O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 17 de 61

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O duelo dos reis

A armadilha

 

DE VOLTA AOS Lugares Altos… e o ar era frio e lím pido, afiado e fam iliar na garganta de Logen. A m archa havia com eçado suave por entre a m ata, um a subida praticam ente im perceptível. Então as árvores ficaram m ais escassas e o cam inho os levou por um vale, entre cam pos cobertos de capim , fendidos por córregos m urm urantes, pontuados por carriços e toj o, contidos dos dois lados por encostas de rocha nua e lascas de pedra soltas que ficavam cada vez m ais íngrem es. No alto, em am bos os lados do desfiladeiro, dois penhascos enorm es se erguiam . Para além deles, na névoa, se insinuavam picos de m ontanhas – gris e acinzentados e de um cinzento m ais claro, fundidos a distância com o céu cinza pesado.

O sol surgia, sério, quente dem ais para cam inhar, claro dem ais para olhar. Todos estavam cansados de subir, e preocupados, e olhando para trás, para ver se enxergavam Bethod. Quatrocentos Carls, talvez, e a m esm a quantidade de m ontanheses de rosto pintado, todos espalhados num a coluna com prida, xingando e cuspindo, as botas esm agando e escorregando na terra seca e nas pedras soltas. A filha de Crum m ock se esforçava à frente de Logen, dobrada sob o peso da m arreta do pai, o cabelo em volta do rosto escuro de suor. A filha de Logen j á estaria m ais velha do que ela. Se não tivesse sido m orta pelos shankas, j unto com a m ãe e os irm ãos. Esse pensam ento deu a Logen um sentim ento oco, de culpa. Um sentim ento ruim .

– Quer um a aj udinha com essa m arreta, garota?

– Não, porra! – gritou ela, depois tirou a ferram enta do om bro e foi arrastando-a pela encosta, segurando-a pelo cabo, o tem po todo m ostrando um a carranca para ele, com a cabeça da m arreta fazendo barulho e deixando um sulco no solo pedregoso.

Logen piscou. Seu j eito com as m ulheres surtia o m esm o efeito com as de 10 anos.

Crum m ock veio até ele, os ossos de dedos balançando em volta do pescoço.

– Ela é feroz, hein? É preciso ser feroz para ser da m inha fam ília! – Ele se inclinou na direção de Logen e deu um a piscadela. – E é a m ais feroz de todos, essa cadelinha. Para ser honesto, ela é m inha predileta. – Balançou a cabeça observando-a arrastar a m arreta. – Vai ser um a esposa infernal para algum pobre coitado, um dia. Chegam os, caso você estej a se perguntando.

– Hein? – Logen enxugou o suor do rosto, franzindo a testa enquanto olhava ao redor. – Onde…

Então percebeu. A fortaleza de Crum m ock, se era possível cham ar assim , estava bem à frente.

Ali o vale não tinha m ais de cem passos, de um penhasco até o outro, e um a m uralha fora construída atravessando-o. Um a m uralha antiga e m eio desm oronada, feita de blocos rústicos, tão cheia de rachaduras, tão coberta de trepadeiras, espinheiros e capim que quase fazia parte das m ontanhas. Não era m uito m ais íngrem e do que o próprio vale; no ponto m ais alto seria equivalente a três hom ens de pé um no om bro do outro, afundando aqui e ali com o se estivesse a ponto de despencar sozinha. No centro havia um portão de tábuas cinza gastas pelo tem po e m eio cobertas de líquen, que conseguiam parecer podres e secas ao m esm o tem po.

De um dos lados da m uralha havia um a torre, construída de encontro ao penhasco. Ou pelo m enos havia um grande pilar natural proj etando-se da rocha com nacos de pedras m eio cortadas, presas com argam assa, form ando um a plataform a am pla na lateral do penhasco, vigiando a m uralha lá de cim a. Logen olhou para Cachorrão enquanto subia, e Cachorrão franziu os olhos para a m uralha com o se não pudesse acreditar nos próprios olhos.

– É isso? – resm ungou Barca Negra, chegando até eles, com os lábios repuxados.

Algum as árvores haviam criado raízes num dos lados, logo abaixo da torre, pelo m enos cinquenta anos antes. Agora elas se erguiam sobre a m uralha. Um hom em poderia subir por elas e entrar no lugar sem ao m enos esticar os braços.

Tul olhou para aquele arrem edo de fortaleza.

– Você disse que era um a praça-forte nas m ontanhas.

– Meio forte. – Crum m ock balançou a m ão. – Nós, hom ens das m ontanhas, nunca fom os m uito bons em construir e coisa e tal. O que vocês esperavam ? Dez torres de m árm ore e um salão m aior que o de Skarling?

– Eu esperava um a m uralha pelo m enos um pouco decente – resm ungou Barca Negra.

– Ora! Muralha? Ouvi dizer que você era frio feito neve e quente feito m ij o, Barca Negra, e agora quer m uralhas para se esconder?

– Nós estarem os em m enor núm ero, um para dez, se Bethod aparecer, seu m aluco desgraçado! Você está certíssim o, eu quero um a m uralha, e você disse que haveria um a!

– Mas você m esm o disse, am igo. – Crum m ock falava baixo e devagar com o se explicasse a um a criança, e bateu na lateral da cabeça com um dedo grosso. – Eu sou m aluco! Maluco feito um saco de coruj as, e todo m undo diz isso! Não lem bro o nom e dos m eus filhos. Quem sabe o que eu acho que é um a m uralha? Nem eu m esm o sei do que estou falando na m aior parte das vezes, e vocês são idiotas a ponto de m e ouvir? Vocês é que devem ser m alucos!

Logen m assageou a ponte do nariz e soltou um gem ido. Agora os Carls de Cachorrão se reuniam ao redor deles, olhando aquele m onte de pedras cobertas de m usgo e m urm urando entre si, nem um pouco felizes. Logen não poderia culpá-los. Eles haviam feito um a cam inhada longa e calorenta para encontrar isso, no fim . Mas não tinham opção, pelo que dava para ver.

– É m eio tarde para construir um a m elhor – resm ungou. – Vam os precisar nos virar com o que tem os.

– É m esm o, Nove Sangrento, você não precisa de m uralha e sabe disso! – Crum m ock deu um tapa no braço de Logen com sua m ão grande e gorda. – Você não pode m orrer! Você é am ado pela Lua, m eu grande novo am igo, acim a de todos os outros! Você não pode m orrer, não com a Lua vigiando! Não pode…

– Cale a boca – bradou Logen.

Seguiram de m au hum or pela encosta, indo na direção do portão. Crum m ock gritou e os velhos portões frágeis se abriram . Dois hom ens das m ontanhas se puseram de lado com ar de desconfiança, observando-os entrar. Subiram um a ram pa íngrem e cortada na rocha, todos cansados e reclam ando, e chegaram a um espaço plano. Era um a depressão entre os dois penhascos, talvez com cem passos de largura e duzentos de com prim ento, com rochedos íngrem es a toda a volta. Havia algum as cabanas de m adeira e barracos espalhados pela borda, todos verdes de m usgo velho, além de um corredor instável construído contra a face da rocha, de onde fum aça subia de um a cham iné boj uda. Ao lado dele, um a escada estreita cortada no penhasco levava à plataform a no topo da torre.

– Não há para onde fugir – m urm urou Logen – se as coisas ficarem feias.

Crum m ock apenas deu um riso m ais largo.

– Claro que não. Esse é o obj etivo, não é? Bethod vai achar que pegou a gente igual a besouros num a garrafa.

– E vai ter pegado m esm o – resm ungou Cachorrão.

– É, m as aí os seus am igos virão por trás dele e ele vai levar o m aior susto da vida, não é? Quase vai valer a pena ver a cara daquele desgraçado com edor de m erda!

Logen retorceu a boca e cuspiu no chão pedregoso.

– Im agino com o vai estar a nossa cara nesse ponto. Sem cor nem expressão feito cadáveres, suponho.

Um rebanho de ovelhas desgrenhadas se com prim ia num cercado, balindo e olhando assustadas ao redor. Encurraladas e im potentes. Logen entendia com o se sentiam . Do lado de dentro do forte, onde o terreno era bem m ais alto, praticam ente não havia m uralha. Seria possível subir com apenas um passo, se você tivesse pernas com pridas, e ficar sobre aquela im itação de parapeito, m eio desm oronado e coberto de m usgo.

– Não preocupe seu rostinho lindo com nada, Nove Sangrento – riu Crum m ock. – Minha fortaleza poderia ser m ais bem construída, adm ito, m as o terreno está a nosso favor, e as m ontanhas, e a Lua, tudo sorrindo para nosso ousado em preendim ento. Esta é um a praça-forte com um a história forte. Não conhece a história de Laffa, o Bravo?

– Acho que não.

Logen não tinha certeza se queria ouvi-la agora, m as não costum ava m esm o conseguir o que queria.

– Laffa foi um grande chefe dos bandoleiros m ontanheses, há m uito tem po. Atacou todos os clãs ao redor durante anos, ele e seus irm ãos. Num verão quente, os clãs ficaram fartos, por isso se j untaram e o caçaram nas m ontanhas. Foi aqui que ele ofereceu a resistência final. Bem aqui, nesta fortaleza. Laffa, os irm ãos e todo o povo dele.

– O que aconteceu? – perguntou Cachorrão.

– Todos foram m ortos. Suas cabeças foram cortadas e postas em sacos, e os sacos foram enterrados no buraco que eles usavam para cagar. – Crum m ock sorriu. – Acho que é isso que cham aram de resistência final, não?

– É isso? A história toda é essa?

– É só isso que eu sei, m as não im agino o que m ais poderia haver. Digam os que foi o fim de Laffa.

– Obrigado pelo encoraj am ento.

– Tudo bem , tudo bem ! Tenho m ais histórias, se quiserem !

– Não, não, para m im basta.

Logen se virou e com eçou a se afastar. Cachorrão foi ao seu ao lado.

– Pode m e contar m ais se nós vencerm os.

– Rá-rá-rá, Nove Sangrento! – gritou Crum m ock atrás dele. – Isso é que vai ser história, hein? Você não m e engana! Você é com o eu, am ado pela Lua! Nós lutam os com m ais força quando estam os de costas para as m ontanhas e não há saída! Vá dizer que não é assim ! Nós adoram os quando não tem os opção!

– Ah, é – m urm urou Logen consigo m esm o enquanto ia pisando firm e na direção do portão. – Não há nada m elhor do que não ter opções.

 

Cachorrão estava ao pé da m uralha, olhando para o topo dela e im aginando o que fazer para dar a todos um a chance m elhor de viver m ais um a sem ana.

– Seria bom tirar todas essas trepadeiras e o capim – disse. – Isso torna m uito m ais fácil escalar.

Tul levantou um a sobrancelha.

– Tem certeza que não são as plantas que m antêm isso de pé?

Sinistro puxou um cipó e um a chuva de m assa seca veio j unto.

– Talvez você estej a certo – suspirou Cachorrão. – Vam os cortar o que puderm os, então, hein? Trabalhar no topo vai ser um tem po bem gasto. Vai ser bom ter um a boa pilha de pedras para nos esconderm os quando Bethod com eçar a disparar flechas.

– Vai m esm o – concordou Tul. – E a gente podia cavar um fosso aqui na frente, enfiar algum as estacas no fundo e dificultar a aproxim ação deles.

– Então feche aquele portão com pregos e coloque um a pilha de pedras atrás dele.

– Vai ser difícil a gente sair – observou Tul.

– Acho que sair não vai ser o m aior problem a – acrescentou Logen, resfolegando.

– Você não deixa de ter certa razão. – Crum m ock riu, chegando com um cachim bo aceso na m ão gorda. – É com os rapazes de Bethod entrando que a gente deveria se preocupar.

– Rem endar essa m uralha seria um bom com eço para m e tranquilizar – falou Cachorrão, e apontou para as árvores que cresciam sobre a m uralha. – Precisam os cortar aquilo ali, quebrar um as pedras e preparar um pouco de m assa e tal. Crum m ock, você tem gente que possa fazer isso? Tem ferram entas?

Crum m ock deu um trago no cachim bo, franzindo a testa para Cachorrão o tem po todo, e soprou um a fum aça m arrom .

– Posso ter, m as não vou receber ordens de alguém com o você, Cachorrão. A Lua conhece m eus talentos, e eles são para o assassinato, não para fazer m assa.

Sinistro revirou os olhos.

– De quem você receberia ordens? – perguntou Logen.

– Receberia de você, Nove Sangrento, e de ninguém m ais! A Lua am a você, e eu am o a Lua, e você é o hom em para…

– Então j unte o seu povo e com ece a cortar m adeira e pedra, porra! Estou de saco cheio de sua falação.

Crum m ock bateu as cinzas do cachim bo a contragosto num a pedra da m uralha.

– Vocês não são nem um pouco divertidos, não fazem nada além de se preocupar. Precisam pensar no lado bom disso. O pior que pode acontecer é Bethod não vir!

– O pior? – surpreendeu-se Cachorrão. – Tem certeza? E se Bethod vier e os Carls dele chutarem sua m uralha com o um a pilha de bosta e m atarem a gente?

A testa de Crum m ock se franziu. Ele olhou carrancudo para o chão. Franziu os olhos para as nuvens.

– É verdade – disse, abrindo um sorriso. – Isso é pior. Você pensa rápido, garoto.

Cachorrão soltou um longo suspiro e olhou para o vale. Talvez a m uralha não fosse o que eles haviam esperado, m as ele não podia questionar a posição. Subir aquela encosta íngrem e contra um grupo de hom ens im placáveis lá em cim a, capazes e preparados para m atar, sem nada a perder… não era diversão para ninguém .

– Vai ser difícil se organizarem lá em baixo – disse Logen, dando voz aos pensam entos de Cachorrão. – Ainda m ais com flechas m ergulhando de cim a e sem ter nenhum lugar onde se esconder. Os núm eros não devem fazer m uita diferença. Eu m esm o não gostaria m uito de tentar. Com o vam os fazer, se eles vierem ?

– Vam os nos dividir em três equipes – falou Cachorrão e assentiu para a torre. – Eu lá em cim a com um as cinco vintenas dos m elhores arqueiros. É um bom lugar de onde disparar. Bom e alto, com boa vista da frente da m uralha.

– Uh – expressou-se Sinistro.

– Talvez alguns rapazes fortes para atirar um a ou duas pedras.

– Eu j ogo um a rocha – disse Tul.

– Muito bem . Então nossos m elhores rapazes na m uralha, prontos para enfrentá-los corpo a corpo se chegarem ao topo dela. Vai ser sua equipe, Logen. Barca Negra, Trem edeira e Gorro Verm elho podem ficar com você.

Logen assentiu, não m uito feliz.

– Certo.

– E Crum m ock atrás, com seus hom ens das m ontanhas, prontos para atacar se passarem pelo portão. Se a gente durar m ais de um dia, talvez vocês possam trocar. Os m ontanheses em cim a da m uralha, Logen e o resto atrás dela.

– É um trem endo plano para um hom em pequenino! – falou Crum m ock, dando-lhe um tapa no om bro com a m ão enorm e e quase o acertando na cara. – Na certa você o recebeu da Lua enquanto dorm ia! Eu não m udaria nada! – Bateu o punho carnudo na palm a da própria m ão. – Adoro um bom ataque! Espero que os sulistas não venham e deixem m ais para nós! Quero partir para cim a agora!

– Bom para você – grunhiu Cachorrão. – Talvez a gente ache um penhasco para você partir para cim a.

Cachorrão franziu os olhos para o sol e observou de novo a m uralha que guardava todas as esperanças. Não gostaria de tentar escalá-la por esse lado, m as ela não era nem de longe tão alta ou forte quanto ele gostaria. A gente nem sem pre tem o que gostaria, teria dito Três Árvores. Mas pelo m enos um a vez seria bom .

– A arm adilha está pronta – disse Crum m ock, rindo para o vale.

Cachorrão assentiu.

– A única pergunta é quem vai ficar preso nela. Bethod? Ou nós?

 

Logen cam inhava pela noite, por entre as fogueiras. Ao redor de algum as havia Carls bebendo a cervej a de Crum m ock, fum ando seu chagga e rindo de histórias. Outras tinham hom ens das m ontanhas que pareciam lobos àquela luz, com suas peles ásperas, o cabelo em bolado, os rostos m eio pintados. Um deles cantava em algum lugar. Canções estranhas num a língua estranha que latia e trinava com o os anim ais da floresta, subia e descia com o os vales e os picos. Logen precisava adm itir que, pela prim eira vez em algum tem po, fum ara e bebera tam bém . Tudo parecia quente. As fogueiras, os hom ens e até o vento frio. Foi serpenteando pela escuridão, procurando a fogueira onde Cachorrão e os outros estavam , sem a m enor pista de com o encontrá-la. Estava perdido, em m uitos sentidos.

– Quantos hom ens você m atou, papai?

Tinha de ser a filha de Crum m ock. Não havia m uitas vozes agudas naquele acam pam ento, o que era um a pena. Logen viu a grande silhueta do m ontanhês no escuro, com os três filhos sentados perto e as arm as grandes dem ais ao alcance.

– Ah, m atei um a legião deles, Isern. – A voz grandiosa e profunda de Crum m ock ribom bou enquanto Logen chegava m ais perto. – Mais do que posso lem brar. Seu pai pode não ser m uito inteligente o tem po todo, m as é um inim igo ruim de se ter. Um dos piores. Vocês vão ver a verdade disso de perto, quando Bethod e seus lam be-cus vierem . – Ele levantou os olhos e viu Logen. – Juro, e não duvido que Bethod j uraria com igo, que só há um desgraçado em todo o Norte que é m ais m aligno, m ais sangrento e m ais im placável do que o pai de vocês.

– Quem ? – perguntou o m enino do escudo.

Logen sentiu o coração se apertar quando o braço de Crum m ock se levantou para apontá-lo.

– Ora, é aquele ali. O Nove Sangrento.

A garota olhou irritada para Logen.

– Não é nada! Você poderia acabar com ele, pai!

– Pelos m ortos, eu, não! Nem diga isso, garota, senão eu faço um a poça de m ij o suficiente para você se afogar.

– Ele não parece grande coisa.

– E essa é um a lição para vocês três. Não parecer m uita coisa, não dizer m uita coisa, não aparentar m uita coisa é um bom prim eiro passo para ser perigoso, hein, Nove Dedos? Depois, quando você solta o diabo, o coitado do lado oposto leva o dobro do susto. Susto e surpresa, m inhas belezuras, e rapidez no ataque, e nenhum a piedade. Essas são as coisas que fazem um m atador. Tam anho, força e um a voz grossa e alta têm o seu papel, m as não são nada diante de um a velocidade assassina, m onstruosa, im placável, hein, Nove Sangrento?

Era um a lição difícil para crianças, m as o pai de Logen havia lhe ensinado a m esm a coisa quando ele era pequeno e, m esm o depois de tantos anos, ele ainda se lem brava.

– É um fato lam entável. Quem ataca prim eiro costum a atacar por últim o.

– Isso m esm o! – gritou Crum m ock, dando um tapa na coxa enorm e. – Muito bem dito! Mas é um fato feliz, e não lam entável. Vocês se lem bram do velho Wilum , não é, m eus filhos?

– O trovão pegou ele! – gritou o m enino do escudo. – Num a tem pestade, nos Lugares Altos!

– Foi m esm o! Num m om ento ele estava ali parado, no outro houve um barulho com o se o m undo estivesse caindo e veio um clarão igual ao sol, e o Wilum estava m orto que nem m inhas botas!

– Os pés dele pegaram fogo! – A garota riu.

– Pegaram m esm o, Isern. Vocês viram a rapidez com que ele m orreu, o susto, o m odo com o o raio teve pouca m isericórdia. – O olhar de Crum m ock foi até Logen. – Seria assim ficar no cam inho daquele hom em ali. Num m om ento você diz um a palavra rude e no outro… – Ele bateu palm as com um estalo, o que fez as crianças pularem . –… ele m andou vocês de volta à lam a. Mais rápido do que o céu m atou Wilum , e sem lam entar m ais. Sua vida fica por um fio a cada m om ento em que estão a m enos de dois passos daquele desgraçado ali, que não parece ser nada, não é, Nove Sangrento?

– Bom …

Logen não estava gostando m uito daquilo.

– Quantos hom ens você m atou, então? – gritou a m enina para ele, em pinando o nariz.

Crum m ock gargalhou e esfregou o cabelo dela.

– Não existem núm eros para um a contagem tão grande, Isern! Ele é o rei dos m atadores! Ninguém é m ais m ortal, em nenhum lugar abaixo da Lua.

– E o tal Tem ível? – perguntou o m enino da lança.

– Uuuuuuh – arrulhou Crum m ock, com um sorriso atravessando o rosto. – Ele não é hom em , Scofen. Ele é outra coisa. Mas fico pensando: Fenris, o Tem ível, e o Nove Sangrento, cada um decidido a m atar o outro… – Esfregou as m ãos. – Essa é um a coisa que eu gostaria de ver. Essa é um a coisa que a Lua adoraria ilum inar.

Seus olhos se viraram para o céu e Logen os acom panhou. A Lua estava lá em cim a, no céu negro, grande e branca, reluzindo com o fogo novo.