O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 52 de 61

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O duelo dos reis

Deveres patrióticos

 

GLOKTA ESTREMECEU AO sentar-se, com cuidado, na cadeira. Não houve fanfarra para m arcar o m om ento em que sua bunda dolorida tocou a m adeira dura. Nem um a salva de palm as. Só um estalo agudo no j oelho que ardia. No entanto é um momento da maior importância, e não somente para mim.

Os proj etistas da m obília da Câm ara Branca haviam se aventurado para além da austeridade, entrando no reino do desconforto profundo. Seria de pensar que poderiam ter posto algum estofado para os homens mais poderosos do reino. Talvez a intenção fosse lembrar aos ocupantes que nunca devemos ficar confortáveis demais no pináculo do poder. Olhou de esguelha e notou que Bay az o observava. Bom, ficar desconfortável é o melhor que vou conseguir. Não é o que digo sempre? Encolheu-se enquanto tentava se arrastar um pouco para a frente, fazendo as pernas da cadeira rasparem no piso.

Há muito tempo, quando eu era bonito, jovem e promissor, sonhava um dia me sentar a esta mesa como um nobre lorde marechal ou um respeitado juiz supremo, ou mesmo um honorável lorde camarista. Quem poderia suspeitar, mesmo nos momentos mais sombrios, que o belo Sand dan Glokta iria sentar-se um dia no Conselho Fechado como o temido, o execrado, o todo-poderoso arquileitor da Inquisição? Mal conseguia afastar o sorriso da boca banguela quando relaxou o corpo na m adeira dura.

Mas nem todo m undo parecia achar divertida sua súbita ascensão. O rei Jezal, em particular, olhava para Glokta com a m ais profunda aversão.

– É notável que você j á estej a confirm ado em seu cargo – disse ele com rispidez.

Bay az se interpôs:

– Essas coisas podem acontecer rápido quando existe vontade, Maj estade.

– Afinal de contas – observou Hoff, afastando-se por um raro m om ento de sua taça para varrer a m esa com um olhar m elancólico –, nosso núm ero está tristem ente reduzido.

Verdade. Várias cadeiras estavam vazias. O m arechal Varuz estava desaparecido, supostam ente m orto. Certamente morto, dado que comandara a defesa a partir da Torre das Correntes, uma estrutura que agora está espalhada nas ruas da cidade. Adeus, velho mestre de esgrima, adeus. O j uiz suprem o Marovia tam bém deixara um assento vazio. Sem dúvida ainda estão tentando raspar sua carne congelada das paredes do escritório. Adieu ao meu terceiro pretendente. Lorde Valdis, com andante dos cavaleiros arautos, não se encontrava presente. Estava de vigia no portão sul, pelo que sei, quando os gurkenses detonaram seu pó explosivo. O corpo jamais foi encontrado, nem será, suspeitamos. O lorde alm irante Reutzer tam bém estava ausente. Ferido no mar por um alfanje nas tripas. Não se esperava que sobrevivesse, uma infelicidade.

Verdade, o pináculo do poder está menos apinhado do que antes.

– O m arechal West não estará conosco? – perguntou o lorde chanceler Halleck.

– Ele lam enta não poder – explicou o general Kroy parecendo esprem er cada palavra entre os dentes. – Pediu que eu tom asse seu lugar e falasse pelo exército.

– E com o está o m arechal?

– Ferido.

– E afligido pela doença debilitante que varreu o Agriont – acrescentou o rei, franzindo a testa, sério, para o Prim eiro dos Magos.

– Lam entável – falou Bay az, m as seu rosto não dava o m enor sinal de lam entar ou de qualquer outra coisa.

– Um negócio terrível – lam uriou-se Hoff. – Os m édicos estão perplexos.

– Poucos sobrevivem .

O olhar de Luthar havia se tornado m ortal.

– Esperem os ardentem ente – exclam ou Torlichorm – que o m arechal West sej a um dos sortudos. – Esperemos mesmo. Se bem que a esperança não muda nada.

– Vam os ao que interessa, então? – propôs Hoff, fazendo o vinho gorgolej ar da j arra para sua taça pela segunda vez desde que entrara na sala. – Com o vai a cam panha, general Kroy ?

– O exército gurkense está em retirada. Nós os perseguim os na direção de Keln, para onde alguns conseguiram fugir com o restante da frota. Mas os navios do grão-duque Orso logo puseram fim a isso. A invasão gurkense term inou. A vitória é nossa. – E no entanto ele franze a testa como se admitisse a derrota.

– Excelente.

– A nação está em dívida para com seus bravos soldados.

– Parabéns, general.

Kroy olhou para o tam po da m esa.

– Os parabéns pertencem ao m arechal West, que deu as ordens, e ao general Poulder e aos outros que deram a vida para cum pri-las. Não passei de um observador.

– Mas fez sua parte, e de form a adm irável. – Hoff levantou sua taça. – Dada a infeliz ausência do m arechal Varuz, confio que Sua Maj estade logo lhe dará um a prom oção.

Ele olhou para o rei, e Luthar grunhiu um a concordância sem entusiasm o.

– Sinto-m e honrado em servir em qualquer posto que Sua Maj estade decidir, claro. Mas os prisioneiros são um a questão m ais urgente. Tem os m uitos m ilhares deles e estam os sem com ida para…

– Não tem os com ida suficiente para nossos próprios soldados, para nossos próprios cidadãos, nossos próprios feridos – cortou-o Hoff, enxugando os lábios m olhados.

– Vam os cobrar um resgate ao im perador para devolverm os seus hom ens im portantes? – sugeriu Torlichorm .

– Havia pouquíssim os hom ens de qualidade no m eio de toda a porcaria do exército deles.

Bay az franziu a testa m ais adiante na m esa.

– Se eles não têm valor para o im perador, certam ente não têm valor para nós. Deixe-os m orrer de fom e.

Alguns hom ens se rem exeram , desconfortáveis.

– Estam os falando de m ilhares de vidas… – com eçou Kroy.

O olhar do Prim eiro dos Magos caiu sobre ele com o um a grande pedra e esm agou suas obj eções.

– Sei do que estam os falando, general. Inim igos. Invasores.

– Certam ente poderem os encontrar um a saída, não é? – interveio o rei. – Será que não poderíam os m andá-los de navio de volta para o litoral de Kanta? Seria um epílogo vergonhoso para nossa vitória se…

– Cada prisioneiro alim entado equivale a um cidadão que precisa passar fom e. Essa é a terrível aritm ética do poder. É um a decisão difícil, Maj estade, m as são difíceis todas as decisões que tem os de tom ar nesta sala. Qual seria sua opinião, arquileitor?

Os olhos do rei e dos velhos nas cadeiras altas se viraram todos para Glokta. Ah, sabemos o que deve ser feito e não nos esquivamos. Que o monstro pronuncie a sentença, para que os outros possam sentir que são decentes.

– Nunca fui grande adm irador dos gurkenses. – Glokta encolheu os om bros doloridos. – Que m orram de fom e.

O rei Jezal se aj eitou em seu trono, com um a carranca m ais séria ainda. Será que nosso monarca está um pouquinho menos domesticado do que o Primeiro dos Magos gostaria de acreditar? O lorde chanceler Halleck pigarreou.

– Agora que a vitória é nossa, a prim eira preocupação, sem dúvida, é lim par as ruínas e reconstruir os danos causados por… – Seu olhar se m oveu nervoso para Bay az e se desviou. –… pela agressão gurkense.

– Isso, isso.

– Reconstrução. Todos concordam os.

– Os custos – falou Halleck e se encolheu com o se a palavra lhe causasse dor. – Lim par os destroços apenas do Agriont pode chegar a m uitas dezenas de m ilhares de m arcos. O preço de reconstruir será de m uitos m ilhões. Quando consideram os os enorm es danos à cidade de Adua, além disso… os custos… – Halleck fez um a careta de novo e coçou o queixo m al barbeado. – Fica difícil até m esm o supor.

– Só nos resta nos esforçarm os ao m áxim o – m urm urou Hoff e balançou a cabeça com tristeza. – E conseguir um m arco de cada vez.

– Eu, para com eço de conversa, sugiro que olhem os os nobres – disse Glokta.

Houve vários resm ungos de concordância.

– Vossa Em inência tem um bom argum ento.

– Um corte grande dos poderes do Conselho Aberto – disse Halleck.

– Cobrar im postos pesados dos que não nos aj udaram nessa guerra.

– Excelente! Vam os cortar as asas dos nobres. Parasitas desgraçados.

– Am plas reform as. Terras devolvidas à Coroa. Im postos sobre heranças.

– Sobre heranças! Um a ideia inspirada!

– Os lordes governadores tam bém devem ser cham ados a participar.

– Skald e Meed. Sim . Eles desfrutaram de independência por tem po de m ais.

– Meed não pode ser culpado, sua província está arrasada…

– Não é um a questão de culpa – disse Bay az. Não, de fato, todos sabemos de quem é. – É um a questão de controle. A vitória nos deu a oportunidade de reform as.

– Precisam os centralizar!

– Westport tam bém . Eles nos j ogaram contra os gurkenses por tem po de m ais.

– Agora precisam de nós.

– Talvez devêssem os estender a Inquisição à cidade deles, não é? – sugeriu Glokta.

– Um pé na Estíria!

– Precisam os reconstruir! – O Prim eiro dos Magos bateu na m esa com o punho carnudo. – De m odo m elhor e m ais glorioso ainda do que antes. As estátuas na via do Rei podem ter caído, m as deixaram espaço para outras novas.

– Um a nova era de prosperidade – disse Halleck, os olhos brilhando.

– Um a nova era de poder – com pletou Hoff, levantando sua taça.

– Um a era de ouro? – propôs Bay az e olhou para Glokta.

– Um a era de unidade e oportunidade para todos! – disse o rei.

Sua sugestão caiu um tanto m al. Olhos giraram desconfortáveis para a extrem idade da m esa onde estava o rei. Como se ele tivesse peidado alto em vez de falar.

– É… sim , Maj estade – disse Hoff. – Oportunidades. – Para qualquer um que tenha sorte de fazer parte do Conselho Fechado.

– Talvez im postos m ais pesados sobre as guildas de m ercadores? – sugeriu Halleck. – Com o nosso últim o arquileitor tinha em m ente. Sobre os bancos tam bém . Um m ovim ento assim poderia produzir vastos ganhos…

– Não – disse Bay az de im ediato. – Nem as guildas nem os bancos. A livre operação dessas nobres instituições traz segurança e riqueza a todos. O futuro da nação está no com ércio.

Halleck baixou a cabeça hum ildem ente. Com mais do que uma pontinha de medo, suponho.

– Claro, lorde Bay az, tem razão. Adm ito m eu erro.

O m ago prosseguiu com calm a:

– Mas talvez os bancos estej am dispostos a fazer um em préstim o à Coroa.

– Excelente ideia – elogiou Glokta sem hesitar. – A casa bancária Valint e Balk é um a instituição confiável e antiga. Ela foi de enorm e valor durante m inha tentativa de defender Dagoska. Tenho certeza de que poderíam os contar com o apoio dela outra vez.

O sorriso de Bay az era quase im perceptível.

– Enquanto isso, as terras, os bens e os títulos do traidor lorde Brock foram expropriados pela coroa. A venda deles vai gerar um a fortuna considerável.

– E quanto ao próprio Brock, arquileitor?

– Parece que fugiu do país j unto com os últim os gurkenses. Presum im os que ainda sej a… hóspede deles.

– Marionete deles, quer dizer – corrigiu-o Bay az, depois sugou o ar por entre os dentes. – Um a infelicidade. Ele pode continuar sendo um foco de descontentam ento.

– A filha e o filho dele estão presos na Casa das Perguntas. Talvez sej a possível um a troca…

– Brock? Rá! – rosnou Hoff. – Ele não trocaria a própria vida nem pelo m undo inteiro com tudo o que há dentro.

Glokta arqueou as sobrancelhas.

– Então talvez um a dem onstração de intenção. Um a m ensagem clara de que a traição não é e nunca será tolerada?

– Essa sem pre é um a m ensagem adequada a se passar – ponderou Bay az, com m urm úrios afirm ativos por parte dos velhos.

– Um a declaração pública da culpa de Brock, então, e de sua responsabilidade pela destruição da cidade de Adua. Acom panhada por dois enforcam entos. – Uma pena para eles, nascerem de um pai tão ambicioso, mas todo mundo adora uma execução pública. – Alguém tem preferência por um dia específico ou…

– Não haverá enforcam entos – decidiu o rei, que franzia a testa para Bay az.

Hoff piscou.

– Mas, Maj estade, o senhor não pode perm itir…

– Já houve sangue derram ado dem ais. Mais do que o suficiente. Liberte os filhos de lorde Brock.

Vários dos m em bros do conselho ofegaram .

– Deixe que se j untem ao pai ou perm aneçam na União, com o quiserem .

Bay az lançou-lhe um olhar m aligno do outro lado da sala, m as o rei não pareceu intim idado.

– A guerra term inou. Nós vencem os. – A guerra nunca termina, e a vitória é temporária. – Prefiro tentar curar feridas a aprofundá-las. – Um inimigo ferido é o melhor tipo que existe, é o mais fácil de ser morto. – Às vezes a m isericórdia rende m ais do que a crueldade.

Glokta pigarreou.

– Às vezes. – Se bem que eu ainda não vi uma circunstância assim.

– Bom – disse o rei num a voz que não adm itia questionam ento –, então está decidido. Tem os m ais algum negócio prem ente? Preciso percorrer os hospitais e depois ir de novo aj udar a lim par os destroços.

– Claro, Maj estade – concordou Hoff e fez um a reverência. – Sua atenção aos súditos lhe dá m uito crédito.

Jezal o encarou por um m om ento, depois bufou e se levantou. Já havia saído da sala antes que a m aioria dos velhos tivesse ficado de pé. E eu demoro mais ainda. Quando Glokta por fim tirou sua cadeira do cam inho e se levantou com um a careta, descobriu Hoff ao lado, com um a carranca no rosto verm elho.

– Tem os um problem inha – m urm urou ele.

– É m esm o? Algo que não podem os discutir com o resto do Conselho?

– Tem o que sim . Algo que, em particular, seria m elhor não discutir diante de Sua Maj estade.

Hoff olhou rapidam ente por cim a do om bro e esperou que o últim o velho saísse e fechasse a porta pesada, deixando-os a sós. Segredos, então? Que coisa empolgante!

– A irm ã do nosso lorde m arechal ausente.

Glokta franziu a testa. Ah, que coisa!

– Ardee West? O que é que tem ?

– Sei de boa fonte que ela se encontra em … estado interessante.

A sequência fam iliar de espasm os subiu pelo lado esquerdo do rosto de Glokta.

– É m esm o? – Que vergonha. – O senhor está notavelm ente bem inform ado sobre os assuntos pessoais daquela dam a.

– É m eu dever. – Hoff se inclinou para perto e soprou o hálito fedendo a vinho em cim a de Glokta ao sussurrar: – Quando se leva em conta quem pode ser o pai da criança.

– E o pai é? – Se bem que acho que nós dois saibamos a resposta.

– Quem , senão o rei? – sibilou Hoff baixinho, com um a nota de pânico na voz. – O senhor deve saber m uito bem que os dois tiveram um a… ligação, para dizer de m odo delicado, antes da coroação. Isso não é segredo. Mas isso agora? Um filho bastardo! Quando a própria reivindicação do rei ao trono não é a m ais pura? Quando ele ainda tem tantos inim igos no Conselho Aberto? Um a criança assim poderia ser usada contra nós, caso ficassem sabendo, e ficarão, claro! – alertou o velho e se inclinou m ais para perto ainda. – Um a coisa assim constituiria um a am eaça ao Estado.

– De fato – concordou Glokta com frieza. Infelizmente é verdade. Que vergonha terrível, terrível.

Hoff rem exeu os dedos, nervoso.

– Sei que o senhor tem algum a ligação com a dam a e sua fam ília. Entendo se esta for um a responsabilidade da qual o senhor prefira estar livre. Posso fazer os arranj os sem …

Glokta m ostrou seu riso m ais louco.

– Está sugerindo que eu não sou im placável o bastante para m atar um a grávida, lorde cam arista? – provocou Glokta, e sua voz ecoou alto nas paredes brancas, dura feito um a facada.

Hoff se encolheu, o olhar saltando nervosam ente para a porta.

– Tenho certeza de que o senhor não se esquivaria de um dever patriótico…

– Bom . Pode ficar tranquilo, então. Nosso am igo em com um não m e escolheu para este papel por causa do m eu coração m ole. – Qualquer coisa, menos isso. – Vou cuidar do assunto.

 

A m esm a casa pequena, de tij olos, na m esm a rua com um que Glokta havia visitado com tanta frequência. A mesma casa onde passei tantas tardes agradáveis. O mais próximo que me senti do conforto desde que fui arrastado babando das prisões do imperador. Enfiou a m ão direita no bolso e sentiu o m etal frio roçar nas pontas dos dedos. Por que eu faço isso? Para que o escroto bêbado do Hoff possa respirar aliviado pela calamidade evitada? Para que Jezal dan Luthar possa sentar-se um pouquinho mais seguro em seu trono de marionete? Torceu o quadril para um lado e para o outro até sentir as costas estalarem . Ela merece coisa muito melhor. Mas esta é a terrível aritmética do poder.

Em purrou o portão, foi m ancando até a porta da frente e deu um a batida rápida. Passou-se um m om ento antes que a em pregada tensa atendesse. Talvez seja quem alertou nosso bêbado da corte, lorde Hoff, sobre a situação infeliz, não? Com pouco m ais do que um m urm úrio, ela o acom panhou até a sala exageradam ente m obiliada e o deixou ali, olhando um fogo pequeno na lareira pequena. Captou um vislum bre de si m esm o no espelho acim a dela e franziu a testa.

Quem é esse homem? Essa casca arruinada? Esse cadáver trôpego? É possível chamar isso de rosto? Tão torto e cheio de rugas, tão riscado de dor. Qual é essa espécie desprezível, lamentável? Ah, se existe um Deus, proteja-me dessa coisa!

Tentou sorrir. Fendas selvagens cortaram sua pele cadavérica, a falha hedionda nos dentes se escancarou. O canto da boca trem eu, o olho esquerdo estrem eceu, m ais fechado do que o outro, com a borda de um verm elho furioso. O sorriso parece garantir mais horrores do que a carranca.

Será que algum homem já pareceu mais vilão? Algum homem já terá sido mais monstruoso? Será que algum vestígio de humanidade poderia permanecer atrás dessa máscara? Como o belo Sand dan Glokta se tornou… isso? Espelhos. São ainda piores do que escadas. Repuxou os lábios de noj o e se virou para o outro lado.

Ardee estava j unto à porta, olhando-o em silêncio. Ela pareceu bem , para ele, quando Glokta superou a surpresa incôm oda de ser observado. Muito bem, talvez já com um ligeiro crescimento da barriga? Três meses agora? Quatro, talvez? Logo não haverá como disfarçar.

– Em inência.

Ela o avaliou enquanto entrava na sala.

– O branco lhe cai bem .

– Verdade? Não acha que faz com que os círculos em volta dos m eus olhos febris fiquem ainda m ais escuros, com o um a caveira?

– Ora, nem um pouco. Com bina com sua palidez horripilante.

Glokta deu seu riso banguela.

– Exatam ente o efeito que eu esperava.

– Veio m e levar para m ais um passeio nos esgotos, m orte e tortura?

– Para nossa infelicidade, é provável que um evento daqueles nunca m ais se repita. Parece que usei todos os m eus am igos e a m aioria dos inim igos naquele golpe único.

– E, para piorar, o exército gurkense não pode m ais estar conosco.

– Está ocupado em outro lugar, pelo que sei.

Ele a observou ir até a m esa e olhar para a rua pela j anela, com a luz do dia reluzindo, através do cabelo escuro, em sua face.

– Você está bem ? – perguntou ela.

– Mais ocupado ainda do que os gurkenses. Muita coisa para fazer. Com o vai seu irm ão? Eu pretendia visitá-lo, m as… – Mas duvido que até eu mesmo suportasse o fedor da minha hipocrisia se fizesse isso. Eu causo dor. Aliviá-la é uma língua estrangeira para mim.

Ardee olhou para os pés.

– Agora ele está doente o tem po todo. A cada vez que o visito, está m ais m agro. Um dos dentes caiu quando eu estava perto. – Ela encolheu os om bros. – Sim plesm ente saiu enquanto ele tentava com er. Ele quase engasgou. Mas o que posso fazer? O que qualquer um pode fazer?

– Lam ento m uito em saber. – Mas isso não muda nada. – Tenho certeza de que você é de grande aj uda para ele. – Tenho certeza de que não pode haver ajuda para ele. – E com o você está?

– Melhor do que a m aioria, acho. – Ela deu um longo suspiro, estrem eceu e tentou sorrir. – Quer um pouco de vinho?

– Não, m as não deixe que eu a im peça. – Sei que você nunca deixou.

Mas ela apenas segurou a garrafa um m om ento, depois a pousou de volta.

– Ando pensando em beber m enos.

– Sem pre achei que você deveria. – Glokta deu um passo lento na direção dela. – Então, você fica enj oada de m anhã?

Ela desviou o olhar, depois engoliu em seco, os m úsculos finos destacando-se no pescoço.

– Você sabe?

– Eu sou o arquileitor – disse ele chegando m ais perto. – Devo saber tudo.

Os om bros dela relaxaram , a cabeça baixou. Ela se inclinou para a frente e apoiou as duas m ãos na beira da m esa. De lado, Glokta podia ver suas pálpebras estrem ecerem . Piscando para conter as lágrimas. Apesar de toda a raiva e de toda a inteligência, ela precisa tanto de salvação quanto qualquer outra pessoa. Mas não há ninguém para resgatá-la. Só eu.

– Acho que fiz um a grande besteira, com o m eu irm ão disse que eu faria. Com o você disse que eu faria. Você deve estar decepcionado.

Glokta sentiu o rosto se contorcer. Algo como um sorriso, talvez. Mas sem muita alegria.

– Passei a m aior parte da vida decepcionado. Mas não com você. O m undo é duro. Ninguém recebe o que m erece. – Por quanto tempo devemos arrastar isso até encontrar coragem? Não vai ficar mais fácil. É melhor fazer agora. – Ardee…

A voz soou áspera em seus ouvidos. Ele deu m ais um passo m ancando, a palm a da m ão suada no cabo da bengala. Ela o espiou, os olhos úm idos, um a das m ãos na barriga. Moveu-se com o se fosse dar um passo para atrás. Um traço de medo, talvez? E quem pode culpá-la? Será que ela adivinha o que está por vir?

– Você sabe que sem pre senti grande apreço e respeito por seu irm ão.

A boca de Glokta ficou seca, a língua lam beu desaj eitadam ente as gengivas vazias. Agora é a hora.

– Nos últim os m eses, desenvolvi um grande apreço e respeito por você.

Um a sequência de espasm os subiu pela lateral de seu rosto e fez um a lágrim a escorrer do olho trêm ulo. Agora, agora.

– Ou… o m ais próxim o desse tipo de sentim ento que um hom em com o eu é capaz de ter, pelo m enos.

Glokta enfiou a m ão no bolso com cuidado, para que ela não notasse. Sentiu o m etal frio, as bordas duras, im placáveis, roçando na pele. Deve ser agora. Seu coração estava m artelando, a garganta tão apertada que ele m al conseguia falar.

– Isso é difícil. Eu… lam ento m uito.

– O quê? – perguntou ela, franzindo a testa.

Agora.

Ele se m oveu rapidam ente, tirando a m ão do bolso. Ela cam baleou contra a m esa, os olhos arregalados… e os dois se im obilizaram .

O anel brilhava entre eles. Um diam ante colossal, reluzente, tão grande que fazia a grossa faixa de ouro parecer frágil. Tão grande que parece piada. Falso. Impossível. Absurdo. A maior pedra que Valint e Balk tinha para oferecer.

– Devo pedir que você se case com igo – grasnou ele.

A m ão que segurava o anel trem ia feito folha verde. Dê-lhe um cutelo e ela ficará firme feito rocha, mas peça-me para segurar um anel e eu quase mijo nas calças. Coragem, Sand, coragem.

Ela ficou boquiaberta olhando a pedra reluzente. Surpresa? Horrorizada? Casar-se com… essa coisa? Prefiro morrer!

– É… – m urm urou ela. – Eu…

– Eu sei! Eu sei, estou tão enoj ado quanto você, m as… deixe-m e falar. Por favor.

Ele olhou para o chão.

– Não sou idiota a ponto de fingir que você pode vir a am ar… um hom em com o eu ou a pensar em m im com algo m ais caloroso do que pena. Trata-se de um a questão de necessidade. Você não deve fugir dela por… eu ser o que sou. Eles sabem que você está grávida do filho do rei.

– Eles? – m urm urou ela.

– É. Eles. A criança é um a am eaça para eles. Você é um a am eaça para eles. Desse m odo eu posso protegê-la. Posso dar legitim idade ao seu filho. Deve ser nosso filho, agora e para sem pre.

Ela continuava a fitar o anel em silêncio. Como um prisioneiro olhando horrorizado os instrumentos e decidindo se vai confessar. Duas escolhas medonhas, mas qual é pior?

– Há m uitas coisas que eu posso lhe dar. Segurança. Estabilidade. Respeito. Você terá o que existir de m elhor. Um a posição elevada na sociedade, se é que isso vale algum a coisa. Ninguém vai sonhar em encostar um dedo em você. Ninguém ousará falar com você em tom de superioridade. As pessoas vão sussurrar pelas suas costas, claro. Mas vão sussurrar sobre sua beleza, sua inteligência e sua virtude incom paráveis – falou Glokta e, estreitando os olhos, em endou: – Eu garantirei isso.

Ardee olhou para ele e engoliu em seco. E agora vem a recusa. Obrigada, mas prefiro morrer.

– Devo ser honesta com você. Quando eu era m ais nova… fiz algum as coisas idiotas – disse, com a boca se retorcendo. – Este nem sequer é o prim eiro bastardo que carrego na barriga. Meu pai m e j ogou escada abaixo e eu o perdi. Quase m e m atou. Não achei que poderia acontecer de novo.

– Todos fizem os coisas das quais não sentim os orgulho. – Você deveria ouvir minhas confissões qualquer dia desses. Ou melhor, ninguém deveria. – Isso não m uda nada. Eu prom eti que cuidaria do seu bem -estar. Não vej o de que outro m odo.

– Então sim .

Ela pegou o anel sem cerim ônia e o enfiou no dedo.

– Não há nada a pensar, há? – Nem de longe é a aceitação empolgada, a aquiescência lacrimosa, a rendição jubilosa que lemos nos livros de histórias. Um relutante acordo de negócio. Uma ocasião para reflexão triste sobre tudo o que poderia ter sido e não foi.

– Quem im aginaria – m urm urou ela, olhando a j oia no dedo –, quando eu o observava esgrim ir com m eu irm ão, tantos anos atrás, que um dia eu seria sua esposa? Você sem pre foi o hom em dos m eus sonhos.

E agora sou o homem dos seus pesadelos.

– A vida dá voltas estranhas. As circunstâncias não são o que se poderia prever. – E assim eu salvo duas vidas. Quanto mal isso pode compensar? Mas pelo menos é algo para pesar do lado certo da balança. Todo mundo precisa ter algo do lado certo.

Os olhos escuros dela se viraram para os dele.

– Você não poderia ter arranj ado um a pedra m aior?

– Só se atacasse o tesouro – grasnou ele. Um beijo seria tradicional, mas nas nossas circunstâncias…

Ela se aproxim ou, levantando um braço. Ele recuou bruscam ente e encolheu-se com um a pontada no lábio.

– Desculpe. Estou m eio… sem prática.

– Se vou fazer isso, quero fazer direito.

– Quer dizer, fazer o que for possível?

– Fazer o que for, m as algum a coisa.

Ela chegou m ais perto ainda. Glokta precisou se obrigar a perm anecer onde estava. Ela fitou seus olhos. Estendeu a m ão devagar, tocou seu rosto e fez seus olhos trem erem . Idiotice. Quantas mulheres me tocaram antes? No entanto foi em outra vida. Outra…

A m ão dela deslizou em volta de seu rosto, as pontas dos dedos apertando seu queixo com força. O pescoço dele estalou quando ela o puxou para si. Ele sentiu a respiração quente dela no queixo. Os lábios de Ardee roçaram os seus, gentilm ente, de um lado para outro. Ele a ouviu soltar um grunhido leve, e isso o fez perder o ar. Fingimento, claro. Como alguma mulher poderia querer tocar este corpo arruinado? Beijar este rosto arruinado? Até eu sinto repulsa ao pensar. É fingimento, no entanto devo aplaudi-la pelo esforço.

Sua perna esquerda trem eu e ele precisou agarrar a bengala com força. A respiração saía acelerada pelo nariz. O rosto dela estava inclinado, as duas bocas grudadas, sugando. A ponta da língua dela lam beu suas gengivas vazias. É fingimento, claro, o que mais poderia ser? No entanto ela é tão boa nisso, tão boa…