O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 25 de 61

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O duelo dos reis

O quarto dia

 

ESSE ORIENTAL ERA um desgraçado feio. Um cara grandão, todo vestido em peles fedorentas, m eio curtidas, e com um pedaço de cota de m alha, m ais com o ornam ento do que proteção. Cabelo preto oleoso, am arrado aqui e ali com anéis de prata m al forj ados, pingando por causa da chuva fraca. Tinha um a grande cicatriz em um a face e outra atravessando a testa, além de inúm eros cortes e ferim entos m enores, e m arcas de espinhas de quando era j ovem . O nariz chato era torto com o um a colher am assada. Seus olhos estavam estreitados por causa do esforço e os dentes à m ostra eram am arelos, exceto pelos dois que faltavam na frente, onde a língua cinza se com prim ia. Era um rosto que tinha visto guerra em todos os seus dias. Um rosto que tinha vivido pela espada, pelo m achado e pela lança, e contando cada dia vivo com o um bônus.

Para Logen era quase com o olhar num espelho.

Os dois se abraçavam com força com o um par de am antes ruins, cegos a tudo ao redor. Tom bavam para trás e para a frente, sacudindo-se com o bêbados birrentos. Puxavam e beliscavam , m ordiam e arranhavam , agarravam e rasgavam , tensos num a fúria congelada, soltando bafo azedo na cara um do outro. Um a dança feia, cansativa e fatal, e o tem po todo a chuva caía.

Logen levou um a pancada dolorosa na barriga e precisou se retorcer e se sacudir para aliviar um a segunda. Deu um a cabeçada m eio fraca que não fez nada m ais do que raspar a testa na cara do Feioso. Quase tropeçou, cam baleou, sentiu o oriental aj eitar o corpo, tentando encontrar um m odo de derrubá-lo. Logen conseguiu acertá-lo nos bagos com a coxa, antes, e foi o bastante para levar os braços dele a se enfraquecerem por um m om ento, o bastante para ele deslizar a m ão até o pescoço do Feioso.

Forçou essa m ão para cim a, centím etro a centím etro doloroso, o indicador esticado esgueirando-se pelo rosto esburacado do oriental enquanto ele olhava para aquilo, vesgo, tentando tirar a cabeça do cam inho. Sua m ão apertou dolorosam ente o pulso de Logen, tentando em purrá-lo para trás, m as Logen estava com o om bro abaixado, o peso no lugar certo. O dedo passou pela boca que fazia careta, por cim a do lábio superior, entrando no nariz torto do Feioso, e Logen sentiu sua unha quebrada escavando carne adentro. Mostrou os dentes e dobrou o dedo e o torceu do m elhor m odo que pôde.

O oriental sibilou e se sacudiu, m as estava preso. Não teve escolha além de agarrar o pulso de Logen com a outra m ão e tentar arrancar aquele dedo de dentro do seu nariz. Mas isso deixou Logen com um a das m ãos livres.

Logen pegou um a faca e grunhiu ao golpear, o braço fincando e puxando. Socos rápidos, m as com aço na extrem idade. A lâm ina fez um som chapinhado na barriga do oriental, e em sua coxa, em seu braço, em seu peito o sangue saiu em j orros longos, suj ando os dois e escorrendo para as poças sob suas botas. Quando considerou que os golpes eram suficientes, Logen o pegou pelo casaco, o ergueu com esforço, trincando o m axilar, e rugiu ao lançá-lo por cim a das am eias. O hom em despencou, frouxo feito um a carcaça, e logo viraria um a, esm agado no chão no m eio de seus com panheiros.

Logen se curvou sobre o parapeito, ofegando com o ar úm ido, as gotas de chuva pingando do corpo. Parecia haver centenas deles am ontoando-se no m ar de lam a na base da m uralha. Hom ens selvagens, de m ais além de Crinna, onde m al falavam e não se im portavam nada com os m ortos. Todos estavam encharcados de chuva e im undos, escondidos sob escudos m alfeitos e balançando arm as m al forj adas, cheias de farpas e brutais. Seus estandartes balançavam na chuva atrás deles, ossos e peles esfarrapadas, som bras fantasm agóricas no aguaceiro.

Alguns carregavam escadas precárias ou levantavam as que tinham sido derrubadas, tentando apoiá-las na m uralha e subir enquanto pedras, lanças e flechas encharcadas voavam e batiam na lam a. Outros vinham subindo com os escudos acim a da cabeça. Duas escadas estavam de pé no lado de Barca Negra, um a no lado de Gorro Verm elho e um a logo à esquerda de Logen. Um par de selvagens enorm es atacava os portões velhos com grandes m achados, arrancando lascas m olhadas a cada golpe. Logen apontou para eles, gritou inutilm ente na chuva. Ninguém ouviu, nem poderia ter ouvido com o barulho da água tam borilando, de lâm inas chocando-se, batendo, raspando em escudos, setas em carne, gritos de batalha e berros de dor.

Pegou a espada nas poças da passarela sobre a m uralha, o m etal opaco reluzindo com gotas d’água. Perto dele um dos Carls de Trem edeira enfrentava um oriental que saíra de cim a de um a escada. Os dois trocavam alguns golpes, m achado contra escudo e depois espada cortando o ar vazio. O braço do oriental com o m achado subiu de novo e Logen o decepou no cotovelo, trom bou contra as costas dele e o derrubou de cara no chão, gritando. O Carl acabou com ele com um golpe na nuca e apontou a espada ensanguentada por cim a do om bro de Logen.

– Ali!

Outro oriental com narigão adunco chegava ao topo da escada, inclinando-se por cim a das am eias, o braço direito recuando com um a lança a postos. Logen deu um berro e partiu para cim a dele.

Os olhos do suj eito se arregalaram e a lança bam boleou, tarde dem ais para atirá-la. Tentou sair do cam inho, agarrando-se à m adeira m olhada com a m ão livre, m as só conseguiu arrastar a escada, raspando nas am eias. A espada de Logen o acertou em baixo do braço e ele se balançou para trás com um grunhido, deixando cair a lança. Logen o acertou de novo, escorregou e estocou longe dem ais, quase caindo nos braços do outro. O Narigão o agarrou, tentando puxá-lo por cim a do parapeito. Logen o acertou na cara com o cabo da espada, em purrando sua cabeça para trás, e arrancou alguns dentes com o segundo golpe. O terceiro o derrubou e ele caiu da escada, despencando desacordado e levando um com panheiro para a lam a.

– Traga aquele pau! – rugiu Logen para o Carl com a espada.

– O quê?

– O pau, porra!

O Carl pegou o pedaço com prido de m adeira m olhada e o j ogou para Logen, que largou a espada, enfiou a ponta da m adeira sob o topo da escada e com eçou a em purrar com toda a força. O Carl veio e colocou seu peso j unto, e a escada estalou, oscilou e com eçou a tom bar para trás. O rosto de um oriental veio por cim a das am eias, parecendo surpreso. Ele viu o pau. Viu Logen e o Carl fazendo força e grunhindo. Caiu quando a escada tom bou bem em cim a da cabeça dos desgraçados lá em baixo.

Mais adiante, na m uralha, outra escada tinha acabado de ser em purrada para cim a e os orientais com eçavam a subir por ela, os escudos sobre a cabeça enquanto Gorro Verm elho e seus rapazes j ogavam pedras contra eles. Alguns tinham chegado ao topo, no lado da m uralha onde estava Barca Negra, e Logen podia ouvir os gritos vindos de lá, sons de assassinato. Logen m ordeu o lábio ensanguentado, im aginando se deveria ir para lá e aj udar um pouco, m as decidiu não fazer isso. Logo ele seria necessário onde estava.

Por isso pegou a espada do Artífice e assentiu para o Carl que o havia aj udado, em seguida se levantou e recuperou o fôlego. Esperou que os orientais viessem de novo, e a toda a volta hom ens lutavam , m atavam e m orriam .

Dem ônios num inferno frio, m olhado, sangrento. Eram quatro dias, agora, e parecia que ele estivera ali desde sem pre. Com o se nunca tivesse saído. Talvez não tivesse.

 

Com o se a vida de Cachorrão j á não estivesse difícil o bastante, tinha que chover.

Chuva era sem dúvida o pior tem or de um arqueiro. Exceto ser derrubado por cavaleiros, talvez, m as isso não era m uito provável num a torre. Os arcos ficavam escorregadios; as cordas, frouxas; as penas, encharcadas, e tudo isso tornava os disparos ineficazes. A chuva tirava a vantagem que tinham , e isso era um a preocupação, m as poderia lhes custar ainda m ais, antes que o dia term inasse. Havia três desgraçados enorm es atacando a m adeira úm ida do portão, dois com m achados pesados, o terceiro tentando enfiar um pé de cabra nas fendas que eles haviam produzido e arrancar as tábuas.

– Se não cuidarm os deles, eles vão entrar pelos portões! – gritou Cachorrão, rouco.

– Uh – disse Sinistro, assentindo e fazendo água voar de seu cabelo arrepiado.

Ele e Tul precisaram gritar e apontar bastante até conseguirem colocar um bando de seus rapazes alinhados em cim a do parapeito escorregadio. Três vintenas de arcos m olhados, todos abaixados ao m esm o tem po, todos retesados a ponto de estalar, todos direcionados para aquele portão. Três vintenas de hom ens, franzindo a testa e m irando, todos pingando e ficando m ais m olhados a cada m inuto.

– Certo, então. Disparar!

Os arcos dispararam m ais ou m enos j untos, fazendo sons abafados. As setas desceram girando, ricocheteando na m uralha m olhada, cravando-se na m adeira áspera do portão, espetando o chão onde o fosso ficava, antes de ter virado apenas m ais um bocado de lam a. Não foi o que se poderia cham ar de disparos precisos, m as havia m uitas flechas e, quando não é possível ter qualidade, a quantidade tem que fazer a diferença. O oriental à direita largou o m achado, com três flechas espetadas no peito e um a na perna. O da esquerda escorregou, caiu de lado e correu sem j eito, tentando arranj ar cobertura, com um a flecha no om bro. O do pé de cabra caiu de j oelhos, sacudindo-se e levando a m ão atrás, tentando alcançar um a seta na cintura.

– Certo! Bom ! – gritou Cachorrão.

Nenhum dos outros invasores parecia ansioso para arrom bar o portão por ora, o que era algo a agradecer. Ainda havia m uitos esforçando-se nas escadas, m as essa era um a tarefa m ais difícil para os arqueiros dali de cim a. Com um tem po assim , eles tanto poderiam acertar os próprios colegas nas m uralhas quanto os inim igos. Cachorrão trincou os dentes e disparou um a flecha inofensiva, m olhada, sobre a turba com prim ida. Não podia fazer nada. A m uralha era serviço de Trem edeira, de Barca Negra e Gorro Verm elho. A m uralha era serviço de Logen.

 

Houve um estalo alto, com o se o céu estivesse caindo. O m undo ficou cheio de ecos, com um brilho estonteante e lento com o um caldo grosso. Logen cam baleou naquele lugar de sonho, deixou a espada cair com estardalhaço de seus dedos entorpecidos. Tom bou contra a m uralha e a agarrou enquanto ela oscilava. Tentava entender o que havia acontecido, só que não conseguia.

Dois hom ens lutavam por causa de um a lança, agarrando-se e em purrando-se, e Logen não conseguia lem brar por quê. Um hom em de cabelo com prido levou um golpe forte e lento em seu escudo e algum as lascas voaram , depois ele girou um m achado, os dentes à m ostra e brilhando, acertou as pernas de um suj eito de aparência selvagem e o derrubou. Havia hom ens em toda parte, m olhados e furiosos, suj os e m anchados de sangue. Um a batalha, talvez? De que lado ele estava?

Sentiu algo quente pinicando seu olho e encostou a m ão. Franziu a testa para os dedos verm elhos, que ficavam rosados à m edida que a chuva batia neles. Sangue. Será que alguém o havia acertado na cabeça, então? Ou ele estaria sonhando com isso? Um a lem brança, de m uito tem po atrás.

Girou instantes antes que o porrete esm agasse seu crânio com o um ovo e agarrou com as m ãos os pulsos de algum desgraçado cabeludo. De repente o m undo ficara rápido, ruidoso, sua cabeça latej ava de dor. Bateu contra o parapeito, olhando um rosto suj o, barbudo, furioso, com prim ido contra o seu.

Logen soltou o porrete com um a das m ãos e com eçou a tatear o cinto à procura de um a faca. Não conseguiu sentir nenhum a. Todo aquele tem po afiando todas aquelas lâm inas, e agora que precisava de um a não havia nada à m ão. Então lem brou. A lâm ina que ele procurava estava cravada naquele desgraçado feioso que ele j ogara em algum lugar da base da m uralha. Tateou do outro lado do cinto, ainda lutando contra o porrete, m as agora perdendo a batalha, j á que podia usar apenas um a das m ãos. Foi curvado para trás, lentam ente, por cim a das am eias. Seus dedos encontraram o cabo de um a faca. O oriental peludo conseguiu soltar o porrete e o ergueu, escancarando a boca e soltando um grito fedorento.

Logen o esfaqueou direto na cara, e a lâm ina entrou por um a bochecha e saiu pela outra, levando uns dois dentes. O berro do cabeludo virou um uivo estridente e ele largou o porrete, cam baleando para longe, os olhos arregalados. Logen deslizou para o chão e tirou a espada de sob os pés dos dois que lutavam pela lança, esperou por um m om ento até que o oriental chegasse perto, depois cortou a parte de trás de um a coxa dele e o derrubou, com um grito, onde o Carl podia lhe dar um fim .

O cabeludo ainda babava sangue, um a das m ãos no cabo da faca atravessada no rosto, tentando soltá-la. A espada de Logen fez um talho verm elho através das peles m olhadas na lateral de seu corpo e derrubou-o de j oelhos. O golpe seguinte partiu sua cabeça ao m eio.

A m enos de dez passos dali, Trem edeira estava encrencado, encurralado entre três orientais, com m ais um acabando de chegar ao topo de um a escada, enquanto todos os seus rapazes estavam ocupados. Ele se encolheu quando levou um golpe forte de um a m arreta no escudo, cam baleou para trás e deixou o m achado cair ruidosam ente na pedra. Logen chegou a pensar que ficaria m uito m elhor se a cabeça de Trem edeira fosse esm agada. Mas as chances de ele ser o próxim o eram boas.

Então respirou fundo, soltou um grito e partiu para cim a dos orientais.

O prim eiro se virou bem a tem po de ter o rosto aberto, em vez da nuca. O segundo levantou o escudo, m as Logen atacou por baixo e decepou seu tornozelo, fazendo-o cair de costas com um grito esganiçado, o sangue acum ulando nas poças de água da passarela. O terceiro era um desgraçado grande, com o cabelo ruivo desgrenhado e revolto. Ele havia deixado Trem edeira zonzo e de j oelhos j unto ao parapeito, o escudo abaixado, sangue escorrendo de um talho na testa. Agora erguia sua grande m arreta para term inar o serviço. Logen cravou a espada em suas costas antes que ele tivesse chance de dar o golpe, e a lâm ina com prida o atravessou até o cabo. Jam ais enfrente um hom em cara a cara se você puder m atá-lo por trás, costum ava dizer o pai de Logen, e esse era um bom conselho que ele sem pre tentava seguir. O ruivo se sacudiu e guinchou, retorcendo-se loucam ente com as últim as tentativas para respirar e arrastando Logen, que segurava o punho da espada, m as não dem orou m uito até cair.

Logen agarrou Trem edeira por baixo do braço e o levantou. Ele franziu a testa com força quando seus olhos voltaram a focalizar e viu quem o aj udava. Abaixou-se e pegou o m achado caído nas pedras. Logen se perguntou por um m om ento se ele iria enterrá-lo em seu crânio, m as Trem edeira apenas ficou parado, com o sangue escorrendo do corte na testa e descendo pelo rosto m olhado.

– Atrás de você – avisou Logen, indicando com o olhar por cim a do om bro dele.

Trem edeira se virou, Logen fez o m esm o e os dois ficaram de costas um para o outro. Agora havia três ou quatro escadas de pé ao redor do portão e a batalha na m uralha havia se transform ado em algum as lutas separadas, m enores m as ainda sangrentas. Orientais passavam sobre o parapeito, gritando sua algaravia sem sentido, rostos severos e arm as ferozes reluzindo de água, indo para cim a de Logen enquanto outros subiam . Nove Dedos ouviu o som de im pactos e os grunhidos de Trem edeira lutando, m as não prestou atenção. Só podia cuidar do que estava na frente. É preciso ser realista com essas coisas.

Arrastou os pés para trás, m ostrando um a fraqueza que só era m eio fingida, e, quando o prim eiro deles veio, trincou os dentes e saltou adiante, cortou-o na cara e o m andou para longe aos gritos, com a m ão apertando os olhos. Logen cam baleou contra outro e foi golpeado no peito com um escudo, cuj a borda o acertou em baixo do queixo e o fez m order a língua.

Quase tropeçou sobre o cadáver esparram ado de um Carl m orto, aj eitou o passo a tem po, girou a espada m as não acertou nada, perdeu o equilíbrio e sentiu algo cortar sua perna. Ofegou e saltitou, balançando a espada ao redor, vacilante. Deu um a estocada contra um a pele que se m ovia, sua perna cedeu e ele despencou em cim a de alguém . Os dois caíram j untos e a cabeça de Logen bateu na pedra. Rolaram , e Logen lutou para ficar por cim a, gritando e babando, em bolou os dedos no cabelo oleoso de um oriental e bateu o rosto dele contra a pedra, de novo e de novo até o crânio ficar m ole. Arrastou-se para longe, ouviu um a lâm ina retinir contra a passarela no lugar onde estivera e aj oelhou-se com a espada frouxa na m ão pegaj osa.

Ficou aj oelhado, arfando e com água escorrendo pelo rosto. Mais deles vinham em sua direção, e não havia para onde ir. Sua perna doía e ele não tinha força nos braços. A cabeça estava leve, com o se fosse flutuar para longe. Quase sem forças para lutar. Mais deles vinham , um na frente com grossas luvas de couro e um a m aça enorm e verm elha de sangue. Parecia que seus espinhos j á haviam quebrado um crânio e o próxim o seria o de Logen. Então Bethod teria vencido, finalm ente.

Logen sentiu um frio invadir suas entranhas. Um a sensação dura, vazia. Os nós dos dedos estalaram e os m úsculos da m ão ficaram rígidos, apertando a espada com um a força dolorosa.

– Não! – sussurrou. – Não, não, não.

Mas seria o m esm o que dizer não à chuva. A sensação fria se espalhou e atravessou o rosto de Logen, repuxando sua boca num sorriso coberto de sangue. O hom em de luvas chegou m ais perto, com a m aça raspando na pedra m olhada. Olhou por cim a do om bro.

Sua cabeça se partiu, espirrando sangue. Crum m ock-i-Phail deu um rugido de urso furioso, os ossos de dedos voando em volta do pescoço, a grande m arreta girando e girando em volta da cabeça em círculos enorm es. O oriental seguinte ergueu um escudo e tentou recuar. A m arreta de Crum m ock rodou segura pelas duas m ãos, arrancou as pernas dele, m andou-o rolando e rolando até cair de cara na pedra. O grande m ontanhês saltou na passarela, ágil feito um dançarino apesar do corpanzil, e acertou na barriga do outro adversário um golpe que o lançou pelos ares e o deixou em bolado contra as am eias.

Logen olhou um grupo de selvagens assassinando outro, ofegando enquanto os rapazes de Crum m ock uivavam e gritavam , com a tinta dos rostos m anchada pela chuva. Eles vieram num j orro para a m uralha, retalhando os orientais com suas espadas rudes e seus m achados brilhantes, im pelindo-os para trás e em purrando suas escadas, j ogando seus corpos por cim a do parapeito, na lam a lá em baixo.

Logen se aj oelhou ali, num a poça, apoiado no cabo frio da espada de Kanedias, cuj a ponta penetrou na passarela de pedra. Dobrou-se e respirou fundo, com as entranhas frias sugando o ar e soprando-o para fora, a boca salgada, o nariz cheio do fedor de sangue. Não ousava olhar para cim a. Trincou os dentes, fechou os olhos e escarrou cuspe azedo nas pedras. Forçou a sensação fria do estôm ago para baixo e ela foi dim inuindo, pelo m enos por ora, e o deixou apenas com a dor e o cansaço para se preocupar.

– Parece que esses desgraçados j á receberam o suficiente – disse a voz de Crum m ock, gargalhando na chuva. Ele j ogou a cabeça para trás, a boca aberta, esticou a língua para a água que caía e lam beu os lábios. – Foi um bom serviço que você fez hoj e, Nove Sangrento. Não que eu não tenha tido um prazer especial em ver você fazendo isso, m as fico feliz por ter participado.

O hom em da m ontanha sopesou a grande m arreta num a das m ãos e a girou com o se fosse um graveto, e, ao perceber um a grande m ancha de sangue na cabeça de ferro, com um chum aço de cabelos grudado, deu um sorriso largo.

Logen ergueu os olhos para ele, quase sem forças para levantar a cabeça.

– Ah, sim . Bom trabalho. Am anhã nós vam os ficar atrás então, j á que você está tão ansioso, certo? Você pode ficar com a porra da m uralha.

 

A chuva estava dim inuindo, virando garoa. Um brilho de sol fraco rom peu as nuvens pesadas, deixando ver de novo o acam pam ento de Bethod, sua vala enlam eada e seus estandartes, as tendas espalhadas no vale. Cachorrão franziu os olhos, pensou ter visto alguns hom ens de pé na frente, olhando os orientais correrem de volta, um reflexo de sol em algum a coisa. Um a luneta, talvez, com o a União usava, em geral para olhar para o lado errado. Cachorrão se perguntou se seria Bethod lá em baixo, vendo tudo aquilo acontecer. Bem do feitio de Bethod ter um a luneta.

Sentiu um a m ão grande bater em seu om bro.

– Dem os um a surra neles, chefe – trovej ou Tul. – E das boas!

Havia pouca dúvida disso. Um m onte de orientais m ortos espalhados na lam a na base daquela m uralha, inúm eros feridos sendo carregados pelos com panheiros ou se arrastando devagar e dolorosam ente na direção de suas linhas. Mas tam bém havia um bom núm ero de m ortos entre os defensores do lado de dentro da m uralha. Cachorrão podia ver um a pilha de cadáveres enlam eados perto da parte de trás da fortaleza, onde eram enterrados. Ouviu alguém gritar. Gritos m alignos, do tipo que um hom em dá quando precisa que um m em bro sej a cortado, ou se j á perdeu um .

– Nós dem os um a surra neles, é – m urm urou Cachorrão. – Mas eles tam bém nos deram . Não sei quantas vam os aguentar.

Agora os barris onde ficavam as flechas estavam pela m etade, as pedras estavam quase acabando.

– É m elhor m andar alguns rapazes revistar os m ortos! – gritou por cim a dos om bros para os hom ens. – Pegar o que puderm os enquanto puderm os!

– Em tem pos assim , flechas nunca são dem ais – com entou Tul. – Com a quantidade de desgraçados de Crinna que m atam os hoj e, acho que terem os m ais lanças esta noite do que tínham os de m anhã.

Cachorrão conseguiu pôr um sorriso no rosto.

– Foi gentileza deles trazer tanta coisa para a gente usar.

– É. Acho que eles iam se entediar depressa se a gente ficasse sem flechas. – Tul gargalhou e deu um tapa nas costas de Cachorrão com m ais força do que nunca, o suficiente para fazer seus dentes chacoalharem . – Nós nos dem os bem ! Você se deu bem ! Ainda estam os vivos, não é?

– Alguns de nós sim .

Cachorrão olhou para o cadáver do único hom em que havia m orrido em cim a da torre. Um suj eito velho, com o cabelo quase todo grisalho, um a flecha m alfeita cravada no pescoço. Tinha sido azar levar um a flechada num dia de chuva, m as sem dúvida sem pre há um pouco de sorte e azar num a luta. Ele franziu a testa na direção do vale, que ia escurecendo.

– Onde diabo está a União?

 

Pelo m enos a chuva havia parado. É preciso agradecer pelas pequenas coisas boas da vida, com o um pouco de fogo com fum aça depois do tem po m olhado. É preciso agradecer pelas pequenas coisas quando qualquer m inuto pode ser o últim o.

Logen sentou sozinho ao lado de sua cham a precária e esfregou devagar a palm a da m ão direita. Estava dolorida, rosada, com bolhas nas j untas dos dedos, rígida de segurar o cabo áspero da espada do Artífice durante todo o longo dia. Sua cabeça estava m achucada. O corte na perna ardia um pouco, m as ele ainda podia andar bastante bem . Poderia ter acabado m uito pior. Agora havia m ais de três vintenas de hom ens enterrados, e estavam sendo postos em valas de um a dúzia cada, com o Crum m ock dissera. Mais de três vintenas de volta à lam a, e o dobro disso ferido, um bocado desses com ferim entos sérios.

Perto da grande fogueira, podia ouvir os rosnados de Barca Negra contando com o havia esfaqueado um oriental nos bagos. Podia ouvir a gargalhada trovej ante de Tul. Já não se sentia parte daquilo. Talvez nunca tivesse sido. Um grupo de hom ens com quem lutara e que derrotara. Vidas que havia poupado, sem m otivo que fizesse sentido. Hom ens que o odiaram m ais do que a m orte, m as foram obrigados a segui-lo. Não eram m ais seus am igos do que Trem edeira. Talvez Cachorrão fosse seu único am igo de verdade em todo o am plo Círculo do Mundo, e m esm o nos olhos dele, de vez em quando, Logen achava que podia ver aquele antigo traço de dúvida, aquele antigo traço de m edo. Im aginava se podia vê-lo agora quando Cachorrão surgiu das trevas.

– Acha que ele vem esta noite? – perguntou Cachorrão.

– Ele vai fazer um a tentativa no escuro, m ais cedo ou m ais tarde – disse Logen –, m as acho que vai esperar até estarm os um pouco m ais esgotados.

– É possível ficar m ais esgotado do que isso?

– Acho que vam os descobrir. – Logen fez um a careta ao esticar as pernas doloridas. – Parece m esm o que essa m erda costum ava ser m ais fácil.

Cachorrão resfolegou. Não foi um a risada de verdade. Foi m ais para que Logen soubesse que ele tinha ouvido.

– A m em ória é capaz de fazer m ágica. Você se lem bra de Carleon?

– Claro que lem bro. – Logen olhou o dedo que faltava e cerrou o punho, e desse m odo ele parecia com qualquer outro. – É estranho com o tudo parecia tão sim ples naquele tem po. Por quem a gente lutava e por quê. Não posso dizer que isso m e incom odava.

– Incom odava a m im – disse Cachorrão.

– Incom odava? Você deveria ter dito algum a coisa.

– Você teria ouvido?

– Não. Acho que não.

Ficaram sentados um m inuto em silêncio.

– Acha que vam os sobreviver a isto? – perguntou Cachorrão.

– Talvez. Se a União aparecer am anhã ou depois de am anhã.

– Acha que eles vão aparecer?

– Talvez. Podem os ter esperança.

– Ter esperança não faz com que a coisa aconteça.

– Em geral é o contrário. Mas todo dia vivos é um a chance. Talvez desta vez dê certo.

Cachorrão franziu a testa para as cham as agitadas.

– É um m onte de “talvez”.

– É a guerra.

– Quem im aginaria que a gente iria contar com um punhado de sulistas para resolver nossos problem as, hein?

– A gente resolve do j eito que puder. É preciso ser realista.

– Sendo realista, então, você acha que a gente vai sobreviver?

Logen pensou durante um tem po.

– Talvez.

Botas chapinharam na terra m ole e Trem edeira veio em silêncio para a fogueira. Havia um a bandagem cinza enrolada em sua cabeça, onde ele havia levado o corte, e seu cabelo pendia úm ido e oleoso em baixo dela.

– Chefe – disse ele.

Cachorrão sorriu ao se levantar e lhe deu um tapa no om bro.

– Certo, Trem edeira. Fez um bom trabalho hoj e. Estou feliz por você ter vindo para o nosso lado, rapaz. Todos estam os. – Ele deu um olhar dem orado para Logen. – Todos nós. Acho que vou tentar descansar um m inuto. Vej o vocês quando eles voltarem am anhã. Provavelm ente não vai dem orar m uito.

E partiu pela noite, deixando Trem edeira e Logen encarando-se.

Provavelm ente Logen deveria pôr a m ão perto de um a faca, atento para m ovim entos súbitos e tal. Mas estava cansado dem ais e dolorido dem ais. Por isso apenas ficou sentado, olhando. Trem edeira contraiu os lábios, agachou-se j unto da fogueira, do lado oposto, lento e relutante com o se estivesse prestes a com er algo podre e não pudesse recusar.

– Se eu estivesse no seu lugar – disse depois de um tem po –, teria deixado aqueles desgraçados m e m atarem hoj e.

– Alguns anos atrás, tenho certeza que eu faria isso.

– O que m udou?

Logen enrugou a testa e pensou. Depois encolheu os om bros doloridos.

– Estou tentando ser m elhor do que eu era.

– Acha que isso basta?

– O que m ais posso fazer?

Trem edeira franziu a testa para o fogo.

– Eu queria dizer… – ele foi revirando as palavras na boca, até que as cuspiu: –… que agradeço, acho. Você salvou m inha vida hoj e. Eu sei.

Ele não estava feliz dizendo isso, e Logen sabia por quê. É difícil receber um favor de um hom em que a gente odeia. É difícil odiá-lo tanto, depois disso. Perder um inim igo pode ser pior do que perder um am igo, se você o tiver por bastante tem po.

Por isso Logen deu de om bros de novo.

– Não foi nada. É só o que um hom em deveria fazer por seu pessoal. Eu lhe devo m uito m ais. Sei disso. Nunca vou poder pagar o que eu lhe devo.

– Não. Mas acho que é um com eço.

Trem edeira se levantou e deu um passo para longe. Então parou e se virou de volta, com a luz da fogueira trem ulando num dos lados de seu rosto im placável, raivoso.

– Nunca é tão sim ples assim , não é? Ninguém é só bom ou m au. Nem você. Nem Bethod. Nem ninguém .

– Não. – Logen ficou sentado olhando as cham as se m overem . – Não, nunca é tão sim ples assim . Todos tem os nossos m otivos. Hom ens bons e hom ens m aus. Tudo depende do lado em que você está.