O duelo dos reis
O melhor inimigo
– TOC, TOC.
– Agora não! – explodiu o coronel Glokta. – Tenho tudo isto para resolver!
Devia haver uns 10 m il papéis de confissões para ele assinar. A m esa gem ia sob as grandes pilhas e a ponta de sua pena estava m ole feito m anteiga. Com a tinta verm elha, as m arcas pareciam m anchas de sangue escuras espalhadas no papel claro.
– Desgraça! – disse, furioso, ao derrubar o tinteiro com o cotovelo, espirrando tinta sobre a m esa, e a tinta encharcou as pilhas de papéis e com eçou a pingar no chão com um toc, toc, toc contínuo.
– Mais tarde haverá tem po para você confessar. Muito tem po.
O coronel franziu a testa. Ficara frio ali.
– Você de novo! Sem pre nos piores m om entos!
– Então se lem bra de m im ?
– Acho que…
Na verdade o coronel não conseguia se lem brar de onde conhecia aquela pessoa que estava no canto. Parecia um a m ulher, m as ele não conseguia identificar o rosto.
– O Artífice caiu queim ando… se despedaçou sobre a ponte lá em baixo…
As palavras eram fam iliares, m as Glokta não sabia por quê. Velhas histórias e absurdos. Encolheu-se. Maldição, sua perna doía.
– Acho que…
Sua confiança costum eira foi se esvaindo por com pleto. Agora a sala estava fria com o gelo e ele podia ver a respiração virando fum aça diante do rosto. Levantou-se cam baleando, a perna doendo ferozm ente, enquanto o visitante indesej ado se aproxim ava.
– O que você quer? – conseguiu grasnar.
O rosto chegou à luz. Era ninguém m enos do que Mauthis, da casa bancária Valint e Balk.
– A Sem ente, coronel – disse, dando seu sorriso sem alegria. – Quero a Sem ente.
– Eu… eu… – foi dizendo Glokta, e suas costas encontraram a parede. Não podia recuar m ais.
– A Sem ente! – falou o outro, m as agora com o rosto de Goy le, então o de Sult, depois o de Severard, m as todos faziam a m esm a exigência: – A Sem ente! Estou perdendo a paciência!
– Bay az – sussurrou, fechando os olhos com força, as lágrim as escorrendo por baixo das pálpebras. – Bay az sabe…
– Toc, toc, torturador – falou de novo a voz sibilante da m ulher, enquanto um a ponta de dedo batia na lateral da cabeça de Glokta dolorosam ente. – Se aquele velho m entiroso soubesse, ela j á seria m inha. Não. Você vai encontrá-la.
O coronel não conseguia falar, de tanto m edo.
– Você vai encontrá-la, ou vai pagar o preço com essa sua carne retorcida. Por isso, toc, toc: é hora de acordar.
O dedo bateu em seu crânio de novo, penetrando na lateral da cabeça com o um a lâm ina de adaga.
– Toc, toc, aleij ado! – sibilou a voz hedionda em seu ouvido, a respiração tão fria que parecia arder em sua face. – Toc, toc.
Toc, toc.
Por um m om ento Glokta não soube onde estava. Sentou-se de um salto na cam a, lutando com as cobertas, olhando ao redor, cercado de todos os lados por som bras am eaçadoras, percebendo a própria respiração com o gem idos sibilantes. Depois, de repente, tudo se encaixou. Meus novos aposentos. Um a brisa agradável agitou as cortinas na noite pegaj osa, entrando pela única j anela aberta. Glokta viu as som bras delas na parede. A j anela se fechou contra a esquadria, abriu, depois fechou de novo.
Toc, toc.
Fechou os olhos e soltou um longo suspiro. Encolheu-se ao afundar de volta na cam a, esticando as pernas, m exendo os dedos para aliviar a cãibra. Esses dedos os gurkenses me deixaram, ao menos. Foi só outro sonho. Tudo está…
Então se lem brou, e seus olhos se arregalaram de súbito. O rei está morto. Amanhã vamos eleger outro.
Os 320 papéis estavam presos, inanim ados, nos pregos. Tinham ficado cada vez m ais am arrotados, batidos, engordurados e suj os nas últim as sem anas. Enquanto o negócio, em si, afundava mais ainda na imundície. Muitos haviam ganhado m anchas de tinta, anotações rabiscadas raivosam ente, acréscim os e cortes. À medida que homens eram comprados e vendidos, ameaçados e chantageados, subornados e adulados. Muitos estavam rasgados onde cera fora rem ovida, acrescentada, substituída por outras cores. Quando as alianças mudaram, promessas foram quebradas e o equilíbrio pendeu para cá ou para lá.
Com o casaco branco am arrotado e o cabelo branco desalinhado, o arquileitor Sult estava parado olhando os papéis com irritação, com o um pastor diante de seu rebanho problem ático. Glokta nunca o vira parecer em público nada m enos do que im pecável. Por fim deve estar sentindo gosto de sangue. Dele mesmo. Quase sinto vontade de rir, se minha boca não estivesse tão terrivelmente salgada.
– Brock tem 75 – sibilava Sult sozinho, com as m ãos cobertas pelas luvas brancas m exendo um a na outra às costas. – Brock tem 75. Isher, 55. Skald e Barezin, 40 cada. Brock tem 75… – m urm urava repetidam ente, com o se aqueles núm eros fossem um feitiço que o protegeria do m al. Ou do bem, talvez. – Isher tem 55…
Glokta precisou conter um sorriso. Brock, depois Isher, depois Skald e Barezin, enquanto a Inquisição e o Judiciário lutam por migalhas. Apesar de todos os nossos esforços, tudo continua praticamente igual a quando começamos essa dança grotesca. Seria melhor se tivéssemos fugido do país e nos poupado o incômodo. Talvez ainda não seja tarde demais…
Glokta pigarreou ruidosam ente e a cabeça de Sult girou num m ovim ento brusco.
– Tem algo a dizer?
– De certa form a, Em inência – falou Glokta no tom m ais servil que pôde. – Recentem ente recebi algum as inform ações… perturbadoras.
Sult torceu o nariz e assentiu na direção dos papéis.
– Mais perturbadoras do que isso?
Igualmente, pelo menos. Afinal de contas, quem vencer a eleição terá apenas uma breve comemoração antes que os gurkenses cheguem para trucidar todos nós uma semana depois.
– Foi-m e sugerido… que os gurkenses estão se preparando para invadir a Terra do Meio.
Houve um a pausa breve e desconfortável. Uma recepção nem um pouco promissora, mas agora já enfunamos as velas. O que mais resta fazer, além de guiar o barco para a tempestade?
– Invadir? – zom bou Goy le. – Com o quê?
– Não é a prim eira vez que m e dizem que eles têm um a frota. – Tentando desesperadamente evitar que minha embarcação afunde. – Um a frota considerável, construída em segredo depois da últim a guerra. Poderíam os facilm ente fazer alguns preparativos e, se os gurkenses vierem …
– E se você estiver errado? – rebateu o arquileitor, franzindo a testa com força. – De quem veio essa inform ação?
Ah, que coisa, isso nunca vai dar certo. Carlot dan Eider? Viva? Mas como? Corpo encontrado flutuando no cais…
– Um a fonte anônim a, arquileitor.
– Anônim a? – repetiu Sua Em inência, olhando-o com irritação. – E você quer que eu vá até o Conselho Fechado, num m om ento assim , e coloque diante deles um boato não com provado vindo de sua fonte anônim a? – As ondas varrem o convés…
– Eu apenas queria alertar Vossa Em inência sobre a possibilidade…
– Quando eles vêm ? – A vela rasgada se agita na tempestade…
– Minha inform ação não…
– Onde vão desem barcar? – Os marinheiros despencam do cordame, gritando…
– De novo, Em inência, não posso…
– Qual será o núm ero de invasores? – O timão se parte nas minhas mãos trêmulas…
Glokta se encolheu e decidiu não falar m ais nada.
– Então faça a gentileza de não nos distrair com boatos – zom bou Sult, com o lábio contraído de desprezo. O navio desaparece sob as ondas implacáveis, com a carga de avisos preciosos levada ao fundo, e a falta do capitão não será sentida. – Tem os preocupações m ais prem entes do que um a legião de fantasm as gurkenses!
– Claro, Em inência. – E, se os gurkenses vierem, quem iremos enforcar? Ah, o superior Glokta, claro. Por que aquele aleijado maldito não nos avisou?
A m ente de Sult j á voltara para seus círculos desgastados.
– Tem os 31 votos e Marovia tem pouco m ais de 20. Trinta e um . Não é suficiente para fazer diferença – concluiu, balançando a cabeça, sério, os olhos azuis dardej ando pelos papéis. Como se houvesse uma nova forma de olhá-los que altere essa terrível matemática. – Nem de longe.
– A não ser que chegássem os a um acordo com o j uiz suprem o Marovia.
De novo, um a pausa, m ais desconfortável ainda do que da últim a vez. Ai, caramba, devo ter dito isso em voz alta.
– Um acordo? – sibilou Sult.
– Com Marovia? – guinchou Goy le, os olhos arregalando-se de triunfo. Quando já esgotamos todas as opções seguras, é hora de correr riscos. Não foi o que eu disse a mim mesmo quando cavalguei para a ponte, enquanto os gurkenses se apinhavam do outro lado? Ah, bem, mais uma vez na tempestade…
Glokta respirou fundo.
– A cadeira de Marovia no Conselho Fechado não é m ais segura do que a de ninguém . Nós podem os ter trabalhado uns contra os outros, m as só por hábito. Nesta eleição nosso obj etivo é o m esm o. Garantir um candidato fraco e m anter o equilíbrio. Juntos vocês têm m ais de 50 votos. Isso pode servir m uito bem para alterar o equilíbrio.
Goy le deu um riso de desprezo.
– Unir forças com aquele hipócrita am ante dos cam poneses? Perdeu o j uízo?
– Cale a boca, Goy le – rosnou Sult e olhou carrancudo para Glokta durante um longo tem po, os lábios contraídos enquanto pensava.
Estaria pensando no meu castigo, talvez? Outra surra verbal? Ou uma surra de verdade? Ou meu corpo encontrado flutuando…
– Você está certo. Vá falar com Marovia.
Sand dan Glokta, de novo herói!
– Mas… Em inência! – reclam ou um Goy le de queixo caído.
– O tem po do orgulho j á ficou m uito para trás! – vociferou Sult. – Devem os aproveitar qualquer chance de m anter Brock e os outros longe do trono. Devem os encontrar m eios-term os, por m ais dolorosos que sej am , e angariar qualquer aliado que conseguirm os. Vá! – ordenou por cim a do om bro, cruzando os braços e se virando de volta para os papéis que estalavam . – Faça um acordo com Marovia.
Glokta se levantou rigidam ente. Uma pena deixar uma companhia tão agradável, mas quando o dever chama… Deu um brevíssim o sorriso sem dentes para Goy le, depois pegou a bengala e foi m ancando para a porta.
– E, Glokta!
Ele estrem eceu ao se virar de volta para o arquileitor.
– Os obj etivos de Marovia e os nossos podem ser os m esm os no m om ento, m as não podem os confiar nele. Olhe bem onde pisa.
– Claro, Em inência. – Eu sempre olho. Que outra opção se tem, quando cada passo é uma agonia?
O escritório particular do j uiz suprem o era grande feito um celeiro, cheio de som bras e com o teto coberto de festões de m ofo velho. Apesar de ser apenas o fim da tarde, a hera densa do lado de fora das j anelas e a suj eira grossa nos vidros haviam afundado o lugar num crepúsculo perpétuo. Pilhas instáveis de papéis se aglom eravam em todas as superfícies. Porções de docum entos am arrados com fita preta. Montes de livros encadernados em couro. Colunas de pergam inhos em poeirados escritos em letra grandiosa, rebuscada, selados com enorm es lacres de cera e douração. Um reino inteiro de leis, parecia. E, de fato, provavelmente é.
– Superior Glokta, boa tarde – cum prim entou-o o próprio Marovia, sentado perto da lareira vazia, a um a m esa longa arrum ada para o j antar, com um lustre trem eluzente fazendo cada prato reluzir na penum bra. – Espero que não se incom ode se eu com er enquanto conversam os. Eu preferiria j antar no conforto dos m eus aposentos, m as cada vez m ais m e pego fazendo as refeições aqui. Excesso de coisas para fazer, sabe? E parece que um dos m eus secretários tirou férias sem avisar. – Umas férias no piso do matadouro, de fato, nos intestinos de um rebanho de porcos. – Gostaria de m e acom panhar?
Marovia indicou um grande pedaço de carne, quase cru no m eio, nadando num m olho sangrento. Glokta lam beu as gengivas vazias e ocupou um a cadeira do lado oposto.
– Eu adoraria, Meritíssim o, m as as leis odontológicas m e im pedem .
– Ah, claro. Essas leis não podem ser revogadas, nem m esm o por um j uiz suprem o. Você tem m inha sim patia, superior. Um dos m eus m aiores prazeres é um bom pedaço de carne, quanto m ais sangrento, m elhor. Basta m ostrar o fogo a ela, é o que eu sem pre digo ao cozinheiro. Basta m ostrar. – Engraçado. Eu digo aos meus práticos para começar do mesmo modo. – E a que devo esta visita inesperada? Veio por iniciativa própria ou a m ando de seu patrão, m eu estim ado colega do Conselho Fechado, o arquileitor Sult?
Seu inimigo amargo e mortal do Conselho Fechado, é o que quer dizer?
– Sua Em inência sabe que estou aqui.
– Sabe? – falou Marovia, depois cortou outra fatia da carne na travessa e a levou pingando para o prato. – E com que m ensagem ele o m andou? Algo que tenha a ver com o negócio de am anhã no Conselho Aberto, talvez?
– Assim o senhor estraga m inha surpresa, Meritíssim o. Posso falar às claras?
– Se você souber fazer isso.
Glokta m ostrou seu sorriso vazio ao j uiz suprem o.
– Este caso da eleição é terrível para os negócios. A dúvida, a incerteza, a preocupação. É ruim para os negócios de todo m undo.
– Para uns m ais do que para outros.
A faca de Marovia guinchou contra o prato quando ele cortou um a fita de gordura da borda da carne.
– Claro. Os que ocupam o Conselho Fechado e os que lutam por eles são os que m ais correm riscos. Provavelm ente não receberão carta branca se hom ens poderosos com o Brock ou Isher forem eleitos para o trono. – De fato, alguns de nós provavelmente não sobreviverão uma semana.
Marovia espetou um pedaço de cenoura com o garfo e ficou olhando para a com ida.
– Um a situação lam entável. Seria preferível para todos os envolvidos que Ray nault ou Ladisla ainda estivesse vivo – disse e, depois de pensar um instante, se corrigiu: – Se Ray nault ainda estivesse vivo, pelo m enos. Mas a eleição será am anhã, por m ais que arranquem os os cabelos. Agora é difícil ver outra solução – concluiu e depois desviou o olhar da cenoura para Glokta. – Ou você tem algum a para sugerir?
– O senhor, Meritíssim o, controla entre 20 e 30 votos no Conselho Aberto.
Marovia deu de om bros.
– Tenho algum a influência, não posso negar.
– O arquileitor pode contar com 30 votos.
– Bom para Sua Em inência.
– Não necessariam ente. Se vocês dois se opuserem , com o sem pre aconteceu, seus votos não significarão nada. Um para Isher, o outro para Brock, e não haverá diferença.
– Um triste fim para nossas brilhantes carreiras – disse Marovia com um suspiro.
– A não ser que unissem seus recursos. Então os dois poderiam ter 60 votos. Quase tantos quanto Brock controla. O bastante para que Skald, Barezin ou Heugen sej a rei, ou até algum desconhecido, dependendo de com o as coisas andarem . Alguém que poderia ser m ais influenciável no futuro. Alguém que possa m anter o Conselho Fechado que ele j á tem , em vez de escolher um novo.
– Um rei que nos deixasse a todos felizes, é?
– Se o senhor exprim isse preferência por algum hom em , eu poderia levar essa inform ação a Sua Em inência. – Mais passos, mais adulação, mais decepções. Ah, ter um escritório grande que seja meu e ficar o dia inteiro sentado no conforto enquanto homens morrendo de medo se esforçam para subir minha escada e sorrir diante dos meus insultos, engolir minhas mentiras e implorar meu apoio nocivo.
– Devo lhe dizer o que m e deixaria feliz, Superior Glokta?
Agora ouvirei as meditações de outro velho escroto louco pelo poder.
– Sem dúvida, Meritíssim o.
Marovia largou os talheres no prato, recostou-se na cadeira e deu um suspiro longo e cansado.
– Eu gostaria que não houvesse rei. Gostaria que todos os hom ens fossem iguais perante a lei, que pudessem ter influência no governo do próprio país e na escolha de seus líderes. Gostaria que não houvesse rei nem nobres e que o Conselho Fechado fosse escolhido pelos cidadãos e prestasse contas a eles. Um Conselho Fechado aberto para todos, pode-se dizer. O que acha?
Acho que algumas pessoas diriam que isso se parece muito com traição. As demais simplesmente chamariam de loucura.
– Acho, Meritíssim o, que sua ideia é um a fantasia.
– Por quê?
– Porque a vasta m aioria das pessoas preferiria que lhe dissessem o que fazer a ter que optar sozinha. A obediência é fácil.
O j uiz suprem o gargalhou.
– Talvez você estej a certo. Mas as coisas vão m udar. Essa rebelião m e convenceu disso. As coisas vão m udar, a passos pequenos.
– Tenho certeza de que lorde Brock no trono é um passo pequeno que nenhum de nós gostaria que fosse dado.
– Lorde Brock tem de fato opiniões m uito fortes, a m aioria relacionada a ele m esm o. Expressou um argum ento convincente, superior – disse Marovia e se recostou na cadeira, as m ãos pousadas na barriga, olhando para Glokta com as pálpebras apertadas. – Muito bem . Pode dizer ao arquileitor Sult que desta única vez tem os um a causa com um . Se um candidato neutro com apoio suficiente se apresentar, colocarei m eus votos ao lado dos dele. Quem teria pensado nisso? O Conselho Fechado unido – ponderou o j uiz, balançando a cabeça devagar. – São tem pos estranhos m esm o.
– Sem dúvida, Meritíssim o.
Glokta se levantou com dificuldade e se encolheu ao pôr o peso sobre a perna que queim ava. Depois foi arrastando os pés pelo escritório envolto em penum bra e cheio de ecos, até a porta. Mas é estranho que nosso juiz supremo seja tão filosófico com relação a perder seu cargo amanhã. Poucas vezes vi alguém tão calmo. Parou quando tocou a m açaneta da porta. Quase seria de supor que ele soubesse de algo que não sabemos. Ou talvez quase seria de supor que ele já tenha um plano em mente.
Virou-se de volta.
– Posso confiar no senhor, j uiz suprem o?
Marovia levantou a cabeça de form a brusca, erguendo a faca de trinchar.
– Que pergunta lindam ente antiquada para um hom em com sua linha de trabalho! Suponho que possa confiar que agirei dentro de m eus próprios interesses. Assim com o posso confiar que você fará o m esm o. Nosso acordo não vai além disso. Nem deveria. Você é um hom em inteligente, superior, e m e faz rir – falou e voltou a cutucar a carne com o garfo, fazendo o sangue escorrer. – Deveria arranj ar outro patrão.
Glokta saiu arrastando os pés. Uma sugestão encantadora. Mas já tenho dois a mais do que gostaria.
O prisioneiro era um m agricelo forte. Com o costum avam fazer, estava nu e com um saco na cabeça, as m ãos algem adas com firm eza às costas. Glokta olhou Frost arrastá-lo da cela para a sala abobadada, com os pés descalços tropeçando no chão frio.
– Não foi m uito difícil capturá-lo – dizia Severard. – Deixou os outros há um tem po, m as ficou agarrado à cidade feito o cheiro de m ij o. Nós o pegam os ontem à noite.
Frost j ogou o prisioneiro na cadeira. Onde estou? Quem me pegou? O que eles querem? Um momento de horror logo antes do início dos serviços. O terror e a impotência, a ansiedade que embrulha o estômago. Minha própria lembrança disso foi refrescada intensamente, outro dia mesmo, nas mãos da charmosa mestra Eider. Mas fui libertado sem um arranhão. O prisioneiro ficou sentado im óvel, a cabeça inclinada de lado, o pano na frente do saco m ovendo-se para trás e para a frente com a respiração apressada. Duvido muito que ele tenha tanta sorte.
O olhar de Glokta se esgueirou devagar para a pintura acim a da cabeça ensacada do prisioneiro. Nosso velho amigo Kanedias. O rosto pintado olhava sério do teto abobadado, os braços abertos, as cores do fogo atrás. O Artífice caiu queimando… Ele sopesou relutante a m arreta pesada.
– Então vam os logo com isso.
Severard arrancou o saco de pano com um floreio teatral.
O navegador franziu os olhos à luz forte dos lam piões. Tinha um rosto castigado pelo sol e pelo vento, bronzeado e m uito enrugado, e a cabeça raspada, com o um sacerdote. Ou um traidor confesso, claro.
– Seu nom e é irm ão Pé Com prido?
– De fato! Da nobre Ordem dos Navegadores! Garanto-lhe que sou inocente de qualquer crim e! – afirm ou, as palavras saindo num j orro. – Não fiz nada ilegal, não. Não seria do m eu feitio. Sou um hom em que obedece às leis, e sem pre fui. Não consigo pensar em nenhum m otivo para ser tratado deste m odo! Nenhum ! – Seus olhos giraram para baixo e ele viu a bigorna, reluzindo no chão entre ele e Glokta, onde a m esa norm alm ente estaria. Sua voz subiu um a oitava: – A Ordem dos Navegadores é respeitada e sou um m em bro im portante! De im portância excepcional! A navegação é o principal dos m eus talentos notáveis; de fato, a principal…
Glokta bateu com a m arreta na bigorna, produzindo um clangor capaz de acordar os m ortos.
– Pare de falar!
O hom enzinho piscou e abriu a boca, m as ficou quieto. Glokta se deixou afundar em sua cadeira, m assageando a perna m urcha, com a dor se infiltrando pelas costas.
– Tem algum a noção de com o estou cansado? De quanta coisa tenho a fazer? A dor de sair da cam a m e deixa acabado antes m esm o que o dia com ece, e o m om ento atual é excepcionalm ente estressante. Portanto é um a questão da m ais suprem a indiferença para m im se você vai poder andar pelo resto da vida, enxergar pelo resto da vida, se vai poder prender a própria m erda pelo resto de sua vida m uito curta e intensam ente dolorosa. Entendeu?
O navegador virou os olhos arregalados para Frost, que estava parado j unto dele com o um a som bra grande dem ais.
– Entendi – sussurrou.
– Que bom – disse Severard.
– Xi bom – confirm ou Frost.
– Muito bom m esm o – falou Glokta. – Diga, irm ão Pé Com prido, um dos seus talentos notáveis é um a resistência sobre-hum ana à dor?
O prisioneiro engoliu em seco.
– Não.
– Então as regras deste j ogo são sim ples. Eu faço um a pergunta e você responde de form a precisa, correta e, acim a de tudo, breve. Fui claro?
– Entendi tudo. Não vou falar nada além …
O punho de Frost afundou na barriga do navegador e ele se dobrou ao m eio, os olhos saltando.
– Com preende – sibilou Glokta – que sua resposta deveria ter sido sim?
O albino pegou a perna do navegador, que gem ia, e colocou o pé em cim a da bigorna. Ah, metal frio na sola sensível. Tão desagradável, mas poderia ser muito pior. E algo me diz que provavelmente será. Frost prendeu um a algem a no tornozelo de Pé Com prido.
– Peço desculpas pela falta de im aginação – suspirou Glokta. – Em nossa defesa devo dizer que é difícil estar sem pre pensando em algo novo. Quero dizer, esm agar os pés de um hom em com um a m arreta é tão…
– Pé no chão? – sugeriu Frost.
Glokta ouviu um a gargalhada vinda de trás da m áscara de Severard e sentiu sua boca rindo tam bém . Ele realmente deveria ser comediante em vez de torturador.
– Pé no chão! Exatam ente. Mas não se preocupe. Se não conseguirm os o que precisam os quando tiverm os esm agado tudo abaixo de seus j oelhos, tentarem os pensar em algo m ais inventivo para o resto das suas pernas. Que tal?
– Mas eu não fiz nada! – guinchou Pé Com prido, que acabava de recuperar o fôlego. – Não fiz nada! Não fiz…
– Esqueça… isso. Agora não im porta – falou Glokta e se inclinou devagar para a frente, com dor, e deixou que a m arreta batesse de leve no ferro ao lado do pé descalço do prisioneiro. – Quero que você se concentre… nas m inhas perguntas… nos seus dedos dos pés… e nesta m arreta. Mas não se preocupe se achar isso difícil agora. Pode acreditar: quando a m arreta com eçar a cair, vai ser m ais fácil ignorar todo o resto.
Pé Com prido encarou a a bigorna. Suas narinas se abriam ao ritm o acelerado da respiração. E a gravidade da situação por fim baixa sobre ele.
– As perguntas, então – disse Glokta. – Você é fam iliarizado com o hom em que diz ser Bay az, o Prim eiro dos Magos?
– Sim ! Por favor! Sim ! Até recentem ente ele era m eu patrão.
– Bom . – Glokta se rem exeu na cadeira, tentando encontrar um a posição m ais confortável. – Muito bom . Você o acom panhou num a viagem ?
– Eu fui o guia!
– Qual era o destino?
– A ilha de Shabuly an, na borda do Mundo.
Glokta deixou a m arreta bater na bigorna de novo.
– Ah, ora, ora. A borda do Mundo? É um a fantasia, sem dúvida, não?
– É verdade! É verdade! Eu vi! Pisei naquela ilha com m eus próprios pés!
– Quem foi com você?
– Foram … Logen Nove Dedos, do Norte distante. – Ah, sim, o das cicatrizes e lábios franzidos. – Ferro Malj inn, um a m ulher de Kanta. – A que causou tantos problemas ao nosso amigo, o superior Goyle. – Jezal dan Luthar, um … oficial da União. – Um pateta posudo. – Malacus Quai, aprendiz de Bay az. – O mentiroso magricelo com cara de troglodita. E o próprio Bay az!
– Eram seis?
– Só seis!
– Um a j ornada longa e difícil. O que havia na borda do Mundo, além de água, que exigisse tam anho esforço?
O lábio de Pé Com prido estrem eceu.
– Nada!
Glokta franziu a testa e cutucou o dedão do navegador com a cabeça da m arreta.
– A coisa não estava lá! A coisa que Bay az procurava! Não estava lá! Ele disse que foi enganado!
– O que ele achava que deveria estar lá?
– Ele disse que era um a pedra!
– Um a pedra?
– A m ulher perguntou a ele. Ele disse que era um a pedra… um a pedra do Outro Lado. – O navegador balançou a cabeça suada. – Um a coisa profana! Fiquei feliz por não encontrarm os essa coisa. Bay az cham ava aquilo de a Sem ente!
Glokta sentiu o sorriso se desfazer no rosto. A Semente. Será minha imaginação ou a sala ficou mais fria?
– O que m ais ele disse sobre isso?
– Só m itos e absurdos.
– Conte m esm o assim .
– Histórias sobre Glustrod e a arruinada Aulcus e sobre assum ir form as e roubar rostos! Sobre falar com dem ônios e invocá-los. Sobre o Outro Lado.
– O que m ais? – perguntou Glokta com um a batidinha m ais firm e da m arreta no dedão de Pé Com prido.
– Ah! Ah! Ele disse que a Sem ente era m atéria do m undo de baixo! Que foi deixada antes do Tem po Antigo, quando dem ônios andavam pela terra! Disse que era um a arm a grande e poderosa! Que ele pretendia usá-la contra os gurkenses! Contra o Profeta!
Uma arma, de antes do Tempo Antigo. Invocar demônios, assumir formas. Da parede, Kanedias parecia franzir os olhos, m ais sério do que nunca, e Glokta se encolheu. Lem brou-se de sua ida de pesadelo à Casa do Artífice, os padrões de luz no chão, os anéis m óveis no escuro. Lem brou-se de ter saído no telhado, de estar acim a da cidade sem ter subido um a única escada.
– Vocês não a encontraram ? – sussurrou Glokta, com a boca seca.
– Não! Ela não estava lá!
– E então?
– Foi só isso! Voltam os por cim a das m ontanhas. Fizem os um a j angada e seguim os o grande Aos de volta ao m ar. Pegam os um navio em Calcis e agora estou diante do senhor!
Glokta estreitou os olhos, estudando com atenção o rosto do prisioneiro. Há mais. Eu vejo.
– O que você não está m e contando?
– Eu contei tudo! Não tenho talento para dissim ulação! – Isso, pelo menos, é verdade. Suas mentiras são visíveis.
– Se o seu contrato term inou, por que ainda está na cidade?
– Porque… porque… – O olhar do navegador girou pela sala.
– Ah, nossa, não!
A m arreta pesada desceu com toda a força de aleij ado de Glokta e esm agou o dedão de Pé Com prido com um som oco. O navegador ficou olhando boquiaberto, os olhos saltados. Ah, aquele momento lindo, horrível, entre a topada e a dor. Aí vem. Aí vem. Aí… Pé Com prido soltou um berro enorm e, se contorceu na cadeira, o rosto transfigurado de agonia.
– Conheço essa sensação – disse Glokta, estrem ecendo ao rem exer os dedos que restavam nos pés, dentro das botas suadas. – Conheço de verdade, e sim patizo com você. Prim eiro o clarão ofuscante de dor, depois a fraqueza tonta e enj oativa do osso despedaçado, em seguida a pulsação lenta subindo pela perna, que parece arrancar água dos olhos e fazer seu corpo inteiro trem er.
Pé Com prido ofegou, gem eu, com lágrim as nas faces.
– E o que vem depois? Sem anas m ancando? Meses claudicando, aleij ado? E se o golpe seguinte for no tornozelo? – Glokta cutucou o tornozelo de Pé Com prido com a extrem idade da m arreta. – Ou direto no j oelho? E aí? Você andaria de novo? Conheço bem as sensações, acredite. – Então como posso infligi-las a outra pessoa? Encolheu os om bros retorcidos. Um dos mistérios da vida. – Outro? – E levantou a m arreta de novo.
– Não! Não! Espere! – gem eu Pé Com prido. – O sacerdote! Deus m e aj ude, um sacerdote procurou a Ordem ! Um sacerdote gurkense! Disse que um dia o Prim eiro dos Magos poderia pedir um navegador e que desej ava ser inform ado sobre isso! Desej ava saber o que aconteceria depois! Fez am eaças, am eaças terríveis, nós não tivem os opção a não ser obedecer! Eu estava na cidade esperando outro navegador que vai levar a inform ação! Hoj e de m anhã m esm o contei a ele tudo o que contei ao senhor! Já ia sair de Adua, j uro!
– Qual era o nom e desse sacerdote?
Pé Com prido não disse nada, os olhos arregalados, a respiração sibilando no nariz. Ah, por que eles me testam? Glokta olhou para o dedo do pé do navegador. Já com eçava a inchar e ficar m anchado, com bolhas de sangue preto dos dois lados, a unha de um roxo profundo, sinistro, cercado de um verm elho furioso. Glokta o apertou violentam ente com o cabo da m arreta.
– O nom e do sacerdote! O nom e! O nom e! O…
– Aargh! Mam un! Deus m e aj ude! O nom e dele era Mam un!
Mamun. Yulwei falou sobre ele, em Dagoska. O primeiro aprendiz do próprio Profeta. Juntos eles violaram a Segunda Lei, juntos comeram carne de homens.
– Mam un. Sei. Agora. – Glokta se inclinou ainda m ais para a frente, ignorando um arrepio forte na coluna torta. – O que Bay az está fazendo aqui?
Pé Com prido ofegou, um longo fio de baba pendendo da boca.
– Não sei!
– O que ele quer conosco? O que ele quer na União?
– Não sei! Já contei tudo!
– Inclinar-m e assim é um sofrim ento considerável. Um sofrim ento do qual com eço a m e cansar – falou Glokta, franzindo a testa e levantando a m arreta polida.
– Eu só descubro cam inhos para ir daqui até lá! Apenas guio! Por favor! Não! – suplicou Pé Com prido e fechou os olhos com força, a língua apertada entre os dentes. Aí vem. Aí vem. Aí vem…
Glokta j ogou a m arreta com força no chão e se inclinou para trás, balançando o quadril dolorido para a esquerda e para a direita na tentativa de aliviar a dor.
– Muito bem – suspirou. – Estou satisfeito.
O prisioneiro abriu prim eiro um olho, depois o outro. Olhou para cim a, o rosto cheio de esperança.
– Posso ir?
Severard deu um risinho por trás da m áscara. Até Frost soltou um a espécie de sibilo.
– Claro que pode ir. – Glokta deu seu sorriso vazio. – Pode ir para seu saco.
O rosto do prisioneiro se encheu de horror.
– Deus tenha piedade de m im .
Se existe um Deus, não tem piedade dele.