O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 9 de 61

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O duelo dos reis

Dívidas impagáveis

 

Superior Glokta,

Acredito que nunca fomos apresentados formalmente, mas ouvi seu nome ser

mencionado com frequência nas últimas semanas. Espero não ofendê-lo,

contudo, em cada sala que entro, parece que o senhor acabou de sair dela,

ou que está prestes a chegar ali, e toda negociação que faço fica mais

complicada devido ao seu envolvimento.

Ainda que nossos patrões sejam oponentes nessa questão, não há motivo para

não nos comportarmos como homens civilizados. Talvez o senhor e eu

possamos chegar a um consenso que nos deixe a ambos com menos trabalho

e mais progresso.

Estarei à sua espera no pátio do matadouro perto dos Quatro Cantos amanhã

de manhã, a partir das seis horas. Peço desculpas por escolher um local tão

ruidoso, mas acho melhor que nossa conversa aconteça em privacidade.

Ouso dizer que nenhum de nós ficará incomodado por ter um pouco de

estrume sob os pés.

Harlen Morrow,

Secretário do juiz supremo Marovia

PARA SER SUTIL, o lugar fedia. Parece que algumas centenas de porcos vivos não têm um cheiro tão agradável quanto seria de esperar. O piso do galpão tenebroso estava escorregadio de suj eira fétida e o ar era denso de um ruído desesperado. Eles roncavam e guinchavam , grunhiam e se em purravam nos cercados apertados, talvez sentindo que a faca do m agarefe não estava m uito longe. Mas, com o observara Morrow, Glokta não ficaria incom odado com o barulho, com as facas ou m esm o com o odor desagradável. Passo os dias chafurdando na imundície metafórica, afinal de contas. Por que não na real também? O piso escorregadio era m ais problem ático. Ele se arrastava a passos m inúsculos, a perna ardendo. Imagine chegar à minha reunião coberto de cocô de porco. Não passaria uma imagem de implacabilidade, não é?

Viu Morrow encostado num dos cercados. Como um fazendeiro admirando seu rebanho premiado. Glokta chegou até ele, as botas chapinhando. Encolhia-se e respirava com dificuldade, o suor escorrendo pelas costas.

– Bom , Morrow, você sabe escolher lugares sedutores para um prim eiro encontro, tenho de adm itir.

O secretário de Marovia, um hom enzinho de rosto redondo e óculos, riu.

– Superior Glokta, prim eiro gostaria de dizer que tenho apenas o m aior respeito por suas realizações em Gurkhul, seus m étodos de negociação e…

– Não vim aqui para trocar am enidades, Morrow. Se é disso que você quer falar, posso pensar em am bientes com perfum e m ais doce.

– E com panhias m ais doces tam bém , sem dúvida. Aos negócios, então. São tem pos difíceis.

– Concordo.

– Mudança. Incerteza. Inquietação entre os cam poneses…

– Um pouco m ais do que inquietação, eu diria, não?

– Rebelião, então. Esperem os que a confiança do Conselho Fechado no coronel Luthar se j ustifique e que ele contenha os rebeldes do lado de fora da cidade.

– Eu não confiaria nem no cadáver dele para conter um a flecha, m as acho que o Conselho Fechado tem seus m otivos.

– Eles sem pre têm . Mas, claro, nem sem pre concordam uns com os outros.

Eles jamais concordam em nada. É praticamente uma regra daquela instituição maldita.

– Mas são os que servem a eles – em endou Morrow, espiando de form a expressiva por cim a da arm ação dos óculos – que carregam o fardo de sua falta de concordância. Sinto que nós, em particular, estivem os pisando dem ais nos calos um do outro ultim am ente.

– Oh! – zom bou Glokta, rem exendo os dedos entorpecidos dentro das botas. – Espero que seus pés não estej am m uito m achucados. Eu j am ais poderia viver tranquilo se o fizesse m ancar. Você teria um a solução em m ente?

– Pode-se dizer que sim – falou Morrow e sorriu na direção dos porcos, observando-os se retorcer, grunhir e subir uns em cim a dos outros. – Tínham os porcos na fazenda onde cresci.

Misericórdia. Tudo, menos história de infância.

– Era m inha responsabilidade alim entá-los. Eu acordava tão cedo que ainda estava escuro e m inha respiração fazia fum aça.

Ah, ele pinta um quadro tão vívido! O jovem Sr. Morrow enfiado até os joelhos na imundície, olhando seus porcos se refestelarem e sonhando em fugir. Uma admirável vida nova na cidade reluzente!

Morrow sorriu para ele, a luz fraca refletindo nas lentes dos óculos.

– Sabe, esses bichos com em de tudo. Até aleij ados.

Ah. Então é isso.

Foi então que Glokta percebeu um hom em que se m ovia furtivam ente na direção deles, vindo da outra extrem idade do galpão. Um suj eito corpulento, com um casaco velho, que perm anecia nas som bras. Mantinha o braço colado ao corpo, a m ão enfiada dentro da m anga. Como se escondesse uma faca, e não muito bem. Seria melhor simplesmente se aproximar com um sorriso na cara e a faca à vista. Há uma centena de motivos para andar com uma faca num matadouro. Mas só pode haver um para tentar escondê-la.

Olhou por cim a do om bro e se encolheu quando o pescoço estalou. Outro hom em , m uito parecido com o prim eiro, se esgueirava daquela direção. Glokta levantou as sobrancelhas.

– Capangas? Que falta de originalidade!

– Sem originalidade, talvez, m as acho que o senhor vai considerá-los bastante eficazes.

– Então serei abatido no abatedouro, hein, Morrow? Morto no m atadouro? Sand dan Glokta, aquele que parte corações, vencedor do Cam peonato, herói da guerra contra Gurkhul, cagado pelo cu de um a dúzia de porcos diferentes!

Ele bufou, gargalhou e teve de lim par um pouco de ranho do lábio superior.

– Fico feliz que o senhor goste da ironia – m urm urou Morrow, parecendo ligeiram ente incom odado.

– Ah, gosto. Dado com o alim ento aos suínos. É tão previsível que honestam ente posso dizer que não é o que eu esperava – falou Glokta, e soltou um longo suspiro. – Mas não esperar e não planej ar são coisas m uito diferentes.

A corda da besta não fez nenhum som acim a do barulho dos porcos. O capanga pareceu prim eiro escorregar, largar a faca brilhante e cair de lado sem m otivo. Então Glokta viu a seta que se proj etava da lateral do corpo dele. Não é grande surpresa, claro, no entanto sempre parece mágica.

O capanga na outra extrem idade do galpão deu um passo para trás, pasm o, m as não viu a prática Vitari passar silenciosam ente por cim a do corrim ão do cercado vazio atrás dele. Houve um clarão de m etal no escuro enquanto ela cortava os tendões atrás de seu j oelho, derrubando-o, e o grito do hom em foi logo interrom pido pela corrente que ela apertava ao redor de seu pescoço.

Severard saltou com facilidade dos caibros à esquerda de Glokta e veio chapinhando pela gosm a do chão. Aproxim ou-se petulante, com a besta pousada no om bro, chutou a faca para o escuro e olhou o hom em que havia acertado.

– Eu lhe devo 5 m arcos – gritou para Frost. – Errei o coração, porcaria. O fígado, talvez?

– Cígado – grunhiu o albino, em ergindo das som bras na outra extrem idade do galpão.

O capanga de Morrow tentou ficar de j oelhos, segurando a flecha na lateral do tronco, o rosto retorcido e sem icoberto pela im undície. Frost ergueu seu porrete e deu-lhe um golpe esm agador na nuca, pondo fim a seus gritos e derrubando-o de cara na bosta.

Vitari havia forçado seu oponente contra o chão e estava aj oelhada nas costas dele, puxando a corrente em volta do pescoço. A resistência do suj eito foi dim inuindo, dim inuindo, até que parou. Um pouco mais de carne morta no chão do matadouro.

Glokta olhou de volta para Morrow.

– Com o as coisas podem m udar depressa, hein, Harlen? Num m inuto todo m undo quer conhecer você. No outro…? – Ele bateu, triste, em seu pé inútil com a ponta im unda da bengala. – Você está fodido. É um a dura lição. – Eu sei muito bem.

O secretário de Marovia recuou, com a língua correndo pelos lábios e um a das m ãos estendida diante do corpo.

– Espere um pouco…

– Por quê? – perguntou Glokta, fazendo beicinho. – Você acha que ainda podem os nos am ar depois de tudo isso?

– Talvez possam os chegar a um …

– Não estou chateado por você ter tentado m e m atar. Mas fazer um esforço tão patético para isso? Nós som os profissionais, Morrow. É um insulto você achar que isso poderia dar certo.

– Estou m agoado – m urm urou Severard.

– Ferida – entoou Vitari, com a corrente tilintando no escuro.

– Possundam ente ossendido – grunhiu Frost, guiando Morrow de volta na direção do cercado.

– Você deveria ter se lim itado a lam ber a bunda grande e bêbada de Hoff. Ou talvez devesse ter ficado na fazenda, com seus porcos. Talvez sej a um trabalho duro, acordar cedo e tal… m as é um m odo de vida.

– Espere! Espeeeerrg…

Severard agarrou o om bro de Morrow por trás, deu-lhe um a facada na lateral do pescoço e cortou sua garganta com tanta calm a quanto se estivesse lim pando um peixe.

O sangue espirrou nas botas de Glokta e ele cam baleou para trás, encolhendo-se quando a dor disparou pela perna arruinada.

– Merda! – sibilou por entre os dentes, quase tropeçando e caindo de bunda na im undície, e só conseguiu ficar de pé agarrando-se desesperadam ente à cerca ao lado. – Não poderia ter sim plesm ente estrangulado o suj eito?

Severard deu de om bros.

– O resultado é o m esm o, não é?

Morrow escorregou de j oelhos, os óculos tortos no rosto, um a das m ãos apertando o pescoço cortado enquanto o sangue fluía para o colarinho.

Glokta o observou tom bar de costas, um a das pernas escoiceando o chão, o calcanhar deixando riscas longas na gosm a fétida. Que pena dos porcos da fazenda! Nunca verão o jovem Sr. Morrow retornar pela colina, de volta da vida admirável na cidade reluzente, com a respiração fazendo fumaça na manhã fria, fria…

As convulsões do secretário ficaram m ais fracas, m ais fracas, até que ele se im obilizou. Glokta continuou agarrado à cerca por um instante, olhando o cadáver. Quando foi, exatamente, que eu me tornei… isso? Pouco a pouco, imagino. Um ato se acumula sobre outro, num caminho que não temos opção a não ser seguir, e todas as vezes há motivos para isso. Fazemos o que é preciso, fazemos o que é ordenado, fazemos o que é mais fácil. O que mais podemos fazer, senão resolver um problema sórdido de cada vez? Aí um dia levantamos os olhos e descobrimos que somos… isso.

Olhou o sangue que brilhava em sua bota, franziu o nariz e a lim pou na perna da calça de Morrow. Ah, bem. Eu adoraria passar mais tempo filosofando, mas tenho autoridades para subornar, nobres para chantagear, votos para comprar, secretários para assassinar e amantes para ameaçar. É um malabarismo com muitas facas. E, quando uma delas cai no chão imundo, outra sobe, acima de nossa cabeça, a lâmina girando, afiada. Nunca fica mais fácil.

– Nossos am igos m ágicos voltaram à cidade.

Severard levantou a m áscara e coçou o rosto.

– O m ago?

– O Prim eiro dos desgraçados, nada m enos do que isso, e sua ousada com panhia de heróis. Ele, o aprendiz fedorento e aquela m ulher. O navegador tam bém . Fique de olho neles e vej a se há algum leitão que possam os separar do rebanho. É hora de saberm os o que eles estão aprontando. Você ainda tem aquela casa encantadora perto da água?

– Claro.

– Bom . Talvez possam os ficar à frente do j ogo pela prim eira vez, e, quando Sua Em inência exigir respostas, possam os tê-las à m ão. – E eu possa finalmente ganhar um afago na cabeça, dado pelo meu dono.

– O que farem os com esses aí? – perguntou Vitari, voltando a cabeça de cabelos espetados na direção dos cadáveres.

Glokta suspirou.

– Dizem que porcos com em de tudo.

 

Escurecia quando Glokta arrastou sua perna arruinada pelas ruas vazias e subiu em direção ao Agriont. Os loj istas fechavam as portas, os m oradores acendiam os lam piões, a luz das velas se derram ava nos becos escuros através de frestas nos postigos. Famílias felizes se acomodando para jantares felizes, sem dúvida. Pais amorosos com suas esposas encantadoras, filhos adoráveis e vidas plenas e cheias de significado. Meus sinceros parabéns.

Com prim iu os dentes que restavam contra as gengivas feridas, no esforço de m anter o ritm o da cam inhada. O suor com eçava a um edecer a cam isa, a perna ardia m ais a cada passo trôpego. Mas não vou parar por causa desse pedaço de carne morta. A dor se esgueirava do tornozelo ao j oelho, do j oelho ao quadril, do quadril subia pela coluna torta e penetrava no crânio. Todo esse trabalho apenas para matar um administrador de nível médio, que de qualquer modo trabalhava a poucos prédios de distância da Casa das Perguntas. É uma baita perda do meu tempo, sem dúvida, uma baita…

– Superior Glokta?

Um hom em havia aparecido, respeitoso. Seu rosto perm anecia na som bra. Glokta estreitou os olhos na direção dele.

– Eu o conh…

A coisa foi bem -feita, não dava para negar. Ele nem percebeu o outro suj eito até que o saco estava sobre sua cabeça e um dos seus braços foi torcido às costas, em purrando-o para a frente, desam parado. Ele tropeçou, soltou a bengala e a ouviu bater nas pedras do calçam ento.

– Aarg!

Um espasm o lancinante atravessou suas costas quando tentou sem sucesso a soltar o braço. Foi obrigado a relaxar, ofegando de dor dentro do saco. Num instante seus pulsos estavam am arrados e ele sentiu m ãos fortes sob suas axilas. Foi levado com grande velocidade, um hom em de cada lado, os pés m al roçando as pedras do calçam ento. É o mais rápido que eu ando há muito tempo. O aperto não era rude, m as forte o suficiente para que ele não conseguisse se livrar. Profissionais. Uma classe de capangas muitíssimo melhor do que a usada por Morrow. Quem ordenou isso não é idiota. Então quem ordenou?

O próprio Sult ou um dos inimigos de Sult? Um de seus rivais na corrida pelo trono? O juiz supremo Marovia? Lorde Brock? Alguém do Conselho Aberto? Ou seriam os gurkenses? Eles nunca foram meus amigos mais íntimos. A casa bancária Valint e Balk, talvez, finalmente optando por cobrar sua dívida? Será que avaliei mal o jovem coronel Luthar? Ou poderia simplesmente ser o superior Goyle, que não deseja mais compartilhar o cargo com o aleijado? Era um a lista e tanto, agora que ele se via obrigado a pensar nela.

Ouviu os passos reverberarem no chão ao redor. Becos estreitos. Não fazia ideia de quanto haviam andado. Sua respiração ecoava no saco, arranhava a garganta. O coração martela, a pele formiga com o suor frio. Estou agitado. Até mesmo apavorado. O que eles podem querer comigo? As pessoas não são sequestradas na rua para receber promoções, ou confeitos, ou beijos ternos, que pena. Eu sei por que as pessoas são sequestradas na rua. Poucos sabem tão bem.

Desceram alguns degraus, com a ponta das botas roçando im potentes nas bordas. O som de um a porta pesada sendo fechada. Passos ecoando num corredor com ladrilhos. Outra porta se fechando. Sentiu-se largado sem cerim ônia num a cadeira. E agora, sem dúvida, para o melhor ou o pior, descobriremos…

O saco foi arrancado de repente da cabeça de Glokta e ele piscou quando a luz golpeou seus olhos. Um a sala branca, clara dem ais para ser confortável. Um tipo de sala com a qual sou tristemente familiarizado. No entanto parece muito mais feia deste lado da mesa. Alguém estava sentado do lado oposto. Ou a silhueta borrada de um alguém. Ele fechou um dos olhos e espiou pelo outro, à m edida que a visão se aj ustava.

– Ora – m urm urou. – Que surpresa.

– Agradável, espero.

– Acho que descobrirem os.

Carlot dan Eider havia m udado. E parece que o exílio não lhe fez tanto mal. O cabelo crescera, não ao tam anho anterior, talvez, porém m ais do que o suficiente para garantir um belo estilo. Os hem atom as no pescoço tinham sum ido, havia apenas m arcas levíssim as onde a bochecha estivera coberta de cascas de ferida. Ela trocara o pano de saco de traidora pelas roupas de viagem de um a dam a de posses e parecia extrem am ente bem nelas. Joias reluziam nos dedos e em volta do pescoço. Parecia tão rica e elegante com o quando haviam se conhecido. E estava sorrindo. O sorriso de um jogador que tem todas as cartas. Por que será que eu nunca aprendo? Nunca fazer um ato de bondade. Sobretudo para uma mulher.

Havia um a tesoura pequena ao alcance na m esa à frente dela. Do tipo que as m ulheres ricas usam para aparar as unhas. Mas igualmente boa para aparar a pele das solas dos pés de um homem, para alargar suas narinas, para aparar suas orelhas, pedacinho a pedacinho…

Glokta achou difícil tirar os olhos daquelas pequenas lâm inas polidas que brilhavam à luz do lam pião.

– Achei que eu tivesse lhe dito para nunca m ais voltar – falou ele, m as sua voz não tinha a autoridade costum eira.

– Você disse. Mas aí eu pensei… por que não? Tenho bens na cidade dos quais não queria abrir m ão, além de algum as oportunidades de negócios que estou ansiosa para aproveitar – disse Carlot, que pegou a tesoura, aparou um a lasca m inúscula do canto de um a unha do polegar que j á estava com a form a perfeita e franziu a testa diante do resultado. – E não é provável que você vá contar a alguém que estou aqui, não é?

– Todas as m inhas preocupações com sua segurança foram postas de lado – grunhiu Glokta. As preocupações com a minha própria, infelizmente, crescem a cada momento. Afinal de contas, um homem jamais é tão aleijado a ponto de não poder ficar ainda mais. – Você precisava m esm o ter todo esse trabalho só para contar seus arranj os de viagens?

O sorriso dela ficou um tanto m ais largo, no m ínim o.

– Espero que m eus hom ens não o tenham m achucado. Eu pedi para serem gentis. Pelo m enos por enquanto.

– Mas um sequestro gentil continua sendo um sequestro, não acha?

– Sequestro é um a palavra m uito pesada. Por que não pensam os nisso com o um convite difícil de resistir? Pelo m enos deixei você ficar com suas roupas, não foi?

– Esse favor específico é um a m isericórdia para nós dois, acredite. Um convite para quê, se é que posso perguntar, além de um a coação dolorosa e um a conversa breve?

– Fico m agoada ao ver que você precisa de m ais. Porém há outra coisa, j á que você m encionou – disse ela, e aparou outra lasca de unha com a tesoura antes de se voltar para ele. – Um a pequena dívida que ficou, de Dagoska. Tem o que eu não vá dorm ir tranquila enquanto ela não for paga.

Algumas semanas numa cela escura e ser sufocada até quase morrer? Que forma de pagamento isso pode me garantir?

– Por favor, então – sibilou Glokta entre dentes, as pálpebras trem ulando enquanto olhava as lâm inas da tesoura cortar e cortar. – Mal aguento o suspense.

– Os gurkenses estão vindo.

Ele parou um m om ento, perplexo.

– Estão vindo para cá?

– É. Para a Terra do Meio. Para Adua. Para você. Eles construíram um a frota em segredo. Navios capazes de rivalizar com qualquer coisa que a União possua – contou ela e, depois de j ogar a tesoura na m esa, deu um longo suspiro. – Ou pelo m enos foi o que ouvi dizer.

A frota gurkense, exatamente como meu visitante noturno, Yulwei, disse. Boatos e fantasmas, talvez. Mas boatos nem sempre são mentiras.

– Quando eles vão chegar?

– Isso eu não poderia dizer. Um a expedição dessas exige um a organização colossal. Mas, afinal de contas, os gurkenses sem pre foram m uito m ais organizados do que nós. Por isso é um prazer tão grande negociar com eles.

Meus negócios com eles não foram nada agradáveis, mas…

– Em que núm ero eles vêm ?

– Um núm ero m uito grande, im agino.

Glokta bufou.

– Desculpe se considero com certo ceticism o as palavras de um a traidora, sobretudo porque você é bastante com edida com relação aos detalhes.

– Com o quiser. Você está aqui para ser avisado, não convencido. Acho que lhe devo isso, por m e dar m inha vida.

Que coisa maravilhosamente antiquada de sua parte.

– E é só isso?

Ela abriu as m ãos.

– Um a dam a não pode aparar as unhas sem ofender?

– Você não poderia sim plesm ente ter m e escrito? – contrapôs Glokta. – E m e poupado da fricção nas axilas?

– Ora, você nunca m e pareceu um hom em que se incom odasse com um pouquinho de fricção. Além do m ais, isso nos deu a chance de renovar um a am izade m uito agradável. E você precisa m e conceder m eu pequeno m om ento de triunfo, depois do que m e fez passar.

Acho que posso. Já recebi ameaças menos encantadoras, e pelo menos ela tem mais bom gosto do que se encontrar comigo numa pocilga.

– Então posso sim plesm ente sair andando?

– Alguém trouxe a bengala?

Ninguém respondeu. Eider deu um sorriso feliz, m ostrando a Glokta seus dentes perfeitos e brancos.

– Então pode sair se arrastando. O que acha?

Melhor do que flutuar até a superfície do canal depois de alguns dias no fundo, inchado feito uma lesma grande e pálida e fedendo como todas as sepulturas da cidade.

– É o m elhor que vou conseguir, acho. Mas fico pensando: o que m e im pede de, depois de encerrarm os aqui, m andar m eus práticos seguir o cheiro do perfum e caro e term inar o que eles com eçaram ?

– É a sua cara, dizer um a coisa dessas – zom bou ela com um suspiro. – Devo lhe inform ar que um velho e confiável conhecido m eu possui um a carta selada. Caso eu m orra, ela será enviada ao arquileitor, revelando a ele a natureza exata da m inha sentença em Dagoska.

Glokta sugou azedam ente as gengivas. Exatamente do que eu preciso, outra faca para fazer malabarismo.

– E o que ocorrerá se, de um m odo totalm ente independente de m inhas ações, você sucum bir a algum a doença parasitária? Ou se um a casa desm oronar em cim a de você? Ou se você sufocar com um pedaço de pão?

Ela arregalou os olhos, com o se o pensam ento tivesse acabado de lhe ocorrer.

– Em algum desses casos… acho que… a carta seria m andada de qualquer m odo, apesar da sua inocência – ponderou ela. – O m undo não é um lugar nem de longe tão j usto quanto deveria ser, na m inha opinião, e ouso dizer que os nativos de Dagoska, os m ercenários escravizados e os soldados trucidados da União que você fez lutar por sua causa perdida concordariam – falou Carlot com um sorriso tão doce quanto se estivessem conversando sobre j ardinagem . – As coisas provavelm ente seriam m uito m ais sim ples para você se tivesse m e estrangulado, no fim das contas.

– Leu a m inha m ente. – Mas agora é tarde demais. Eu fiz uma boa ação, e por isso, claro, há um preço a pagar.

– Então diga, antes de nos separarm os de novo e, am bos esperam os, pela últim a vez: você está envolvido nesse negócio da eleição?

Glokta sentiu o olho trem elicar.

– Meus deveres parecem roçar nisso. – Na verdade, isso ocupa todas as minhas horas de vigília.

Carlot dan Eider se inclinou para a frente, a um a distância conspiratória, os cotovelos na m esa, o queixo nas m ãos.

– Quem você acha que será o próxim o rei da União? Brock? Isher? Outro?

– É um pouco cedo para dizer. Estou trabalhando nisso.

– Então pode sair m ancando – falou ela, fazendo beicinho. – E creio que sej a m elhor não m encionar nosso encontro a Sua Em inência.

Ela fez um m ovim ento de cabeça e Glokta sentiu o saco sendo colocado outra vez sobre sua cabeça.