O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 2 de 61

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O duelo dos reis

Ser chefe

 

– NOITE FRIA! – gritou Cachorrão. – Pensei que estivéssem os no verão!

Os três levantaram os olhos. O m ais próxim o era um velho com cabelos grisalhos e rosto que parecia ter sofrido a força do clim a. Logo depois dele estava um hom em m ais novo, com o braço am putado acim a do cotovelo. O terceiro não passava de um garoto, parado no fim do cais franzindo os olhos para o m ar escuro.

Cachorrão fingiu que m ancava feio enquanto chegava perto, arrastando um a perna e se encolhendo com o se sentisse dor. Foi andando com dificuldade até ficar em baixo do lam pião pendurado no poste alto, com o sino de aviso ao lado, e levantou o j arro para que todos vissem .

O velho riu e encostou a lança no m uro.

– Está sem pre frio perto da água. – Ele se aproxim ou esfregando as m ãos. – Que bom que você trouxe algo para esquentar a gente, hein?

– É. Estão com sorte. – Cachorrão tirou a tam pa e a deixou pendurada, pegou um a das canecas e serviu um a dose.

– Nada de acanham ento, hein, rapaz?

– Acho que não vou m e acanhar. – Cachorrão derram ou m ais um pouco.

O m aneta precisou pousar a lança para receber sua caneca. O garoto foi o últim o a chegar perto e olhou cauteloso para Cachorrão.

O velho o cutucou com o cotovelo.

– Tem certeza de que sua m ãe deixa você beber, garoto?

– Quem se im porta com o que ela diz? – resm ungou ele, tentando engrossar a voz.

Cachorrão lhe entregou um a caneca.

– Se tem idade para segurar um a lança, acho que tem idade para segurar um a caneca.

– Eu tenho idade! – disse o garoto rispidam ente, pegando a caneca da m ão de Cachorrão, m as estrem eceu ao beber.

Cachorrão se lem brou da prim eira vez que bebera. Tinha ficado m uito enj oado e se perguntando o m otivo de tanto estardalhaço por causa daquilo. Sorriu consigo m esm o. O garoto provavelm ente pensou que estava rindo dele.

– Quem é você, afinal?

– Tsc, tsc – repreendeu-o o velho. Depois, para Cachorrão: – Não se incom ode com ele. Ainda é novo a ponto de achar que a grosseria im põe respeito.

– Tudo bem – disse Cachorrão, servindo um a caneca para si e pousando o j arro nas pedras, dem orando-se para pensar no que dizer, certificando-se de não com eter erros. – Meu nom e é Cregg.

Ele conhecera um hom em cham ado Cregg, que tinha sido m orto num a luta nas m ontanhas. Cachorrão não gostava m uito dele e não fazia ideia de por que esse nom e lhe viera à m ente, m as àquela altura qualquer nom e servia. Bateu na coxa.

– Furaram m inha perna em Dunbrec e o ferim ento não se curou direito. Não posso m archar m ais. Acho que m eus dias na linha de frente acabaram , por isso m eu chefe m e m andou aqui, para vigiar a água com vocês. – Olhou para o m ar que ondulava e reluzia sob a Lua com o um a criatura viva. – Mas não posso dizer que lam ento. Para ser honesto, eu j á estava cheio de lutar.

Pelo m enos essa últim a parte não era m entira.

– Sei com o é – disse o m aneta, balançando o cotoco na cara de Cachorrão. – Com o vão as coisas por lá?

– Tudo bem . A União ainda está sentada do lado de fora da m uralha que ela m esm a fez, tentando tudo para entrar, e nós estam os do outro lado do rio, esperando. Tem sido assim há sem anas.

– Ouvi dizer que alguns rapazes passaram para o lado da União. Ouvi dizer que o velho Três Árvores estava lá, que foi m orto naquela batalha.

– Era um grande hom em , o Rudd Três Árvores – disse o velho. – Um grande hom em .

– É. – Cachorrão assentiu. – Era m esm o.

– Mas ouvi dizer que Cachorrão ficou no lugar dele – disse o m aneta.

– É verdade?

– Foi o que ouvi dizer. É um desgraçado m au e enorm e. Cham am o suj eito de Cachorrão porque um a vez ele arrancou as tetas de um a m ulher a dentadas.

Cachorrão piscou.

– É m esm o? Bom , desse eu nunca ouvi nada.

– Ouvi dizer que o Nove Sangrento estava lá – sussurrou o garoto, com os olhos arregalados com o se falasse de um fantasm a.

Os outros dois bufaram na direção dele.

– O Nove Sangrento está m orto, garoto, e aquele m aligno j á não foi sem tem po. – O m aneta estrem eceu. – Você tem cada ideia idiota!

– Foi o que eu ouvi, só isso.

O velho tom ou m ais um pouco da bebida e estalou a língua.

– Não im porta m uito quem está onde. A União provavelm ente vai se entediar quando pegar o forte de volta. Vai se entediar e retornar para casa, do outro lado do m ar, e tudo volta ao norm al. Nenhum deles vai vir até aqui, a Uffrith, pelo m enos.

– Não – disse o m aneta, anim ado. – Eles não virão para cá.

– Então por que estam os vigiando? – reclam ou o garoto.

O velho revirou os olhos, com o se j á tivesse ouvido isso dez vezes e sem pre desse a m esm a resposta.

– Porque foi a tarefa que a gente recebeu.

– E, quando você recebe um a tarefa, é m elhor fazer direito. – Cachorrão se lem brou de Logen dizendo a m esm a coisa, Três Árvores tam bém . Agora os dois haviam partido, tinham voltado à lam a, m as a frase continuava verdadeira com o sem pre. – Mesm o que sej a um a tarefa chata, ou perigosa, ou sinistra. Mesm o que sej a um a tarefa que você preferiria não fazer. – Porcaria, ele precisava m ij ar. Precisava m ij ar toda hora, quando o tem po estava assim .

– É verdade – disse o velho, sorrindo para sua caneca. – As coisas precisam ser feitas.

– Precisam m esm o. Mas é um a pena. Vocês parecem pessoas bem legais.

Cachorrão levou as m ãos às costas, com o se estivesse coçando a bunda.

– Um a pena? – O garoto pareceu perplexo. – O que você quer dizer com …

Foi então que Barca Negra veio por trás dele e cortou seu pescoço.

Praticam ente no m esm o instante, a m ão suj a de Sinistro cobriu a boca do m aneta e a ponta ensanguentada de um a lâm ina saiu pela abertura de seu casaco. Cachorrão saltou e deu tês facadas rápidas nas costelas do velho. Ele chiou e tom bou, os olhos arregalados, a caneca ainda na m ão, com baba de bebida derram ando-se da boca aberta. Então caiu.

O garoto se arrastou um pouco. Estava com um a das m ãos no pescoço, tentando im pedir que o sangue saísse, a outra se estendendo na direção do poste onde ficava o sino de alerta. O suj eito tem coragem , reconheceu Cachorrão, para se lem brar do sino quando sua garganta está cortada, m as ele não se arrastou m ais do que um passo antes que Barca Negra pisasse com força em sua nuca e a esm agasse.

Cachorrão estrem eceu ao ouvir os ossos do pescoço do garoto estalarem . Ele provavelm ente não m erecia m orrer daquele j eito. Mas a guerra era assim . Muita gente que não m erecia era m orta. O serviço precisava ser feito. Eles tinham feito, e os três continuavam vivos. Era o m áxim o que poderia esperar de um serviço desses, m as de algum m odo isso ainda lhe deixava um gosto am argo. Nunca tinha achado fácil, m as agora que era chefe estava ainda m ais difícil. Estranho com o era m uito m ais fácil m atar quando cum pria ordens. Matar era um a coisa difícil. Mais difícil do que seria de im aginar.

A não ser que seu nom e sej a Barca Negra, claro. Aquele desgraçado era capaz de m atar um hom em com a m esm a facilidade com que daria um a m ij ada. Era o que o tornava tão bom naquilo. Cachorrão o observou se abaixar, tirar o casaco do corpo frouxo do m aneta e colocá-lo sobre os om bros, depois rolar o corpo para o m ar, tão distraído quanto se estivesse despej ando lixo.

– Você tem dois braços – disse Sinistro, j á com o casaco do velho.

Barca Negra olhou para si m esm o.

– O que você quer dizer? Não vou cortar m eu braço para m elhorar o disfarce, seu idiota!

– Ele quer dizer para m anter o braço escondido.

Cachorrão viu Barca Negra enxugar um a caneca com um dedo suj o, servir-se de um a dose e engolir.

– Com o você consegue beber num a hora assim ? – perguntou, tirando o casaco ensanguentado do corpo do garoto.

Barca Negra deu de om bros e se serviu de m ais um a dose.

– É um a pena desperdiçar. E, com o você disse, a noite está fria. – Ele deu um sorriso m aligno. – Que coisa, Cachorrão, você sabe falar! Meu nom e é Cregg. – E deu dois passos m ancando. – Levei um a facada na bunda em Dunbrec! De onde tirou isso? – Deu um tapa no om bro de Sinistro, com as costas da m ão. – Que porra incrível, hein? Existe um a palavra para isso, não é? Qual é a palavra m esm o?

– Convincente – respondeu Sinistro.

Os olhos de Barca Negra se ilum inaram .

– Convincente. É o que você é, Cachorrão. Você é um desgraçado convincente. Juro, você poderia dizer que era o próprio Skarling Sem Capuz que eles teriam acreditado. Não sei com o consegue falar isso na cara de pau!

Cachorrão não sentia m uita vontade de rir. Não gostava de olhar para aqueles dois cadáveres, ainda caídos nas pedras. Ficava se preocupando, pensando que o garoto ficaria com frio sem o casaco. Era um a coisa idiota para pensar, j á que ele estava num a poça do próprio sangue, a um passo dali.

– Deixem isso pra lá – resm ungou. – Joguem esses dois aí e vão para perto do portão. Não sabem os quando virão outros.

– Está certo, chefe, está m esm o, você m anda.

Barca Negra em purrou os dois para a água, depois tirou o badalo do sino e o j ogou no m ar, por garantia.

– Um a pena – disse Sinistro.

– O quê?

– Desperdiçar um sino.

Barca Negra piscou encarando o outro.

– Desperdiçar um sino! De repente você ficou cheio de coisas para dizer e, sabe de um a coisa? Acho que eu gostava m ais de você antes. Desperdiçar um sino? Perdeu a cabeça, garoto?

Sinistro deu de om bros.

– Os sulistas podem querer um , quando chegarem aqui.

– Então eles podem m ergulhar para buscar a porra do badalo, não é? – E Barca Negra pegou a lança do m aneta e foi até o portão aberto, resm ungando e com um a das m ãos enfiada no casaco roubado. – Desperdiçar um sino… Pela porra dos m ortos!

Cachorrão ficou na ponta dos pés e soltou o lam pião, segurou-o virado para o m ar, depois levantou a aba de sua capa para cobri-lo e baixou-a de novo. Cobriu-o e descobriu. Repetiu o gesto m ais um a vez e, em seguida, pendurou o lam pião de volta no poste. De onde estavam , aquela cham a parecia pequena dem ais para aquecer as esperanças de todos eles. Um a cham azinha m inúscula para ser vista lá de longe na água, m as era a única que tinham .

O tem po todo ficou esperando que a coisa desse errado, que o clam or soasse na cidade, que cinco dúzias de Carls j orrassem daquele portão aberto e fizessem com os três a m atança que m ereciam . E pensar nisso lhe dava m ais vontade de m ij ar. Mas eles não vieram . Não havia nenhum som , a não ser o sino vazio rangendo no poste e as ondas frias batendo em pedra e m adeira. Tudo seguia exatam ente com o haviam planej ado.

O prim eiro barco surgiu deslizando da escuridão, com Trem edeira rindo na proa. Uns vinte Carls estavam com prim idos no barco atrás dele, rem ando com m uito cuidado, rostos brancos tensos, dentes trincados com o esforço de m anter o silêncio. Mesm o assim , cada estalo e tinido de m adeira e m etal dava nos nervos de Cachorrão.

Trem edeira e seus rapazes penduraram alguns sacos cheios de palha na lateral do barco quando chegaram m ais perto, o que im pediria que a m adeira raspasse nas pedras. Tudo isso fora pensado na sem ana anterior. Jogaram cordas e Cachorrão e Sinistro as pegaram , puxaram o barco e am arraram . Cachorrão olhou para Barca Negra, encostado im óvel e tranquilo no m uro j unto ao portão, e ele balançou a cabeça suavem ente, para confirm ar que não havia m ovim entação na cidade. Em seguida Trem edeira subiu a escada, tranquilo e silencioso, e se agachou na escuridão.

– Belo trabalho, chefe – sussurrou ele com um sorriso escancarado. – Muito bem -feito.

– Haverá tem po para tapinhas nas costas m ais tarde. Am arrem os outros barcos.

– Certo.

Havia m ais barcos chegando, m ais Carls, m ais sacos de palha. Os rapazes de Trem edeira os puxaram , com eçaram a arrastar hom ens para o cais. Todo tipo de hom ens que haviam chegado nas últim as sem anas. Hom ens que não gostavam do m odo novo com o Bethod fazia as coisas. Logo havia um bom grupo j unto da água. Tantos que Cachorrão m al podia acreditar que não fossem vistos.

Form aram grupos, com o tinham planej ado, cada um com seu chefe e sua tarefa. Alguns rapazes conheciam Uffrith e tinham feito um desenho do lugar na terra, com o Três Árvores costum ava fazer. Cachorrão obrigara todos a decorá-lo. Riu pensando em com o Barca Negra havia reclam ado daquilo, m as tinha valido a pena. Agachou-se perto do portão e eles passaram , um grupo som brio e silencioso de cada vez.

Tul foi o prim eiro, seguido por um a dúzia de Carls.

– Certo, Cabeça de Trovão – disse Cachorrão. – Você fica com o portão principal.

– Está bem – assentiu Tul.

– É a tarefa m ais im portante de todas, por isso tente fazer em silêncio.

– Em silêncio, está bem .

– Sorte, então, Tul.

– Não vou precisar.

E o gigante se apressou pelas ruas escuras, seguido por seu grupo.

– Gorro Verm elho, você fica com a torre perto do poço e a m uralha ao lado.

– Entendido.

– Trem edeira, você e seus rapazes vão vigiar a praça da cidade.

– Com o um a coruj a, chefe.

E assim eles foram , passando pelo portão e entrando nas ruas escuras, sem fazer m ais barulho do que o vento do m ar e as ondas no cais, Cachorrão dando a tarefa a cada grupo e m andando-os entrar. Barca Negra foi o últim o e tinha atrás um bocado de hom ens de aparência dura.

– Barca Negra, você fica com o salão do chefe. Em pilhe um bocado de m adeira, com o nós dissem os, m as não ateie fogo, ouviu? Não m ate ninguém se não for preciso. Pelo m enos por enquanto.

– Pelo m enos por enquanto. É j usto.

– E… Barca Negra – cham ou e o outro se virou de novo. – Tam bém não vá incom odar nenhum a m ulher.

– O que você acha que eu sou? – perguntou Barca Negra, os dentes cintilando no escuro. – Algum tipo de anim al?

E foi isso. Restaram apenas ele, Sinistro e alguns outros para vigiar a água.

– Uh – fez Sinistro, assentindo lentam ente.

Vindo dele, era um grande elogio.

Cachorrão apontou para o poste.

– Pegue aquele sino, está bem ? Podem os encontrar um a utilidade para ele, afinal de contas.

 

Pelos m ortos, aquilo fazia um barulho desgraçado. Cachorrão precisou sem icerrar os olhos, com o braço inteiro trem endo enquanto batia no sino com o cabo da faca. Não se sentia m uito confortável no m eio de todos aqueles prédios, esprem ido por m uros e cercas. Não havia passado m uito tem po da vida em cidades e não gostara m uito dessas ocasiões, fossem elas queim ando coisas e provocando arruaças depois de um cerco ou caído nas prisões de Bethod, esperando pela m orte.

Piscou olhando a confusão de telhados de ardósia ao redor, as paredes de pedra cinza, m adeira preta, reboco cinza e suj o, tudo oleoso com a chuva fina. Parecia um m odo estranho de viver, dorm indo num a caixa, acordando todos os dias da vida no m esm o lugar. Ficava inquieto só de pensar nisso, com o se aquele sino j á não o deixasse agitado o bastante. Pigarreou e o pôs de lado, nas pedras do calçam ento. Depois ficou de pé, esperando, com um a das m ãos no punho da espada, num a postura que ele esperava revelar segurança.

Alguns passos rápidos vieram de um a rua e um a m enininha entrou correndo na praça. Seu queixo caiu quando ela os viu ali: um a dúzia de hom ens barbudos e arm ados, Tul Duru entre eles. Provavelm ente nunca tinha visto um hom em tão alto. Ela virou depressa para correr na outra direção e quase escorregou nas pedras m olhadas. Depois viu Barca Negra sentado num a pilha de m adeira logo atrás dela, recostado tranquilam ente na parede, a espada desem bainhada sobre os j oelhos, e ficou paralisada.

– Tudo bem , garota – rosnou Barca Negra. – Pode ficar onde está.

Agora havia m ais pessoas chegando, correndo de todos os lados para a praça, todas com a m esm a expressão de espanto ao ver Cachorrão e seus rapazes à espera. Mulheres e crianças, na m aioria, além de alguns velhos. Arrancados da cam a pelo sino e ainda sonolentos, olhos verm elhos e rostos inchados, roupas am arrotadas, arm ados com o que tivessem à m ão. Um garoto com um cutelo de açougueiro. Um senhor encurvado com um a espada que parecia ainda m ais velha do que ele. Um a garota na frente, com um ancinho e m uito cabelo em bolado, tinha um a expressão que fez Cachorrão se lem brar de Shari. Dura e pensativa, com o ela costum ava olhá-lo antes que com eçassem a dorm ir j untos. Cachorrão franziu os olhos para os pés suj os da j ovem , esperando que não tivesse de m atá-la.

Deixá-los bem apavorados seria o m elhor m odo de fazer com que as coisas acontecessem rápida e facilm ente. Por isso Cachorrão tentou falar com o alguém a ser tem ido, e não com o alguém que tam bém estava se cagando de m edo. Com o Logen teria falado. Não, talvez isso fosse m ais assustador do que o necessário. Com o Três Árvores, então. Duro m as j usto, querendo o m elhor para todos.

– O chefe está entre vocês? – rosnou.

– Sou eu – grasnou o velho com a espada, o rosto todo frouxo de espanto ao descobrir um bando de estranhos bem arm ados no m eio da praça de sua cidade. – Meu nom e é Brass. Quem diabo são vocês?

– Eu sou Cachorrão, este aqui é Harding Sinistro e o grandalhão é Tul Duru Cabeça de Trovão.

Alguns olhos se arregalaram , algum as pessoas m urm uraram um as com as outras. Parecia que j á tinham ouvido esses nom es.

– Estam os aqui com quinhentos Carls e ontem à noite tom am os sua cidade.

Alguns sons ofegantes e esganiçados foram a resposta a isso. O núm ero era m ais para duzentos, m as não havia sentido em dizer. Eles poderiam im aginar que teriam chances lutando e Cachorrão não queria acabar esfaqueando ou sendo esfaqueado por um a m ulher.

– Há m uito m ais de nós por aí, e todos os seus guardas estão am arrados… os que não tivem os de m atar. Alguns dos m eus rapazes, e vocês precisam saber que estou falando de Barca Negra…

– Sou eu. – Barca Negra deu sua risada m aldosa e algum as pessoas arrastaram os pés, nervosas, para longe dele, com o se tivessem ouvido dizer que o próprio inferno estava ali.

–… bom , eles eram a favor de incendiar suas casas im ediatam ente e fazer um a m atança. Fazer com o na época em que o Nove Sangrento com andava, estão entendendo?

Algum as crianças com eçaram a chorar um pouco, com fungadelas úm idas. O garoto olhou ao redor, com o cutelo balançando na m ão, a garota de cabelos escuros piscou e apertou o ancinho com m ais força. Eles haviam entendido m uito bem .

– Mas pensei em lhes dar um a chance j usta de desistir, j á que a cidade está cheia de m ulheres e crianças e tal. Meu problem a é com Bethod, não com vocês. A União quer usar este lugar com o porto, trazer hom ens, suprim entos e tudo o m ais. Eles vão chegar em seus navios em m enos de um a hora. São m uitos. Isso vai acontecer, quer vocês queiram ou não. Acho que o que quero dizer é que podem os fazer isso do m odo sangrento, se vocês preferirem . Os m ortos sabem que tem os prática. Ou vocês podem entregar suas arm as, se tiverem , e todos podem os nos dar bem , de form a gentil e… Qual é m esm a a palavra?

– Civilizada – em endou Sinistro.

– É. Civilizada. O que acham ?

O velho m exeu os dedos na espada, parecendo que preferiria se apoiar nela a brandi-la, e olhou para a m uralha, onde alguns Carls olhavam para baixo, e seus om bros se afrouxaram .

– Parece que vocês nos pegaram de j eito. Cachorrão, hein? Sem pre ouvi dizer que você era um desgraçado esperto. De qualquer m odo, não resta m uita gente aqui para lutar contra vocês. Bethod pegou cada hom em que pudesse segurar um a lança e um escudo ao m esm o tem po. – Olhou o lam entável grupo de pessoas ao redor. – Vão deixar as m ulheres em paz?

– Vam os.

– As que quiserem ser deixadas em paz – disse Barca Negra, olhando de form a m aliciosa para a garota do ancinho.

– Vam os deixá-las em paz – rosnou Cachorrão, repreendendo-o com o olhar. – Eu garanto.

– Bom , então – chiou o velho, arrastando os pés e se encolhendo de dor quando se aj oelhou e largou a espada enferruj ada aos pés de Cachorrão. – Para m im você é um hom em m elhor do que Bethod. Acho que eu deveria agradecer por sua m isericórdia, se cum prir com a palavra.

– Uh.

Cachorrão não se sentia m uito m isericordioso. Duvidava que o velho que ele havia m atado no cais estivesse grato, ou o m aneta esfaqueado pelas costas, ou o garoto com o pescoço cortado, que tivera a vida roubada.

Um a a um a as dem ais pessoas avançaram e um a a um a as arm as, se é que podiam ser cham adas assim , foram largadas num a pilha. Um a pilha de ferram entas e lixo velho e enferruj ado. O garoto foi o últim o. Deixou seu cutelo cair j unto ao resto das coisas, olhou apavorado para Barca Negra, depois correu de volta para perto dos outros e segurou a m ão da garota de cabelos escuros.

Ficaram parados, j untos e de olhos arregalados, e Cachorrão quase sentia o cheiro do m edo. Estavam esperando que Barca Negra e seus Carls com eçassem a m atá-los ali m esm o. Esperavam ser arrebanhados até algum a casa, que em seguida seria trancada e incendiada. Cachorrão tinha presenciado tudo isso antes. Por isso não os culpava ao vê-los se am ontoarem com o ovelhas num cam po no inverno. Ele teria feito o m esm o.

– Certo! – rosnou. – É isso! Voltem para suas casas, ou sei lá para onde. A União vai chegar antes do m eio-dia e seria m elhor que as ruas estivessem livres.

Eles piscaram para Cachorrão, para Tul, para Barca Negra e uns para os outros. Engoliram em seco e trem eram , depois m urm uraram agradecendo aos m ortos. Separaram -se lentam ente e se espalharam , cada qual pegando seu cam inho. Vivos, para grande alívio de todos.

– Muito bem , chefe – disse Tul no ouvido de Cachorrão. – Nem o próprio Três Árvores teria feito m elhor.

Barca Negra veio pelo outro lado.

– Mas, com relação às m ulheres, se quer m inha opinião…

– Não quero.

– Você viu o m eu filho?

Havia um a m ulher que não tinha ido para casa. Ela ia de um hom em a outro, com lágrim as nos olhos e o rosto contorcido de preocupação. Cachorrão baixou a cabeça e olhou para outro lado.

– Meu filho, ele estava de guarda, perto da água! Vocês viram ? – Ela puxou o casaco de Cachorrão, a voz esganiçada e chorosa. – Por favor, onde está o m eu filho?

– Acha que eu sei onde todo m undo está? – disse ele rispidam ente na cara m olhada da m ulher.

Em seguida se afastou com o se tivesse um m onte de coisas im portantes a fazer, e o tem po todo pensava: você é um covarde, Cachorrão, é a porcaria de um covarde desgraçado. Baita herói, fazendo um belo truque com um punhado de m ulheres, crianças e velhos.

Não é fácil ser chefe.