O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 21 de 61

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O duelo dos reis

O primeiro dia

 

O CÉU COMEÇAVA a pegar fogo a leste. Longas tiras de nuvens rosadas e longas tiras de nuvens pretas se esticavam sobre o azul-claro. Em baixo, as m ontanhas enevoadas e de som bras cinzentas faziam cortes e talhes com o um a faca de açougueiro. A oeste o céu continuava um a m assa de ferro escura, fria e sem oferecer conforto.

– Belo dia para a coisa – disse Crum m ock.

– É – concordou Logen, m as não tinha certeza de que isso existisse.

– Bom , se Bethod não aparecer, e não m atarm os nada, pelo m enos vocês terão feito m aravilhas pela m inha m uralha, não é?

Era incrível com que rapidez e eficiência um hom em podia rem endar um a m uralha quando ela era a pilha de pedras que poderia salvar sua vida. Em poucos dias, haviam reconstruído e rej untado com reboco toda a sua extensão, além de haver cortado a m aior parte da hera. De dentro do forte, onde o terreno era m uito m ais alto, ela não parecia tão tem ível. De fora tinha três vezes a altura de um hom em grande até a passarela no topo. Tinham reform ado o parapeito, que agora ia até a altura do pescoço e havia um a quantidade de bons postos de onde disparar flechas e j ogar pedras. Tinham cavado um fosso razoável na frente e o forraram com estacas afiadas.

Ainda estavam cavando, à esquerda, onde a m uralha encontrava o penhasco e era m ais fácil escalar. Aquele era o trecho de Barca Negra, e Logen podia ouvi-lo gritando com seus rapazes acim a do som das pás.

– Continuem cavando, seus preguiçosos! Não vou ser m orto por não terem trabalhado! Força, desgraçados!

E assim ele prosseguia, o dia inteiro. Era um m odo de fazer um hom em trabalhar, adm itiu Logen.

Tinham cavado o fosso m ais fundo na frente do velho portão. Um a bela lem brança, a todos, de que não existiam planos para ir em bora. Mas aquele ainda era seu ponto m ais fraco, e não havia com o se iludir. Era onde Logen estaria, se Bethod viesse. Bem no m eio, no trecho de m uralha sob os cuidados de Trem edeira. Agora ele estava acim a do arco da entrada, com o cabelo com prido balançando à brisa, apontando para algum as rachaduras que ainda precisavam de m assa.

– A m uralha está ficando boa! – gritou Logen para ele.

Trem edeira olhou em volta, rem exeu a boca, depois cuspiu por cim a do om bro.

– É – resm ungou e se virou de novo.

Crum m ock se aproxim ou de Logen.

– Se acontecer um a batalha, você vai ter de vigiar as costas por causa desse aí, Nove Sangrento.

– Im agino que sim .

O m eio de um a luta era um bom m om ento para resolver um a pendência com alguém do seu próprio lado. Ninguém notava depois se os cadáveres tinham sido feridos pelas costas ou pela frente. Todo m undo ficava ocupado dem ais chorando por causa dos próprios cortes ou cavando ou fugindo. Logen lançou um olhar dem orado para o grande m ontanhês.

– Terei de vigiar por causa de um m onte de hom ens, se houver um a batalha. Nós não som os tão am igos a ponto de você não ser um deles.

– O m esm o digo eu – respondeu Crum m ock, o tem po todo com um sorriso no rosto grande e barbudo. – Nós dois tem os a reputação de não serm os m uito seletivos com relação a quem é m orto, depois que a m atança com eça. Mas isso não é ruim . Excesso de confiança deixa o hom em descuidado.

– Excesso de confiança? – Fazia tem po que Logen não tinha nada em grande quantidade, a não ser inim igos. Apontou o polegar para a torre. – Vou subir e verificar se eles viram algum a coisa.

– Espero que tenham visto! – disse Crum m ock, esfregando as palm as das m ãos gordas. – Espero que o desgraçado venha hoj e!

Logen pulou de cim a da m uralha e atravessou o forte, se é que aquilo poderia ser cham ado assim , passou por Carls e hom ens das m ontanhas sentados em grupos, com endo, conversando ou lim pando arm as. Uns poucos que tinham ficado de guarda durante a noite estavam enrolados em cobertores, dorm indo. Seguiu pelo cercado em que as ovelhas se am ontoavam em m uito m enor núm ero do que antes. Passou pela forj a im provisada perto do corredor j unto à rocha, onde dois hom ens suj os de fuligem trabalhavam com um fole e outro derram ava m etal em m oldes para fazer pontas de flecha. Precisariam de um a quantidade enorm e delas se Bethod viesse fazer um a visita. Chegou aos degraus estreitos entalhados na face da rocha e os subiu de dois em dois, forte acim a, até o topo da torre.

Havia um a grande pilha de pedras para ser atiradas de lá, daquela prateleira na lateral da m ontanha, e seis grandes barris atulhados de flechas. Os m elhores arqueiros estavam de pé j unto aos parapeito recém -restaurado com m assa, os hom ens com m elhores olhos e ouvidos vigiando a chegada de Bethod. Logen viu Cachorrão no m eio dos outros, com Sinistro de um lado e Tul do outro.

– Chefe! – cham ou Logen.

Dizer isso ainda o fazia sorrir. Durante m uito tem po tinham feito as coisas ao contrário, m as, por ele, funcionava m uito m elhor assim . Pelo m enos ninguém ficava apavorado o tem po todo. Pelo m enos não com relação ao próprio chefe.

– Viram algum a coisa? – perguntou.

Cachorrão lhe deu um sorriso e ofereceu um cantil.

– Muita coisa, por sinal.

– Uh – fez Sinistro.

Agora o sol ia acim a das m ontanhas, talhando as nuvens com linhas brilhantes, com endo as som bras da terra dura, queim ando a névoa do alvorecer. Os grandes penhascos se erguiam ousados e despreocupados nas duas laterais, m anchados de capim verde-am arelado e sam am baias, com trechos de rocha nua irrom pendo nos cum es m arrons. Abaixo, o vale nu estava silencioso e im óvel, salpicado de arbustos espinhentos e grupos de árvores m irradas, riscado pelos cursos de riachos secos. Tão vazio quanto estivera no dia anterior, e no anterior, e desde que haviam chegado.

Logen se lem brava de sua j uventude nos Lugares Altos, sozinho. Dias seguidos testando-se contra as m ontanhas. Antes que seu nom e tivesse sido ouvido por todo m undo. Antes de se casar e de ter filhos e antes de sua m ulher e seus filhos voltarem à lam a. Os vales felizes do passado. Puxou o ar frio das alturas e o expirou com força.

– É um lugar e tanto para apreciar a vista, sem dúvida, m as eu estava perguntando sobre nosso velho am igo.

– Quer dizer Bethod, o rei legítim o e real dos nórdicos? Não, não há sinal dele. Nem um fio de cabelo.

– A esta altura eu j á esperaria ter algum a notícia, se ele viesse – com entou Tul e balançou a cabeça grande.

Logen bochechou com um pouco d’água e cuspiu pela lateral da torre; viu-a bater nas pedras lá em baixo.

– Talvez ele não caia na arm adilha.

Dava para im aginar o lado bom de Bethod não aparecer. A vingança é um a bela ideia vista de longe, m as quando chega perto não fica m uito bonita. Ainda m ais quando você está em m enor núm ero, num a relação de um para dez, sem ter para onde fugir.

– Talvez ele não caia – disse Cachorrão, desej oso. – Com o está a m uralha?

– Bem , desde que eles não tragam algo com o um a escada. Quanto tem po você acha que a gente deveria esperar antes de…

– Uh – grunhiu Sinistro, com o dedo com prido apontando para o vale.

Logen avistou um m ovim ento lá. E outro. Engoliu em seco. Dois hom ens, talvez, esgueirando-se pelas pedras com o besouros no cascalho. Sentiu seus hom ens se retesarem ao redor, ouviu-os m urm urando.

– Merda – sibilou. Olhou de esguelha para Cachorrão, que tam bém olhou para ele. – Parece que o plano de Crum m ock funcionou.

– Parece m esm o. Pelo m enos no sentido de fazer Bethod vir atrás da gente.

– É. O resto é a parte com plicada.

A parte que m ais do que provavelm ente faria com que todos fossem m ortos, m as Logen sabia que todos estavam pensando isso, sem que ele precisasse dizer.

– Agora é esperar para que a União cum pra sua parte do trato – disse Cachorrão.

– É, vam os esperar.

Logen tentou dar um sorriso, m as não saiu m uito direito. Ter esperança nunca dera m uito certo para ele.

 

Assim que com eçaram a chegar, o vale se encheu rapidam ente, bem diante dos olhos de Cachorrão. Direto e reto, com o Bethod sem pre fizera as coisas. Os estandartes foram postos entre as duas faces de rocha, ao triplo da distância de um bom disparo de flecha, e os Carls e servos estavam com prim idos ao redor deles, todos olhando para a m uralha. O sol se elevava num céu azul com apenas alguns fiapos de nuvens para dar som bra, e todo aquele peso de aço relam pej ava e cintilava com o o m ar sob a Lua.

Todos os sím bolos deles estavam lá, todos os m elhores de Bethod desde m uito tem po: Mecha Branca, Crendel Afiado, Pálido-com o-Neve, Ossinho. E havia outros: sím bolos de bordas irregulares e agudas vindos de além de Crinna. Hom ens selvagens que haviam feito tratos som brios e sangrentos com Bethod. Cachorrão podia ouvi-los uivando e gritando uns para os outros, sons estranhos com o de anim ais na floresta.

Um a reunião e tanto, no total, e Cachorrão sentia o m edo e a dúvida encorpados com o sopa em cim a da m uralha. Muitas arm as sendo m anuseadas, m uitos lábios sendo m ordidos. Fez o m áxim o para m anter o rosto im placável e despreocupado, com o Três Árvores teria feito. Com o um chefe deveria agir. Por m ais que seus j oelhos quisessem trem er.

– Quantos, você acha? – perguntou Logen.

Cachorrão deixou o olhar percorrê-los, pensando.

– Uns oito m il, ou dez, talvez?

Um a pausa.

– Era o que eu estava pensando.

– Muito m ais do que nós, de qualquer m odo – concluiu Cachorrão, m antendo a voz baixa.

– É. Mas nem todas as lutas são vencidas pelos m ais num erosos.

– Claro que não. – Cachorrão m oveu os lábios enquanto olhava para todos aqueles hom ens. – Só a m aioria delas.

Havia m uita coisa acontecendo lá em baixo, adiante: pás brilhando, um fosso e um barranco de terra tom ando form a, atravessando todo o vale.

– Tam bém estão cavando um pouco – grunhiu Barca Negra.

– Bethod sem pre foi m eticuloso – disse Cachorrão. – Está usando o tem po. Fazendo a coisa bem -feita.

Logen assentiu.

– Garantindo que nenhum de nós vá em bora.

Cachorrão ouviu o som da gargalhada de Crum m ock atrás.

– Mas ir em bora nunca foi o propósito, não é?

Agora o estandarte de Bethod subia, perto da retaguarda, m as m esm o assim bem acim a dos outros. Um negócio gigantesco, um círculo verm elho em fundo preto. Cachorrão franziu a testa para aquela coisa, que balançava ao vento. Lem brou-se de ter visto o estandarte m eses antes, em Angland. Quando Três Árvores ainda estava vivo e Cathil tam bém . Moveu a língua dentro da boca am arga.

– Rei da porra dos nórdicos – m urm urou.

Alguns hom ens saíram da frente, de onde outros cavavam , e com eçaram a subir em direção à m uralha. Cinco, todos com boas arm aduras, o prim eiro com os braços bem abertos.

– É hora de j ogar conversa fora – m urm urou Barca Negra, depois escarrou no fosso.

Os cinco chegaram perto, diante do portão rem endado, as cotas de m alha com um brilho opaco. O prim eiro tinha cabelo branco e com prido e um olho branco, e não era m uito difícil de ser lem brado. Hansul Olho Branco. Parecia m ais velho, m as todos eles tam bém não pareciam ? Fora ele que pedira para Três Árvores se render em Uffrith e ouvira a resposta m andando-o ir se catar. Haviam j ogado bosta em cim a dele em Heonan. Tinha proposto duelos contra Barca Negra, Tul Duru e Harding Sinistro. Duelos contra os cam peões de Bethod. Duelos contra o Nove Sangrento. Ele havia falado m uito por Bethod e tinha contado um m onte de m entiras.

– Aquele lá em baixo é o Hansul Olho de Merda? – gritou Barca Negra para ele, zom bando. – Continua chupando o pau do Bethod, é?

O velho guerreiro riu para eles.

– A gente precisa alim entar a fam ília, não é? E, se quer saber, que diferença faz de quem é o pau? Não finj a que sua boca não sentiu um bocado de gosto de sal tam bém !

Ele tinha certa razão, Cachorrão teve de adm itir. Todos haviam lutado por Bethod, afinal de contas.

– O que você quer, Hansul? – gritou. – Bethod quer se render a nós, é?

– Vocês im aginariam isso, não é?, j á ele está em núm ero tão inferior, m as eu sou m ais de falar do que de lutar, e falei com ele para dar m ais um a chance a todos vocês. Eu tenho dois filhos lá em baixo, com os outros, e podem m e cham ar de egoísta, m as prefiro que eles não corram risco. Espero que possam os sair desta só conversando.

– Não parece m uito provável! – gritou Cachorrão. – Mas podem tentar, se precisarem ; não tenho m ais nada im portante para fazer hoj e!

– Então o negócio é o seguinte: Bethod não é m uito de desperdiçar tem po, suor e sangue escalando sua m uralhazinha de m erda. Ele tem negócios com os sulistas e quer resolvê-los logo. Nem vale a pena gastar fôlego m ostrando a encrenca em que vocês estão. Estam os em m aior núm ero, m ais de dez para um , eu calculo, m uito m ais, e vocês não têm por onde sair. Bethod garante que qualquer hom em que quiser pode desistir agora e ir em paz. Só é preciso entregar as arm as.

– E a cabeça logo depois, né? – rosnou Barca Negra.

Hansul respirou fundo, com o se não esperasse que acreditassem nele.

– Bethod garante que qualquer hom em pode ir em paz. É a palavra dele.

– Foda-se a palavra dele! – disse Barca Negra com desprezo, e na m uralha abaixo hom ens zom baram e cuspiram , concordando. – Você acha que todos nós não o vim os faltar com a palavra dez vezes antes? Já caguei bostas que valem m ais que o que ele diz!

– Mentiras, claro – riu Crum m ock –, m as é norm al, não é? Mentir um pouquinho, antes de com eçarm os o trabalho duro. Você se sentiria insultado se ele não fizesse ao m enos um a tentativa. Qualquer hom em , hein? – gritou para Hansul lá em baixo. – Que tal Crum m ock-i-Phail ir em paz? Que tal o Nove Sangrento?

O rosto de Hansul m udou ao ouvir aquele nom e.

– É verdade, então? Nove Dedos está aí em cim a?

Cachorrão sentiu Logen chegar ao lado e se m ostrar na m uralha. Olho Branco ficou pálido e seus om bros se afrouxaram .

– Bom – Cachorrão ouviu-o dizer baixinho –, tem de ser sangue, então.

Logen se apoiou preguiçosam ente no parapeito e olhou para Hansul e seus Carls. Aquele olhar fam into, vazio, com o se escolhesse que ovelha do rebanho abater prim eiro.

– Pode dizer ao Bethod que vam os sair – garantiu, m as fez um a pausa antes de com pletar: – assim que tiverm os m atado todos vocês, porra.

Um a gargalhada brotou nas m uralhas, e hom ens zom baram e brandiram arm as no ar. Não eram palavras engraçadas, e sim duras, e era só isso que todos precisavam escutar, adm itiu Cachorrão. Era um bom m odo de se livrar do m edo por um m om ento. Ele m esm o até conseguiu dar um m eio sorriso.

Olho Branco só ficou parado, na frente daquele portão precário, e esperou que os rapazes silenciassem .

– Ouvi dizer que agora você é chefe dessa turba, Cachorrão. De m odo que não precisa m ais receber ordens desse carniceiro louco por sangue. Essa é a sua resposta, tam bém ? É desse m odo?

Cachorrão encolheu os om bros.

– De que outro m odo você achou que seria? Nós não viem os aqui para conversar, Hansul. Pode ir se catar, agora.

Mais algum as gargalhadas e m ais gritos. Um rapaz no lado da m uralha guarnecido por Trem edeira baixou a calça e expôs a bunda sobre o parapeito. Era o fim das negociações.

Olho Branco balançou a cabeça.

– Certo, então. Vou dizer a ele. Acho que todos vocês vão voltar à lam a, e é bem m erecido. Podem dizer aos m ortos que eu tentei, quando se encontrarem com eles!

Com eçou a descer de volta para o vale, com os quatro Carls atrás.

Logen se inclinou para a frente, de repente.

– Vou procurar seus filhos, Hansul! – gritou, com cuspe voando da boca que rosnava e ria. – Quando o trabalho com eçar! Pode dizer a Bethod que estou esperando! Diga a todos lá que estou esperando!

 

Um a calm a estranha baixou sobre a m uralha e os hom ens nela, sobre o vale e os hom ens nele. O tipo de calm a que às vezes acontece antes de um a batalha, quando os dois lados sabem o que esperar. A m esm a calm a que Logen havia sentido em Carleon, antes de desem bainhar a espada e rugir ordenando o ataque. Antes de perder o dedo. Antes de ser o Nove Sangrento. Muito tem po atrás, quando as coisas eram m ais sim ples.

O fosso de Bethod ficou suficientem ente fundo para ele, e os servos guardaram as pás e voltaram para trás da vala. Cachorrão havia subido os degraus de volta à torre, sem dúvida levando seu arco, ao lado de Sinistro e Tul, e esperava. Crum m ock estava atrás da m uralha com seus hom ens das m ontanhas, alinhados, ferozes e a postos. Barca Negra j untara seus rapazes à esquerda. Gorro Verm elho se posicionara com seus rapazes à direita. Trem edeira não ficara m uito longe de Logen, os dois acim a do portão, esperando.

Os estandartes no vale abaixo balançavam e farfalhavam suavem ente ao vento. Um a m arreta soou um a, duas, três vezes na fortaleza atrás deles. Um pássaro piou, lá no alto. Um hom em sussurrou em algum lugar, depois ficou quieto. Logen fechou os olhos, inclinou o rosto para trás e sentiu na pele o sol quente e a brisa fresca dos Lugares Altos. Tudo silencioso com o se ele estivesse sozinho e não houvesse dez m il hom ens ao redor, ansiosos para com eçarem a m atar uns aos outros. Tão silencioso e calm o que ele quase sorriu. Seria assim a vida, se ele nunca tivesse segurado um a arm a?

Durante o tem po de três respirações, m ais ou m enos, Logen Nove Dedos foi um hom em de paz.

Então ouviu a m ovim entação de hom ens e abriu os olhos. Os Carls de Bethod arrastavam os pés até as laterais do vale, fileira após fileira, fazendo som de botas esm agando o solo e de equipam entos chacoalhando. Deixaram um cam inho rochoso, um espaço vazio pelo m eio. Por essa abertura vieram figuras negras que passaram num enxam e por cim a do fosso, com o form igas furiosas saindo de um form igueiro m exido, infestando a encosta acim a em direção à m uralha, num a m assa inform e de m em bros tortos, bocas rosnando e garras raspando.

Shankas, e nem m esm o Logen j á vira ao m enos m etade daquele núm ero num lugar só. O vale estava coberto deles – um a infestação que balbuciava, se balançava e guinchava.

– Pela porra dos m ortos! – sussurrou alguém .

Logen se perguntou se deveria gritar algum a coisa para os hom ens na m uralha ao redor. Se deveria gritar “Firm es!” ou “Aguentem !”. Algo para aj udar a dar um pouco de coragem aos rapazes, com o um líder deveria fazer. Mas de que adiantaria? Cada um deles j á havia lutado antes e conhecia o serviço. Cada um deles sabia que era lutar ou m orrer, e não havia coisa m elhor para instigar a coragem de um hom em .

Assim , Logen trincou os dentes e fechou o punho com força em volta do cabo frio da espada do Artífice, tirou o m etal opaco de sua bainha gasta e observou os cabeças-achatadas se aproxim arem . Os da frente estavam a uns cem passos de distância agora e vindo depressa.

– Preparem os arcos! – rugiu Logen.

– Arcos! – ecoou Trem edeira.

– Flechas! – vieram o grito áspero de Barca Negra da m uralha abaixo e o de Gorro Verm elho do outro lado.

A toda a volta de Logen, os arcos rangiam sendo retesados e hom ens m iravam , queixos travados, rostos sérios e suj os. Os cabeças-achatadas vinham , sem se preocupar, dentes reluzindo, línguas pendendo, olhos rancorosos brilhando de ódio. Faltava pouco agora, faltava m uito pouco. Logen girou a espada.

– Falta pouco – sussurrou.

 

– Com eçar disparos, porra! – ordenou Cachorrão, disparando sua flecha contra a m ultidão de shankas.

Cordas zum biram ao redor e a prim eira saraivada voou para baixo. Flechas erraram os alvos, bateram em pedras e pararam longe, flechas encontraram o alvo e derrubaram cabeças-achatadas, que guincharam num em aranhado de m em bros negros. Os hom ens pegaram outras, calm os e firm es. Eram os m elhores arqueiros de todo o grupo e sabiam disso.

Arcos estalavam , flechas zum biam e shankas m orriam no vale, e os arqueiros m iravam , com facilidade, disparando e partindo para o próxim o. Cachorrão ouviu a ordem vinda de baixo e viu o brilho das flechas que voavam da m uralha. Mais cabeças-achatadas caíram , sacudindo-se e se debatendo na terra.

– É fácil com o esm agar form igas num a tigela! – gritou alguém .

– É! – resm ungou Cachorrão. – Só que form igas não saem da tigela para cortar a porra da cabeça da gente! Menos conversa e m ais flechas!

Viu o prim eiro shanka chegar ao fosso que os hom ens dele e de Crum m ock cavaram , entrar com dificuldade, tentar em purrar as estacas para baixo, agarrar-se à base da m uralha.

Tul ergueu um a pedra grande acim a da cabeça, inclinou-se para fora e a j ogou para baixo com um rugido. Cachorrão a viu se chocar contra a cabeça de um shanka no fosso e fazer seus m iolos espirrarem , verm elhos, nas pedras, e viu-a bater em outros, derrubando m ais dois. Outros caíam gritando, com flechas cravadas, m as havia m uitos atrás, deslizando para dentro do fosso, passando uns por cim a dos outros. Esm agavam -se contra a m uralha, espalhando-se por toda a extensão dela, alguns atirando lanças contra os hom ens acim a ou disparando flechas desaj eitadas.

Agora com eçavam a escalar, as garras cravando-se nas pedras furadas, puxando-se m ais e m ais para cim a. Devagar, avançavam em grande parte da m uralha, sendo arrancados por pedras e flechas vindas de cim a. Iam m ais rápido do lado m ais distante, à esquerda, m ais longe de Cachorrão e seus rapazes, onde Barca Negra com andava. Mais rápidos ainda eram os que estavam em volta do portão, onde ainda havia um pouco de hera grudada à pedra.

– Maldição, esses desgraçados sabem escalar! – sibilou Cachorrão, pegando a próxim a flecha.

– Uh – grunhiu Sinistro.

 

A m ão do shanka bateu no topo do parapeito, um a garra torta raspando as pedras. Logen viu o braço vir em seguida, curvado e feio, com tufos de pelos grossos e tendões altos e retorcidos. Então veio o topo achatado da cabeça careca, um tufo de sobrancelhas pesadas, a grande m andíbula escancarada, dentes afiados escorregadios de cuspe. Os olhos fundos encararam os seus. A espada de Logen partiu o crânio da criatura até o nariz chato e arrancou um olho da órbita.

Hom ens disparavam flechas e se abaixavam enquanto flechas ricocheteavam na pedra. Um a lança passou zunindo sobre a cabeça de Logen. Lá em baixo ele podia ouvir os shankas raspando e tentando rasgar o portão, batendo nele com porretes e m arretas, podia ouvi-los guinchando de fúria. Shankas sibilavam e grasnavam na tentativa de passar por cim a do parapeito e hom ens os golpeavam com espadas e m achados, derrubavam -nos da m uralha furando-os com lanças.

Ouviu Trem edeira rugindo:

– Tirem eles do portão! Para longe do portão!

Hom ens berravam palavrões. Um Carl que estivera inclinado sobre o parapeito caiu para trás, tossindo. Fora atravessado por um a lança de shanka, logo em baixo do om bro, a ponta fazendo a cam isa se proj etar para longe das costas. Ele piscou para o cabo torto da arm a, abriu a boca para dizer algum a coisa. Gem eu, deu dois passos cam baleantes e um cabeça-achatada grande com eçou a se arrastar por cim a do parapeito, atrás dele, com o braço estendido sobre a pedra.

A espada do Artífice o cortou fundo, logo abaixo do cotovelo, fazendo espirrar um líquido pegaj oso no rosto de Logen. A lâm ina bateu na pedra e fez sua m ão chacoalhar com o im pacto, que o deixou cam baleante por tem po suficiente para o shanka se arrastar por cim a do parapeito, com o braço cortado preso apenas por um pedaço de pele e tendão, e sangue escuro saindo em j orros.

A criatura foi para cim a de Logen com a outra garra, m as Nove Dedos a segurou pelo pulso, chutou seu j oelho para o lado e a derrubou. Antes que ela pudesse se levantar, ele havia aberto um talho enorm e nas suas costas, deixando lascas de osso branco expostas na ferida enorm e. O shanka se sacudiu e se debateu, espirrando sangue para todo lado, e Logen o pegou com força por baixo do pescoço, em purrou-o de volta por cim a da m uralha e o j ogou. O cabeça-achatada bateu em outro que com eçava a escalar. Os dois caíram esparram ados no fosso, um deles tentando se levantar com um a estaca enfiada no pescoço.

Um rapaz ficou parado, boquiaberto, com a besta pendendo frouxa na m ão.

– Eu m andei parar de atirar, porra? – rugiu Logen, e ele piscou e aj ustou um a seta com a m ão trêm ula, em seguida voltou correndo para o parapeito.

Havia hom ens em toda parte, lutando, gritando, disparando flechas e girando espadas. Viu três Carls batendo em um cabeça-achatada com suas lanças. Viu Trem edeira dar um golpe nas costas de outro, fazendo sangue escuro riscar o ar. Viu um hom em esm agar a cara de um cabeça-achatada com o escudo no instante em que a criatura chegou ao topo da m uralha e derrubá-lo no vazio. Logen golpeou a m ão de um shanka, escorregou em sangue e caiu de lado, quase acertando a si m esm o. Arrastou-se dois passos e se levantou com dificuldade. Decepou o braço de um shanka que j á se sacudia preso à lança de um Carl, cortou o pescoço de outro até a m etade quando ele apareceu sobre o parapeito. Foi rápido atrás dele e olhou por cim a.

Restava um shanka na m uralha, e Logen acabara de apontar para ele quando um a flecha vinda da torre acertou a criatura nas costas e ela despencou no fosso, cravando-se num a estaca. Todos os que tinham ficado em volta do portão estavam m ortos, esm agados por pedras e perfurados por flechas agora partidas. O centro estava garantido, e o lado de Gorro Verm elho j á fora lim po. À esquerda ainda havia alguns na m uralha, m as os rapazes de Barca Negra estavam em cim a deles. Enquanto olhava, Logen viu dois serem j ogados, cheios de sangue, no fosso.

Os que estavam no vale com eçaram a ficar indecisos, desviando-se para longe, guinchando e berrando, com flechas ainda caindo no m eio deles, disparadas pelos arqueiros de Cachorrão. Parecia que até os shankas se cansavam . Com eçaram a se virar, a voltar na direção do fosso de Bethod.

– Nós acabam os com eles! – gritou alguém .

E então todo m undo com eçou a gritar e com em orar. O garoto com a besta a agitava acim a da cabeça, rindo com o se tivesse derrotado Bethod sozinho.

Logen não com em orou. Franziu a testa para a grande m ultidão de Carls do outro lado do fosso, os estandartes do bando de Bethod balançando na brisa. Aquele ataque podia ter sido breve e sangrento, m as da próxim a vez provavelm ente seria m uito m enos breve e m uito m ais sangrento. Obrigou o punho dolorido a soltar a espada do Artífice, encostou-se no parapeito e apertou um a das m ãos com a outra, para im pedi-las de trem er. Respirou fundo.

– Ainda estou vivo – sussurrou.

 

Logen estava sentado afiando suas facas, com a luz da fogueira brilhando nas lâm inas enquanto ele as virava para um lado e para outro, acariciando-as com a pedra de am olar, lam bendo a ponta do dedo e lim pando um a m ancha, deixando-as am oladas e lim pas. Facas nunca eram de m ais, isso era fato. Riu ao se lem brar da resposta que Ferro dera a isso. A não ser que você caia num rio e se afogue com todo o peso do m etal. Ele se perguntou, naquele m om ento ocioso, se iria vê-la de novo algum dia, m as não pareceu provável. É preciso ser realista, afinal de contas, e até m esm o sobreviver ao dia seguinte parecia um a am bição e tanto.

Sinistro se sentara do lado oposto e aparava alguns gravetos retos para serem usados com o hastes de flechas. Ainda havia um a leve claridade do crepúsculo quando se sentaram ali. Agora estava um a escuridão de breu, exceto pela poeira de estrelas, e nenhum deles dissera um a palavra o tem po todo. Assim era Harding Sinistro, e para Logen estava ótim o. Um silêncio confortável era m elhor que um a conversa preocupante, m as nada dura para sem pre.

O som de passos irritados veio do escuro e Barca Negra chegou à fogueira, com Tul e Crum m ock logo atrás. Ele tinha no rosto um a expressão am eaçadora o suficiente para fazer j us ao seu nom e e um a bandagem suj a no antebraço, com um a com prida risca de sangue seco nela.

– Levou um corte, é? – perguntou Logen.

– Bobagem ! – Barca Negra se deixou cair ao lado da fogueira. – Só um arranhão. Porras de cabeças-achatadas! Vou queim ar todos eles!

– E vocês aí?

– As palm as das m inhas m ãos estão arranhadas de tanto levantar pedras, m as sou um cara resistente. Vou sobreviver – falou Tul.

– E eu ainda m e sinto m iseravelm ente à toa – disse Crum m ock –, com m eus filhos cuidando das m inhas arm as e arrancando flechas dos m ortos. É um bom trabalho para crianças, faz com que se sintam à vontade perto de um cadáver. Mas a Lua está ansiosa para m e ver lutar, está sim , e eu tam bém .

Logen sugou o ar por entre os dentes.

– Vai ter sua chance, Crum m ock, eu não m e preocuparia com isso. Im agino que Bethod tenha luta o bastante para todo m undo.

– Nunca vi cabeças-achatadas vindo daquele j eito – com entou Barca Negra, pensativo. – Direto contra um a m uralha bem guarnecida, sem escadas, sem ferram entas. Os cabeças-achatadas não são m uito espertos, m as tam bém não são idiotas. Eles gostam de em boscadas. Gostam de ficar encobertos, de se esconder e de se esgueirar. Podem ser m alucos inconsequentes quando é preciso, m as vir daquele j eito, por opção? Não é natural.

Crum m ock deu um risinho, um trovão áspero.

– Shankas lutando por um grupo de hom ens, contra outros, tam bém não é natural. Não vivem os num tem po de coisas naturais. Pode ser que a bruxa do Bethod tenha feito algum feitiço para agitar aqueles bichos. Inventou um canto e um ritual para encher aquelas coisas de ódio contra nós.

– Dançou nua em volta de um fogo verde e coisa e tal, sem dúvida – disse Tul.

– A Lua vai cuidar da gente, am igos, não se preocupem ! – Crum m ock chacoalhou os ossos pendurados no pescoço. – A Lua am a todos nós, e não podem os m orrer enquanto houver…

– Diga isso aos que foram para a lam a hoj e – falou Logen.

Virou a cabeça na direção das sepulturas recém -cavadas na parte de trás do forte. Não dava para vê-las no escuro, m as elas estavam ali. Uns vinte calom bos de terra revirada e com prim ida.

Mas o grande m ontanhês apenas sorriu.

– Mas eu diria que eles é que são os felizes, não é? Pelo m enos cada um tem sua cam a, não tem ? Nós vam os ter sorte se não form os para valas com doze, cada um a, quando o trabalho esquentar. Senão não vai sobrar espaço para os vivos dorm irem . Valas para vinte! Não digam que vocês j á não viram isso, ou que não cavaram os buracos vocês m esm os.

Logen se levantou.

– Talvez eu tenha cavado, m as não gostei.

– Claro que gostou! – rugiu Crum m ock atrás dele. – Não m e venha com essa, Nove Sangrento!

Logen não olhou para trás. Havia tochas na m uralha a cada dez passos, m ais ou m enos, cham as brilhantes na escuridão, com pontos brancos de insetos flutuando ao redor. Hom ens estavam parados à luz, apoiando-se nas lanças, bestas apertadas nas m ãos, espadas desem bainhadas, vigiando a noite para evitar qualquer surpresa. Bethod adorava surpresas, e Logen acreditava que lhes faria algum as antes de term inarem , de um m odo ou de outro.

Chegou ao parapeito, pôs as m ãos na pedra úm ida e franziu a testa para as fogueiras que ardiam no negrum e do vale. As fogueiras de Bethod, distantes na escuridão, e as deles, m ontadas e acesas logo abaixo da m uralha para tentar pegar qualquer desgraçado esperto que tentasse chegar perto. Elas lançavam círculos trem eluzentes nas rochas som breadas, com o corpo retorcido de um cabeça-achatada aqui ou ali, cortado e j ogado da m uralha ou cravado de flechas.

Logen sentiu alguém se m over atrás dele e suas costas se eriçaram , os olhos deslizando para os cantos. Trem edeira, talvez, que viera acertar suas contas e em purrá-lo da m uralha. Trem edeira ou um a centena de outros com algum ressentim ento que Logen havia esquecido m as que eles j am ais esqueceriam . Certificou-se de que sua m ão estivesse perto da espada e m ostrou os dentes, preparando-se para girar e golpear.

– Mas a gente se saiu bem hoj e, hein? – disse Cachorrão. – Perdem os m enos de vinte.

Logen respirou tranquilo de novo e deixou a m ão baixar.

– A gente se saiu bem . Mas Bethod só com eçou. Ele está sondando, para ver onde som os m ais fracos, para ver se pode nos esgotar. Ele sabe que o tem po é fundam ental. É a coisa m ais valiosa na guerra. Um dia ou dois valem m ais para ele do que um m onte de cabeças-achatadas. Se ele puder nos esm agar depressa, vai aceitar as perdas, acho.

– Então a m elhor coisa é resistir, não é?

Na escuridão, longe e ecoando, Logen podia ouvir de leve o retinir e estalar de ferreiros e carpinteiros.

– Estão construindo coisas lá em baixo. O que vão precisar para subir na nossa m uralha, encher nosso fosso. Um m onte de escadas e tudo o m ais. Bethod vai nos pegar depressa, se puder, m as vai nos pegar devagar, se for preciso.

Cachorrão assentiu.

– Bom , com o eu disse: a m elhor coisa a fazer é resistir. Se tudo acontecer de acordo com o plano, a União vai chegar logo.

– É m elhor que chegue. Os planos têm um a tendência a desm oronar quando a gente se apoia neles.