O duelo dos reis
Abra a caixa
LOGEN PODIA SENTIR a hesitação nos hom ens à sua volta, podia ver a preocupação nos rostos, no m odo com o seguravam as arm as, e não os culpava. Um hom em pode ser intrépido j unto à própria porta, contra inim igos que ele entende, m as leve-o por longos quilôm etros sobre o m ar salgado até locais estranhos com os quais ele nunca sonhou e ele vai se apavorar diante de cada porta aberta. E agora havia um a quantidade enorm e delas.
A cidade das torres brancas, onde Logen entrara apressado atrás do Prim eiro dos Magos, pasm o com a escala das construções, a estranheza das pessoas, a quantidade das duas coisas, havia se tornado um labirinto de ruínas enegrecidas. Eles se esgueiravam por ruas vazias ladeadas pelos enorm es esqueletos de casas queim adas, caibros calcinados espetando o céu. Enfurnavam -se por praças vazias, cheias de entulho e cobertas com um a cam ada de cinzas. E sem pre com o som da batalha ecoando, fantasm agórico – perto, longe, por toda parte.
Era com o se tivessem entrado no inferno.
– Com o a gente luta nisto? – sussurrou Cachorrão.
Logen queria ter um a resposta. Lutar em florestas, em m ontanhas, em vales, eles haviam feito isso um a centena de vezes e conheciam as regras. Mas isto? Seu olhar saltava nervoso pelas j anelas e portas escancaradas, as pilhas de pedras caídas. Tantos lugares para um inim igo se esconder.
Tudo o que Logen podia fazer era ir na direção da Casa do Artífice e torcer pelo m elhor. O que aconteceria quando chegassem , ele não sabia direito, m as parecia um a boa aposta a de que haveria sangue envolvido. Nada que fizesse o m enor bem para qualquer um , provavelm ente, m as o fato era que ele dissera para prosseguirem , e um a coisa que um líder não pode fazer é m udar de ideia.
O rugido da luta ficava m ais alto, e m ais alto ainda. O fedor de fum aça e raiva incom odava o nariz, travava a garganta. O m etal riscado da espada do Artífice estava escorregadio na palm a de sua m ão suada. Ele se esgueirou abaixado, por cim a de um m onte de entulho e ao longo de um a parede despedaçada, a m ão aberta atrás do corpo, avisando para terem cuidado. Chegou à esquina e espiou ao redor.
O Agriont erguia-se logo adiante, grandes m uralhas e torres negras contra o céu branco, com um segundo conj unto refletido no fosso em baixo. Havia um m onte de hom ens reunidos perto da água, apinhados no espaço calçado de pedras até onde Logen podia ver. Não era preciso ter um a m ente brilhante para perceber que eram gurkenses. Flechas voavam na direção das am eias, setas voavam de volta, ricocheteando nas pedras do calçam ento, cravando-se trêm ulas em proteções de vim e.
A m enos de trinta passos, eles haviam form ado um a linha, virados para a cidade. Um a boa linha, organizada, crivada de lanças arrum adas dos dois lados de um estandarte alto, com letras douradas reluzindo. Um a linha rígida, de hom ens severos, bem arm ados e com boas arm aduras, nem um pouco parecidos com o lixo que eles haviam encarado do lado de fora da m uralha. Logen achou que gritar não faria com que aquele pessoal fosse a lugar nenhum . A não ser direto para cim a dele, talvez.
– Opa! – m urm urou Cachorrão, chegando perto.
Mais alguns nórdicos o seguiram , espalhando-se na entrada da rua, olhando ao redor sem noção.
Logen fez sinal para eles com o braço.
– Seria m elhor se a gente ficasse fora da vista dos…
Um oficial no m eio da linha gurkense gritou em sua língua áspera e apontou na direção deles com a espada curva. Arm aduras chacoalharam enquanto os hom ens aj ustavam as lanças.
– Merda – sibilou Logen.
Eles avançaram , depressa m as organizados. Um a m assa de hom ens cheios de m etal brilhante e afiado.
Só existem três opções quando você é atacado. Fugir, aguentar firm e onde está ou atacar tam bém . Fugir geralm ente não é um a opção ruim , m as, dado o m odo com o os outros rapazes estavam se sentindo, se fugissem não parariam de correr até caírem no m ar. Se ficassem onde estavam , todos confusos e perplexos depois de atravessarem a cidade, eram grandes as chances de que não conseguissem m anter suas posições, o que deixaria alguns m ortos e não faria nada pelos outros. Com isso, restava apenas um a opção, logo, não era um a operação de fato.
Dois ataques num dia. Sorte de m erda, m as não adiantava reclam ar. É preciso ser realista.
Logen com eçou a correr. Não com o queria, m as para a frente, saindo de entre os prédios e atravessando o calçam ento na direção do fosso. Não pensou m uito se alguém o seguia. Estava ocupado dem ais gritando e girando a espada. O prim eiro a entrar na m atança, com o nos velhos tem pos. Um final adequado para o Nove Sangrento. Daria um a boa canção, talvez, se alguém se desse o trabalho de fazer um a m elodia para ela. Trincou os dentes à espera do im pacto terrível.
Então um a m ultidão de soldados da União j orrou dos prédios à esquerda, tam bém gritando feito loucos. A carga gurkense hesitou, sua linha com eçou a se partir, lanças balançando de form a selvagem enquanto os hom ens se viravam para enfrentar a súbita am eaça. Um bônus inesperado, sem dúvida.
A União se chocou contra o final da linha. Hom ens guinchavam e berravam , m etal retinia contra m etal, arm as relam pej avam , corpos caíam , e Logen avançou no m eio daquilo. Passou por um a lança oscilante, tentou acertar um soldado gurkense. Errou e acertou outro, e o fez berrar, com sangue borbulhando pela cota de m alha. Trom bou em outro com o om bro e o j ogou de costas, pisou na lateral de seu rosto e o sentiu partir-se em baixo da bota.
O oficial gurkense que havia com andado a carga estava a apenas um passo de distância, com a espada preparada. Logen ouviu um a corda de arco soar atrás de si e um a flecha acertou o oficial perto da clavícula. Meio girando, ele inspirou, trêm ulo, para gritar. Logen abriu um talho fundo na placa que protegia suas costas, fazendo o sangue j orrar. Hom ens se esprem iam contra os restos da linha no entorno. Um cabo de lança se dobrou e partiu-se, fazendo lascas voarem j unto ao rosto de Logen. Alguém rugiu ao lado dele e fez seu ouvido zum bir. Ele virou a cabeça bruscam ente e viu um Carl levantar a m ão, desesperado, e um a espada curva fazer seu polegar sair voando. Logen golpeou na cara o soldado gurkense que havia cortado o dedo do Carl, a lâm ina pesada da espada do Artífice pegando-o na bochecha e escancarando o crânio.
Um a lança relam pej ou em sua direção. Logen tentou se virar de lado e ofegou quando a ponta atravessou sua cam isa e desceu pelo lado direito, traçando um a linha fria em baixo das costelas. O hom em que a segurava tropeçou na direção dele, m ovendo-se depressa dem ais para parar. Logen o atravessou com a espada, logo em baixo do peitoral, e term inou piscando na cara dele. Era um soldado da União, com barba ruiva falhada no rosto.
O hom em franziu a testa, perplexo ao ver outro rosto branco.
– O que… – grasnou, agarrando-o.
Logen se afastou, com um a das m ãos com prim indo a lateral do corpo. Estava m olhado ali. Im aginou se a lança o teria arranhado ou atravessado. Im aginou se ela j á o teria m atado e se lhe restavam apenas alguns instantes sangrentos.
Então algo o acertou na nuca e ele com eçou a girar, berrando, sem saber o que acontecia. Seus m em bros eram feitos de lam a. O m undo oscilava, cheio de terra e gum es que voavam . Golpeou algum a coisa, chutou outra. Agarrou alguém , rosnando, soltou a m ão e pegou sem j eito um a faca, esfaqueou um pescoço, e o sangue preto fluiu. Os sons de batalha rugiam e zum biam em seus ouvidos. Um hom em passou cam baleando com parte do rosto pendurada. Do lado Logen pôde ver dentro da boca m utilada, pedaços de dentes caindo para fora.
O corte na lateral de seu corpo queim ava e tirava seu fôlego. A pancada na cabeça fazia a pulsação m artelar o crânio, fazia o m undo turvo oscilar de um lado para outro. Sua boca estava cheia do gosto salgado e m etálico de sangue. Sentiu um toque no om bro e girou bruscam ente, os dentes à m ostra, os dedos apertando com força o cabo da espada do Artífice.
Cachorrão o soltou e levantou as m ãos.
– Sou eu! Sou eu!
Logen viu quem era. Mas agora não era sua m ão que segurava a espada, e o Nove Sangrento só via o trabalho que precisava ser feito.
Que rebanho curioso este pastor aleijado adquiriu! Duas dúzias de falsos práticos seguiam Glokta pelas ruas desertas do Agriont, com Nicom o Cosca, infam e m ercenário, andando presunçoso à frente. Todas as minhas esperanças entregues aos homens menos confiáveis do mundo. Um deles puxava o superior Goy le, que ia am arrado e am ordaçado, tropeçando na outra ponta da corda. Como um cão relutante sendo levado para passear. Ardee West seguia no m eio deles, o vestido branco suj o de esgoto e do sangue de vários hom ens, o rosto m anchado de hem atom as e o queixo caído de assom bro. Sem dúvida resultado dos vários horrores que testemunhou hoje. Todos cabriolando pelo Agriont atrás do único superior aleijado da Inquisição. Uma alegre dança para o inferno, acompanhados pelos sons da batalha distante.
Parou bruscam ente. Um a passagem em arco ao lado levava através da praça dos Marechais e, por algum m otivo fora de sua com preensão, todo o espaço aberto fora coberto de serragem . No centro daquela vastidão branco-am arelada, perfeitam ente reconhecível m esm o àquela distância, estava o Prim eiro dos Magos, esperando de pé. Ao lado dele estava a m ulher de pele escura que quase havia afogado Glokta na banheira. Minhas duas pessoas prediletas em todo o mundo, sem dúvida.
– Bay az – sibilou Glokta.
– Não há tem po para isso – falou Cosca.
O m ercenário o segurou pelo cotovelo e puxou-o para longe, e o Prim eiro dos Magos e sua com panheira carrancuda sum iram de vista. Glokta continuou m ancando pela rua estreita, encolheu-se de dor ao virar um a esquina e se pegou olhando direto na cara de seu velho conhecido Jezal dan Luthar. Ou devo dizer o Rei Supremo da União? Estou dolorosamente honrado.
– Maj estade – disse, baixando a cabeça e provocando um espasm o particularm ente desagradável no pescoço.
Cosca, aparecendo ao seu lado, fez um a reverência extravagante, levantando a m ão para tirar o chapéu que havia sum ido. Deu de om bros num gesto de desculpas e puxou o topete oleoso.
Luthar franziu a testa para ele, e para cada m em bro de seu estranho grupo à m edida que surgiam . Alguém parecia espreitar no fim do séquito real. Um m anto preto e dourado no m eio de todo aquele aço polido. Poderia ser… nosso velho amigo, o juiz supremo? Mas certamente ele está congelado em pedaços… Então Ardee virou a esquina.
Os olhos de Luthar se arregalaram .
– Ardee…
– Jezal… – Ela parecia tão pasm a quanto ele. – Quero dizer…
E o ar foi despedaçado por um a explosão colossal.
A via do Meio não era a m esm a de antes.
West e seu estado-m aior cavalgavam para o norte num silêncio estupefato. Os cascos dos cavalos batiam na rua rachada. Um pássaro digno de pena cantava nos caibros nus de um a casa incendiada. Alguém num a rua lateral gritou pedindo socorro. A oeste os sons vagos de lutas ainda ecoavam , com o o ruído de um evento esportivo distante, m as sem vencedores. O fogo varrera o centro da cidade, transform ando quarteirões inteiros em cascas enegrecidas, as árvores com garras cinzentas, os j ardins com trechos de gosm a m urcha. Só o que havia a m ais eram cadáveres. Cadáveres de todo tam anho e feitio.
Os Quatro Cantos eram um m atadouro, coberto com todo o lixo feio da guerra, cercado pelos restos em ruínas de alguns dos m ais belos prédios de Adua. Bem perto, os feridos estavam arrum ados em filas com pridas no terreno poeirento, tossindo, gem endo, pedindo água, com m édicos ensanguentados m ovendo-se im potentes entre eles.
Alguns soldados de rostos sérios j á em pilhavam os m ortos gurkenses em m ontes inform es, m assas de braços, pernas, rostos m isturados. Eram vigiados por um hom em alto com as m ãos cruzadas às costas. O general Kroy, sem pre rápido em pôr as coisas em ordem . Seu uniform e preto estava m anchado de cinzas, um a m anga rasgada balançando em volta do pulso. A luta devia ter sido m esm o violenta para violar seu traj e, sem pre em tão perfeita ordem , m as sua saudação não foi afetada. Não poderia ter sido m ais im pecável se eles estivessem num a revista de tropas.
– Com o foi o progresso, general Kroy ?
– Um a luta árdua pelo distrito central, lorde m arechal! Nossa cavalaria avançou esta m anhã e nós os pegam os de surpresa. Então eles contra-atacaram enquanto esperávam os a infantaria. Juro, este trecho de terreno trocou de m ãos um a dúzia de vezes. Mas agora tem os os Quatro Cantos! Eles estão lutando a cada passo, m as nós os estam os im pelindo de volta para a m uralha de Arnault. Olhe isso, agora! – disse e apontou para um par de estandartes gurkenses encostados num trecho de alvenaria m eio desm oronada, com os sím bolos dourados reluzindo no m eio daquela destruição infeliz. – Vão ser um a bela decoração para a sala de alguém , não é?
West não conseguia evitar que seu olhar fosse para um grupo de feridos encostados na m uralha.
– Desej o que o senhor se regozij e com eles. E o Agriont?
– Lá a notícia é m enos boa, infelizm ente. Continuam os atacando, m as os gurkenses estão em m aior núm ero. Ainda m antêm toda a cidadela cercada.
– Pressione m ais, general.
Kroy fez outra saudação rígida.
– Sim , senhor. Vam os rom per a resistência, não se preocupe. Posso perguntar com o o general Poulder está se saindo nas docas?
– As docas voltaram para nossas m ãos, m as o general Poulder… m orreu.
Houve um m om ento de silêncio.
– Morreu? – O rosto de Kroy ficou de um a palidez m ortal. – Mas com o ele…
Ouviu-se um ribom bo, com o um trovão a distância, e os cavalos se agitaram , patearam o chão. O rosto de West, o de Kroy e os dos oficiais se viraram todos para o norte. Lá, por cim a das ruínas enegrecidas na borda da praça, um a grande m assa de poeira subia alta, acim a do Agriont.
O m undo, brilhante, girava e latej ava, cheio da linda canção da batalha, do gosto m aravilhoso de sangue, do fedor belo e frutífero da m orte. No m eio daquilo, a um a distância m enor do que um braço, um hom em pequeno o encarava.
Chegar tão perto assim do Nove Sangrento? Era pedir a m orte, com tanta certeza quanto entrar no fogo. Im plorar a m orte. Exigi-la.
Algo nos dentes pontudos dele parecia fam iliar. Um a leve lem brança, de m uito tem po atrás. Mas o Nove Sangrento a em purrou para longe, sacudiu-a do corpo, afundou-a no m ar sem fundo. Para ele não significava nada quem os hom ens eram ou o que tinham feito. Ele era o Grande Nivelador e diante dele todos os hom ens eram iguais. Sua única preocupação era transform ar os vivos em m ortos, e j á passava da hora de o bom serviço com eçar. Levantou a espada.
A terra trem eu.
O Nove Sangrento tropeçou e um estrondo se espalhou, rasgou o cam inho entre os m ortos e os vivos, partiu o m undo ao m eio. Sentiu algo se soltar dentro do crânio. Rosnou enquanto se endireitava, levantava a espada bem alto…
Só que seu braço não queria se m over.
– Desgraçado… – rosnou o Nove Sangrento, m as todas as cham as estavam esgotadas.
Foi Logen que se virou na direção do estrondo.
Um a enorm e nuvem de fum aça cinza subia da m uralha do Agriont, a poucas centenas de passos. Detritos voavam m uito acim a dela, deixando riscos de poeira que faziam arcos no céu, com o os tentáculos de um m onstro m arinho gigantesco. Um pareceu chegar ao ponto m ais alto bem acim a deles. Logen o observou cair. A princípio tinha parecido um a pedrinha. À m edida que descia girando, ele percebeu que era um pedaço de alvenaria do tam anho de um a carroça.
– Merda – disse Sinistro.
Não havia m ais nada a dizer. A pedra atravessou a lateral de um prédio bem no m eio da luta. A casa inteira se despedaçou, lançando pedaços de corpos em todas as direções. Um a tábua quebrada passou zum bindo por Cachorrão e caiu no fosso, espirrando água. Pedriscos m ordiscaram a nuca de Logen enquanto ele se j ogava no chão.
Um a poeira sufocante cobriu a rua. Ele tossiu, cobriu o rosto. Tentou se levantar, usando a espada com o m uleta. Os ouvidos ainda zum biam ; ele não sabia quem era nem onde estava, um m undo em poeirado estrem ecia em volta dele.
A coragem havia abandonado a batalha perto do fosso. Hom ens tossiam , olhavam , andavam sem destino na penum bra. Havia m uitos corpos, nórdicos, gurkenses, da União, todos m isturados. Logen viu que um hom em de pele escura o encarava com sangue escorrendo de um corte sobre o olho pelo rosto em poeirado.
Logen levantou a espada, soltou um rugido gutural, tentou atacar e acabou cam baleando de lado e quase caindo. O soldado gurkense largou a lança e correu para dentro da escuridão.
Houve um a segunda detonação ensurdecedora, esta m ais perto ainda, a oeste. Um vento súbito agitou o cabelo de Jezal, m ordiscou seus olhos. Espadas retiniram nas bainhas. Hom ens olharam para cim a, os queixos caídos de estupefação.
– Precisam os ir – trinou Gorst, segurando firm e o cotovelo de Jezal.
Glokta e seus capangas j á seguiam por um a rua calçada, o m ais rápido que o superior conseguia m ancar. Ardee lançou um olhar rápido por cim a do om bro, os olhos arregalados.
– Espere… – disse Jezal.
Vê-la assim havia provocado em Jezal um j orro súbito e doloroso de saudade. A ideia de ela estar nas garras daquele aleij ado abom inável era quase dem ais para suportar. Mas Gorst não iria adm itir.
– O palácio, Maj estade.
Ele em purrou Jezal na direção do parque sem olhar para trás, com o resto da guarda real seguindo-os ruidosam ente. Fragm entos de pedras com eçaram a estalar nos telhados ao redor, a quicar na rua, a tilintar nas arm aduras dos cavaleiros do Grupo.
– Eles estão vindo – m urm urou Marovia, olhando sério na direção da praça dos Marechais.
Ferro se agachou, as m ãos sobre a cabeça, os ecos m onstruosos ainda ricocheteando nas altas paredes brancas. Um a pedra do tam anho da cabeça de um hom em caiu do céu e se despedaçou no chão a poucos passos de distância, espalhando cascalho preto sobre a serragem clara. Um pedregulho dez vezes m aior atravessou o telhado de um prédio e fez voar cacos de vidro das j anelas despedaçadas. A poeira subia das ruas e invadia na praça em nuvens cinza. Pouco a pouco, o barulho foi sum indo. A tem pestade de granizo feita pelo hom em parou e houve um silêncio sugestivo.
– E agora? – rosnou ela para Bay az.
– Agora eles virão.
Ouviu-se um estrondo em algum lugar nas ruas, o som de hom ens gritando, depois um grito longo subitam ente interrom pido. Ele se virou para ela, o m axilar se m exendo nervoso.
– Assim que com eçarm os, não se m exa. Nem por um fio de cabelo. Os círculos foram cuidadosam ente…
– Cuide da sua parte, m ago.
– Vou cuidar m esm o. Abra a caixa, Ferro.
Ela ficou de pé, franzindo a testa, as pontas dos indicadores roçando nos polegares. Quando a caixa fosse aberta, não haveria volta, era o que sentia.
– Agora! – ordenou Bay az. – Agora, se você quer sua vingança!
– Ssss.
Mas, daquele ponto, havia m uito tem po que j á não existia volta. Ela se agachou, pôs a m ão no m etal frio da tam pa. Um cam inho som brio era a única opção, sem pre fora. Encontrou o fecho oculto e o apertou. A caixa se abriu em silêncio e a em polgação estranha brotou, depois fluiu, depois j orrou sobre ela fazendo o ar se prender na garganta.
A Sem ente estava ali dentro, aninhada em seus rolos de m etal, um a pedra opaca, cinza, com um . Fechou os dedos em volta dela. Era pesada com o chum bo, e gelada. Levantou-a da caixa.
– Bom – disse Bay az.
Mas ele se encolheu ao olhar para ela, o rosto retorcido de m edo e noj o. Ferro a estendeu e ele chegou para trás. Havia gotas de suor em sua testa.
– Não se aproxim e m ais!
Ferro fechou a caixa com força. Dois soldados da União, com arm adura com pleta, estavam recuando para a praça, segurando as espadas pesadas. Havia m edo no m odo com o se m oviam , com o se fugissem de um exército. Mas apenas um hom em virou a esquina. Um hom em de arm adura branca, trabalhada com desenhos de m etal brilhante. Seu rosto m oreno era j ovem , liso e lindo, m as os olhos pareciam velhos. Ferro tinha visto um rosto assim antes, nas terras desérticas perto de Dagoska.
Um com edor.
Os dois soldados partiram j untos para cim a dele, um deles soltando um grito agudo de batalha. O com edor passou sem esforço ao largo de suas espadas, avançou num borrão súbito, acertou um dos hom ens da União com um tapa descuidado de m ão aberta. Houve um clangor oco quando ela afundou o escudo e o peitoral do soldado e fez com que saísse do chão. Ele caiu a cerca de vinte passos de onde estivera, rolou e rolou, deixando m arcas escuras na serragem clara. Parou não m uito longe de Ferro, tossiu um longo j ato de sangue e ficou im óvel.
O outro soldado recuou. O com edor olhou para ele com tristeza no rosto perfeito. O ar ao redor trem eluziu brevem ente, a espada do hom em caiu com estardalhaço, ele soltou um guincho longo e segurou a cabeça. Ela explodiu, fazendo chover fragm entos de crânio e carne nas paredes do prédio branco ao lado. O cadáver sem cabeça tom bou no chão. Houve um a pausa.
– Bem -vindo ao Agriont! – gritou Bay az.
Os olhos de Ferro foram atraídos por um clarão de m ovim ento. Lá no alto, um a figura de arm adura branca passou correndo sobre um telhado. Deu um salto im possível pelo vasto espaço até o prédio seguinte e sum iu de vista. Na rua em baixo um a m ulher fluiu das som bras para a praça, vestida num a cota de m alha reluzente. Balançava o quadril ao andar, com um sorriso feliz no rosto perfeito e um a lança com prida frouxa num a das m ãos. Ferro engoliu em seco e aj eitou o punho em volta da Sem ente, apertando-a com força.
Parte de um a parede desm oronou atrás dela, blocos de pedra tom bando pela praça. Um hom em altíssim o passou pela abertura, com um pedaço enorm e de m adeira cravej ado de ferro preto nas m ãos e a arm adura e a barba com prida cobertas de poeira. Dois outros o seguiram , um hom em e um a m ulher, todos com a m esm a pele lisa, os m esm os rostos j ovens e os m esm os olhos velhos e negros. Ferro fez um a carranca para eles e pegou a espada, o m etal frio brilhando. Era inútil, talvez, m as segurá-la lhe dava algum conforto.
– Bem -vindos, todos vocês! – gritou Bay az. – Estive à sua espera, Mam un!
O prim eiro dos com edores franziu a testa enquanto passava devagar por cim a do cadáver sem cabeça.
– E nós estávam os à sua.
Silhuetas brancas saltaram dos telhados dos prédios, bateram na praça agachadas e se levantaram . Eram quatro, um com edor para cada canto.
– Onde está aquela som bra aleij ada, o Yulwei?
– Ele não pôde estar conosco.
– Zacharus?
– Está atolado no ocidente arruinado, tentando curar um cadáver com um a bandagem .
– Cawneil?
– Apaixonada dem ais pelo que ela j á foi para dedicar um pensam ento que sej a ao que virá.
– Então, no fim você está sozinho, afora isso aí. – Mam un virou o olhar vazio para Ferro. – Ela é estranha.
– É, e excepcionalm ente difícil, m as não é um a pessoa sem habilidades.
Ferro fez um a carranca e não disse nada. Se algum a coisa precisasse ser dita, ela poderia falar com a espada.
– E, bem … – Bay az deu de om bros. –… sem pre achei que sou m inha m elhor com panhia.
– Que opção você tem ? Destruiu a própria ordem com seu orgulho, sua arrogância e sua sede de poder.
Mais silhuetas saíram de portas na praça ao redor e sem pressa avançaram . Algum as andavam com passo presunçoso de lordes. Algum as estendiam as m ãos com o am antes.
– Você só se im portou com o poder, sem pre, e até sem isso ficou. O Prim eiro dos Magos e tam bém o últim o.
– É o que parece. Isso não agrada a você?
– Não sinto prazer, Bay az. Isto é o que precisa ser feito.
– Ah. Um a batalha j usta? Um dever sagrado? Um a cruzada, talvez? Acha que Deus aprova os seus m étodos?
Mam un deu de om bros.
– Deus aprova os resultados.
Mais figuras em arm aduras brancas se derram aram na praça e se espalharam em volta. Moviam -se com graça e despreocupadas, com força apesar de não se esforçarem , com arrogância sem fim . Ferro franziu a testa para elas e apertou a Sem ente j unto a um lado do quadril, com a espada encostada no outro.
– Se você tem um plano – sibilou ela –, esta deve ser a hora.
Mas o Prim eiro dos Magos só ficou olhando enquanto os dois eram cercados, os m úsculos estrem ecendo na lateral do rosto, as m ãos se abrindo e fechando dos lados do corpo.
– É um a pena que o próprio Khalul não tenha podido m e fazer um a visita, m as vej o que você trouxe alguns am igos.
– Um a centena, com o prom eti. Alguns poucos têm outras tarefas na cidade. Eles m andaram suas desculpas. Mas a m aioria de nós está aqui, por você. Mais do que o suficiente.
Os com edores perm aneciam parados, espalhados num grande círculo com o Prim eiro dos Magos no centro. Era para lá que olhavam .
Ferro Malj inn não sentia m edo, claro. Mas as chances eram m ínim as.
– Responda a um a pergunta – gritou Mam un –, j á que chegam os ao fim . Por que você m atou Juvens?
– Juvens? Rá! Ele queria tornar o m undo um lugar m elhor usando sorrisos e boas intenções. Boas intenções não dão em nada, e o m undo não m elhora sem luta. Afirm o que não m atei ninguém .
Bay az olhou de esguelha para Ferro. Agora seus olhos estavam febris e a careca brilhava de suor.
– Mas o que im porta quem m atou quem há m il anos? O que im porta é quem m orre hoj e.
– Verdade. Agora, enfim , você será j ulgado.
Lentam ente, m uito lentam ente, o círculo de com edores com eçou a se contrair, avançando aos poucos com o se fossem um só, deslizando suavem ente para dentro.
O Prim eiro dos Magos deu um sorriso sério.
– Ah, haverá um j ulgam ento aqui, Mam un, pode contar com isso. A m agia se esvaiu do m undo. Minha Arte é um a som bra do que j á foi. Mas você se esqueceu, enquanto se refestelava em carne hum ana, que o conhecim ento é a raiz do poder. A Arte Superior eu aprendi com Juvens. O Fazer eu tom ei de Kanedias.
– Você precisará de m ais que isso para nos derrotar.
– Claro. Para tanto eu preciso de um rem édio m ais sinistro.
O ar ao redor dos om bros de Bay az trem eluziu. Os com edores pararam ; alguns levaram os braços diante do rosto. Ferro estreitou os olhos, m as houve apenas um vento levíssim o. Um a brisa sutil, que saiu do Prim eiro dos Magos num a onda, levantou a serragem das pedras e a carregou num a nuvem branca até os lim ites da praça dos Marechais.
Mam un olhou para baixo e franziu a testa. Engastado nas pedras sob seus pés, o m etal brilhava opaco à luz fraca do sol. Círculos, linhas, sím bolos e círculos dentro de círculos, cobrindo todo o vasto espaço num único desenho am plo.
– Onze guardas, e onze guardas revertidas – disse Bay az. – Ferro. Encharcado em água salgada. Um a m elhoria sugerida pelas pesquisas de Kanedias. Glustrod usou sal puro. Esse foi o erro dele.
Mam un levantou os olhos, a calm a gélida sum indo de seu rosto.
– Você não pode estar dizendo… – Seus olhos negros se viraram para Ferro, depois para a m ão dela, que apertava a Sem ente. – Não! A Prim eira Lei…
– A Prim eira Lei? – O m ago m ostrou os dentes. – Regras são para crianças. Isto é guerra, e na guerra o único crim e é perder. A palavra de Euz? – rosnou Bay az. – Rá! Que ele venha m e im pedir!
– Chega!
Um dos com edores deu um salto e passou por cim a dos círculos de m etal, em direção ao centro. Ferro ofegou quando a pedra em sua m ão ficou súbita e terrivelm ente fria. O ar em volta de Bay az se retorceu, com o se ele estivesse refletido num lago ondulante.
O com edor saltou de boca aberta com a lâm ina da espada brilhando. Então sum iu. Assim com o dois outros que estavam atrás. Um longo j ato de sangue se espalhou no chão onde um deles estivera. Os olhos de Ferro acom panharam aquilo, arregalando-se cada vez m ais. Sua boca se abriu.
O prédio que ficava atrás deles ganhara um buraco gigante, do chão até o telhado altíssim o. Um grande desfiladeiro ladeado de pedras quebradas e reboco pendia, com traves lascadas e vidro pendurado. Poeira caía das bordas despedaçadas para o buraco enorm e em baixo. Um punhado de papéis rasgados descia lentam ente na brisa. Daquela carnificina veio um grito fraco e agonizante. Um soluço. Um berro de dor. Muitas vozes. As vozes dos que usavam aquele prédio com o refúgio.
Azar deles.
Os cantos da boca de Bay az foram se curvando devagar para cim a.
– Funciona – ofegou ele.