O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 37 de 61

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O duelo dos reis

Liderança

 

JEZAL PERCORRIA AS ruas calçadas de pedras m ontado num cavalo cinza m agnífico, com Bay az e o m arechal Varuz logo atrás, além de vinte cavaleiros do Grupo com andados por Brem er dan Gorst, que os acom panhavam com equipam ento de guerra com pleto. Era estranham ente inquietante ver a cidade, em geral tão apinhada de pessoas, quase deserta. Restavam apenas uns punhados de m oleques m altrapilhos, guardas nervosos e plebeus cheios de suspeita para sair da frente da com itiva real. A m aioria dos cidadãos que haviam ficado em Adua estava bem protegida em seus quartos, im aginou Jezal. Ele ficaria tentado a fazer o m esm o, caso a rainha Terez não tivesse sido m ais rápida.

– Quando eles chegaram ? – perguntou Bay az por cim a do estardalhaço dos cascos.

– A vanguarda apareceu antes do am anhecer – gritou Varuz em resposta. – E m ais tropas gurkenses vieram pela estrada de Keln ao longo de toda a m anhã. Houve algum as escaram uças nos distritos do outro lado da m uralha de Casam ir, m as nada que dim inuísse o ritm o deles de form a significativa. Já estão a m eio cam inho de cercar toda a cidade.

Jezal girou a cabeça bruscam ente.

– Já?

– Os gurkenses sem pre gostaram de vir preparados, Maj estade. – O velho soldado instigou seu cavalo para perto dele. – Com eçaram a construir um a paliçada ao redor de Adua e trouxeram três grandes catapultas. As m esm as que se m ostraram tão eficazes no cerco de Dagoska. Ao m eio-dia estarem os totalm ente cercados.

Jezal engoliu em seco. Havia algo na palavra “cercados” que lhe provocava um aperto na garganta.

A coluna dim inuiu o ritm o até um desfile altivo à m edida que se aproxim ava do portão m ais a oeste na cidade. Num a ironia pouco prazerosa para Jezal, era o m esm o portão por onde ele havia entrado em triunfo antes de ser coroado rei suprem o da União. À som bra da m uralha de Casam ir se reunia um a m ultidão m aior ainda do que aquela que o recebera depois de sua estranha vitória sobre os cam poneses. As garotas sorridentes tinham sido substituídas por hom ens carrancudos; as flores frescas, por arm as velhas. Arm as com hastes se proj etavam acim a da confusão, em todos os ângulos, form ando um a floresta desorganizada com pontas e gum es brilhantes. Lanças e forcados, foices e ganchos de barcos, vassouras com as cerdas retiradas e facas pregadas no lugar.

Havia uns poucos hom ens do Próprio do Rei, reforçados por alguns m em bros nervosos da guarda da cidade, um grupo de com erciantes pretensiosos com gibões de couro e espadas polidas e trabalhadores em posturas frouxas, com bestas antigas e expressões duras. Eram o m elhor que se tinha disponível. Estavam acom panhados por cidadãos de am bos os sexos e todas as idades, equipados com um a variedade espantosa de arm as e arm aduras. Ou com nada. Era difícil dizer quem era soldado e quem era cidadão, se, de fato, ainda houvesse um a diferença. Cada um deles fitava Jezal enquanto este apeava com elegância, as esporas douradas tilintando. Esperando algo, percebeu, à m edida que cam inhava no m eio deles, seguido pela estridência das arm aduras de sua guarda.

– Estes são os defensores deste distrito? – m urm urou Jezal para o lorde m arechal Varuz, que vinha logo atrás.

– Alguns, Maj estade. Acom panhados por alguns cidadãos entusiasm ados. Um espetáculo tocante.

Jezal trocaria de boa vontade um a m ultidão tocante por um a m ultidão eficaz, m as supôs que um líder precisava sem pre parecer im batível diante dos seguidores. Bay az lhe dissera isso com frequência. Até que ponto isso seria duplam ente, triplam ente verdadeiro com relação a um rei diante dos súditos? Sobretudo um rei cuj o dom ínio sobre a coroa recém -recebida poderia ser considerado no m ínim o parcial.

Por isso m anteve-se ereto, m etendo o m ais erguido que ousava o queixo m arcado pela cicatriz, e abriu a capa com acabam ento de ouro com a m ão coberta pela luva da arm adura. Cam inhou pela m ultidão com a pose confiante que sem pre tivera, torcendo a cada passo para que ninguém percebesse o turbilhão de m edo e dúvida por trás de seus olhos. A m ultidão m urm urava enquanto ele ia passando, com Varuz e Bay az apressando-se em seguida. Alguns tentavam fazer reverência, outros não se davam o trabalho.

– O rei!

– Pensei que ele fosse m ais alto…

– Jezal, o Bastardo.

Jezal virou a cabeça bruscam ente, m as não havia com o saber quem falara.

– Aquele é o Luthar!

– Viva Sua Maj estade! – bradou alguém , m as foi seguido por um m urm úrio sem m uito ânim o.

– Por aqui – disse um oficial pálido diante do portão, indicando um a escada de tal form a que pareceu pedir desculpas.

Jezal subiu com passo viril, dois degraus de pedra de cada vez, as esporas tilintando. Im obilizou-se ao chegar ao topo da guarita, o lábio repuxando-se de noj o. Quem estava parado ali, senão seu velho am igo, o superior Glokta, curvado sobre a bengala, com o sorriso repulsivo e banguela na cara?

– Maj estade – disse ele com um j eito zom beteiro, a voz pesada de ironia. – Que honra quase avassaladora. – Levantou a bengala para apontar por cim a do parapeito. – Os gurkenses estão lá.

Jezal estava tentando pensar num a resposta ácida o bastante, m as seu olhar seguiu a bengala de Glokta. Piscou e passou pelo aleij ado sem dizer um a palavra. Seu queixo com a cicatriz foi caindo aos poucos e perm aneceu assim .

– O inim igo – m urm urou Varuz.

Jezal tentou im aginar o que Logen Nove Dedos diria diante daquela visão.

– Merda.

Na colcha de retalhos dos cam pos abertos, sobre as estradas e por cim a das cercas vivas, entre as fazendas e vilarej os e os poucos bosques de árvores velhas para além da m uralha da cidade, tropas gurkenses enxam eavam aos m ilhares. A am pla estrada pavim entada que ia para Keln, curvando-se para o sul pelas plantações planas, era um rio que se arrastava, brilhando, arfando, feito de hom ens em m archa. Soldados gurkenses em coluna, inundando e fluindo com facilidade para cercar Adua com um gigantesco anel de hom ens, m adeira e aço. Altos estandartes se erguiam sobre a turba fervilhante, sím bolos dourados que reluziam à luz fluida do outono. Os estandartes das legiões do im perador. Jezal contou dez, ao prim eiro olhar.

– Um a tropa considerável – disse Bay az, num eufem ism o espantoso.

Glokta riu.

– Os gurkenses odeiam viaj ar sozinhos.

A paliçada à qual o m arechal Varuz havia se referido antes j á subia, form ando um a linha escura que serpenteava pelos cam pos enlam eados a algum as centenas de passos da m uralha, com um fosso raso à frente. Mais do que adequada para im pedir que suprim entos ou reforços chegassem à cidade. Mais adiante vários acam pam entos tom avam form a: enorm es grupos de tendas brancas erguidas em quadrados bem organizados, vários deles com colunas de fum aça preta j á se erguendo no branco do céu a partir de fogueiras feitas para cozinhar ou forj ar. Havia naqueles arranj os um a sensação m uito preocupante de perm anência. Adua ainda podia estar nas m ãos da União, m as nem m esm o o m entiroso m ais patriótico poderia negar que o exterior da cidade j á pertencia firm em ente ao im perador de Gurkhul.

– É preciso adm irar a organização deles – com entou Varuz, sério.

– É… a organização… – repetiu lentam ente Jezal, sua voz rangendo feito tábuas velhas num piso. Usar cara de bravura j unto com ela parecia m ais insanidade do que coragem .

Um a dúzia de cavaleiros havia se destacado das linhas gurkenses e agora avançava a trote. Duas bandeiras com pridas balançavam acim a de suas cabeças, seda verm elha e am arela, trabalhada com caracteres kanticenses em fio de ouro. Havia um a bandeira branca tam bém , tão pequena que era quase im perceptível.

– Negociadores – resm ungou o Prim eiro dos Magos, balançando a cabeça devagar. – O que são eles, a não ser um a desculpa para velhos idiotas que adoram ouvir a própria voz arengarem sobre tratam ento j usto antes de com eçarem a chacina?

“Quando se trata de velhos idiotas que adoram ouvir a própria voz, creio que você é o especialista-m or.” Isso foi o que Jezal pensou, m as guardou para si e apenas observou num silêncio reflexivo a aproxim ação do grupo gurkense. Um hom em alto vinha à frente deles, com ouro brilhando no elm o pontudo e na arm adura polida, cavalgando com aquela arrogância em pertigada que, m esm o a distância, alardeia alto com ando.

O m arechal Varuz franziu a testa.

– É o general Malzagurt.

– Você o conhece?

– Ele com andou as forças do im perador na últim a guerra. Nós nos atracam os durante m eses. Negociam os m ais de um a vez. É um oponente m uito astucioso.

– Mas você se saiu m elhor do que ele, não foi?

– No fim , Maj estade – confirm ou Varuz, porém não parecia nem um pouco feliz. – Mas na época eu tinha um exército.

O com andante gurkense veio pela estrada, passando pelo am ontoado de construções desertas espalhadas do lado de fora da m uralha de Casam ir. Puxou as rédeas do cavalo diante do portão, olhando orgulhoso para cim a, um a das m ãos pousada de form a casual no quadril.

– Sou o general Malzagurt – gritou com um forte sotaque kanticense –, representante escolhido de Sua Magnificência, Uthm an-ul-Dosht, im perador de Gurkhul.

– Sou o rei Jezal I.

– Claro. O bastardo.

Era inútil negar.

– Isso m esm o. O bastardo. Por que não entra, general? Então poderem os conversar cara a cara, com o hom ens civilizados.

O olhar de Malzagurt saltou para Glokta.

– Desculpe-m e, m as a reação de seu governo aos em issários desarm ados do im perador nem sem pre foi… civilizada. Acho que perm anecerei fora das m uralhas. Por ora.

– Com o quiser. Acredito que o senhor j á conheça o lorde m arechal Varuz, não?

– Claro. Parece ter se passado um a eternidade desde que tivem os em bates no erm o deserto. Eu poderia dizer que senti sua falta… m as não senti. Com o vai, velho am igo, velho inim igo?

– Bastante bem – grunhiu Varuz.

Malzagurt fez um gesto para a vastidão de hom ens atrás de si.

– Nas atuais circunstâncias, não é? Não conheço seu outro…

– Ele é Bay az. O Prim eiro dos Magos – disse um a voz suave, tranquila.

Ela viera de um dos com panheiros de Malzagurt. Um hom em todo vestido de branco sim ples, um tanto ao estilo de um sacerdote. Não parecia ser m ais velho do que Jezal, e era m uito bonito, com um rosto m oreno perfeitam ente liso. Não usava arm adura, não carregava arm a. Não havia adorno em suas roupas nem na sela com um . No entanto os outros do grupo, até o próprio Malzagurt, pareciam olhá-lo com grande respeito. Quase com m edo.

– Ah. – O general olhou para cim a, cofiando de form a pensativa a barba grisalha curta. – Então esse é Bay az.

O j ovem assentiu.

– É ele. Faz m uito tem po.

– Não o suficiente, Mam un, sua cobra m aldita! – rosnou Bay az, agarrando-se ao parapeito e com os dentes à m ostra.

O velho m ago era tão bom em bancar o tio bonzinho que Jezal havia esquecido com o sua fúria súbita podia ser aterrorizante. Deu um passo para longe, chocado, quase levantando a m ão para proteger o rosto. Os aj udantes e porta-bandeiras dos gurkenses se encolheram , um deles chegando ao ponto de vom itar ruidosam ente. Até Malzagurt perdeu um naco considerável de sua postura heroica.

Porém Mam un apenas olhou para cim a com a m esm a tranquilidade de antes.

– Alguns dos m eus irm ãos achavam que você iria fugir, m as eu sabia que não. Khalul sem pre disse que seu orgulho seria o seu fim , e aqui está a prova. Parece estranho, agora, que eu j á tenha considerado você um grande hom em . Você está velho, Bay az. Você definhou.

– As coisas parecem m enores quando estão m uito acim a de você! – vociferou o Prim eiro dos Magos. Cravou a ponta do caj ado nas pedras sob os pés, agora com a voz carregando um a am eaça terrível: – Chegue m ais perto, com edor, e poderá avaliar m inha fraqueza enquanto você queim a!

– Houve um tem po em que você poderia m e esm agar com um a palavra, não duvido. Mas agora suas palavras não passam de ar vazio. Seu poder se esvaiu com os lentos anos, ao passo que o m eu nunca foi m aior. Tenho um a centena de irm ãos e irm ãs atrás de m im . Que aliados você tem , Bay az? – Olhou as am eias com um sorriso de zom baria. – Só os que você m erece.

– Ainda posso achar aliados para surpreender você.

– Duvido. Há m uito tem po Khalul m e contou qual seria seu últim o recurso na hora do desespero. O tem po provou que ele estava certo, com o sem pre. Então você foi até a borda do Mundo, procurar som bras. Som bras negras de fato, para quem se diz j usto. Sei que fracassou. – O sacerdote m ostrou duas fileiras de dentes perfeitos e brancos. – A Sem ente saiu da história há m uito tem po. Foi enterrada a léguas som brias sob a terra. Seguiu m uito além do fundo oceano do sem fim . Suas esperanças afundaram com ela. Só lhe resta um a opção. Você virá de boa vontade e será j ulgado por Khalul devido à sua traição? Ou será que devem os entrar e pegá-lo?

– Ousa falar de traição com igo? Você, que traiu os m em bros m ais im portantes da nossa ordem , que violou a lei sagrada de Euz? Quantos você assassinou em troca de seu poder?

Mam un apenas deu de om bros.

– Muitos. Não m e orgulho. Você nos deixou um a escolha de cam inhos som brios, Bay az, e nós fizem os os sacrifícios necessários. Não faz sentido discutirm os o passado. Depois desses longos séculos em lados opostos de um enorm e cism a, acredito que nenhum de nós vá convencer o outro. Os vitoriosos podem decidir quem estava certo, com o sem pre foi, m as o Profeta queria que eu fizesse a pergunta. Você irá a Sarkant, responder por seus grandes crim es? Será j ulgado por Khalul?

– Julgado? – rosnou Bay az. – Ele vai me j ulgar, aquele velho assassino e vaidoso? – O m ago soltou um a gargalhada aguda de cim a da m uralha. – Venha m e pegar se puder, Mam un. Estarei esperando!

– Então irem os – m urm urou o prim eiro aprendiz de Khalul, com um a carranca por baixo das belas sobrancelhas pretas. – Estam os nos preparando há longos anos para isso.

Os dois hom ens franziram a testa, som brios, e Jezal os acom panhou de testa franzida. Ficou ofendido diante da súbita sensação de que, de algum m odo, todo o negócio era um a briga entre Bay az e aquele sacerdote e que ele, apesar de rei, era com o um a criança entreouvindo a conversa dos pais e que teria o m esm o tipo de relevância para o desdobram ento dela.

– Diga seus term os, general! – gritou ele para baixo.

Malzagurt pigarreou.

– Prim eiro, se vocês entregarem a cidade de Adua ao im perador, ele está preparado para perm itir que o senhor m antenha o trono, suj eito às ordens dele, claro, e pagando tributos regulares.

– Quanta generosidade! E o traidor, lorde Brock? Sabem os que vocês lhe prom eteram a coroa da União.

– Não estam os de todo com prom etidos com lorde Brock. Ele não controla a cidade, afinal de contas. O senhor controla.

– E tem os pouco respeito por quem entrega os próprios senhores – acrescentou Mam un, com um olhar som brio para Bay az.

– Em segundo lugar, os cidadãos da União poderão continuar a viver de acordo com os próprios costum es e leis. Continuarão a viver em liberdade. Ou o m ais próxim o de liberdade que j á tiveram , pelo m enos.

– Sua generosidade é espantosa. – Jezal pretendia falar com desprezo, m as no fim das contas a frase escapou sem m uita ironia.

– Em terceiro lugar – gritou o general, com um olhar nervoso de esguelha para Mam un –, o hom em conhecido com o Bay az, o Prim eiro dos Magos, será entregue a nós, am arrado e acorrentado, para ser levado ao tem plo de Sarkant, onde será j ulgado pelo profeta Khalul. Esses são nossos term os. Se forem recusados, o im perador decretou que a Terra do Meio sej a tratada com o qualquer outra província conquistada. Muitos m orrerão e m uitos outros, escravizados, governos gurkenses serão instalados, seu Agriont será transform ado num tem plo e seus governantes atuais… serão m andados para as celas em baixo do palácio do im perador.

Jezal com eçou a abrir a boca para recusar, por instinto. Depois fez um a pausa. Harod, o Grande, sem dúvida teria cuspido seu desafio a qualquer hipótese e provavelm ente teria m ij ado no em issário, para com pletar. A m era ideia de negociar com os gurkenses ia contra todas as crenças que ele possuía desde sem pre.

Mas, pensando bem , os term os eram m uito m ais generosos do que ele havia esperado. Jezal provavelm ente teria m ais autoridade estando suj eito a Uthm am -ul-Dosht do que tendo Bay az a olhar por cim a do seu om bro a cada instante todos os dias. Com um a palavra, ele poderia salvar vidas. Vidas reais, de pessoas reais. Levantou a m ão e, com a ponta de um dedo, coçou devagar os lábios cicatrizados. Havia experim entado sofrim ento suficiente nas planícies interm ináveis do Antigo Im pério para pensar longa e intensam ente sobre arriscar subm eter tantas pessoas, ele em particular, a tanta dor. A ideia das m asm orras do palácio do im perador fez com que ele hesitasse.

Era bizarro que um a decisão tão vital fosse tom ada por ele. Um hom em que, havia m enos de um ano, confessara cheio de orgulho não saber nada de nada e se im portar m enos ainda. Mas Jezal com eçava a duvidar de que qualquer pessoa num a posição de autoridade soubesse de fato o que fazia. O m elhor que se poderia esperar era m anter algum fiapo de ilusão de que era possível. E de vez em quando, talvez, tentar dar ao fluxo insensato dos acontecim entos um em purrão levíssim o num a direção ou em outra, torcendo desesperadam ente que fosse a direção certa.

Mas qual era a certa?

– Dê-m e sua resposta! – gritou Malzagurt. – Tenho preparativos a fazer!

Jezal franziu a testa. Estava farto de receber ordens de Bay az, m as pelo m enos o velho desgraçado tivera algum papel em sua ascensão ao trono. Estava farto de ser m enosprezado por Terez, m as pelo m enos ela era sua esposa. Afora qualquer outra com pensação, sua paciência estava por um fio. Ele se recusava a receber ordens à ponta de espada, dadas por um general gurkense posudo e seu sacerdote m aldito.

– Rej eito seus term os! – gritou de cim a da m uralha, com ar superior. – Rej eito absoluta e com pletam ente. Não tenho o hábito de entregar m eus conselheiros, nem m inhas cidades, nem m inha soberania apenas porque solicitam . Sobretudo não a um bando de vira-latas gurkenses com poucos m odos e m enos inteligência ainda. Você não está em Gurkhul, general, e aqui sua arrogância lhe cai pior ainda do que esse elm o esquisito. Suspeito que você vá aprender um a dura lição antes de abandonar estas costas. Posso acrescentar, antes que partam , que encoraj o você e seu sacerdote a se foderem ? E quem sabe possam convencer o grande Uthm an-ul-Dosht e o profeta Khalul, que tudo sabe, por sinal, a se j untar a vocês?

O general Malzagurt franziu a testa. Conferenciou de form a rápida com um auxiliar, evidentem ente não tendo entendido por com pleto os pontos m ais detalhados da últim a afirm ação. Quando por fim a com preendeu, fez um gesto raivoso com a m ão m orena e rosnou um a ordem em gurkense. Jezal viu hom ens m ovendo-se ao redor das construções espalhadas do lado de fora da m uralha, com tochas nas m ãos. O general gurkense olhou um a últim a vez para a guarita sobre o portão.

– Rosados m alditos! – rosnou. – Anim ais!

Então puxou as rédeas do cavalo e partiu a galope, seguido pelo estrondo dos cavalos de seus oficiais.

O sacerdote Mam un ficou ali m ais um m om ento, dem onstrando tristeza no rosto perfeito.

– Então que sej a. Vam os colocar nossa arm adura. Que Deus o perdoe, Bay az.

– Você precisa m ais de perdão do que eu, Mam un! Reze por si m esm o!

– Eu rezo. Todos os dias. Mas em toda a m inha longa vida não vi sinal de que Deus sej a do tipo que perdoa.

Mam un virou seu cavalo para longe do portão e voltou devagar na direção das linhas gurkenses, passando por construções abandonadas onde as cham as j á lam biam fam intas as paredes.

Jezal respirou fundo e estrem eceu enquanto seu olhar percorria a m assa de hom ens que se m ovim entava nos cam pos. Boca desgraçada, vivia colocando-o em todo tipo de encrenca. Mas agora era m eio tarde para se arrepender. Sentiu o toque paternal de Bay az no om bro, aquele toque orientador que havia se tornado tão irritante nas últim as sem anas. Precisou trincar os dentes para não se soltar com um repelão.

– Você deveria se dirigir ao seu povo – disse o Mago.

– O quê?

– As palavras certas podem fazer toda a diferença. Harod, o Grande, podia falar sem preparação. Já contei sobre a vez em que ele…

– Muito bem ! – disse Jezal com rispidez. – Estou indo.

Foi até o parapeito oposto, com todo o entusiasm o de um condenado seguindo para o cadafalso. A m ultidão estava espalhada abaixo, em toda a sua variedade perturbadora. Jezal precisou se conter para não ficar m exendo na fivela do cinto. Preocupava-se com a ideia de que, por algum m otivo, suas calças cairiam na frente de todas aquelas pessoas. Um pensam ento ridículo. Pigarreou. Alguém o viu e apontou.

– O rei!

– Rei Jezal!

– O rei vai falar!

A m ultidão se rem exeu e se estirou, olhos voltados na direção da guarita, um m ar de rostos esperançosos, tem erosos, carentes. O barulho na praça foi m orrendo aos poucos e deu lugar a um silêncio sufocante.

– Am igos… com patriotas… súditos! – Sua voz ressoava com autoridade agradável. Um bom com eço, m uito… retórico. – Nossos inim igos podem ser m uitos… m uitos m esm o… – Jezal se xingou. Adm itir isso não era algo que encoraj aria as m assas. – Mas insisto que vocês se anim em ! Nossas defesas são fortes! – Bateu nas pedras firm es sob a m ão. – Nossa coragem é indôm ita! – Bateu em seu peitoral polido. – Vam os nos sustentar! – Assim estava m elhor! Ele havia descoberto um talento natural para falar.

A m ultidão estava calorosa agora, dava para sentir.

– Não precisarem os nos sustentar para sem pre! O lorde m arechal West está agora m esm o trazendo seu exército para nos aj udar…

– Quando? – gritou alguém , e houve um a onda de m urm úrios raivosos.

– É… – balbuciou Jezal e, confuso e nervoso, olhou para Bay az. – É…

– Quando eles virão? Quando?

O Prim eiro dos Magos sibilou algo para Glokta, e o aleij ado fez um gesto nítido para alguém lá em baixo.

– Logo! Podem contar com isso! – garantiu Jezal. Maldito Bay az e suas ideias horríveis. Jezal não im aginava com o encoraj ar um a turba.

– E nossos filhos? E nossos lares? Sua casa vai queim ar? Vai?

Um a onda de gritos de insatisfação se ergueu.

– Não tem am ! Eu peço que vocês… por favor… – Maldição! Ele não tinha nada que im plorar, ele era o rei. – O exército está a cam inho!

Jezal notou figuras negras forçando passagem em m eio ao povo. Práticos da Inquisição. Eles convergiram , para certo alívio seu, na direção de onde vinham os gritos.

– Agora m esm o eles estão saindo do Norte! A qualquer hora chegarão para nos aj udar e dar a esses cães gurkenses um a…

– Quando? Quando eles… – E a pergunta foi cortada com um berro agudo quando porretes pretos subiram e desceram no m eio da m ultidão.

Jezal fez o m áxim o para gritar acim a disso:

– Enquanto isso, vam os deixar esse lixo gurkense cavalgar livre em nossos cam pos? Nos cam pos dos nossos pais?

– Não! – berrou alguém , para grande alívio de Jezal.

– Não! Mostrarem os a esses escravos de Kanta com o um cidadão livre da União pode lutar!

Houve um a saraivada de concordâncias m ornas.

– Vam os lutar com a coragem de leões! Com a ferocidade de tigres! – Agora ele estava esquentando, as palavras se derram avam com o se ele realm ente falasse a sério. Talvez falasse. – Vam os lutar com o fizem os nos dias de Harod! De Arnault! De Casam ir!

Gritos em polgados soaram .

– Não vam os descansar até que esses dem ônios gurkenses sej am expulsos de volta para o outro lado do m ar do Círculo! Não haverá negociação!

– Sem negociação! – gritou alguém .

– Danem -se os gurkenses!

– Jam ais nos renderem os! – berrou Jezal, batendo no parapeito com o punho. – Lutarem os para defender cada rua! Cada casa! Cada côm odo!

– Cada casa! – gritou alguém com em polgação furiosa, e os cidadãos de Adua berraram em aprovação.

Sentindo o m om ento, Jezal tirou a espada da bainha com um retinir adequadam ente guerreiro e a ergueu acim a da cabeça.

– E eu terei o orgulho de desem bainhar m inha espada ao lado de vocês! Lutarem os uns pelos outros! Lutarem os pela União! Cada hom em … cada m ulher… será um herói!

Gritos ensurdecedores. Jezal balançou a espada e um a onda reluzente brotou entre as lanças brandidas no ar, batidas em peitos cobertos de arm aduras, m arteladas contra a pedra. Jezal deu um sorriso largo. As pessoas o am avam e estavam m ais do que dispostas a lutar por ele. Juntos seriam vitoriosos, ele sentia. Havia tom ado a decisão certa.

– Muito bem -feito – m urm urou Bay az em seu ouvido. – Muito…

A paciência de Jezal se esgotara. Voltou-se para o m ago com os dentes à m ostra.

– Eu sei com o foi feito! Não preciso da sua constante…

– Maj estade – cham ou a voz aguda de Gorst.

– Com o ousa m e interrom per? Que diabo está…

A reprim enda de Jezal foi cortada por um a claridade rubra no canto de seu olho, seguida um instante depois por um a detonação ensurdecedora. Ele girou a cabeça bruscam ente e viu cham as brotarem acim a do am ontoado de telhados a algum a distância, à direita. Abaixo dele, na praça, houve um arquej o de espanto coletivo, um a m ovim entação nervosa da turba.

– O bom bardeio gurkense com eçou – disse Varuz.

Um a risca de fogo cruzou o céu branco acim a das linhas gurkenses. Jezal observou boquiaberto aquilo m ergulhar na cidade. A coisa se chocou contra os prédios, dessa vez à esquerda de Jezal, fogo brilhante se elevando alto no ar. O estrondo assustador atacou seus ouvidos um instante depois.

Gritos vieram de baixo. Ordens, talvez, ou berros de pânico. A m ultidão com eçou a se m over em todas as direções ao m esm o tem po. Pessoas corriam para as m uralhas ou para seus lares ou para nenhum lugar específico, um em aranhado caótico de corpos que se em purravam e lanças balançando.

– Água! – gritou alguém .

– Fogo!

– Maj estade – cham ou Gorst, que j á guiava Jezal de volta para a escada. – O senhor deveria retornar im ediatam ente ao Agriont.

Jezal olhou outra explosão trovej ante, essa m ais perto ainda. A fum aça j á subia em m anchas oleosas sobre a cidade.

– É – m urm urou, perm itindo-se ser levado para a segurança. Percebeu que ainda estava com a espada na m ão e a em bainhou com certa culpa. – É, claro.

Não sentir m edo – com o havia observado Logen Nove Dedos um a vez – é bravata de idiota.