O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 54 de 61

Páginas do PDF

O duelo dos reis

Chá e ameaças

 

LOGEN FRANZIU A testa.

Franzia a testa para o salão am plo, seus espelhos brilhantes e as m uitas pessoas poderosas ali dentro. Olhava m al-hum orado os grandes lordes da União virados para ele. Duzentos ou m ais, sentados num a m ultidão ruidosa do lado oposto da câm ara. A conversa falsa, os sorrisos falsos e os rostos falsos grudados nele com o m el. Mas não se sentia m elhor com relação às pessoas que estavam no seu lado do salão, com partilhando a plataform a alta com ele e o grande rei Jezal.

Havia o aleij ado com sorriso de desprezo que fizera as perguntas naquele dia na torre e agora estava todo vestido de branco. Havia um hom em gordo com o rosto cheio de veias dilatadas que parecia com eçar cada dia com um a garrafa. Havia um desgraçado alto e m agro com peitoral preto coberto de ouro espalhafatoso, com sorriso fácil e olhos duros. O m aior bando de m entirosos em que Logen j á pusera os olhos, m as havia um que era pior do que todos os outros j untos.

Bay az estava sentado com um sorriso no rosto, com o se tudo tivesse acontecido exatam ente de acordo com seus planos. Talvez tivesse. Mago desgraçado. Logen deveria saber que não podia confiar num careca. Os espíritos o haviam alertado de que os m agos têm os próprios obj etivos, m as ele não lhes dera ouvidos; m ergulhara às cegas, esperando o m elhor, com o sem pre. Se um a coisa pode ser dita sobre Logen Nove Dedos, é que ele nunca ouve. Um defeito entre m uitos.

Seus olhos se viraram na outra direção, para Jezal. Ele parecia bastante confortável em seu m anto de rei, a coroa de ouro brilhando na cabeça, a cadeira de ouro m aior ainda do que aquela em que Logen se sentara. A esposa estava ao lado dele. A m ulher tinha um orgulho gélido, talvez, m as não era pior por causa disso. Linda com o um a m anhã de inverno. E tinha um a expressão estranha quando olhava para Jezal. Um a expressão feroz, com o se m al conseguisse se conter para não rasgá-lo com os dentes. Aquele desgraçado sortudo sem pre parecia se dar bem . Ela poderia dar um a m ordida em Logen, se quisesse. Mas que m ulher com a cabeça no lugar quereria?

Ele franzia a testa principalm ente para si m esm o nos espelhos do outro lado, elevado na plataform a alta ao lado de Jezal e sua rainha. Parecia um m onstro carrancudo e pensativo, cheio de cicatrizes e tem ível ao lado daquele lindo casal. Um hom em feito de assassinato, depois enrolado em tecido de cores ricas e raras peles brancas, aj ustadas com rebites polidos e fivelas brilhantes, tudo isso encim ado por um a grande corrente de ouro em volta do pescoço. A m esm a corrente que Bethod havia usado. Suas m ãos se proj etavam das extrem idades das m angas com acabam ento de pele, m arcadas e brutais, com um dedo a m enos e segurando os braços de sua cadeira dourada. Roupas de rei, talvez, m as m ãos de assassino. Parecia o vilão de algum a história infantil. O guerreiro im placável, que abrira a fogo e aço seu cam inho até o poder. Que subira a um trono sobre um a m ontanha de cadáveres. Talvez ele fosse esse hom em .

Rem exeu-se, a roupa nova pinicando a pele úm ida. Tinha percorrido um longo cam inho desde que se arrastara para fora de um rio sem ao m enos um par de botas que fosse seu. Arrastara-se pelos Lugares Altos sem ter nada além de um a panela com o com panhia. Percorrera um longo cam inho, m as não tinha certeza se não gostava m ais de si m esm o antes. Rira ao ouvir que Bethod se cham ava de rei. Agora ali estava ele, fazendo o m esm o, e m enos adequado ainda ao cargo. Se um a coisa podia ser dita sobre Logen Nove Dedos, era que ele é um escroto. Sim ples assim . E essa não é um a coisa que m uitos hom ens gostem de adm itir sobre si m esm os.

O bêbado, Hoff, era quem m ais falava.

– A rotunda dos Lordes está em ruínas, infelizm ente. Assim , por enquanto, até que um a sede com grandeza adequada a essa nobre instituição sej a construída, um a nova rotunda dos Lordes, m ais rica e grandiosa do que a anterior, foi decidido que o Conselho Aberto perm anecerá em recesso.

Houve um a pausa.

– Em recesso? – m urm urou alguém .

– Com o serem os ouvidos?

– Onde os nobres terão voz?

– Os nobres falarão através do Conselho Fechado – explicou Hoff com aquele tom que um adulto usa para falar com um a criança. – Ou podem se dirigir ao subsecretário e m arcar um a audiência com o rei.

– Mas qualquer cam ponês pode fazer isso!

Hoff levantou as sobrancelhas.

– Verdade.

Um a onda de raiva se espalhou entre os lordes diante deles. Logen podia não entender m uito de política, m as era capaz de reconhecer quando um grupo de hom ens ficava por baixo de outro. Nunca era um a coisa boa fazer parte disso, m as pelo m enos ele estava do lado de cim a, para variar.

– O rei e a nação são um a coisa só! – surgiu a voz cortante de Bay az, interrom pendo as conversas. – Vocês apenas pegam suas terras em prestadas dele. Ele lam enta pedir parte delas de volta, m as é um a questão de necessidade.

– Um quarto – contou o aleij ado, lam bendo as gengivas vazias com um leve estalo. – De cada um de vocês.

– Isso não vai se sustentar! – gritou um velho raivoso na prim eira fila.

– Acha que não, lorde Isher? – rebateu Bay az, apenas sorrindo para ele. – Os que acham o m esm o podem se j untar a lorde Brock no exílio e entregar todas as suas terras à Coroa, em vez de apenas um a parte.

– Isso é um ultraj e! – gritou outro hom em . – O rei sem pre foi o prim eiro entre iguais, o m aior dos nobres, e não acim a deles. Nossos votos o puseram no trono e nos recusam os…

– O senhor está perto de ultrapassar um lim ite, lorde Heugen – alertou o aleij ado, franzindo a testa para o outro lado do salão com o rosto se retorcendo devido aos espasm os. – O senhor talvez prefira ficar deste lado da linha, onde há calor, segurança e lealdade. Creio que o outro lado não vá lhe servir m uito bem .

Um a lágrim a com prida escorreu de seu olho esquerdo e trêm ulo e desceu pela bochecha funda.

– O inspetor real avaliará as propriedades dos senhores nos próxim os m eses. Seria sensato que lhe dessem toda a assistência.

Um a quantidade de hom ens estava de pé, de cara feia, brandindo os punhos.

– Isso é ultraj ante!

– Sem precedentes!

– Inaceitável.

– Nós nos recusam os a ser intim idados!

Jezal saltou de seu trono, levantando bem alto a espada cheia de j oias, e bateu na plataform a repetidam ente com a ponta da bainha, enchendo o salão de ecos estrondosos.

– Eu sou o rei! – gritou para a câm ara subitam ente silenciosa. – Não estou oferecendo um a escolha, estou em itindo um decreto real! Adua será reconstruída, e m ais gloriosa do que nunca! Este é o preço! Os senhores se acostum aram com um a Coroa fraca, m eus lordes! Acreditem quando eu digo que esses dias ficaram para trás!

Bay az se inclinou de lado para m urm urar no ouvido de Logen:

– Ele é surpreendentem ente bom nisso, não é?

Os lordes resm ungaram , m as sentaram -se de volta enquanto Jezal continuava falando, a voz inundando o salão de confiança e calm a, a m ão ainda segurando com firm eza o punho da espada em bainhada.

– Os que m e apoiaram de bom grado na recente crise estarão isentos. Mas essa lista, para vergonha dos senhores, é bem pequena. Ora, foram am igos vindos de fora das fronteiras da União que nos socorreram no m om ento de necessidade!

O hom em de preto se levantou de sua cadeira.

– Eu, Orso de Talins, estou sem pre ao lado do m eu filho e da m inha filha, os reis!

Em seguida segurou o rosto de Jezal e beij ou as duas faces. Depois fez o m esm o com a rainha.

– Os am igos deles são m eus am igos.

Ele disse isso com um sorriso, m as era difícil não entender o significado oculto.

– Quanto aos inim igos? Ah! Todos os senhores são inteligentes. Podem adivinhar o resto.

– Agradeço-lhe por seu papel em nossa vitória – disse Jezal. – O senhor tem nossa gratidão. A guerra entre a União e o Norte acabou. O tirano Bethod está m orto e há um a nova ordem . Tenho orgulho de cham ar de am igo o hom em que o derrubou. Logen Nove Dedos! Rei dos nórdicos!

Sorriu estendendo a m ão.

– É adequado que entrem os neste futuro novo e adm irável com o irm ãos.

– É – disse Logen, levantando-se dolorosam ente da cadeira. – Certo.

Em seguida envolveu Jezal num abraço e deu-lhe um tapa nas costas que ecoou na grande câm ara.

– Acho que de agora em diante vam os ficar do nosso lado do Torrente Branca. A não ser que m eu irm ão tenha problem as aqui em baixo, claro.

Logen varreu os velhos da prim eira fila com um a expressão que fazia pensar em m orte.

– Não m e façam voltar aqui, porra.

Em seguida sentou na grande cadeira e franziu a testa. O Nove Sangrento podia não saber m uito de política, m as sabia fazer um a am eaça.

– Nós ganham os a guerra! – falou Jezal sacudindo o punho dourado de sua espada, depois a enfiou de volta no suporte do cinto. – Agora precisam os ganhar a paz!

– Muito bem dito, Maj estade, m uito bem dito! – falou o bêbado de cara verm elha, que se levantou sem dar a ninguém a chance de falar. – Portanto resta apenas um a questão, antes que o Conselho Aberto sej a posto em recesso.

Voltou-se com um sorriso e um a reverência, esfregando as m ãos.

– Vam os agradecer a lorde Bay az, o Prim eiro dos Magos, que, com a sabedoria de seu conselho e o poder de sua Arte, expulsou os invasores e salvou a União!

E com eçou a bater palm as. O aleij ado Glokta se j untou a ele, depois o grão-duque Orso.

Um lorde corpulento na prim eira fila pôs-se de pé.

– Lorde Bay az! – rugiu ele, batendo as palm as das m ãos gordas.

Logo todo o salão ressoava com aplausos relutantes. Até Heugen se j untou. Até Isher, apesar de ter a expressão de quem aplaudisse o próprio enterro. Logen deixou as m ãos ficarem onde estavam . Se fosse dizer a verdade, sentia-se m eio nauseado só de estar ali. Nauseado e com raiva. Deixou-se afundar m ais na cadeira e continuou carrancudo.

 

Jezal viu os grandes da União saíram infelizes do salão dos Espelhos. Grandes hom ens. Isher, Barezin, Heugen e os dem ais. Hom ens diante de quem ele j á ficara boquiaberto. Todos hum ilhados. Mal conseguia esconder o sorriso enquanto eles resm ungavam de descontentam ento e im potência. A sensação era quase de ser um rei, até que viu sua rainha.

Terez e seu pai, o grão-duque Orso, estavam tendo o que parecia ser um a discussão acalorada, em estiriano expressivo, pontuada dos dois lados por violentos m ovim entos de m ão. Jezal poderia estar aliviado por não ser o único m em bro da fam ília que ela parecia desprezar, só que suspeitava ser ele o assunto da discussão. Ouviu um fraco som raspado atrás e ficou levem ente enoj ado ao ver o rosto retorcido de seu novo arquileitor.

– Maj estade – Glokta falava baixinho, com o se planej asse discutir segredos, franzindo a testa na direção de Terez e seu pai –, será que posso perguntar… Vai tudo bem entre o senhor e a rainha? – Sua voz ficou m ais baixa ainda: – Soube que os senhores raram ente dorm em no m esm o quarto.

Jezal ficou a ponto de dar um a bofetada no aleij ado, por sua desfaçatez. Então, com o canto do olho, pegou Terez observando-o. Aquela expressão de desprezo absoluto que era o tratam ento usual que ele recebia com o m arido. Sentiu os om bros se afrouxarem .

– Ela m al suporta ficar no m esm o país que eu, quanto m ais na m esm a cam a. Aquela m ulher é um a vaca! – rosnou, depois baixou a cabeça e olhou para o chão. – O que posso fazer?

Glokta virou o pescoço para um lado, depois para o outro, e Jezal reprim iu um trem or ao ouvir um estalo alto.

– Deixe-m e falar com a rainha, Maj estade. Eu posso ser bastante persuasivo quando quero. Entendo suas dificuldades. Eu m e casei apenas recentem ente.

Jezal m orria de m edo só de pensar em que tipo de m onstro poderia ter aceitado aquela aberração com o m arido.

– Verdade? – perguntou, fingindo interesse. – Quem é a dam a?

– Acredito que o senhor e ela têm um conhecim ento distante. Ardee é o nom e dela. Ardee dan Glokta.

E os lábios do aleij ado deslizaram para trás revelando o buraco desagradável no lugar dos dentes da frente.

– Mas não é…

– Sim , a irm ã do m eu velho am igo Collem West.

Jezal apenas o fitou, m udo. Glokta fez um a reverência rígida.

– Aceito seus parabéns.

Virou-se, foi m ancando até a beira da plataform a e com eçou a descer com dificuldade, apoiando-se pesadam ente na bengala.

Jezal m al conseguiu assim ilar o im pacto da notícia, a decepção esm agadora, o terror absoluto. Não conseguia conceber que tipo de chantagem aquela m onstruosidade trôpega poderia ter usado para fisgá-la. Talvez ela sim plesm ente tivesse ficado desesperada quando Jezal a abandonara. Talvez, com o irm ão doente, não tivesse a quem recorrer. Apenas alguns dias antes, no hospital, vê-la havia provocado algum a coisa nele, com o antigam ente. Ele andara pensando que talvez, um dia, com o tem po…

Agora até essas fantasias prazerosas iam por terra. Ardee estava casada, e com um hom em que Jezal desprezava. Um hom em que fazia parte de seu Conselho Fechado. Para piorar ainda m ais as coisas, um hom em a quem , num m om ento de loucura, ele havia confessado o vazio com pleto de seu casam ento. Tinha-se perm itido parecer fraco, vulnerável, absurdo. Xingou com am argura, baixinho.

Agora parecia que ele havia am ado Ardee com um a paixão insuportável. Que os dois tinham com partilhado algo que ele j am ais encontraria de novo. Com o podia não ter percebido isso na época? Com o podia ter perm itido que tudo desm oronasse, em troca… do quê? O m ais triste, supunha, era que o am or sozinho não era nem um pouco suficiente.

 

Logen sentiu um j orro de desapontam ento ao abrir a porta e, logo em seguida, um a onda de raiva. O quarto estava vazio, arrum ado e lim po, com o se ninguém tivesse dorm ido ali. Ferro tinha ido em bora.

Nada havia acontecido com o ele esperava. A essa altura, j á deveria ter esperado, talvez. Afinal de contas, as coisas nunca haviam acontecido com o ele esperava. No entanto continuava m ij ando contra o vento. Era com o um hom em cuj a porta é baixa dem ais, m as, em vez de pensar em se abaixar, fica batendo a cabeça todo dia da vida m iserável. Queria sentir pena de si m esm o, m as sabia que não m erecia coisa m elhor. Um hom em não pode fazer as coisas que ele havia feito e esperar um final feliz.

Saiu para o corredor e foi andando, com os dentes trincados. Abriu a porta seguinte com o om bro, sem bater. As j anelas altas estavam abertas, com o sol entrando no côm odo arej ado, as cortinas balançando à brisa. Bay az estava sentado diante de um a delas num a cadeira esculpida, com um a xícara de chá na m ão. Um serviçal baj ulador, com casaco de veludo, servia o chá de um bule de prata, tendo um a bandej a com xícaras equilibrada nas pontas dos dedos estendidos.

– Ah, o rei dos nórdicos! – exclam ou Bay az. – Com o está…

– Cadê Ferro?

– Foi em bora. Na verdade, deixou um a trem enda suj eira para trás, m as eu resolvi tudo, com o frequentem ente m e pego…

– Para onde?

O m ago deu de om bros.

– Para o sul, im agino. Vingança, ou algo assim , fui obrigado a supor. Ela sem pre falou m uito sobre vingança. É um a m ulher de tem peram ento m uito ruim .

– Ela m udou.

– Grandes acontecim entos, am igo. Nenhum de nós é o m esm o. Aceita um chá?

O serviçal estendeu a bandej a de prata na direção dele. Logen o pegou pelo casaco de veludo e o atirou do outro lado do côm odo. O hom em arfou ao bater na parede e se esparram ar no tapete deixando as xícaras caírem com estardalhaço.

Bay az arqueou um a sobrancelha.

– Bastaria um sim ples “não”.

– À m erda, seu velho desgraçado.

O Prim eiro dos Magos franziu a testa.

– Ora, m estre Nove Dedos, você parece estar num hum or de valentão esta m anhã. Agora você é rei, e não é bom se deixar dom inar por sentim entos inferiores, desse m odo. Reis desse tipo nunca duram . Você ainda tem inim igos no Norte. Calder e Scale estão nas m ontanhas causando encrenca, tenho certeza. Sem pre achei que bons m odos devem ser retribuídos da m esm a form a. Você foi útil para m im , e eu posso ser útil em troca.

– Com o foi com Bethod?

– Exatam ente.

– Isso fez m uito bem a ele.

– Quando tinha m inha aj uda ele prosperou. Depois ficou orgulhoso, desregrado e exigiu que as coisas fossem todas do seu m odo. Sem m inha aj uda… Bom , você sabe o resto.

– Fique fora dos m eus negócios, m ago.

Logen deixou a m ão pousar no punho da espada do Artífice. Se as espadas tinham vozes, com o o m ago lhe dissera certa vez, ele deixou que ela fizesse um a am eaça séria.

Mas o rosto de Bay az m ostrou apenas um levíssim o traço de irritação.

– Um hom em inferior pode ficar perturbado. Eu não com prei sua vida de Bethod? Não lhe dei um propósito quando você não tinha nada? Não o levei até a borda do Mundo, m ostrei m aravilhas que poucos hom ens viram ? Ora, a própria espada com que você m e am eaça foi presente m eu. Eu esperava que pudéssem os chegar a um …

– Não.

– Sei. Nem ao m enos…

– Para nós, acabou. Parece que nunca vou ser um hom em m elhor, m as posso tentar não ser pior. Pelo m enos isso posso tentar.

Bay az estreitou os olhos.

– Ora, m estre Nove Dedos, você m e surpreende até o últim o instante. Eu achava que você era um hom em coraj oso m as contido, calculista m as com passivo. Achava, acim a de tudo, que você era um hom em realista. Mas os nórdicos sem pre tenderam para a petulância. Observo agora em você um lado obstinado e um tem peram ento destrutivo. Por fim vej o o Nove Sangrento.

– Estou feliz em desapontá-lo. Parece que nós avaliam os um ao outro de form a com pletam ente errada. Considerei que você era um grande hom em . Agora percebo m eu erro.

Logen balançou a cabeça devagar.

– O que você fez aqui?

– O que eu fiz? – Bay az bufou com um riso incrédulo. – Com binei três disciplinas puras da m agia e forj ei um a nova! Parece que você não entende esse feito, m estre Nove Dedos, m as eu o perdoo. Sei que aprender com os livros nunca foi seu ponto forte. Um a coisa assim não era contem plada desde antes do Tem po Antigo, quando Euz dividiu seus dons entre os filhos.

Bay az suspirou.

– Parece que ninguém vai apreciar m eu m aior feito. Ninguém a não ser Khalul, talvez, e é im provável que algum dia ele m e dê os parabéns. Ora, um poder tão grande não era liberado dentro do Círculo do Mundo desde… desde…

– Desde que Glustrod se destruiu e destruiu Aulcus j unto?

O m ago arqueou as sobrancelhas.

– Já que você m encionou.

– E parece que os resultados são praticam ente os m esm os, só que você conseguiu um a chacina um pouquinho m enos descuidada e arruinou um pedaço m enor de um a cidade m enor, num tem po m enor e de form a m ais m esquinha. Afora isso, qual é a diferença entre você e ele?

– Eu achava que isso era óbvio – falou Bay az e levantou sua xícara, olhando de um j eito afável por cim a da borda. – Glustrod perdeu.

Logen ficou parado por longo tem po, pensando nisso. Depois se virou e saiu da sala, com o serviçal se encolhendo para fora do cam inho. Foi para o corredor, os passos ecoando no teto dourado, a corrente pesada de Bethod tilintando em volta do pescoço com o um a gargalhada em seus ouvidos.

Provavelm ente deveria ter m antido o velho desgraçado e im placável do seu lado. Era bem possível que ainda precisasse da aj uda dele, pelo m odo com o as coisas deveriam estar no Norte quando voltasse. Era praticam ente certo que o m elhor teria sido engolir aquele m ij o fedorento que ele cham ava de chá e sorrir com o se fosse m el. Quase com certeza, deveria ter gargalhado e cham ado Bay az de velho am igo, para poder chegar se arrastando à Grande Biblioteca do Norte quando as coisas azedassem . Seria a coisa inteligente a fazer. Seria a coisa realista. Mas era com o o pai de Logen sem pre dizia…

Ele nunca havia sido m uito realista.