O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 24 de 61

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O duelo dos reis

Perguntas

 

O CORONEL GLOKTA era um dançarino m agnífico, claro, m as com a perna rígida assim era difícil brilhar de verdade. O zum bido constante de m oscas era um a distração a m ais, e sua parceira não aj udava. Ardee West parecia bastante bem , m as seus risinhos estavam se tornando irritantes.

– Pare com isso! – vociferou o coronel, girando-a pelo laboratório do adepto m édico, enquanto os espécim es nas j arras bam boleavam ao ritm o da m úsica.

– Parcialm ente com ido – riu Kandelau, um olho am pliado enorm em ente pela lente. Apontou para baixo com a pinça. – Isto é um pé.

Glokta em purrou os arbustos para o lado, um a das m ãos apertando o rosto. O cadáver trucidado estava ali, reluzindo em verm elho, praticam ente irreconhecível com o hum ano. Ardee ria e ria ao ver aquilo.

– Parcialm ente com ido! – trinou ela.

O coronel Glokta não achava aquilo nem um pouco engraçado. O som das m oscas ficava cada vez m ais alto e am eaçava abafar a m úsica por com pleto. Pior ainda, estava ficando terrivelm ente frio no parque.

– Descuido m eu – disse um a voz atrás.

– Com o assim ?

– Deixar isso aí. Mas às vezes é m elhor m over-se depressa do que se m over com cautela, não é, aleij ado?

– Eu m e lem bro disso – m urm urou Glokta. Tinha ficado m ais frio ainda e ele trem ia feito um a folha. – Eu m e lem bro disso!

– Claro – sussurrou a voz. Um a voz de m ulher, m as não era Ardee. Baixa e sibilante, fez seu olho trem elicar.

– O que posso fazer? – perguntou o coronel.

Ele sentiu o conteúdo do estôm ago subir. Os ferim entos na carne verm elha se arreganhavam . As m oscas eram tão barulhentas que ele m al pôde ouvir a resposta.

– Talvez você devesse buscar conselhos na Universidade. – Um a respiração gélida roçou em seu pescoço e fez suas costas trem erem . – Talvez, quando estiver lá… possa perguntar a eles sobre a Sem ente.

 

Glokta chegou com dificuldade à base da escada e cam baleou de lado, tom bando contra a parede, respirando sibilante, de boca aberta. A perna direita trem ia, o olho esquerdo trem elicava, com o se os dois estivessem conectados por um cordão de dor que penetrava na bunda, nas tripas, nas costas, no om bro, no pescoço, na cara e piorava a cada m ovim ento, por m enor que fosse.

Obrigou-se a ficar parado. Respirou fundo e devagar. Obrigou a m ente a se desviar da dor para outros assuntos. Como Bayaz e sua busca fracassada a essa tal Semente. Afinal de contas, Sua Eminência está esperando, e não é conhecido pela paciência. Esticou o pescoço para os dois lados e sentiu os ossos estalarem entre as escápulas torcidas. Apertou a língua contra as gengivas e foi arrastando os pés para longe da escada, para a escuridão fresca das pilhas de livros.

Elas não haviam m udado m uito no últim o ano. Ou provavelmente em alguns séculos. Os espaços abobadados tinham cheiro de m ofo e velhice, ilum inados apenas por alguns lam piões trem eluzentes, suj os, as estantes envergadas estendendo-se até longe nas som bras m óveis. É hora de cavar de novo no lixo empoeirado da história. O adepto histórico não parecia ter m udado m uito tam bém . Estava sentado atrás de sua m esa m anchada, exam inando um a pilha de papéis de aparência m ofada à luz de um a única cham a de vela. Ele franziu os olhos quando Glokta se aproxim ou m ancando.

– Quem está aí?

– Glokta – disse, e olhou cheio de suspeitas para o teto som breado. – O que aconteceu com o seu corvo?

– Morreu – grunhiu com tristeza o velho bibliotecário.

– Virou história, você quer dizer!

O velho não riu.

– Ah, bom . Vai acontecer com todos nós. – E mais cedo com uns do que com outros. – Tenho perguntas para o senhor.

O adepto histórico se inclinou por cim a da m esa, espiando com os olhos úm idos na direção de Glokta com o se nunca tivesse visto outro ser hum ano antes.

– Eu m e lem bro de você. – Milagres acontecem, então? – Você m e perguntou sobre Bay az. Prim eiro aprendiz do grande Juvens, a prim eira letra no alfabeto do…

– É, é, nós j á falam os disso.

O velho franziu a testa, carrancudo.

– Trouxe aquele pergam inho de volta?

– O que diz que Artífice caiu queim ando e coisa e tal? Infelizm ente não. O arquileitor ficou com ele.

– Argh. Ultim am ente tenho ouvido falar dem ais nesse hom em . Lá em cim a vivem falando nele. Sua Em inência isso, Sua Em inência aquilo. Estou enj oado de ouvir! – Sei muito bem como se sente. – Todo m undo anda agitado. Agitado e atarantado.

– Houve m uitas m udanças im portantes. Tem os um novo rei.

– Sei disso! Guslav, não é?

Glokta deu um suspiro longo e se acom odou na cadeira do outro lado da m esa.

– É, é, o próprio. – Só trinta anos desatualizado, mais ou menos. Estou surpreso por ele não achar que Harod, o Grande, ainda está no trono.

– O que você quer desta vez?

Ah, procurar no escuro respostas que estão sempre fora do alcance.

– Quero saber sobre a Sem ente.

O rosto enrugado não se m exeu.

– O quê?

– Ela foi m encionada em seu pergam inho precioso. A coisa que Bay az e seus am igos m ágicos procuraram na Casa do Artífice depois da m orte de Kanedias. Depois da m orte de Juvens.

– Bá! – O adepto balançou a m ão, fazendo a pele flácida abaixo do pulso balançar. – Segredos, poder. É tudo m etáfora.

– Bay az parece não achar isso. – Glokta arrastou a cadeira m ais para perto e falou m ais baixo. Apesar de não haver ninguém para ouvir, nem me importar se ouvirem. – Ouvi dizer que era um pedaço do Outro Lado, que ficou do Tem po Antigo, quando os dem ônios andavam pela terra. A substância da m agia tornada sólida.

O velho chiou com um riso que parecia papel sendo am assado e exibiu a caverna podre da boca com m enos dentes ainda do que Glokta.

– Não pensei que o senhor fosse um hom em supersticioso, superior. – E eu não era, quando vim aqui na última vez, com perguntas. Antes da minha visita à Casa do Artífice, antes de me encontrar com Yulwei, antes de ver Shickel sorrir enquanto eu a queimava. Que tempos felizes eram aqueles, antes que eu ouvisse falar de Bayaz, quando as coisas ainda faziam sentido. O adepto enxugou os olhos úm idos com o arrem edo paralítico de m ão. – Onde ouviu isso?

Ah, foi um navegador com o pé numa bigorna.

– Não im porta onde.

– Bom , o senhor sabe m ais sobre isso do que eu. Um a vez li que às vezes caem pedras do céu. Alguns dizem que são fragm entos das estrelas. Outros dizem que são lascas lançadas do caos do inferno. Perigosas de se tocar. Terrivelm ente frias.

Frias? Glokta quase podia sentir aquele hálito gelado no pescoço, e retorceu os om bros, obrigando-se a não olhar para trás.

– Fale do inferno. – Mas acho que já sei mais do que a maioria sobre esse assunto.

– Hein?

– O inferno, velho. O Outro Lado.

– Dizem que é de onde vem a m agia, se você acredita nessas coisas.

– Aprendi a m anter a m ente aberta a esse respeito.

– Um a m ente aberta é com o um ferim ento aberto, pode…

– Foi o que ouvi dizer, m as estávam os falando do inferno…

O bibliotecário lam beu os lábios frouxos.

– Segundo a lenda, houve um tem po em que nosso m undo e o m undo de baixo eram um só e os dem ônios percorriam a terra. O grande Euz os expulsou e fez a Prim eira Lei, que proibia que todos tocassem o Outro Lado ou falassem com dem ônios ou m exessem nos portões entre os dois m undos.

– A Prim eira Lei, é?

– Seu filho, Glustrod, fam into de poder, ignorou os avisos do pai e tentou descobrir segredos, invocou dem ônios e os m andou contra seus inim igos. Dizem que sua tolice levou à destruição de Aulcus e à queda do Antigo Im pério e que, quando ele se destruiu, deixou os portões escancarados… Mas não sou o m elhor especialista nisso.

– Quem é?

O velho fez um a careta.

– Havia livros aqui. Muito antigos. Livros lindos, do tem po do Mestre Artífice. Livros que falavam do Outro Lado. Da separação entre os dois. Dos portões e das trancas. Livros sobre contadores de segredos, de com o invocá-los e com andá-los. Um m onte de invencionices, se quer saber. Mitos e fantasias.

– Havia livros?

– Eles saíram das m inhas estantes há alguns anos.

– Saíram ? Onde estão?

O velho franziu a testa.

– Estranho, logo o senhor perguntar isso…

– Chega!

Glokta se virou o m ais rápido que pôde para olhar para trás. Silber, o adm inistrador da Universidade, estava ao pé da escada com um a estranhíssim a expressão de horror e surpresa no rosto rígido. Como se tivesse visto um fantasma. Ou até mesmo um demônio.

– Já chega, superior! Agradecem os sua visita.

– Já chega? – repetiu Glokta, tam bém pouco am istoso. – Sua Em inência não ficará…

– Eu sei o que Sua Em inência ficará ou não ficará… – Uma voz desagradavelmente familiar.

O superior Goy le desceu os degraus lentam ente. Passou ao largo de Silber, atravessando o piso som breado entre as estantes.

–… e eu digo que j á chega. Agradecem os calorosam ente sua visita. – Ele se inclinou, os olhos furiosam ente saltados. – Que sej a a últim a!

Houvera algum as m udanças espantosas no salão de j antar desde que Glokta havia descido. A tarde escurecera do lado de fora das j anelas suj as, as velas tinham sido acesas em seus candelabros azinhavrados. E, claro, há essas duas dúzias dos mais variados práticos da Inquisição.

Dois nativos de Sulj uk, de olhos estreitos, estavam sentados olhando Glokta por cim a de suas m áscaras com o se fossem gêm eos, as botas pretas em cim a da antiga m esa de j antar, quatro espadas curvas em bainhadas na m adeira diante deles. Três hom ens de pele escura estavam perto de um a j anela som bria: cabeças raspadas, todos com um m achado no cinto e um escudo nas costas. Um prático m uito alto se postara perto da lareira, com prido e fino com o um a bétula e com os cabelos louros caindo sobre o rosto m ascarado. Ao lado havia um que era baixo, quase anão, com o cinto pontiagudo de facas.

Glokta reconheceu o enorm e nórdico cham ado de Racha-pedra, de sua visita anterior à Universidade. Mas parece que ele andou tentando rachar pedras com a cara desde que nos encontramos da última vez, e com grande persistência. Suas bochechas estavam desiguais, as sobrancelhas tortas, o osso do nariz apontando para a esquerda. O rosto arruinado era quase tão perturbador quanto a m arreta enorm e que ele segurava nos punhos gigantescos. Mas não tanto.

E continuava assim , a coleção de assassinos m ais estranha e preocupante que poderia ser reunida num só lugar, e todos m uito bem arm ados. E parece que o superior Goyle reabasteceu seu show de horrores. No m eio deles, e parecendo bastante à vontade, estava a prática Vitari, apontando para um lado e para outro, dando ordens. Vendo-a assim, ninguém imaginaria que faz o tipo maternal, mas acho que todos temos nossos talentos ocultos.

Glokta levantou o braço direito.

– Quem vam os m atar?

Todos os olhos se viraram para ele. Vitari se aproxim ou pisando firm e, com a testa franzida por cim a do nariz sardento.

– Que diabo você está fazendo aqui?

– Eu poderia fazer a m esm a pergunta.

– Se for esperto, não fará perguntas.

Glokta lhe deu seu sorriso vazio.

– Se eu fosse esperto, nunca teria perdido os dentes, e tudo o que m e resta são perguntas. O que há nesta velha pilha de poeira que interesse a vocês?

– Não é da m inha conta, e m enos ainda da sua. Se está procurando traidores, talvez devesse procurar prim eiro na sua casa, não é?

– E o que isso quer dizer?

Vitari se inclinou para perto dele e sussurrou através da m áscara:

– Você salvou m inha vida, portanto deixe-m e devolver o favor. Saia daqui. Vá em bora e fique longe.

 

Glokta arrastou os pés pelo corredor até chegar à sua porta pesada. Com relação a Bayaz, não avançamos nada. Não temos nada que possa colocar um raro sorriso no rosto de Sua Eminência. Invocar e comandar. Deuses e demônios. Sempre mais perguntas. Virou a chave, im paciente, desesperado para sentar-se e descansar a perna trêm ula. O que Goyle estava fazendo na Universidade? Goyle, Vitari e duas dúzias de práticos, todos armados como se fossem para a guerra? Deu um passo no vestíbulo, encolhendo-se. Deve haver algum…

– Argh!

Sentiu a bengala ser arrancada e tom bou bruscam ente, tentando agarrar-se ao nada. Algo esm agou seu rosto e encheu sua cabeça com um a dor ofuscante. No m om ento seguinte, bateu de costas no piso e perdeu o fôlego. Piscou e babou, a boca salgada de sangue, a sala escura oscilando loucam ente ao redor. Ah, ah. Um punho no rosto, a não ser que eu esteja muito enganado. Isso nunca deixa de ter impacto.

Um a m ão agarrou a gola de seu casaco e o arrastou para cim a, fazendo o tecido dela se enroscar em seu pescoço. Ele guinchou feito um a galinha estrangulada. Outra m ão o segurou pelo cinto e ele foi puxado, com os j oelhos e os bicos das botas raspando nas tábuas do piso. Lutou debilm ente, num reflexo, m as tudo o que conseguiu foi lançar um a pontada de dor nas próprias costas.

A cabeça bateu contra a porta do banheiro, que se abriu, e ele foi arrastado, im potente, pelo côm odo escuro, até a banheira ainda cheia de água suj a daquela m anhã.

– Espere! – grasnou ao ser j ogado por cim a da borda. – Quem é… blurg!

A água fria se fechou sobre sua cabeça, as bolhas correndo em volta do rosto. Foi m antido ali, lutando, os olhos arregalados de surpresa e pânico, até parecer que seus pulm ões iriam explodir. Então foi puxado pelos cabelos, a água escorrendo pelo rosto e batendo na banheira. Uma técnica simples, mas inegavelmente eficaz. Estou muito consternado. Respirou, ofegante.

– O que você… blarg!

De volta para a escuridão, o pouco ar que havia conseguido inalar gorgolej ou para fora na água suj a. Mas, quem quer que seja, me deixou respirar. Não estou sendo assassinado. Estou sendo amaciado. Amaciado para perguntas. Eu riria da ironia… se restasse algum fôlego… no meu corpo… Fez força contra a banheira e se sacudiu na água. Suas pernas chutavam sem obj etivo, m as a m ão na sua nuca era de aço. Seu estôm ago se apertou e o peito arfou, desesperado para sugar algum ar. Não respire… não respire… não respire! Estava prestes a encher os pulm ões de água suj a quando foi puxado da banheira para as tábuas do piso, tossindo, ofegando e vom itando ao m esm o tem po.

– Você é Glokta? – perguntou um a voz de m ulher, curta e dura, com um áspero sotaque de Kanta.

Ela se agachou diante dele, equilibrada nos calcanhares, os pulsos apoiados nos j oelhos, as m ãos longas e m arrons pendendo. Usava cam isa de hom em , frouxa em volta dos om bros m agros, as m angas m olhadas enroladas em volta dos pulsos ossudos. O cabelo preto era cortado curto e se proj etava da cabeça em tufos oleosos. Tinha um a cicatriz fina e clara descendo pelo rosto severo, um a expressão de desprezo nos lábios finos, m as os olhos é que eram m ais inquietantes, reluzindo em am arelo à m eia-luz vinda do corredor. Não é de espantar que Severard não quisesse segui-la. Eu deveria tê-lo ouvido.

– Você é Glokta?

Não adiantava negar. Ele enxugou a baba am arga do queixo com a m ão trêm ula.

– Sou Glokta.

– Por que está m e vigiando?

Ele se esforçou dolorosam ente para se sentar.

– O que faz você pensar que eu tenho algo a dizer para…

O punho dela o acertou na ponta do queixo e lançou sua cabeça para trás, arrancando um som ofegante. Seu queixo bateu e um dente abriu um buraco na parte de baixo da língua. Ele se largou contra a parede enquanto o côm odo escuro oscilava e seus olhos se enchiam de lágrim as. Quando as coisas voltaram a entrar em foco, a m ulher o encarava com os olhos am arelos estreitados.

– Vou continuar batendo até você m e dar respostas ou m orrer.

– Obrigado.

– Obrigado?

– Acho que você pode ter destravado m eu pescoço só um pouquinho. – Glokta sorriu, m ostrando os poucos dentes, todos ensanguentados. – Durante dois anos fui prisioneiro dos gurkenses. Dois anos no escuro das prisões do im perador. Dois anos de cortes, talhos e queim aduras. Você acha que pensar em um ou dois tapas m e am edronta? – Deu um a gargalhada cheia de sangue. – Dói m ais quando eu m ij o! Acha que tenho m edo de m orrer? – Fez um a careta por causa da pontada na coluna ao se inclinar na direção dela. – Toda m anhã… quando acordo vivo… é um a decepção! Se você quiser respostas, vai ter de m e dar respostas. Um a coisa pela outra.

Ela o encarou por um longo m om ento, sem piscar.

– Você foi prisioneiro dos gurkenses?

Glokta passou a m ão pelo corpo torcido.

– Eles m e deram tudo isto.

– Hum . Então nós dois perdem os algum a coisa para os gurkenses. – Ela sentou sobre as pernas cruzadas. – Perguntas. Um a coisa pela outra. Mas se você tentar m entir para m im …

– Perguntas, então. Eu falharia nos m eus deveres de anfitrião se não perm itisse que você com eçasse.

Ela não sorriu. Mas afinal ela não parece do tipo que gosta de brincar.

– Por que está m e vigiando?

Eu poderia mentir, mas para quê? É melhor morrer dizendo a verdade.

– Estou vigiando Bay az. Vocês dois parecem am igos, e está difícil vigiar Bay az ultim am ente. Por isso vigio você.

Ela fez um a carranca.

– Ele não é m eu am igo. Ele m e prom eteu vingança, só isso. Ainda não entregou.

– A vida é cheia de decepções.

– A vida é feita de decepções. Faça a sua pergunta, aleij ado.

Assim que ela tiver as respostas, será a hora do banho outra vez? O último? Seus olhos am arelos e sem em oção não revelavam nada. Vazios com o os de um anim al. Mas quais são minhas opções? Ele lam beu o sangue dos lábios e se encostou na parede. Pelo menos posso morrer sabendo mais um pouco.

– O que é a Sem ente?

A testa dela se franziu só m ais um pouquinho.

– Bay az diz que é um a arm a. Um a arm a de grande poder. Suficiente para transform ar Shaffa em poeira. Ele achava que ela estava escondida na borda do Mundo, m as se enganou. E não ficou feliz por estar errado. – A m ulher franziu a testa para Glokta por um m om ento. – Por que está vigiando Bay az?

– Porque ele roubou a coroa e a entregou a um verm e covarde.

Ela bufou.

– Pelo m enos nisso concordam os.

– Há algum as pessoas no m eu governo que se preocupam com a direção em que ele pode nos levar. Que se preocupam profundam ente. – Glokta lam beu um dente ensanguentado. – Para onde Bay az vai nos levar?

– Ele não m e contou nada. Eu não confio nele e ele não confia em m im .

– Nesse ponto tam bém concordam os.

– Ele planej ava usar a Sem ente com o arm a. Não a encontrou, então precisa de outras arm as. Acho que ele vai levar vocês à guerra. Um a guerra contra Khalul e seus com edores.

Glokta sentiu um a série de espasm os subir pela face, fazendo as pálpebras trem erem . Porcaria de geleia traiçoeira! A cabeça dela se virou bruscam ente para o lado.

– Você sabe sobre eles?

– Por alto. – Bem, qual é o problema? – Peguei um a com edora em Dagoska. Fiz perguntas.

– O que ela contou?

– Falou sobre retidão e j ustiça. – Duas coisas que eu nunca vi. – Falou sobre guerra e sacrifício. – Duas coisas que vi demais. – Disse que seu am igo Bay az m atou o próprio m estre.

A m ulher nem sequer piscou.

– Disse que o pai dela, o profeta Khalul, ainda quer vingança.

– Vingança – sibilou ela, os punhos fechando-se. – Eu vou m ostrar a eles o que é vingança!

– O que eles fizeram com você?

– Mataram m eu povo. – Ela descruzou as pernas. – Me escravizaram . – Ela se levantou suavem ente, erguendo-se acim a dele. – Roubaram m inha vida.

Glokta sentiu o canto de sua boca subindo.

– Mais um a coisa que tem os em com um . – E sinto que meu tempo acabou.

Ela abaixou os braços e agarrou seu casaco m olhado com as m ãos. Arrastou-o com um a força tem ível, fazendo suas costas deslizarem na parede. Corpo encontrado flutuando na banheira…? Glokta sentiu as narinas se escancarando, o ar sibilando rápido pelo nariz ensanguentado, o coração m artelando. Sem dúvida meu corpo arruinado vai lutar do melhor modo possível. Uma reação irresistível à falta de ar. O instinto irresistível de respirar. Sem dúvida vou me sacudir e me retorcer, como Tulkis, o embaixador gurkense, se sacudiu e se retorceu quando o enforcaram e arrancaram suas tripas, por nada.

Ele fez o m áxim o para ficar de pé sozinho, perm anecer o m ais próxim o possível da posição ereta. Afinal de contas já fui um homem orgulhoso, mesmo que isso esteja num passado distante. Não é o fim que o coronel Glokta esperaria. Afogado na banheira por uma mulher de camisa suja. Será que vão me encontrar curvado sobre a borda, com a bunda virada para cima? Mas o que importa? O importante não é como se morre, e sim como se vive.

Ela soltou seu casaco, achatou a parte da frente dele com um tapa. E o que foi minha vida nesses últimos anos? O que tenho que me fará falta de verdade? Escadas? Sopa? Dor? Ficar deitado no escuro com lembranças das coisas que fiz a me corroer por dentro? Acordar de manhã com o cheiro de minha própria merda? Vou sentir falta do chá com Ardee West? Um pouco, talvez. Mas vou sentir falta do chá com o arquileitor? Quase me faz questionar por que eu mesmo não fiz isso, há anos. Olhou nos olhos de sua assassina, duros e brilhantes com o vidro am arelo, e sorriu. Um sorriso do alívio m ais puro.

– Estou pronto.

– Para quê? – perguntou a m ulher, colocando algo em sua m ão frouxa. O cabo de sua bengala. – Se você tiver m ais negócios com Bay az, m e deixe de fora. Não vou ser tão gentil da próxim a vez.

Ela se afastou lentam ente para a porta, um retângulo de luz contra a parede som breada. Virou-se e o som de suas botas recuou pelo corredor. Afora o leve tip-tap da água pingando de seu casaco m olhado, tudo ficou em silêncio.

E assim parece que eu sobrevivo. De novo. Glokta levantou as sobrancelhas. Talvez o truque seja não querer.