O duelo dos reis
Não é o que você queria
GLOKTA ACORDOU COM um raio de luz suave cheio de grãos de poeira dançantes entrando pelas cortinas e alcançando suas cobertas am arrotadas. Tentou se virar e encolheu-se com um estalo no pescoço. Ah, o primeiro espasmo do dia. O segundo não dem orou a chegar. Relam pej ou pelo lado esquerdo do quadril enquanto ele se esforçava para se virar de costas e tirou seu fôlego. A dor se esgueirou coluna abaixo, acom odou-se na perna e ficou ali.
– Ah – grunhiu.
Tentou virar o tornozelo com delicadeza, trabalhar o j oelho. A dor ficou m uito pior.
– Barnam !
Puxou o lençol para o lado e o odor fam iliar de excrem ento chegou às narinas. Nada como o fedor da própria bosta para iniciar uma manhã produtiva.
– Ah! Barnam !
Gem eu, babou, apertou a coxa m irrada, m as nada aj udou. A dor ficava cada vez pior. As fibras se destacavam na carne devastada com o cabos de m etal, o pé sem dedos pendia grotescam ente na extrem idade, fora de seu controle.
– Barnam ! – gritou. – Barnam , seu escroto! A porta!
A saliva escorria da boca banguela, lágrim as desciam pelo rosto espasm ódico, as m ãos gadanhavam , agarrando o lençol m anchado de m arrom .
Ouviu passos apressados no corredor, a m açaneta abaixou.
– Está trancada, idiota! – guinchou, sacudindo-se de dor e raiva.
A m açaneta se m oveu e a porta se abriu, para sua surpresa. Que diab…
Ardee veio correndo até a cam a.
– Saia! – sibilou ele, colocando um braço inutilm ente sobre o rosto e agarrando as cobertas com a outra m ão. – Saia!
– Não.
Ela puxou o lençol para longe e Glokta fez um a careta, esperando que o rosto dela em palidecesse, esperando que ela cam baleasse para trás com um a das m ãos sobre a boca e os olhos arregalados de choque e noj o. Estou casada… com essa monstruosidade coberta de merda? Ela apenas franziu a testa por um m om ento, depois segurou sua coxa arruinada e a apertou com os polegares.
Ele ofegou, agitou-se e tentou se soltar retorcendo-se, m as ela com prim ia im placavelm ente dois pontos de agonia bem no m eio de seus tendões com cãibra.
– Ah! Sua porra… sua…
O m úsculo devastado ficou subitam ente relaxado e ele relaxou j unto, deixando-se cair no colchão. E agora estar sujo da minha própria merda começa a parecer só um pouquinho embaraçoso.
Ficou parado um m om ento, im potente.
– Não queria que você m e visse… assim .
– Tarde dem ais. Você se casou com igo, lem bre-se disso. Agora som os um só.
– Acho que fiquei com a m elhor parte desse trato.
– Eu ganhei m inha vida, não foi?
– Não é o tipo de vida pela qual a m aioria das j ovens anseia.
Observou a faixa de luz do sol que se m ovia em seu rosto escurecido enquanto ela se m ovim entava.
– Sei que não sou o que você queria… num m arido.
– Sem pre sonhei com um hom em com quem eu pudesse dançar – disse ela, levantou a cabeça e sustentou o olhar dele. – Mas acho que talvez você m e sirva m elhor. Os sonhos são para as crianças. Nós dois som os adultos.
– Mesm o assim . Agora você vê que não dançar é a parte m enos im portante. Você não deveria ter de fazer… isso.
– Eu quero fazer.
Ela segurou com força o rosto dele e o torceu um tanto dolorosam ente, de m odo que Glokta a encarasse.
– Quero fazer algum a coisa. Quero ser útil. Quero que alguém precise de m im . Dá para entender?
Glokta engoliu em seco.
– Dá. – Poucos entenderiam melhor. – Cadê o Barnam ?
– Eu disse que ele podia tirar folga pelas m anhãs. Disse que de agora em diante eu faria isso. Tam bém m andei trazer m inha cam a para cá.
– Mas…
– Está dizendo que eu não posso dorm ir no m esm o quarto que o m eu m arido?
As m ãos dela deslizaram lentam ente sobre sua carne m urcha, suaves m as firm es, esfregando a pele cheia de cicatrizes, apertando os m úsculos arruinados. Quanto tempo faz desde que uma mulher me olhou com algo que não fosse horror? Desde que uma mulher me tocou com algo que não fosse violência? Ficou deitado, os olhos fechados e a boca aberta, as lágrim as escorrendo do olho e descendo pela lateral da cabeça, até o travesseiro. Quase confortável. Quase…
– Não m ereço isso – ofegou.
– Ninguém recebe o que m erece.
A rainha Terez olhou para Glokta de nariz em pinado enquanto ele entrava m ancando em sua sala ensolarada, sem a m enor tentativa de esconder o noj o e o desprezo absolutos. Como se visse uma barata arrastando-se em sua real presença. Mas veremos. Afinal de contas, conheço bem esse caminho. Eu mesmo o segui e arrastei tantos outros por ele depois. O orgulho vem primeiro. Depois a dor. A humildade em seguida. A obediência surge logo depois.
– Meu nom e é Glokta. Sou o novo arquileitor da Inquisição de Sua Maj estade.
– Ah, o aleij ado – zom bou ela. Com uma objetividade revigorante. – E por que pertuba m inha tarde? Você não vai encontrar crim inosos aqui. – Só bruxas estirianas.
Os olhos de Glokta se viraram para a outra m ulher, em pertigada perto de um a j anela.
– É um assunto que seria m elhor discutirm os a sós.
– A condessa Shalere é m inha am iga desde o nascim ento. Não há nada que você possa m e dizer que ela não possa ouvir.
A condessa olhou para Glokta com um desdém pouco m enos penetrante do que o da rainha.
– Muito bem . – Não há um modo delicado de dizer. Duvido que a delicadeza servisse aqui, de qualquer modo. – Chegou à m inha atenção, Maj estade, que a senhora não tem cum prido com seus deveres de esposa.
O pescoço com prido e fino de Terez pareceu se esticar de indignação.
– Com o ousa? Isso não é da sua conta!
– Infelizm ente é. Herdeiros para o rei, vej a bem . O futuro da nação, etc.
– Isso é insuportável!
O rosto da rainha ficou branco de fúria. A joia de Talins lampeja fogo, de fato.
– Sou obrigada a com er a com ida repulsiva de vocês, a tolerar seu clim a pavoroso, a sorrir para as arengas do seu rei idiota! Agora tenho que responder aos seus lacaios grotescos? Sou um a prisioneira aqui!
Glokta olhou a sala im ponente ao redor. As cortinas opulentas, os m óveis dourados, as belas pinturas. As duas m ulheres lindas com suas roupas elegantes. Cravou um dente na parte de baixo da língua.
– Acredite, as prisões não são assim .
– Existem m uitos tipos de prisão!
– Eu aprendi a viver em prisões piores, assim com o outras pessoas. – Você deveria ver o que minha esposa precisa aguentar.
– Com partilhar m inha cam a com um bastardo noj ento, um filho sabe-se lá de quem , cheio de cicatrizes, adm itir um hom em fedorento e peludo passando a m ão em m im à noite! – A rainha teve um trem or de repulsa. – Isso seria intolerável!
Lágrim as brilhavam em seus olhos. Sua dam a de com panhia avançou rapidam ente, o vestido farfalhando, e se aj oelhou ao lado dela, pondo a m ão em seu om bro para reconfortá-la. Terez pôs sua m ão em cim a da dela. A com panheira da rainha olhou para Glokta com ódio descarado.
– Saia! Fora, aleij ado, e não volte j am ais! Você perturbou Sua Maj estade!
– Tenho dom para isso – m urm urou Glokta. – É um dos m otivos pelos quais sou tão am plam ente odiado…
Ele deixou o resto no ar, franzindo a testa. Olhou para as m ãos das duas no om bro de Terez. Havia algo naquele toque. Reconfortante, tranquilizador, protetor. O toque da amiga comprometida, da confidente, da companheira fraterna. Mas havia algo além disso. Era íntimo demais. Caloroso demais. Quase como o toque de… Ah.
– A senhora não vê m uita utilidade nos hom ens, não é?
As duas m ulheres o encararam ao m esm o tem po, então Shalere tirou a m ão bruscam ente do om bro da rainha.
– O que você quer dizer com isso? – rugiu Terez, m as sua voz saiu esganiçada, quase em pânico.
– Acho que a senhora sabe m uito bem o que quero dizer. – E minha tarefa fica muito mais fácil. – Algum a aj uda aqui!
Dois práticos corpulentos passaram pela porta.
E, com essa rapidez, tudo muda. É incrível o tempero que dois homens grandes podem dar a uma conversa. Alguns tipos de poder não passam de truques da mente. Aprendi isso muito bem nas prisões do imperador, e meu novo senhor só reforçou a lição.
– Você não ousaria! – guinchou Terez, fitando com olhos enorm es os hom ens m ascarados. – Você não ousaria m e tocar!
– Ah, por sorte duvido que sej a necessário, m as verem os – falou. Depois apontou para a condessa e se dirigiu aos práticos: – Peguem essa m ulher.
Os dois m ascarados cruzaram o tapete grosso. Um deles tirou a cadeira do cam inho com cuidado exagerado.
– Não! – A rainha ficou de pé de um salto e segurou a m ão de Shalere. – Não!
– Sim – disse Glokta.
As duas m ulheres recuaram , agarradas um a à outra, Terez na frente, protegendo a condessa com seu corpo, os dentes à m ostra num rosnado de alerta enquanto as duas grandes som bras se aproxim avam .
Quase nos emocionaríamos pelo apreço evidente que uma sente pela outra, se fôssemos capazes de nos emocionarmos.
– Peguem -na. Mas não deixem nenhum a m arca na rainha, por favor.
– Não! – gritou Terez. – Vou pedir sua cabeça por causa disso! Meu pai… m eu pai está…
– Voltando para Talins, e duvido que com ece um a guerra por causa de sua am iga. Além disso, você foi com prada e paga e o grão-duque Orso não m e parece do tipo que desfaça um acordo.
Os dois hom ens e as duas m ulheres se agitaram na outra extrem idade da sala num a dança deselegante. Um dos práticos segurou a condessa pelo pulso, arrastou-a para longe da m ão da rainha e a obrigou a se aj oelhar. Torceu seus braços atrás do corpo e fechou algem as pesadas em seus pulsos. Terez berrou, deu socos, chutou, gadanhou o outro, m as era com o soltar sua fúria contra um a árvore. O suj eito enorm e m al se m exeu, os olhos tão sem em oção quanto se houvesse um a m áscara em seu rosto.
Glokta se pegou quase rindo da feia cena. Posso ser aleijado e hediondo e sentir dor constante, mas a humilhação de mulheres lindas é um prazer que ainda posso desfrutar. Faço isso agora com ameaças e violência em vez de palavras doces e adulação, mas… é quase tão divertido quanto antigamente.
Um prático enfiou à força um saco sobre a cabeça de Shalere, transform ando os gritos dela em soluços abafados, depois a forçou a atravessar a sala, im potente. O outro ficou onde estava por um m om ento, m antendo a rainha encurralada no canto. Depois recuou para a porta. No cam inho, pegou a cadeira que tinha m ovido e a devolver exatam ente à posição em que a havia encontrado.
– Seu m aldito! – guinchou Terez, com os punhos cerrados trem endo enquanto a porta se fechava, deixando os dois a sós. – Seu m aldito, seu desgraçado torto! Se fizer m al a ela…
– Não chegarei a esse ponto. Porque a senhora tem os m eios de libertá-la.
A rainha engoliu em seco, o peito arfando.
– O que preciso fazer?
– Foder. – De algum m odo a palavra pareceu duas vezes m ais feia no am biente lindo. – E ter filhos. Darei à condessa sete dias no escuro, sem ser m olestada. Se no fim desse tem po não souber que a senhora fez o pau do rei pegar fogo toda noite, vou apresentá-la aos m eus práticos. Coitados. Eles têm feito tão pouco exercício! Dez m inutos devem bastar para eles, m as há um núm ero suficiente de funcionários na Casa das Perguntas. Ouso dizer que podem os m anter sua am iga de infância bem ocupada, noite e dia.
Um espasm o de horror atravessou o rosto de Terez. E por que não? Esse é um ponto baixo até mesmo para mim.
– E se eu fizer o que você pede?
– Então a condessa será m antida em segurança e incólum e. Assim que a senhora estiver com provadam ente grávida, eu a devolvo. As coisas podem voltar a ser com o são agora, quando houver um a criança em seu ventre. Dois m eninos com o herdeiros, duas m eninas para casar e estarem os quites. O rei pode encontrar sua diversão em outros lugares.
– Mas isso vai dem orar anos!
– A senhora pode conseguir em três ou quatro, se realm ente cavalgá-lo com intensidade. E pode descobrir que a vida de todo m undo vai ficar m ais fácil se ao m enos fingir que está gostando.
– Fingir? – ofegou ela.
– Quanto m ais a senhora der a entender que está gastando, m ais rápido vai acabar. A puta m ais barata do cais consegue gem er para ganhar uns cobres quando os m arinheiros m etem nela. Está dizendo que não é capaz de gem er para o rei da União? A senhora ofende m inhas sensibilidades patrióticas! Uh! Ah! Isso! Aí! Não pare! – ofegou ele, revirando os olhos num a sim ulação de êxtase. – Está vendo? Até eu consigo! Um a m entirosa com a sua experiência não deve ter dificuldade.
O olhar lacrim oso da rainha saltou pela sala, com o se procurasse algum a saída. Mas não existe nenhuma. O nobre arquileitor Glokta, protetor da União, grande coração do Conselho Fechado, exemplo das virtudes cavalheirescas, demonstra seu talento para a política e a diplomacia. Ele sentiu um a agitação m inúscula por dentro ao observar o desespero dela, um trem or ínfim o nas entranhas. Culpa, talvez? Não importa o que seja, aprendi minha lição. A piedade jamais funciona para mim.
Deu m ais um passo lento adiante.
– Maj estade, espero que entenda qual seria a alternativa.
Ela assentiu e enxugou os olhos. Depois ergueu o queixo com orgulho.
– Farei o que o senhor pede. Por favor, im ploro, não a m achuque… por favor…
Por favor, por favor, por favor. Parabéns, Eminência.
– A senhora tem a m inha palavra. Garantirei que a condessa receba apenas o m elhor tratam ento – falou Glokta e lam beu gentilm ente os espaços nas gengivas. – E a senhora fará o m esm o com seu m arido.
Jezal estava sentado no escuro. Olhava o fogo dançar na grande lareira e pensava no que poderia ter sido. Pensava com algum a am argura. Todos os cam inhos que sua vida poderia ter tom ado, e havia term inado ali. Sozinho.
Ouviu dobradiças rangerem . A pequena porta que dava para o quarto da rainha se abriu devagar. Ele nunca havia se incom odado em trancá-la do seu lado. Não tinha previsto nenhum a circunstância em que ela desej asse usá-la. Algum erro de etiqueta que ele havia com etido, sem dúvida, pelo qual ela não podia esperar sequer até a m anhã para censurá-lo.
Levantou-se depressa, nervoso.
Terez passou pelo portal som breado. Parecia tão diferente que a princípio ele m al a reconheceu. O cabelo estava solto e ela usava apenas um a cam isola. Olhava hum ilde para o chão, o rosto no escuro. Seus pés descalços passaram sobre as tábuas, pisaram no tapete grosso e prosseguiram em direção à lareira. De repente parecia m uito j ovem . Jovem e pequena, fraca e solitária. Jezal olhou para ela confuso, um tanto apavorado, m as tam bém , à m edida que ela chegava m ais perto e a luz da lareira captava as form as de seu corpo, ligeiram ente excitado.
– Terez, m inha… – Ele procurou a palavra. “Querida” não parecia servir. Nem “am ada”. “Pior inim iga” poderia servir, m as não aj udaria nem um pouco. – Posso…
Ela o interrom peu, com o sem pre, m as não com a agressividade que ele esperava.
– Desculpe o m odo com o o tratei. As coisas que eu disse… Você deve m e achar…
Havia lágrim as nos olhos dela. Lágrim as de verdade. Ele não acreditaria, até aquele m om ento, que ela era capaz de chorar. Deu um ou dois passos apressados na direção dela, um a das m ãos estendida, sem ideia do que fazer. Nunca ousara esperar um pedido de desculpas, e certam ente não um pedido de desculpas feito com tanta seriedade e honestidade.
– Eu sei – gaguej ou ele. – Eu sei… Não sou o que você queria num m arido. Desculpe. Mas sou tão prisioneiro nisto quanto você. Só espero… que talvez possam os fazer o m elhor possível. Talvez possam os encontrar um m odo… de cuidar um do outro? Nenhum de nós tem m ais ninguém . Por favor, diga o que devo fazer…
– Shhhh.
Ela encostou um dedo nos seus lábios, olhando-o nos olhos, m etade do rosto reluzindo em laranj a por causa do fogo, a outra m etade oculta nas som bras. Os dedos se enfiaram nos cabelos de Jezal e o puxaram . Ela o beij ou, gentilm ente, quase sem j eito, os lábios roçando, depois se com prim indo m eio atrapalhados. Ele passou um a das m ãos na nuca de Terez, por baixo da orelha, o polegar acariciando o rosto liso. As bocas trabalharam m ecanicam ente, acom panhadas pelo chiado fraco da respiração no nariz dele, pelo som úm ido e suave da saliva. Nem de longe era o beij o m ais apaixonado que ele j á trocara, m as era m uito m ais do que havia esperado receber da esposa. Um arrepio agradável cresceu em sua virilha quando ele enfiou a língua na boca de Terez.
Correu a outra m ão pelas costas dela, sentindo os ressaltos da coluna. Grunhiu baixinho ao passar a m ão na bunda, descer pela lateral da coxa e depois avançar entre as pernas, com a bainha da cam isola se em bolando no pulso. Sentiu-a estrem ecer, sentiu-a se encolher e m order o lábio, parecendo chocada ou m esm o com noj o. Puxou a m ão bruscam ente e os dois se separaram , olhando para o chão.
– Desculpe – m urm urou ele, xingando-se por dentro por causa da ansiedade. – Eu…
– Não. A culpa é m inha. Não tenho… experiência… com hom ens…
Jezal piscou um m om ento, depois quase sorriu com um j orro de alívio. Claro. Agora tudo se explicava. Terez era tão segura, tão distinta que nunca lhe ocorrera que ela pudesse ser virgem . Era o sim ples m edo que fazia a esposa trem er tanto. Medo de desapontá-lo. Sentiu um j orro de sim patia.
– Não se preocupe – m urm urou baixinho, dando um passo à frente e tom ando-a nos braços. Sentiu-a enrij ecer, sem dúvida com nervosism o, e acariciou gentilm ente seu cabelo. – Eu posso esperar… Não precisam os fazer… pelo m enos por enquanto.
– Não – disse ela com um a determ inação tocante, fitando-o nos olhos sem m edo. – Não. Vam os fazer.
Ela puxou a cam isola por cim a da cabeça e deixou-a cair no chão. Chegou perto dele, segurou seu pulso, guiou-o de volta à coxa, depois para cim a.
– Ah – sussurrou, rouca e com urgência, os lábios roçando o rosto dele, a respiração quente no seu ouvido. – É… aí… não pare.
Então o guiou ofegante para a cam a.
– É só isso?
Glokta olhou ao redor da m esa, m as os velhos estavam em silêncio. Todos esperando minha palavra. O rei estava ausente de novo, por isso ele os fizera esperar um tem po desnecessariam ente longo. Só para deixar claro, a qualquer um que tivesse dúvida, quem mandava. Por que não, afinal de contas? O objetivo do poder não é ser gentil.
– Então esta reunião do Conselho Fechado está term inada.
Eles se levantaram , depressa, em silêncio e em boa ordem . Torlichorm , Halleck, Kroy e todo o resto saíram lentam ente da sala. O próprio Glokta lutou para se levantar, a perna ainda doendo com a lem brança das cãibras da m anhã, e descobriu que o lorde cam arista, de novo, havia ficado para trás. E não parece estar achando nem um pouco divertido.
Hoff esperou até que a porta estivesse fechada, antes de falar.
– Im agine m inha surpresa – disse ele – ao saber do seu casam ento recente.
– Foi um a cerim ônia rápida e discreta. – Glokta m ostrou ao lorde cam arista os destroços de seus dentes da frente. – O am or dos j ovens não adm ite dem ora, você sabe. Peço desculpas se a falta de um convite o ofendeu.
– Convite? – rosnou Hoff, franzindo a testa. – De j eito nenhum ! Não foi isso que nós discutim os!
– Discutim os? Acho que tem os um equívoco. Nosso am igo em com um – Glokta deixou os olhos se m overem significativam ente para a décim a terceira cadeira, vazia na outra extrem idade da m esa. – m e deixou no com ando. Eu. Ninguém m ais. Ele considera necessário que o Conselho Fechado tenha apenas um a voz. De agora em diante, a voz vai soar notavelm ente parecida com a m inha.
O rosto verm elho de Hoff em palideceu.
– Claro, m as…
– Você sabe, im agino, que eu vivi dois anos de tortura, não sabe? Dois anos no inferno, de m odo que agora posso ficar de pé diante de você. Ou m e apoiar na bengala diante de você, torto feito um a raiz de árvore velha. Um a farsa de hom em , aleij ado, trôpego, desgraçado, hein, lorde Hoff? Sej am os honestos. Às vezes eu perco o controle da m inha própria perna. Dos olhos. Do rosto. – Bufou. – Se é que podem os cham ar de rosto. Minhas tripas tam bém são rebeldes. Frequentem ente acordo suj o com m inha própria m erda. Vivo em dor constante, e as lem branças de tudo o que perdi m e incom odam interm inavelm ente.
Sentiu o olho esquerdo trem endo. Pode tremer. Prosseguiu:
– De m odo que, vej a bem , apesar dos m eus constantes esforços para ser um hom em de hum or ensolarado, descubro que desprezo o m undo e tudo o que há nele e desprezo a m im m esm o acim a de tudo. É um a coisa lam entável, para a qual não existe rem édio.
O lorde cam arista lam beu os lábios, inseguro.
– O senhor tem m inha solidariedade, m as não vej o em que isso sej a relevante.
Glokta chegou subitam ente m uito perto, ignorando um espasm o na perna, im prensando Hoff contra a m esa.
– Sua solidariedade vale m enos do que nada, e a relevância é a seguinte: sabendo o que eu sou, o que eu suportei, o que ainda suporto… consegue supor que exista algum a coisa que eu tem a no m undo? Algum a atitude que eu relute em tom ar? A dor m ais insuportável dos outros é, na pior das hipóteses… um a irritação para m im .
Glokta chegou m ais perto ainda, deixando os lábios se afastarem dos dentes arruinados, deixando o rosto trem er e o olho chorar.
– Sabendo de tudo isso… você acha possivelm ente sensato… um hom em ficar onde você está agora… e fazer am eaças? Am eaças contra m inha esposa? Contra meu filho?
– Não pretendia fazer nenhum a am eaça, claro, eu j am ais faria…
– Isso sim plesm ente não seria bom , lorde Hoff! Sim plesm ente não seria bom . À m enor sugestão de violência contra eles… Bom , eu nem desej aria que você im aginasse o horror desum ano da m inha reação.
Mais perto ainda, tão perto que sua saliva criou um a névoa fraca em volta da papada trêm ula de Hoff.
– Não vou perm itir m ais nenhum questionamento sobre isso. Jam ais. Não vou perm itir sequer o boato de que pode haver algum questionam ento. Nunca. Sim plesm ente… não… seria bom , lorde Hoff, que um saco de carne, sem olhos, sem língua, sem rosto, sem dedos e sem pau ocupasse sua cadeira no Conselho Fechado.
Ele se afastou, dando seu sorriso m ais repulsivo.
– Ora, lorde cam arista… quem beberia todo o vinho?
Era um lindo dia de outono em Adua e o sol brilhava de form a agradável através dos galhos das perfum adas árvores frutíferas, lançando um a som bra salpicada na gram a. Um a brisa suave atravessava o pom ar, agitando o m anto carm im do rei, que cam inhava regiam ente pelo gram ado, e o casaco branco do arquileitor, que m ancava teim osam ente a um a distância respeitosa, curvado sobre a bengala. Pássaros cantavam nas árvores e as botas m uito polidas de Sua Maj estade faziam barulho no cascalho, criando ecos fracos, aprazíveis, nos prédios brancos do palácio.
Do outro lado dos m uros altos, vinha o som de trabalho distante. Batidas de picaretas e m artelos, terra sendo raspada e pedra quebrada. Os gritos fracos dos carpinteiros e pedreiros. Esses eram os sons m ais prazerosos de todos, aos ouvidos de Jezal. Os sons da reconstrução.
– Vai dem orar um bom tem po, claro – dizia ele.
– Claro.
– Anos, talvez. Mas boa parte dos escom bros j á foi retirada. O conserto de alguns dos prédios m enos danificados j á com eçou. O Agriont será m ais glorioso do que antes, sabe? Fiz disso m inha prioridade.
Glokta baixou a cabeça m ais ainda.
– E portanto é tam bém a m inha e do seu Conselho Fechado. Será que posso perguntar… – m urm urou –… pela saúde de sua esposa, a rainha?
Jezal rem exeu a boca. Não gostava de discutir seus assuntos pessoais com aquele hom em , principalm ente, m as não podia negar que, o que quer que o que o aleij ado tivesse dito, houvera um a m elhoria bastante significativa.
– Houve um a m udança expressiva – respondeu Jezal. – Descobri que ela é um a m ulher de apetites… quase insaciáveis.
– Fico m uito feliz ao ver que m inhas súplicas tiveram efeito.
– Ah, tiveram , tiveram sim , só que ainda há certa… – Jezal balançou a m ão no ar, procurando a palavra certa. –… tristeza nela. Às vezes… eu a ouço chorar à noite. Ela fica j unto à j anela aberta e chora durante horas.
– Chora, Maj estade? Talvez estej a apenas com saudades de casa. Sem pre suspeitei que ela era um espírito m uito m ais gentil do que aparenta.
– Ela é! Ela é! Um espírito gentil.
Jezal pensou nisso durante um m om ento.
– Sabe, acho que você pode estar certo. Saudades de casa.
Um plano com eçou a tom ar form a em sua m ente.
– Talvez devêssem os redesenhar os j ardins do palácio, para dar um ar de Talins, não acha? Poderíam os alterar o riacho, para parecer com canais, e assim por diante!
Glokta deu seu sorriso banguela.
– Ideia sublim e. Vou falar com o j ardineiro real. Talvez troque outra palavra breve com Sua Maj estade, tam bém , para ver se posso estancar as lágrim as dela.
– Eu agradeceria qualquer coisa que você fizesse. E com o vai sua esposa? – perguntou por cim a do om bro, esperando m udar de assunto, depois percebeu que havia passado para outro m ais difícil ainda.
Mas Glokta apenas m ostrou o sorriso vazio outra vez.
– Ardee é um grande consolo para m im , Maj estade. Não sei com o eu pude viver sem ela.
Continuaram andando num silêncio incôm odo durante um m om ento, então Jezal pigarreou.
– Estive pensando, Glokta, naquele m eu plano. Você sabe, de cobrar um im posto dos bancos. Talvez para custear um novo hospital perto das docas. Para quem não pode pagar um m édico. O povo tem sido bom conosco. Ele nos aj udou a chegar ao poder e sofreu em nosso nom e. Um governo deve oferecer algo a todo o seu povo, não é? Quanto m ais sim ples, quanto m ais pobre, m ais ele precisa da nossa aj uda. Um rei é tão rico quanto seu súdito m ais pobre, não acha? Você gostaria que o j uiz suprem o esboçasse algum a coisa? Pequena, para com eçar, depois podem os ir m ais longe. Moradia grátis, talvez, para os que não têm casa. Deveríam os considerar…
– Maj estade, eu falei sobre isso com nosso am igo em com um .
Jezal parou subitam ente, com um sentim ento frio subindo pela coluna.
– Falou?
– Sinto que esse é o m eu dever – disse o aleij ado num tom servil, m as os olhos fundos não se afastaram um instante dos de Jezal. – Nosso am igo não ficou… entusiasm ado.
– Quem governa a União: ele ou eu?
Mas os dois sabiam m uito bem a resposta para essa pergunta.
– O senhor é o rei, claro.
– Claro.
– Mas nosso am igo em com um … Não desej aríam os desapontá-lo.
Glokta deu um passo m anco m ais para perto, o olho esquerdo trem elicando de m odo repulsivo.
– Nenhum de nós dois, tenho certeza, gostaria de encoraj ar um a visita… dele a Adua.
Os j oelhos de Jezal ficaram fracos. A leve lem brança daquela dor m edonha, insuportável, apertou seu estôm ago.
– Não – grasnou. – Claro que não.
A voz do aleij ado m al passava de um sussurro.
– Talvez com o tem po possam os encontrar verbas para algum proj eto pequeno. Nosso am igo não pode ver tudo, afinal de contas, e o que ele não vir não fará m al. Tenho certeza de que nós dois, discretam ente… poderíam os fazer algum bem . Mas, por enquanto, não.
– É. Você está certo, Glokta. Você tem um ótim o senso para essas coisas. Não fazer nada que provoque a m enor ofensa. Por favor, inform e ao nosso am igo que as opiniões dele serão sem pre valorizadas acim a de todas as outras. Por favor, diga ao nosso bom am igo que ele pode contar com igo. Diria isso, por favor?
– Direi, Maj estade. Ele vai adorar ouvir isso.
– Bom – m urm urou Jezal. – Bom .
Um a brisa gélida havia soprado, e ele se virou de volta para o palácio, puxando a capa em volta do corpo. No fim das contas, não era um dia tão agradável quanto ele esperara.