O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 40 de 61

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O duelo dos reis

Melhor que fique enterrada

 

QUANDO A LUTA acaba, você cava, se ainda estiver vivo. Cava sepulturas para os com panheiros m ortos. Um últim o sinal de respeito, por m enor que fosse a consideração que você sentisse por eles. Você cava o m ais fundo que acha necessário, j oga-os dentro, cobre, eles apodrecem e são esquecidos. Sem pre foi assim .

Haveria m uito que cavar quando essa luta acabasse. Muito que cavar dos dois lados.

Doze dias agora, desde que o fogo tinha com eçado a cair. Desde que a ira de Deus com eçara a chover sobre aqueles rosados orgulhosos, transform ando sua cidade arrogante num a devastação enegrecida. Doze dias desde o início da m atança – j unto às m uralhas, nas ruas e pelas casas. Durante doze dias ao sol frio, sob a chuva fraca, na fum aça sufocante, e durante doze noites à luz das fogueiras trem eluzentes, Ferro estivera no m eio daquilo.

Suas botas batiam nos ladrilhos lustrosos, deixando m arcas pretas no corredor im aculado. Cinzas. Os dois distritos onde a luta era feroz agora estavam cobertos de um a fuligem que se m isturara à chuva fina, form ando um a pasta pegaj osa, com o cola preta. As construções que restavam de pé, os esqueletos queim ados das que caíram , as pessoas que m atavam e as pessoas que m orriam , tudo estava coberto daquilo. Os guardas com ar superior e os serviçais encolhidos franziam a testa para ela e para as m arcas que ela deixava, m as Ferro j am ais dera a m enor im portância para as opiniões deles e não iria com eçar a dar agora. Em pouco tem po eles teriam m ais cinzas do que poderiam lim par. O lugar inteiro viraria cinzas, se os gurkenses conseguissem o que queriam .

E tudo levava a crer que conseguiriam . Cada dia e cada noite, apesar dos esforços dos pobres defensores, apesar de todos os m ortos que eles deixavam nas ruínas, as tropas do im perador penetravam m ais na cidade.

Em direção ao Agriont.

Yulwei estava sentado encolhido num a cadeira no canto do aposento am plo, as pulseiras pendendo dos braços frouxos, quando ela entrou. A calm a que sem pre parecera cobri-lo com o um velho cobertor fora arrancada. Ele parecia preocupado, exausto, os olhos fundos em órbitas escuras. Um hom em que encarava a derrota. Era um a expressão que Ferro vinha se acostum ando a ver nos últim os dias.

– Ferro Malj inn, de volta da frente de batalha. Eu sem pre disse que você m ataria o m undo inteiro se pudesse, e agora tem sua chance. O que acha da guerra, Ferro?

– Boa o bastante.

Ela j ogou o arco num a m esa polida, tirou a espada do cinto, a alj ava do om bro. Só restavam algum as flechas. A m aioria ela deixara cravada em soldados gurkenses, lá fora nas ruínas enegrecidas nos lim ites da cidade.

Mas Ferro não conseguia se obrigar a sorrir.

Matar gurkenses era com o provar m el. Só um pouquinho deixava a pessoa ansiando por m ais. Tom ar m uito podia causar enj oo. Os cadáveres sem pre foram um a recom pensa ruim para todo o esforço necessário para fazê-los. Mas agora não havia com o parar.

– Está m achucada?

Ferro apertou a bandagem im unda em volta do braço e viu o sangue encharcar o tecido cinza. Não doía.

– Não – respondeu.

– Não é tarde dem ais, Ferro. Você não precisa m orrer aqui. Eu a trouxe. Ainda posso levá-la em bora. Eu vou aonde quiser e levo quem eu quiser. Se você parar de m atar agora, quem sabe? Talvez Deus ainda lhe encontre um lugar no céu.

Ferro estava ficando farta das pregações de Yulwei. Ela e Bay az podiam não confiar nem um pouco um no outro, m as se entendiam . Yulwei não entendia nada.

– “Céu”? – zom bou ela e lhe deu as costas. – Talvez o inferno sej a m elhor para m im , j á pensou nisso?

Ela ergueu os om bros ao ouvir passos ecoarem no corredor do lado de fora. Sentiu a raiva de Bay az antes m esm o que a porta se abrisse e o rosado careca entrasse intem pestivam ente.

– Aquele desgraçado de m erda! Depois de tudo o que lhe dei, com o ele m e paga?

Quai e Sulfur passaram pela porta atrás dele com o dois cães seguindo o dono.

– Ele m e desafia diante do Conselho Fechado! Diz para eu cuidar do que é da m inha conta! Eu! Com o aquele asno pode saber o que é da m inha conta ou não?

– Problem as com o rei Luthar, o Magnífico? – grunhiu Ferro.

O m ago estreitou os olhos para ela.

– Há um ano não havia cabeça m ais vazia em todo o Círculo do Mundo. Bastou enfiar um a coroa nela e um a m ultidão de velhos m entirosos lam ber o saco daquele bosta durante algum as sem anas para ele achar que é o próprio Stolicus!

Ferro deu de om bros. Rei ou não, Luthar sem pre tivera a si m esm o em alta conta.

– Você deveria ter m ais cuidado quando for enfiar um a coroa em alguém .

– Esse é o problem a das coroas: elas precisam ficar em alguém . Tudo o que a gente pode fazer é largá-las em cim a de um a m ultidão e esperar o m elhor. – Bay az fez um a carranca para Yulwei. – E você, irm ão? Esteve andando do lado de fora das m uralhas?

– Estive.

– E o que viu?

– Morte. Muitas. Os soldados do im perador inundam os distritos ocidentais de Adua, os navios dele entopem a baía. Todo dia m ais soldados vêm do sul, pela estrada, e apertam m ais ainda o cerco à cidade.

– Isso eu posso descobrir pelos im becis do Conselho Fechado. E Mam un e seus Cem Palavras?

– Mam um , três vezes abençoado e três vezes am aldiçoado? O m aravilhoso prim eiro aprendiz do grande Khalul, a m ão direita de Deus? Está esperando. Ele e seus irm ãos e irm ãs têm um a grande tenda fora dos lim ites da cidade. Rezam pela vitória, ouvem m úsica suave, banham -se em água perfum ada, ficam nus e desfrutam dos prazeres da carne. Esperam que os soldados gurkenses derrubem as m uralhas da cidade e com em . – Olhou para Bay az. – Com em noite e dia, desafiando abertam ente a Segunda Lei. Zom bando sem m edo da palavra solene de Euz. Preparando-se para o m om ento em que virão pegar você. O m om ento para o qual Khalul os fez. Acreditam que não vai dem orar m uito. Eles dão polim ento nas arm aduras.

– Dão, é? – sibilou Bay az. – Danem -se, então.

– Eles j á se danaram . Mas isso não nos aj uda.

– Então devem os visitar a Casa do Artífice.

A cabeça de Ferro saltou para cim a. Havia algo naquela torre enorm e, severa, que a fascinava desde que chegara a Adua. Seus olhos viviam sendo atraídos para aquela presença m ontanhosa que se erguia, intocável, m uito acim a da fum aça e da fúria.

– Por quê? – perguntou Yulwei. – Você planej a se trancar lá dentro? Com o Kanedias fez, tantos anos atrás, quando viem os em busca de vingança? Vai se encolher no escuro, Bay az? E desta vez você é que será derrubado, para se despedaçar sobre a ponte?

O Prim eiro dos Magos bufou.

– Você m e conhece. Quando eles vierem m e pegar, vou enfrentá-los em terreno aberto. Mas ainda existem arm as no escuro. Um a ou duas surpresas da forj a do Artífice, para nossos am igos am aldiçoados do lado de fora das m uralhas.

Yulwei pareceu ainda m ais preocupado.

– A Divisora?

– Um gum e aqui – sussurrou Quai no canto –, um no Outro Lado.

Com o sem pre, Bay az o ignorou.

– Ela pode cortar qualquer coisa, até um com edor.

– Vai cortar cem ? – perguntou Yulwei.

– Se for apenas Mam un, serve para m im .

Yulwei se ergueu devagar da cadeira, com um suspiro.

– Muito bem , vá na frente. Vou entrar com você na Casa do Artífice um a últim a vez.

Ferro lam beu os lábios. A ideia de entrar lá era irresistível.

– Eu vou com vocês.

Bay az a encarou.

– Não vai, não. Pode ficar aqui fazendo cara feia. Esse sem pre foi seu talento especial, não foi? Eu odiaria lhe negar a oportunidade de usá-lo. Você vem conosco – disse rispidam ente a Quai. – Você tem sua tarefa, não é, Yoru?

– Tenho, m estre Bay az.

– Que bom .

O Prim eiro dos Magos saiu da sala com Yulwei ao lado e o aprendiz atrás. Sulfur não se m exeu. Ferro franziu a testa para ele e ele riu em resposta, a cabeça encostada na parede forrada de lam bri, o queixo apontado para o teto cheio de relevos.

– Esses Cem Palavras não são seus inim igos tam bém ? – perguntou Ferro.

– São m eus inim igos m ais profundos e m ais ferrenhos.

– Por que não luta, então?

– Ah, existem outros m odos de lutar, sem m e engalfinhar na suj eira lá fora.

Havia naqueles olhos – um escuro, outro claro – algum a coisa da qual Ferro não gostava. Havia algo fam into e im placável por trás dos sorrisos dele.

– Apesar de que eu adoraria ficar para bater um papo, devo dar outro em purrão nas engrenagens – falou ele e girou um dedo no ar. – As engrenagens precisam ficar em m ovim ento, não é, Malj inn?

– Vá, então – disse ela, ríspida. – Não vou im pedir.

– Você não poderia, nem se quisesse. Eu lhe desej aria um bom dia. Mas aposto que você nunca teve um .

E ele saiu com o se passeasse e deixou a porta se fechar atrás de si.

Ferro j á cruzara a sala e puxava a tranca da j anela. Tinha obedecido Bay az um a vez e isso não lhe dera nada além de um ano desperdiçado. Agora faria as próprias escolhas. Puxou as cortinas e saiu para a sacada. Folhas enroladas voavam ao vento, saltando pelos gram ados lá em baixo j unto com a chuva fraca. Um olhar rápido para os dois lados do cam inho úm ido só m ostrou um guarda, e ele olhava na direção oposta, encolhido em sua capa.

Às vezes é m elhor aproveitar o m om ento.

Ferro passou as pernas sobre o parapeito, preparou-se e saltou. Agarrou um galho de árvore escorregadio, balançou-se até o tronco, deslizou para a terra úm ida e se esgueirou atrás de um a cerca viva bem aparada.

Ouviu passos, depois vozes. Bay az e Yulwei, falando baixo ao vento que sibilava. Maldição, aqueles m agos velhos idiotas adoravam m atraquear!

– Sulfur? – disse a voz de Yulwei. – Ele ainda está com você?

– Por que não estaria?

– Os estudos dele vão em … direções perigosas. Eu lhe disse isso, irm ão.

– E? Khalul não é tão exigente com seus serviçais…

Saíram do alcance da audição de Ferro e ela precisou correr abaixada por trás da cerca viva para acom panhá-los.

–… não gosto dessa prática – dizia Yulwei – de assum ir form as, de m udar a pele. É um a disciplina m aldita. Você sabe o que Juvens achava disso…

– Não tenho tem po para m e preocupar com os sentim entos de um hom em que está há séculos na sepultura. Não existe Terceira Lei, Yulwei.

– Talvez devesse existir. Roubar o rosto de outra pessoa… os truques de Glustrod e suas criaturas com sangue de dem ônio. Artes tom adas em prestadas do Outro Lado…

– Precisam os usar as arm as que puderm os encontrar. Não gosto de Mam un, m as ele está certo. Eles são cham ados de Cem Palavras porque são um a centena. Nós som os dois, e o tem po não tem sido gentil conosco.

– Então por que eles esperam ?

– Você conhece Khalul, irm ão. Sem pre cuidadoso, atento, deliberado. Não vai arriscar os filhos até que sej a preciso…

Através dos espaços entre os galhos nus Ferro observou os três hom ens passarem pelos guardas e saírem pelo portão na alta m uralha do palácio. Deu-lhes alguns instantes, depois os seguiu de costas eretas, com o se estivesse a cam inho de fazer algo im portante. Sentiu os olhares severos dos hom ens com arm aduras que flanqueavam o portão, m as a essa altura eles estavam acostum ados com suas idas e vindas. Pela prim eira vez ficaram em silêncio.

Entre os grandes prédios, ao redor das estátuas, através dos j ardins m onótonos, ela seguiu os dois m agos e seu aprendiz pelo Agriont. Mantinha distância, dem orando-se j unto a portas, em baixo de árvores, andando atrás das poucas pessoas que seguiam às pressas nas ruas varridas pelo vento. Às vezes, acim a dos prédios num a praça ou no fim de um beco, o topo da grande extensão da Casa do Artífice se erguia. Cinza nevoento através da garoa, no início, m as ficando m ais negra, vasta e nítida a cada passo.

Os três hom ens se encam inharam para um a construção precária com pequenas torres m eio desm oronadas que surgiam do teto instável. Ferro se aj oelhou e, de um a esquina, observou Bay az bater à porta frágil com a ponta do caj ado.

– Fico feliz que você não tenha encontrado a Sem ente, irm ão – disse Yulwei enquanto esperavam . – É m elhor que fique enterrada.

– Im agino se você ainda pensará isso quando os Cem Palavras inundarem as ruas do Agriont, uivando pelo seu sangue.

– Deus vai m e perdoar, im agino. Existem coisas piores do que os com edores de Khalul.

As unhas de Ferro se cravaram nas palm as das m ãos. Havia um a pessoa parada j unto a um a das j anelas suj as, espiando Yulwei e Bay az. Era m agra e com prida, com m áscara preta e cabelo curto. A m ulher que havia perseguido Nove Dedos e ela, fazia m uito tem po. Por instinto, Ferro levou a m ão à espada, depois percebeu que a deixara no palácio e xingou a si m esm a pela idiotice. Nove Dedos estava certo. Facas nunca são dem ais.

A porta se abriu, frágil, algum as palavras foram m urm uradas, os dois velhos passaram , Quai foi atrás de cabeça baixa. A m ulher m ascarada esperou um pouco m ais, depois se afastou da j anela para a escuridão. Ferro pulou um a cerca viva enquanto a porta se fechava, deslizou o pé pela abertura restante e passou de lado, entrando tam bém nas som bras. A porta se fechou com um ranger das dobradiças.

Ferro seguiu por um corredor com prido, com pinturas em poeiradas num a parede, j anelas em poeiradas na outra. O tem po todo sua nuca form igava, à espera que m áscaras negras surgissem aos m ontes das som bras. Mas nada veio, a não ser os passos que ecoavam adiante, a arenga insensata das vozes dos velhos.

– Este lugar m udou – dizia Yulwei. – Desde aquele dia em que lutam os contra Kanedias. O dia em que o Tem po Antigo acabou. Chovia.

– Eu m e lem bro.

– Fiquei deitado na ponte, ferido, sob a chuva. Vi quando eles caíram , o Artífice e a filha. Despencaram lá do alto. É difícil acreditar que eu sorri ao ver aquilo. A vingança é um sentim ento fugaz. As dúvidas, nós carregam os até o túm ulo.

Ferro riu de desprezo disso. Poderia m uito bem viver com as dúvidas se conseguisse sua vingança.

– O tem po trouxe arrependim entos para nós dois – m urm urou Bay az.

– Mais arrependim entos a cada ano que passa. Mas é um a coisa estranha. Eu poderia j urar, ali deitado, que foi Kanedias que caiu prim eiro e Tolom ei depois.

– A m em ória pode falhar, ainda m ais para quem viveu tanto com o nós. O Artífice j ogou a filha, depois eu o j oguei. E assim term inou o Tem po Antigo.

– Foi m esm o – m urm urou Yulwei. – Tanta coisa perdida. E agora chegam os a isso…

A cabeça de Quai girou rapidam ente e Ferro se grudou na parede, atrás de um arm ário. Ele ficou parado por um longo instante, franzindo a testa em sua direção. Depois foi atrás dos outros. Ferro esperou prendendo o fôlego, até que os três viraram um a esquina e sum iram .

Ela os alcançou num pátio m eio desm oronado, atulhado de m ato m orto e ardósias quebradas, caídas dos telhados. Um hom em com um a cam isa cheia de m anchas os levou por um a escada com prida, em direção a um arco escuro no alto da alta m uralha do Agriont. Um m olho de chaves tilintava em suas m ãos nodosas e ele com entou algo sobre ovos. Depois que o grupo entrou no túnel, Ferro atravessou o espaço aberto, seguiu pela escada e parou perto do topo.

– Vam os voltar logo. – Ela ouviu Bay az avisar. – Deixe a porta aberta.

– Ela é m antida fechada – respondeu um a voz. – É a regra. Foi assim por toda a m inha vida e não pretendo…

– Então espere aqui até voltarm os! Mas não vá a lugar nenhum ! Tenho m uitas coisas m elhores a fazer do que ficar esperando do lado errado da sua porta trancada!

Chaves giraram . Dobradiças antigas guincharam . Os dedos de Ferro deslizaram em volta de um a pedra solta e a apertaram com força.

O hom em de cam isa suj a estava fechando a porta quando ela se esgueirou até o topo da escada. Ele m urm urava algo com raiva enquanto rem exia as chaves, o m etal tilintando. Houve um som oco quando a pedra o acertou na careca. Ele ofegou e tom bou para a frente. Ferro segurou seu corpo flácido por baixo dos braços e o apoiou com cuidado no piso, depois colocou a pedra no chão e pegou suas chaves com um dedo em gancho.

Ao erguer a m ão para em purrar a porta, Ferro foi varrida por um a sensação estranha. Com o um a brisa fria num dia quente, surpreendente a princípio, depois deliciosa. Um trem or, não de todo desagradável, subiu por sua coluna e a fez prender o fôlego. Ela apertou a m adeira antiga e os veios roçaram sua palm a de form a quente e acolhedora. Abriu a porta só o suficiente para espiar.

Um a ponte estreita saltava da m uralha do Agriont, com não m ais de um passo de largura, sem corrim ão nem parapeito. Na outra extrem idade ela se encontrava com a Casa do Artífice – um penhasco altíssim o de rocha negra nua que brilhava na chuva. Bay az, Yulwei e Quai estavam diante da porta na outra ponta daquela tira de pedra. Um a porta de m etal escuro, m arcada no centro com círculos claros. Círculos de letras que Ferro não entendia. Observou Bay az tirar algo da gola da cam isa. Viu os círculos com eçarem a se m over, girar, rodar, e seu coração m artelou nos ouvidos. As folhas da porta se separaram sem um ruído. Devagar, quase com relutância, os três hom ens adentraram aquele quadrado de negrum e e sum iram .

A Casa do Artífice ficou aberta.

A água cinza batia na pedra dura lá em baixo quando Ferro atravessou a ponte. A chuva beij ava e o vento m ordiscava sua pele. A distância, m anchas de fum aça subiam da cidade incendiada para o céu lam acento, m as seu olhar perm anecia fixo no portal escancarado. Ela se dem orou um instante na soleira, os punhos cerrados com força.

Então entrou na escuridão.

Não estava frio nem quente do outro lado da porta. O ar era tão estável, parado e silencioso que parecia pesar m uito nos om bros de Ferro, fazer pressão em seus ouvidos. Deu alguns passos abafados e a luz sum iu por com pleto. Ali, vento, chuva e céu aberto eram sonhos vagos. Ela se sentiu com o se cam inhasse 100 quilôm etros sob um a terra m orta. O próprio tem po parecia ter parado.

Ferro se esgueirou até um a larga passagem em arco e espiou. O salão do outro lado lem brava um tem plo, m as seria capaz de engolir inteiro até m esm o o grande tem plo de Shaffa, onde, de hora em hora, m ilhares clam avam por Deus. Faria parecer pequena a alta cúpula sob a qual Jezal dan Luthar recebera sua coroa. Era um espaço que fazia até m esm o a vastidão da arruinada Aulcus parecer insignificante. Um lugar apinhado de som bras solenes, povoado de ecos carrancudos, lim itado por pedra furiosa, im placável. A tum ba de gigantes m ortos havia m uito tem po.

Sepultura de deuses esquecidos.

Yulwei e Bay az estavam no centro. Figuras m inúsculas, insetos num oceano de escuridão brilhante. Ferro se encostou na rocha fria, lutando para captar as palavras deles no m ar de ecos.

– Vá à arm aria e pegue algum as das espadas do Artífice. Eu vou subir e trazer… aquela outra coisa.

Bay az se virou, m as Yulwei o segurou pelo braço.

– Prim eiro responda a um a pergunta, irm ão.

– Que pergunta?

– A m esm a que eu sem pre faço.

– De novo? Até agora? Muito bem , se for preciso. Faça.

Os dois velhos ficaram im óveis por um tem po enorm e. Até que os últim os ecos por fim se esvaíram e só restou um silêncio pesado com o chum bo. Ferro prendeu o fôlego.

– Você m atou Juvens? – O sussurro de Yulwei sibilou no escuro. – Você m atou nosso m estre?

Bay az não hesitou:

– Eu com eti erros, há m uito tem po. Muitos erros, eu sei. Alguns no ocidente arruinado. Alguns aqui, neste lugar. Não se passa um dia sem que eu não m e arrependa deles. Lutei com Khalul. Ignorei a sabedoria do m eu m estre. Invadi a Casa do Artífice. Apaixonei-m e pela filha dele. Fui orgulhoso, vaidoso e rude, tudo isso é verdade. Mas não m atei Juvens.

– O que aconteceu naquele dia?

O Prim eiro dos Magos disse as palavras com o se fossem falas ensaiadas havia m uito tem po:

– Kanedias veio m e pegar. Por ter seduzido sua filha. Por roubar seus segredos. Juvens não quis m e entregar. Eles lutaram , eu fugi. A fúria da batalha deles ilum inou os céus. Quando retornei, o Artífice tinha ido em bora e nosso m estre estava m orto. Eu não m atei Juvens.

De novo houve um longo silêncio e Ferro ficou observando, im óvel.

– Muito bem . – Yulwei deixou a m ão baixar, soltando o braço de Bay az. – Então Mam un m entiu. Khalul m entiu. Vam os lutar j untos contra eles.

– Que bom , velho am igo, que bom . Eu sabia que podia confiar em você, assim com o você pode confiar em m im .

Ferro repuxou o lábio. Confiança. Era um a palavra que só os m entirosos usavam . Um a palavra da qual os sinceros não precisavam . Os passos do Prim eiro dos Magos ressoaram à m edida que ele seguia na direção de um dos m uitos arcos e desaparecia na escuridão.

Yulwei ficou olhando-o afastar-se. Depois soltou um suspiro forte e foi na outra direção, com as pulseiras chacoalhando nos braços m agros. Os ecos de sua passagem sum iram lentam ente e Ferro ficou sozinha com as som bras, envolta em silêncio.

Devagar, com cuidado, se esgueirou naquele vazio im enso. O chão brilhava – linhas sinuosas de m etal lustroso incrustado na rocha negra. O teto, se existia, estava am ortalhado em escuridão. Um a sacada alta acom panhava as paredes a uns bons vinte passos de altura, outra m uito acim a desta, e depois outra, e outra, vaga à m eia-luz. Acim a de tudo pairava um instrum ento lindo. Círculos de m etal escuro, grandes e pequenos, discos brilhantes e aros reluzentes, m arcados com escritos estranhos. Tudo em m ovim ento. Tudo se revolvendo, um anel ao redor do outro, e no centro um a bola preta, o único ponto de im obilidade perfeita.

Ferro girou e girou, ou talvez tenha ficado im óvel e a sala girado ao redor. Sentia-se tonta, bêbada, sufocada. A rocha nua se erguia no negrum e, pedras ásperas sem m assa para uni-las, não havia nada igual. Ferro tentou im aginar de quantas pedras a torre seria feita.

Milhares. Milhões.

O que Bay az dissera na ilha na borda do Mundo? Onde o sábio esconde um a pedra? No m eio de m il. No m eio de um m ilhão. Os círculos no alto se m oviam lentam ente. Puxavam -na, e a bola preta no centro a atraía m ais do que tudo. Com o um a m ão cham ando. Com o um a voz dizendo seu nom e.

Enfiou os dedos nos espaços secos entre as pedras e com eçou a escalar, um a das m ãos depois da outra, subindo e subindo. Era fácil. Com o se a parede fosse feita para ser escalada. Logo passou as pernas sobre o corrim ão m etálico da prim eira sacada. Continuou, sem parar para respirar, subindo cada vez m ais. Chegou à segunda sacada pegaj osa de suor no ar m orto. Alcançou a terceira, a respiração rascante. Segurou o corrim ão da quarta sacada e se içou. Parou e olhou para baixo.

Lá, no fundo de um abism o negro, todo o Círculo do Mundo estava representado no piso redondo do salão. Um m apa, os litorais desenhados em m etal brilhante. E, no m esm o nível de Ferro, preenchendo quase todo o espaço dentro da galeria que se curvava suavem ente, suspenso em fios que não eram m ais grossos do que linhas, o grande m ecanism o girava devagar.

Ela franziu a testa para a bola preta no centro, as palm as das m ãos form igando. Aquilo parecia pairar ali, sem apoio. Ela deveria ter se perguntado com o era possível, m as só conseguia pensar em quanto desej ava tocá-la. Precisava. Não tinha escolha. Um dos círculos de m etal se aproxim ou, com um brilho fosco.

Às vezes é m elhor aproveitar o m om ento.

Ficou agachada sobre o corrim ão por um instante, preparando-se. Não pensou. Pensar seria loucura. Pulou no espaço vazio batendo braços e pernas. A m áquina inteira bam boleou e oscilou quando ela agarrou o círculo m ais externo. Ferro se balançou, pendurada, sem respirar. Lenta e delicadam ente, com a língua com prim indo o céu da boca, fez força com os braços, enganchou as pernas no m etal e se acom odou nele. Logo o círculo a levou para perto de um disco largo, cheio de ranhuras, e ela passou de um para o outro, o corpo trem endo com o esforço. O m etal frio se deform ou sob seu peso, torcendo-se e flexionando-se, bam boleando com cada m ovim ento seu, am eaçando j ogá-la no vazio.

Ferro podia não ter sentido m edo na vida. Mas m ergulhos de cem passos na rocha m ais dura que existia ainda exigiam seu m ais profundo respeito.

Foi deslizando de um anel ao outro, quase não ousando respirar. Dizia a si m esm a que não havia queda. Só estava subindo em árvores, passando entre os galhos, com o fazia quando era criança, antes da chegada dos gurkenses. Por fim segurou o aro m ais interno. Agarrou-se a ele com um a força furiosa, esperando até que o m ovim ento do anel a levasse para perto do centro. Ficou pendurada, as pernas cruzadas em volta do m etal frágil, um a das m ãos segurando-o, a outra se estendendo para aquela bola preta reluzente.

Podia ver seu rosto rígido refletido na superfície perfeita, a m ão em garra, inchada e distorcida. Fez força para a frente com cada nervo, os dentes trincados. Mais perto e m ais perto ainda. Tudo o que im portava era tocá-la. A ponta do dedo m édio roçou nela e, com o um a bolha estourando, a bola desapareceu na névoa vazia.

Algo se soltou, caindo lentam ente, com o se afundasse em água. Ferro viu que aquilo se afastava, um ponto m ais escuro na escuridão de breu, descendo e descendo. A coisa bateu no chão com um estrondo que pareceu abalar os próprios alicerces da Casa do Artífice e encheu o salão com ecos retum bantes. O círculo ao qual Ferro se segurava trem eu e, por um instante de atordoam ento, ela quase caiu. Quando conseguiu se agarrar de novo, percebeu que ele havia parado de se m exer.

O instrum ento inteiro estava im óvel.

Ela pareceu levar um a eternidade para voltar pelos anéis parados até a galeria m ais alta e descer pela parede altíssim a. Quando por fim chegou ao chão da câm ara gigantesca, suas roupas estavam rasgadas, as m ãos, os cotovelos e os j oelhos ralados e sangrando, m as ela nem notou. Correu pelo piso am plo, os passos ressoando. Dirigia-se para o centro do salão, onde a coisa que caíra perm anecia.

Não parecia nada m ais do que um pedaço irregular de pedra escura do tam anho de um punho grande. Mas aquilo não era pedra, e Ferro sabia. Sentiu algo em anar da coisa, vazar, derram ar-se em ondas em polgantes. Algo que não podia ser visto nem tocado, no entanto enchia todo o espaço até os recantos m ais escuros. Invisível e ao m esm o tem po irresistível, fluía ao redor dela num form igam ento que a arrastava para a frente.

O coração de Ferro batia forte nas costelas à m edida que ela se aproxim ava. Sua boca se inundou de saliva fam inta quando ela se aj oelhou ao lado daquilo. A respiração se prendeu na garganta no instante que estendeu a m ão, a palm a coçando. Seus dedos se fecharam ao redor da superfície encalom bada e furada. A coisa era m uito pesada e m uito fria, com o um pedaço de chum bo congelado. Levantou-a devagar, virando-a na m ão, olhando-a cintilar no escuro, fascinada.

– A Sem ente.

Bay az estava num a das passagens em arco, o rosto com um trem or que era um a m istura aterradora de horror e deleite.

– Saia, Ferro, agora! Leve-a ao palácio. – Ele se encolheu e levantou um braço com o se protegesse os olhos de um a claridade ofuscante. – A caixa está nos m eus aposentos. Coloque-a dentro e lacre bem , entendeu? Lacre bem !

Ferro se virou com um a careta de desprezo, sem saber agora que arco levava para fora da Casa do Artífice.

– Espere! – berrou Quai, que vinha na direção dela com os olhos brilhantes fixos em sua m ão. – Fique!

Ele não dem onstrava qualquer traço de m edo ao se aproxim ar. Só um a espécie de fom e m edonha, estranha a ponto de Ferro dar um passo para longe dele.

– Ela estava aqui. Aqui, o tem po todo. – Seu rosto estava pálido, cheio de som bras, o queixo caído. – A Sem ente – disse ele, com a m ão branca j á se esgueirando pela escuridão na direção dela. – Finalm ente. Dê-m e…

Ele foi dobrado com o papel, erguido do piso e j ogado do outro lado do salão enorm e no tem po que Ferro dem orou para respirar, perplexa. Bateu na parede logo abaixo da sacada inferior, com um estalo que provocou ecos. Ela viu, boquiaberta, o corpo despedaçado cair no chão, os m em bros quebrados e frouxos.

Bay az deu um passo adiante, apertando o caj ado com força. O ar em volta de seus om bros ainda cintilava ligeiram ente. Ferro havia m atado m uitos hom ens, claro, e não derram ara lágrim as. Mas a velocidade daquilo deixara até m esm o ela pasm a.

– O que você fez? – sibilou, com os ecos do im pacto fatal de Quai contra a parede distante ainda ricocheteando ao redor.

– O que precisei fazer. Vá ao palácio. Agora.

Bay az apontou para um dos arcos com um dedo pesado e Ferro viu um levíssim o brilho de luz dentro dele.

– Ponha essa coisa na caixa! Você não pode im aginar com o é perigosa!

Poucas pessoas gostavam m enos de receber ordens, m as Ferro não queria ficar naquele lugar. Enfiou o pedaço de pedra dentro da blusa. Era bom senti-lo ali, com prim ido contra sua barriga. Fresco e reconfortante, apesar de Bay az considerá-lo perigoso. Deu um passo e, quando sua bota bateu no chão, um risinho áspero veio do lado m ais distante da enorm e sala.

De onde o corpo arruinado de Quai havia caído.

Bay az não pareceu surpreso.

– Então! – gritou ele. – Finalm ente você se m ostra! Há algum tem po eu suspeitava que você não era quem parecia ser! Onde está m eu aprendiz e quando você tom ou o lugar dele?

– Há m eses – respondeu Quai, que ainda ria enquanto se levantava devagar do chão polido. – Antes de você partir naquela viagem idiota ao Antigo Im pério.

Não havia sangue em seu rosto sorridente. Nem ao m enos um arranhão.

– Eu m e sentei ao lado de vocês, j unto à fogueira. Observei-o im potente naquela carroça. Estive com vocês o tem po todo, até a borda do Mundo e de volta. Seu aprendiz ficou aqui. Deixei o cadáver m eio com ido dele nos arbustos, para as m oscas, a m enos de vinte passos de onde você e o nórdico dorm iam a sono solto.

– Hã – fez Bay az e j ogou o caj ado de um a das m ãos para a outra. – Achei que havia um a m elhora nítida nas suas habilidades. Você deveria ter m e m atado naquela ocasião, quando teve chance.

– Ah, agora há tem po.

Ferro estrem eceu ao ver Quai se levantar. O salão parecia ter ficado frio de repente.

– Cem palavras? Talvez. Um a palavra? – O lábio de Bay az se repuxou. – Acho que não. Qual das criaturas de Khalul é você? O Vento Leste? Um daqueles gêm eos desgraçados?

– Não sou um a das criaturas de Khalul.

Um levíssim o trem or de dúvida passou pelo rosto de Bay az.

– Quem é, então?

– Nós nos conhecem os m uito bem , em um tem po m uito distante.

O Prim eiro dos Magos franziu a testa.

– Quem é você? Fale!

– Assum ir form as – disse um a voz agora de m ulher, suave e baixa.

Algo estava acontecendo ao rosto de Quai à m edida que ele andava lentam ente. Sua pele pálida se afrouxava, se retorcia.

– Este é um truque pavoroso e traiçoeiro.

Seu nariz, seus olhos, seus lábios com eçaram a derreter, escorrendo do crânio com o cera num a vela.

– Não se lem bra de m im , Bay az?

Outro rosto surgiu por baixo, um rosto severo, branco com o m árm ore.

– Você disse que m e am aria para sem pre.

O ar estava gelado. A respiração de Ferro virava fum aça diante da boca.

– Você prom eteu que nunca iríam os nos separar. Quando abri o portão do m eu pai para você…

– Não! – gritou Bay az e recuou um passo, hesitando.

– Você parece surpreso. Não tanto quanto eu fiquei quando, em vez de m e pegar nos braços, você m e j ogou do telhado, não é, m eu am or? E por quê? Para que você pudesse guardar seus segredos? Para parecer nobre?

O cabelo com prido de Quai havia ficado branco feito giz. Agora flutuava ao redor do rosto terrivelm ente pálido de um a m ulher, com olhos que eram dois pontos brilhantes e pretos. Tolom ei. A filha do Artífice. Um fantasm a vindo do passado desvanecido. Um fantasm a que havia cam inhado ao lado deles durante m eses, usando um a form a roubada. Ferro quase podia sentir seu hálito gelado, frio com o a m orte. Seus olhos se viraram daquele rosto pálido para a passagem em arco, longe, do outro lado do piso. Estava dividida entre a vontade de fugir e a de saber m ais.

– Eu vi você na sepultura! – sussurrou Bay az. – Eu m esm o coloquei a terra em cim a!

– Foi m esm o, e chorou quando fez isso, com o se não fosse você que havia m e j ogado – falou Tolom ei, e seus olhos negros se viraram para Ferro, para onde a Sem ente com ichava em sua barriga. – Mas eu havia tocado o Outro Lado. Tinha-o segurado com estas duas m ãos enquanto m eu pai trabalhava, e isso m e alterou. Fiquei lá, no abraço da terra fria. Entre a vida e a m orte. Até que escutei as vozes. As vozes que Glustrod ouviu, há m uito tem po. Eles m e ofereceram um a troca. Minha liberdade pela deles.

– Você violou a Prim eira Lei!

– As leis não significam nada para quem está enterrado! Quando por fim saí da terra depois de cavar com as próprias m ãos o cam inho de volta, m inha parte hum ana não existia m ais. Mas a outra parte, a que pertence ao m undo de baixo… essa não m orre. Está diante de você. Agora vou term inar a obra que Glustrod iniciou. Vou escancarar as portas que m eu avô lacrou. Este m undo e o Outro Lado serão um só. Com o eram antes do Tem po Antigo. Com o sem pre deveriam ter sido.

Ela estendeu a m ão aberta e um frio penetrante fluiu, provocando arrepios que iam das costas de Ferro até as pontas dos dedos.

– Entregue-m e a Sem ente, criança. Eu fiz um a prom essa aos contadores de segredos e cum pro as prom essas que faço.

– Verem os! – rosnou o Prim eiro dos Magos.

Ferro sentiu o repuxar na barriga, viu o ar em volta de Bay az com eçar a ficar turvo. Tolom ei estava a dez passos dele. No instante seguinte ela o acertou com um som que parecia um trovão. O caj ado dele se despedaçou, a m adeira lascada voou. Ele soltou um som pasm o enquanto era j ogado pela escuridão, rolando na pedra fria até ficar de rosto para baixo, em bolado. Ferro ficou apenas observando à m edida que um a onda de ar gelado a envolvia. Sentiu um m edo terrível e nauseante, pior ainda por ser algo que ela desconhecia. Estava im obilizada.

– Os anos o tornaram fraco.

Agora a filha do Artífice se m ovia lenta e silenciosam ente, em direção ao corpo sem sentidos de Bay az. O cabelo branco balançava atrás dela com o as ondas num poço congelado.

– Sua Arte não pode m e fazer m al – falou Tolom ei ao parar j unto dele, seus lábios brancos e secos abrindo-se num sorriso gelado. – Apesar de tudo o que você tirou de m im . Do m eu pai.

Ela levantou o pé acim a da cabeça careca de Bay az.

– Por m im m esm a…

Tolom ei foi tom ada por cham as intensas. Um a luz lancinante atingiu até os cantos m ais longínquos da câm ara gigantesca, um a claridade que golpeou até as rachaduras entre as pedras. Ferro cam baleou para trás, com um a das m ãos diante dos olhos. Por entre os dedos viu Tolom ei girar pelo chão, sacudindo-se e balançando, cham as brancas envolvendo seu corpo, o cabelo um a língua de fogo enovelada.

Ela tom bou no chão e a escuridão se fechou de novo, a fum aça brotando num a nuvem fétida. Yulwei saiu de um dos arcos, a pele escura brilhando de suor. Segurava um feixe de espadas em baixo do braço m agricelo. Espadas de m etal opaco, parecidas com a que Nove Dedos havia carregado, cada qual m arcada com um a única letra em prata.

– Você está bem , Ferro?

– Eu…

O fogo não lhe trouxera nenhum calor. Ferro batia o queixo; o salão havia ficado frio dem ais.

– Eu…

– Vá – falou Yulwei e franziu os olhos para o corpo de Tolom ei enquanto as últim as cham as m orriam .

Quando por fim Ferro encontrou forças para se m exer, com eçou a recuar. Sentiu um aperto doloroso nas entranhas ao ver a filha do Artífice se reerguer, as cinzas das roupas de Quai deslizarem de seu corpo. Ficou de pé, alta e m ortalm ente esguia, nua e tão careca quanto Bay az, o cabelo queim ado até virar poeira cinza. Não havia sequer um a m arca em sua pele cadavérica, que cintilava num branco im pecável.

– Sem pre há algo m ais – falou ela, encarando Yulwei com fúria nos olhos pretos sem vida. – Nenhum fogo pode m e queim ar, feiticeiro. Você não pode m e im pedir.

– Mas devo tentar.

O m ago j ogou suas espadas no ar. Elas se viraram , giraram , os gum es brilhando, e separaram -se na escuridão, deslizando para o lado de m aneira im possível. Com eçaram a voar ao redor de Yulwei e Ferro, num círculo que form ava redem oinhos, cada vez m ais rápidos até com porem um borrão de m etal m ortífero. Suficientem ente perto para que, se Ferro estendesse a m ão, tivesse o pulso decepado.

– Fique parada – falou Yulwei.

Nem era preciso dizer. Ferro sentiu um j orro de raiva, quente e fam iliar.

– Prim eiro eu devo fugir, depois ficar parada? Prim eiro a Sem ente está na borda do Mundo, agora está aqui, no centro? Prim eiro a m ulher está m orta, agora roubou o rosto de outra pessoa? Vocês, seus velhos desgraçados, precisam com binar suas histórias.

– Eles são m entirosos! – rosnou Tolom ei, e Ferro sentiu o frio da respiração gelada passar sobre seu rosto e congelá-la até os ossos. – Só querem usá-la! Você não pode confiar neles!

– Mas posso confiar em você? – Ferro bufou com desprezo. – Vá se foder!

Tolom ei assentiu devagar.

– Então m orra j unto com o resto.

Ela deu um passo para o lado, se equilibrou nas pontas dos dedos dos pés e círculos de gelo branco se espalharam a partir de onde seus pés descalços tocavam o chão.

– Não pode ficar fazendo m alabarism os com suas facas para sem pre, velho.

Por cim a do om bro branco de Tolom ei, Ferro viu Bay az se levantar lentam ente, segurando um dos braços, o rosto rígido arranhado e sangrando. Algo pendia de seu punho frouxo: um a longa m assa de tubos m etálicos com um gancho na extrem idade, o m etal opaco reluzindo na escuridão. Os olhos dele se viraram para o teto distante, as veias dilatando-se no pescoço por causa do esforço, e o ar com eçou a girar ao redor. Ferro sentiu aquele puxão nas entranhas e seus olhos foram atraídos para cim a. Para a grande m áquina acim a de suas cabeças. Ela com eçou a trem er.

– Merda – m urm urou ela, j á recuando.

Se Tolom ei notou, não deu sinal. Ela dobrou os j oelhos e saltou bem alto, um a risca branca por cim a das espadas que giravam . Pairou no alto por um instante, depois m ergulhou na direção de Yulwei. Bateu no chão, de j oelhos, e o im pacto fez o piso estrem ecer. Um a lasca de pedra raspou na bochecha de Ferro e ela deu um passo para trás ao sentir um j ato de vento gelado no rosto.

A filha do Artífice franziu a testa olhando para cim a.

– Você não m orre fácil, velho – rosnou enquanto os ecos sum iam .

Ferro não sabia com o Yulwei a havia evitado, m as agora ele dançava para longe, as m ãos m ovendo-se em círculos vagarosos, as pulseiras tilintando, as espadas ainda girando no ar atrás dele.

– Passei a vida toda trabalhando nisso. Você tam bém não m orre fácil.

A filha do Artífice se levantou e o encarou.

– Eu não m orro.

Lá no alto o instrum ento enorm e se sacudiu, os cabos estalaram , arrebentaram , chicotearam no escuro. Com um a lentidão quase onírica, ele com eçou a cair. O m etal brilhante se retorceu, flexionou, guinchou ao despencar. Ferro se virou e correu. Deu cinco passos, arfante, e se j ogou no chão, deslizando de cara contra a rocha polida. Sentiu a Sem ente contra a barriga e o vento das espadas que giravam soprar perto das costas quando ela passou por baixo.

A grande m áquina bateu no chão atrás dela com um barulho que parecia a m úsica do inferno. Cada círculo era com o um enorm e prato de orquestra, um gongo gigantesco. Cada um tocava sua nota louca, um grito, um tinido, um estrondo de m etal torturado, alto a ponto de fazer os ossos de Ferro zum birem . Ela levantou os olhos e viu um aro enorm e passar em revolução e bater com a borda, arrancando fagulhas brilhantes do chão. Outro voou pelo ar, girando louco feito um a m oeda j ogada. Ferro ofegou ao rolar para sair do cam inho e se arrastou para trás enquanto o disco batia no chão ao seu lado.

Onde Yulwei e Tolom ei se enfrentaram havia um a m ontanha de m etal retorcido, de círculos partidos e discos inclinados, hastes dobradas e cabos em aranhados. Ferro lutou para ficar de pé, tonta, com um a fúria de ecos dissonantes rasgando o salão. Lascas caíam ao redor, quicando no chão polido. Fragm entos estavam espalhados por todo o piso, brilhando nas som bras com o estrelas no céu noturno.

Não fazia ideia de quem estava m orto e quem estava vivo.

– Saia! – rosnou Bay az com os dentes trincados, e o rosto dele era um a m áscara retorcida de dor. – Saia! Vá!

– Yulwei – m urm urou ela. – Ele…

– Eu vou voltar para pegá-lo! – Bay az sacudiu o braço bom . – Vá!

Há m om entos de lutar e m om entos de fugir, e Ferro conhecia bem a diferença. Os gurkenses haviam lhe ensinado isso, nas profundezas das Terras Ruins. A passagem em arco se sacudia e oscilava e Ferro corria para lá. Sua respiração rugia nos ouvidos. Saltou por cim a de um círculo de m etal brilhante; suas botas bateram na pedra lisa. Estava quase no arco. Sentiu um frio cortante na lateral do corpo, um terror que veio num j orro enj oativo. Lançou-se adiante.

A m ão branca de Tolom ei errou Ferro por um fio, arrancou um grande naco de pedra da parede e encheu o ar de poeira.

– Você não vai a lugar nenhum !

Era hora de fugir, talvez, m as a paciência de Ferro estava esgotada. Enquanto saltava, seu punho j á girava, com toda a fúria dos m eses desperdiçados, dos anos desperdiçados, da vida desperdiçada. Os nós de seus dedos acertaram o queixo de Tolom ei com um estalo agudo. Foi com o socar um bloco de gelo. Não houve dor quando sua m ão se quebrou, m as ela sentiu o pulso dobrar, o braço ficar entorpecido. Era tarde dem ais para se preocupar com isso. O outro punho estava a cam inho.

Tolom ei agarrou seu braço no ar antes que ele a tocasse e puxou Ferro para perto, torcendo seu braço e pondo-a im potente de j oelhos. Era um a força m edonha, irresistível.

– A Sem ente!

As palavras sibilantes congelaram no rosto de Ferro, sugando seu fôlego num gem ido nauseado, a pele queim ando onde Tolom ei a segurava. Ela sentiu os ossos se torcerem , depois se partirem , o antebraço estalando com o um graveto. Um a m ão branca se esgueirou pelas som bras em direção ao volum e na cam isa de Ferro.

Houve um a luz súbita, um a curva intensa que ilum inou e ofuscou toda a câm ara por um m om ento. Ferrou ouviu um berro agudo e se viu livre, caída de costas. A m ão de Tolom ei fora decepada logo acim a do pulso, deixando um cotoco sem sangue. Um grande ferim ento se abrira, fundo, na parede lisa e no chão, com pedra derretida escorrendo dele, borbulhando e chiando. Quando Bay az surgiu das som bras, subia fum aça da arm a estranha em sua m ão e o gancho da ponta ainda reluzia num tom laranj a. Tolom ei deu um grito gélido, gadanhando na direção dele com a m ão que restava.

Bay az rugiu para ela, insano, com os olhos estreitados, a boca ensanguentada aberta. Ferro sentiu o estôm ago revirar de form a tão violenta que se dobrou, quase posta de j oelhos. A filha do Artífice foi puxada para cim a e j ogada longe, um calcanhar branco rasgando o m apa do chão num a cicatriz longa, abrindo rocha e cortando m etal.

Os destroços do grande dispositivo foram espalhados atrás dela, os pedaços arruinados brilhando no escuro com o folhas ao vento. Tolom ei era um a silhueta que se sacudia num a tem pestade de m etal. Bateu na parede m ais distante com um estrondo capaz de sacudir a terra, j ogando longe pedaços de pedra quebrada. Um a chuva de fragm entos retorcidos surgiu, retiniu, ressoou ao bater nas paredes ao redor, transform ando toda a grande curva de pedra num a enorm e cam a de pregos.

Os olhos de Bay az se arregalaram , o rosto abatido m olhado de suor.

– Morra, dem ônio! – berrou.

A poeira baixou, a pedra com eçou a se m exer. Um rio gelado ecoou no salão. Ferro se arrastou para trás com os calcanhares batendo na pedra lisa e correu. Sua m ão quebrada bateu na parede do túnel, o braço quebrado pendente. Um quadrado de luz vinha em sua direção. A porta da Casa do Artífice.

Chegou cam baleando ao outro lado, a um a lum inosidade que ardia nos olhos depois das som bras lá de dentro e sob a chuva fina que parecia quente depois do toque gelado de Tolom ei. A Sem ente ainda pesava em sua cam isa, áspera e reconfortante contra a pele.

– Corra! – A voz de Bay az vinha da escuridão. – Para o palácio!

Ferro cam baleou pela ponte, os pés desaj eitados escorregando na pedra m olhada, a água fria caindo lá em baixo.

– Ponha na caixa e lacre bem !

Ela ouviu um estrondo ecoando atrás, m etal se chocando contra m etal, m as não olhou. Em purrou com o om bro a porta aberta na m uralha do Agriont, quase tropeçando no porteiro, que agora se sentava encostado na pedra, com um a das m ãos na cabeça, onde ela o havia deixado. Ele se encolheu quando Ferro pulou por cim a dele. Ela voou escada abaixo, de três em três degraus, atravessou o pátio em ruínas, seguiu pelos corredores em poeirados sem dedicar sequer um pensam ento às figuras m ascaradas ou a qualquer outra pessoa. Agora elas pareciam um a espécie de am eaça insignificante, cotidiana. Ela ainda podia sentir o hálito gelado no pescoço.

Nada im portava, a não ser deixar aquilo bem para trás.

Deslizou até a porta, puxou sem j eito o trinco com a m ão quebrada, saiu para a garoa e correu pelas ruas m olhadas na direção de onde tinha vindo. As pessoas nas ruas e praças saíam do cam inho, chocadas ao vê-la, desesperada e sangrando. Vozes furiosas ecoavam atrás, m as ela as ignorava.

Virou um a esquina para um a rua larga entre prédios cinza e quase saiu escorregando nas pedras m olhadas. Um a m ultidão de pessoas m altrapilhas entupia a rua. Mulheres, crianças, velhos, suj os e trôpegos.

– Saiam da frente! – gritou, e com eçou a forçar a passagem . – Andem !

A história que Bay az havia contado na planície sem fim pulava do fundo de sua m ente. Sobre os soldados que haviam encontrado a Sem ente nas ruínas de Aulcus. Sobre com o eles haviam m urchado e m orrido. Ela em purrou, chutou e abriu cam inho com os om bros.

– Saiam !

Livrou-se das pessoas e correu pela rua vazia, o braço quebrado colado ao corpo, apertando a coisa dentro da blusa. Correu pelo parque, com as folhas caindo das árvores a cada sopro de vento gélido. A alta m uralha do palácio se erguia onde os gram ados term inavam e Ferro seguiu para o portão. Os dois guardas ainda o flanqueavam , com o sem pre, e ela sabia que eles a viam . Tinham deixado que ela saísse, m as não estavam tão ansiosos para deixá-la entrar, principalm ente im unda, ensanguentada, coberta de terra e suor e correndo com o se tivesse o diabo em sua cola.

– Espere!

Ferro fez m enção de passar, m as um deles a agarrou.

– Me deixem , suas porras de rosados idiotas! – sibilou. – Vocês não entendem !

Ela tentou se soltar, e um a alabarda dourada caiu no chão quando um dos guardas a envolveu com os braços.

– Explique, então! – disse o outro, por baixo da viseira. – Por que a pressa? – Seu punho com o guante da arm adura foi na direção do volum e em sua cam isa. – O que está na sua…

– Não! – sibilou Ferro e se retorceu e tom bou contra a m uralha, fazendo um guarda bater de costas no arco.

A alabarda do outro desceu suavem ente, a ponta brilhante apontada para o peito de Ferro.

– Parada! – rosnou ele. – Antes que eu…

– Deixe-a entrar! Agora! – ordenou Sulfur, do outro lado do portão, e pela prim eira vez não sorria.

O guarda girou a cabeça para ele, em dúvida.

– Agora! – rugiu Sulfur. – Em nom e do lorde Bay az!

Eles a soltaram e Ferro se libertou, xingando. Correu pelos j ardins e entrou no palácio, com as botas ecoando nos corredores e serviçais e guardas saindo de seu cam inho, cheios de suspeita. Encontrou a porta dos aposentos de Bay az e a abriu. Passou cam baleando.

A caixa estava aberta num a m esa perto da j anela: um bloco pouco notável, feito de m etal escuro. Ela foi até lá, desabotoou a cam isa e tirou a coisa de dentro.

Era um a pedra escura, pesada, do tam anho de um punho. A superfície opaca continuava fria, não m ais quente do que quando ela a pegara. Sua m ão form igou de m odo agradável, com o se ao toque de um velho am igo. Ferro ficou com raiva, de algum m odo, só de pensar em separar-se dela.

Então, enfim , isso era a Sem ente. A encarnação do Outro Lado. A própria substância da m agia. Lem brou-se das ruínas abandonadas de Aulcus. A vastidão de terra ao redor, por m ais de um a centena de quilôm etros em todas as direções. Um poder suficiente para m andar o im perador, o profeta e seus com edores am aldiçoados e toda a nação de Gurkhul para o inferno, e m ais ainda. Um poder tão terrível que deveria ter pertencido só a Deus, e agora ela o segurava em sua m ão frágil. Ferro olhou a pedra por um longo tem po. Então, lentam ente, com eçou a sorrir.

Agora obteria vingança.

O som de passos pesados no corredor a trouxe de volta a si. Largou a Sem ente em seu lugar de repouso, afastou a m ão com um esforço e fechou a tam pa da caixa. Com o se um a cham a de vela tivesse sido apagada de repente num côm odo escuro, o m undo pareceu m ais opaco, m ais fraco, destituído de entusiasm o. Só então percebeu que sua m ão estava perfeita. Franziu a testa, m exendo os dedos. Eles se m oviam com a facilidade de sem pre, sem o m enor inchaço nos nós que ela tinha certeza que estavam despedaçados. O outro braço tam bém , até o antebraço, reto e liso, sem qualquer m arca onde os dedos gelados de Tolom ei o haviam esm agado. Ferro olhou para a caixa. Ela sem pre havia se curado com rapidez. Mas ossos consertados em m enos de um a hora?

Não estava certo.

Bay az se arrastou pela porta, o rosto retorcido. Havia sangue seco em sua barba, um a cam ada de suor na cabeça careca. Ele ofegava, a pele pálida e trêm ula, um braço apertado contra o corpo. Parecia alguém que tivesse passado a tarde lutando contra um dem ônio e que sobrevivera por pouco.

– Onde está Yulwei?

O Prim eiro dos Magos a encarou.

– Você sabe onde.

Ferro se lem brou do estrondo quando fugia da torre. Com o o som de um a porta sendo fechada. Um a porta que nenhum a lâm ina, nenhum fogo, nenhum a m agia poderia abrir. Só Bay az tinha a chave.

– Você não voltou. Você lacrou a porta com eles dentro.

– Sacrifícios precisam ser feitos, Ferro, você sabe. Hoj e eu fiz um grande sacrifício. Meu próprio irm ão – argum entou o Prim eiro dos Magos e foi m ancando até ela. – Tolom ei violou a Prim eira Lei. Fez um trato com os contadores de segredos. Ela pretendia usar a Sem ente para abrir os portões do m undo de baixo. Ela poderia ser m ais perigosa do que os com edores de Khalul. A Casa do Artífice precisa continuar lacrada. Até o fim dos tem pos, se necessário. Um resultado que não deixa de ser irônico. Tolom ei com eçou a vida aprisionada naquela torre. Agora voltou. A história se m ove em círculos, com o Juvens sem pre disse.

Ferro franziu a testa.

– Fodam -se os seus círculos, rosado. Você m entiu para m im . Sobre Tolom ei. Sobre o Artífice. Sobre tudo.

– E?

Ela franziu a testa m ais ainda.

– Yulwei era um hom em bom . Ele m e aj udou no deserto. Salvou m inha vida.

– E a m inha, m ais de um a vez. Mas os hom ens bons só vão até certo ponto nos cam inhos som brios. – Os olhos brilhantes de Bay az se viraram para baixo, o olhar pousando no cubo de m etal escuro sob a m ão de Ferro. – Outros precisam percorrer o resto da estrada.

Sulfur passou pela porta e Bay az tirou de baixo do casaco a arm a que havia trazido da Casa do Artífice. O m etal brilhou à luz suave das j anelas. Um a relíquia do Tem po Antigo. Um a arm a que Ferro vira cortar pedra com o se fosse m anteiga. Sulfur a pegou com respeito e nervosism o e enrolou-a com cuidado num tecido im perm eável antigo. Depois abriu sua sacola e tirou o livro preto que Ferro vira um a vez.

– Agora? – m urm urou.

– Agora.

Bay az pegou o livro, pousou a m ão sobre a capa envelhecida e cheia de m arcas, fechou os olhos e respirou fundo. Quando os abriu, olhou direto para Ferro.

– Os cam inhos que devem os percorrer agora, você e eu, são m esm o som brios. Você j á viu.

Ela não tinha resposta. Yulwei fora um hom em bom , m as o portão da Casa do Artífice fora lacrado, e ele tinha ido para o céu ou para o inferno. Ferro enterrara m uitos hom ens, em m uitos sentidos. Mais um a pilha de areia no deserto não era nada. Estava farta de obter sua vingança de grão em grão. Não tinha m edo de cam inhos som brios. Percorrera-os a vida toda. Mesm o através do m etal da caixa, pensou ter ouvido um sussurro fraquíssim o, cham ando-a.

– Só quero vingança.

– E obterá, com o eu prom eti.

Ela ficou parada, cara a cara com Bay az, e deu de om bros.

– Então o que im porta agora quem m atou quem há m il anos?

O Prim eiro dos Magos deu um leve sorriso, os olhos brilhando no rosto pálido e ensanguentado.

– Tirou as palavras da m inha boca.