– Fui?

– Foi, m eu rapaz, e ninguém poderia m erecer m ais.

Subir dois postos em um a tarde era um a honra sem precedentes, em especial quando ele não havia lutado em nenhum a batalha, não realizara nenhum feito de valor e não fizera nenhum grande sacrifício. A não ser que abandonar a cam a da irm ã de seu m elhor am igo em pleno ato contasse. Era um sacrifício, sem dúvida, m as não do tipo que geralm ente m erecia o favor do rei.

– Eu, é, eu…

Ele não conseguiu evitar um brilho de satisfação. Uniform e novo com m ais tranças e assim por diante, além de m ais pessoas a quem dizer o que fazer. Fam a e glória era um a recom pensa m agra, talvez, m as ele j á correra os riscos, agora só precisava dizer sim . Não tinha sofrido? Não tinha m erecido?

Não precisou pensar m uito. Na verdade, nem precisou pensar. A ideia de deixar o exército e se estabelecer lhe fugiu rapidam ente.

– Eu m e sinto honrado em aceitar essa… hum … honra excepcional.

– Então todos nós estam os igualm ente deliciados – disse Hoff, azedo. – Agora aos negócios. O senhor sabe, coronel Luthar, que vêm acontecendo problem as com os cam poneses?

Surpreendentem ente, nenhum a notícia havia chegado ao quarto de Ardee.

– Im agino que nada sério, não é, Excelência?

– Não, a não ser que o senhor considere séria um a revolta em pleno curso.

– Revolta? – repetiu Jezal e engoliu em seco.

– Há um hom em , o Curtidor – disse com desprezo o lorde cam arista. – Ele tem percorrido o cam po há m eses, espalhando a insatisfação, plantando as sem entes da desobediência, incitando os cam poneses a crim es contra seus patrões, contra seus senhores, contra seu rei!

– Ninguém j am ais suspeitou que a coisa chegaria ao ponto de um a rebelião explícita – com pletou Varuz, rem exendo a boca com raiva. – Mas, depois de um a m anifestação perto de Keln, um grupo de cam poneses encoraj ados por esse tal Curtidor se arm ou e se recusou a debandar. Eles obtiveram um a vitória sobre o proprietário de terras da região e a insurreição se espalhou. Ouvim os dizer que ontem eles esm agaram um a força significativa sob o com ando de lorde Finster, queim aram seu solar e enforcaram três coletores de im postos. Estão devastando o cam po e vindo na direção de Adua.

– Devastando? – m urm urou Jezal, olhando para a porta. Devastar era de fato um a palavra m uito pesada.

– É um negócio m uito lam entável – gem eu Marovia. – Metade deles é de hom ens honestos, fiéis ao rei, pressionados a fazer isso por causa da cobiça de seus senhorios.

Varuz deu um risinho de noj o.

– Não pode haver desculpa para a traição! A outra m etade é de ladrões, patifes e descontentes. Eles deveriam ser chicoteados e m andados para o cadafalso!

– O Conselho Fechado tom ou um a decisão – interveio Hoff. – Esse tal Curtidor declarou a intenção de apresentar um a lista de exigências ao rei. Ao rei! Novas liberdades. Novos direitos. Cada hom em deve ser igual ao seu irm ão e outros absurdos perigosos assim . Logo todos saberão que eles estão vindo e haverá pânico. Tum ultos em apoio aos cam poneses e tum ultos contra eles. As coisas j á estão equilibradas sobre um fio de navalha. Duas guerras acontecendo e o rei com saúde precária, sem herdeiro! – Hoff bateu com o punho na m esa, o que fez Jezal dar um pulo. – Eles não devem ter perm issão de chegar à cidade.

O m arechal Varuz cruzou as m ãos diante do corpo.

– Os dois regim entos do Próprio do Rei que perm aneceram na Terra do Meio serão m andados para enfrentar essa am eaça. Foi preparada um a lista de concessões. – Ele fez um a careta ao dizer a últim a palavra. – Se os cam poneses aceitarem a negociação e retornarem aos seus lares, terão a vida poupada. Se esse tal Curtidor não enxergar a razão, seu suposto exército deve ser destruído. Dispersado. Despedaçado.

– Morto – concluiu Hoff, esfregando um a m ancha na m esa com o polegar grosso. – E os líderes devem ser entregues à Inquisição de Sua Maj estade.

– Lam entável – m urm urou Jezal sem pensar, sentindo um trem or frio à sim ples m enção dessa instituição.

– Necessário – disse Marovia, balançando a cabeça com tristeza.

– Mas nem um pouco fácil – com entou Varuz, que franziu a testa para Jezal, do outro lado da m esa. – Em cada povoado, em cada cidade, em cada cam po e fazenda por onde eles passaram , conseguiram m ais recrutas. O país está apinhado de descontentes. Mal disciplinados, claro, e m al equipados, m as nossa últim a estim ativa é de que são cerca de 40 m il.

– Quarenta… m il? – balbuciou Jezal, rem exendo-se com nervosism o.

Tinha suposto que talvez estivessem falando de algum as centenas, e sem calçados adequados. Não haveria perigo ali, claro, na segurança das m uralhas do Agriont, das m uralhas da cidade. Mas 40 m il era um a quantidade m edonha de hom ens raivosos. Mesm o que fossem cam poneses.

– O Próprio do Rei está fazendo os preparativos: um regim ento de cavalaria e um de infantaria. Tudo o que falta agora é um com andante para a expedição.

– Hã – grunhiu Jezal.

Não invej ava o cargo desse infeliz, com andando um a força m enor, num a relação de cinco para um , contra um punhado de selvagens instigados pela indignação e por pequenas vitórias, em briagados de ódio pelos nobres e pela m onarquia, sedentos de sangue e saques…

Os olhos de Jezal se arregalaram m ais ainda.

– Eu?

– Você.

Ele se atrapalhou procurando as palavras:

– Eu não desej o parecer… ingrato, os senhores entendem , m as, com certeza, quero dizer, deve haver hom ens m ais adequados à tarefa. Lorde m arechal, o senhor m esm o j á…

– É um m om ento com plicado – falou Hoff e olhou sério para Jezal, sob as sobrancelhas fartas. – Um m om ento m uito com plicado. Precisam os de alguém sem … afiliações. Precisam os de alguém com ficha lim pa. Você se encaixa adm iravelm ente no perfil.

– Mas… negociar com cam poneses, Excelência, Meritíssim o, lorde m arechal, eu não tenho conhecim ento das questões! Não tenho conhecim ento da lei!

– Não som os cegos às suas deficiências – disse Hoff. – Por isso haverá um representante do Conselho Fechado com você. Alguém que possua um conhecim ento inquestionável em todas essas áreas.

De repente um a m ão pesada bateu no om bro de Jezal.

– Eu lhe disse que seria em breve, m eu rapaz!

Jezal virou a cabeça devagar, com um terrível sentim ento de consternação revirando seu estôm ago, e ali estava o Prim eiro dos Magos, rindo na sua cara, a um a distância de não m ais de 30 centím etros; m uito presente, afinal de contas. Não era surpresa, de fato, que o careca introm etido se envolvesse naquilo. Acontecim entos estranhos e dolorosos pareciam vir atrás dele com o cães vagabundos latindo atrás da carroça do açougueiro.

– O exército de cam poneses, se é que podem os cham ar assim , está acam pado a quatro dias de m archa tranquila, espalhados pelo cam po, em busca de com ida – inform ou Varuz, que se inclinou para a frente e espetou um dedo na m esa. – Vocês partirão im ediatam ente para interceptá-lo. Nossas esperanças estão nisso, coronel Luthar. Entende suas ordens?

– Sim , senhor – sussurrou Jezal, tentando e fracassando absolutam ente em parecer entusiasm ado.

– Nós dois, j untos outra vez? – Bay az deu um risinho. – É m elhor eles fugirem correndo, hein, m eu rapaz?

– Claro – m urm urou Jezal, arrasado.

Ele tivera sua chance de escapar, a chance de com eçar um a vida nova, e havia trocado isso por um a ou duas estrelas a m ais no uniform e. Tarde dem ais percebeu o erro gritante. Bay az apertou seu om bro com força, puxou-o para um a distância paternal e não pareceu disposto a soltá-lo. Não havia saída.

 

Jezal saiu apressado pela porta de seu aloj am ento, xingando enquanto arrastava seu baú. Era de fato um a tem eridade ser obrigado a carregar a própria bagagem , m as o tem po era um fator extrem am ente crucial se ele quisesse salvar a União da loucura de seu povo. Chegara a considerar a ideia de correr para o cais e com prar um a passagem no prim eiro navio para a distante Sulj uk, m as descartara isso com raiva. Aceitara de form a consciente sua prom oção; agora não tinha escolha a não ser ir em frente. Era m elhor fazer do que viver com m edo, coisa e tal. Girou a chave na fechadura, virou-se e se encolheu, ofegante com um som de espanto que pareceu ter saído de um a m enininha. Havia alguém nas som bras do outro lado de sua porta, e a sensação de horror só piorou quando ele percebeu quem era.

O aleij ado Glokta estava encostado na parede, apoiando-se pesadam ente na bengala e dando seu sorriso repulsivo e desdentado.

– Um a palavra, coronel Luthar.

– Se é sobre a questão dos cam poneses, ela está bem encam inhada. – Jezal não conseguia afastar de todo a expressão de noj o em seu rosto. – Não precisa se incom odar com …

– Não é sobre isso.

– Então o que é?

– Ardee West.

De repente o corredor pareceu m uito vazio, m uito quieto. Os soldados, os oficiais, os serviçais, todos tinham ido para longe, para Angland. Restavam apenas eles dois no quartel inteiro, pelo que Jezal sabia.

– Não sei com o isso interessa a…

– O irm ão dela, nosso am igo Collem West, você se lem bra dele? Um suj eito com cara de preocupado, que está perdendo o cabelo. Um tanto esquentado.

Jezal sentiu um rubor de culpa no rosto. Lem brava-se m uito bem do suj eito, claro, e particularm ente de seu tem peram ento.

– Ele m e procurou pouco antes de partir para a guerra em Angland. Pediu para eu cuidar do bem -estar da irm ã enquanto estivesse longe, arriscando a vida. Eu prom eti fazer isso. – Glokta arrastou os pés ligeiram ente m ais para perto e a carne de Jezal se arrepiou. – Um a responsabilidade que, garanto, levo tão a sério quanto qualquer tarefa que o arquileitor queira m e entregar.

– Sei – grasnou Jezal.

Isso certam ente explicava a presença do aleij ado na casa dela no outro dia, o que, até ali, lhe causara certa inquietação. Mas ele não sentiu m ais tranquilidade ao descobrir o m otivo. De fato, sentiu m uito m enos.

– Não creio que Collem West ficaria satisfeito com o que vem acontecendo nesses últim os dias. E você?

Jezal j ogou o peso do corpo de um pé para o outro, cheio de culpa.

– Adm ito que venho visitando-a…

– Suas visitas – sussurrou o aleij ado – não são boas para a reputação da j ovem . Há três opções. A prim eira, m inha predileta: você vai em bora e finge que nunca a conheceu e nunca m ais a vê.

– Inaceitável – pegou-se Jezal dizendo, com tom surpreendentem ente ousado.

– A segunda, então: você se casa com a dam a e tudo será esquecido.

Era um cam inho que Jezal vinha cogitando, m as de j eito nenhum seria forçado a isso por aquele resto retorcido de hom em .

– E a terceira? – questionou, com o que considerou ser a dose certa de desdém .

– A terceira? – repetiu Glokta, com trem ores rápidos e particularm ente nauseantes subindo pela lateral de seu rosto devastado. – Não creio que você queira saber m uito sobre a terceira opção. Só digam os que incluirá um a longa noite de paixão com um a fornalha e um conj unto de navalhas, além de um a m anhã m ais longa ainda envolvendo um saco, um a bigorna e o fundo do canal. Talvez você prefira um a das outras duas opções.

Antes que percebesse, Jezal tinha dado um passo adiante, forçando Glokta a recuar, encolhendo-se, contra a parede.

– Não preciso m e explicar a você! Minhas visitas têm a ver com igo e com a dam a em questão, m as, para sua inform ação, eu decidi há m uito tem po m e casar com ela, e estou apenas esperando o m om ento certo!

Jezal ficou parado no escuro, praticam ente incapaz de acreditar no que acabara de dizer. Boca m aldita, ainda o m etia em todo tipo de encrenca.

O estreito olho esquerdo de Glokta piscou.

– Ah, sorte dela.

Jezal se pegou avançando de novo, quase acertando o aleij ado no rosto e esm agando-o contra a parede.

– Isso m esm o! Portanto pode enfiar suas am eaças nessa bunda aleij ada!

Mesm o esm agado contra a parede, a surpresa de Glokta só durou um instante. Então ele deu seu sorriso banguela, com a pálpebra estrem ecendo e um a lágrim a escorrendo pelo rosto m agro.

– Ora, coronel Luthar, é difícil m e concentrar com você tão perto. – Ele acariciou a frente do uniform e de Jezal com as costas da m ão. – Sobretudo dado seu súbito interesse pela m inha bunda.

Jezal recuou bruscam ente, com a boca azeda de noj o.

– Parece que Bay az teve sucesso onde Varuz fracassou, hein? Ele lhe ensinou onde estão os seus bagos! Parabéns pelo futuro casam ento. Mas acho que m anterei m inhas navalhas a postos, só para o caso de você desistir. Estou felicíssim o por term os tido a chance de conversar.

Glokta foi m ancando para a escada, com a bengala batendo nas tábuas e o pé esquerdo se arrastando atrás.

– Eu tam bém estou! – gritou Jezal.

Mas nada poderia estar m ais distante da verdade.