O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 41 de 61

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O duelo dos reis

O herói de amanhã

 

OS CASCOS DO cavalo cinza de Jezal bateram obedientem ente na lam a preta. Era um anim al m agnífico, do tipo que ele sem pre sonhara cavalgar. Valia m uitos m ilhares de m arcos, não tinha dúvida. Um garanhão que poderia dar um ar de realeza a qualquer hom em que o m ontasse, por m ais indigno que fosse. Sua arm adura brilhante era do m elhor aço estiriano, com acabam ento em ouro. A capa era da seda m ais fina de Sulj uk, com barra de arm inho. O punho da espada era incrustado com diam antes e brilhava sem pre que as nuvens deixavam o sol passar. Hoj e ele havia trocado a coroa por um aro de ouro sim ples, m ais leve e bem m enos incôm odo aos pontos doloridos que ele ganhara nas têm poras.

Todos os adereços de um rei. Desde criança Jezal sonhara ser exaltado, adorado, obedecido. Agora isso tudo lhe dava vontade de vom itar. Mas o verdadeiro m otivo tam bém poderia ser o fato de ele m al ter dorm ido na noite anterior e de praticam ente não ter com ido nada de m anhã.

O lorde m arechal Varuz cavalgava à direita de Jezal e aparentava finalm ente ter cedido à idade. Parecia encolhido em seu uniform e, encurvado e com os om bros frouxos. Seus m ovim entos haviam perdido a precisão, e os olhos, o foco gélido. De algum m odo, agora ele dava a levíssim a im pressão de que não sabia o que fazer.

– A luta continua nos Arcos, Maj estade – explicava –, m as tem os apenas um espaço m ínim o por lá. Os gurkenses controlam Três Fazendas. Eles avançaram as catapultas até o canal e ontem à noite lançaram proj éteis incendiários no distrito central. Chegaram além da via do Meio. Os incêndios arderam até o am anhecer. Ainda estão queim ando, em algum as partes. Os danos foram … extensos.

Era um baita eufem ism o. Distritos inteiros da cidade tinham sido devastados pelo fogo. Quadras de prédios que Jezal recordava com o casas grandiosas, tavernas m ovim entadas, oficinas barulhentas, tudo reduzido a destroços enegrecidos. Olhar para aquilo era tão horrível quanto um a antiga am ante abrir a boca e revelar duas fileiras de dentes estragados. O fedor de fum aça, de incêndio e de m orte arranhava a garganta de Jezal e transform ava sua voz num grasnido raspado.

Um hom em coberto de cinzas e suj eira ergueu os olhos enquanto rem exia nos destroços de um a casa ainda fum egante. Olhou para Jezal e seus guardas que passavam .

– Cadê m eu filho? – berrou de repente. – Cadê m eu filho?

Jezal desviou o olhar com cautela e deu um a esporeada levíssim a no cavalo. Não precisava oferecer m ais arm as para a consciência golpeá-lo. Ela j á estava m ais do que bem arm ada.

– Mas a m uralha de Arnault continua de pé, Maj estade – falou Varuz consideravelm ente m ais alto do que o necessário, num esforço inútil para abafar os gem idos agoniados que continuavam ressoando nas ruínas atrás deles. – Nenhum soldado gurkense pôs os pés no distrito central da cidade. Nenhum .

Jezal se perguntou quanto tem po m ais conseguiriam se gabar disso.

– Recebem os algum a notícia do lorde m arechal West? – perguntou a segunda vez naquela hora, a décim a no dia.

Varuz deu a Jezal a m esm a resposta que sem dúvida ele receberia m ais dez vezes antes de cair num sono agitado aquela noite.

– Lam ento, Maj estade, m as estam os quase totalm ente isolados. As notícias chegam , m as raras vezes através do cordão de cerco gurkense. Mas houve tem pestades em Angland. Devem os encarar a possibilidade de que o exército se atrase.

– Azar – m urm urou Brem er dan Gorst do outro lado, os olhos estreitados, incansáveis, observando as ruínas em busca do m enor sinal de am eaça.

Jezal roeu com preocupação o resto salgado da unha do polegar. Nem conseguia se lem brar do últim o fiapo de notícia boa. Tem pestades. Atrasos. Parecia que até o clim a estava contra eles.

Varuz não tinha nada para m elhorar seu ânim o:

– E agora a doença irrom peu no Agriont. Um a praga rápida e im placável. Um grande núm ero de civis para quem o senhor abriu os portões sucum biu, todos ao m esm o tem po. Ela se estendeu até o próprio palácio. Dois cavaleiros do Grupo j á m orreram . Num dia estavam m ontando guarda no portão, com o sem pre. Na noite seguinte estavam nos caixões. Os corpos m urcharam , os dentes apodreceram , o cabelo caiu. Os cadáveres foram queim ados, porém m ais casos aparecem . Os m édicos j am ais viram algo parecido, não têm ideia da cura. Alguns dizem que é um a m aldição gurkense.

Jezal engoliu em seco. Levara longos séculos e o trabalho de tantos para erguer aquela cidade m agnífica, que, em apenas algum as sem anas sob seus cuidados, estava transform ada em destroços fum egantes. Grande parte de seu povo orgulhoso fora reduzida a m endigos fétidos, feridos que gritavam , enlutados que gem iam . Os que agora não eram cadáveres. Ele era o arrem edo m ais patético de rei que a União pudera gerar. Não podia trazer felicidade à própria fraude am arga de casam ento, quanto m ais a um a nação. Sua reputação era baseada em m entiras que ele não tivera coragem de negar. Ele era um zero à esquerda, im potente, sem coragem , desam parado.

– Onde estam os agora? – m urm urou ao entrarem num grande espaço varrido pelo vento.

– Ora, nos Quatro Cantos, Maj estade.

– Isso? Isso não pode…

Ele deixou a frase no ar na hora que, com o se levasse um tapa na cara, identificou o lugar. Só duas paredes do prédio que j á fora a sede da Guilda dos Mercadores de Tecidos continuavam de pé: j anelas e portas arreganhadas com o as feições pasm as de cadáveres congeladas no instante da m orte. O calçam ento onde centenas de barracas alegres costum avam ser m ontadas estava arranhado e suj o de fuligem pegaj osa. Os j ardins eram trechos de lam a e arbustos queim ados. O ar deveria estar ressoando com os gritos dos vendedores, as conversas dos serviçais, os risos das crianças. Em vez disso, tudo estava num silêncio m ortal quebrado apenas pelo vento frio nos destroços, que soprava ondas de suj eira preta no coração da cidade.

Jezal puxou as rédeas, e sua escolta de cerca de vinte cavaleiros do Grupo, cinco cavaleiros arautos, um a dúzia dos subordinados de Varuz e um ou dois pagens nervosos parou ao redor. Gorst franziu os olhos para o céu.

– Maj estade, deveríam os ir em frente. Aqui não é seguro. Não sabem os quando os gurkenses vão recom eçar o bom bardeio.

Jezal o ignorou. Desceu da sela e adentrou os destroços. Era difícil acreditar que fosse o m esm o local onde um dia ele com prara vinho, presentes, encom endara um uniform e novo. A m enos de cem passos, do outro lado de um a fileira de ruínas fum egantes, estava a estátua de Harod, o Grande, j unto à qual ele se encontrara com Ardee na escuridão no que lhe parecia cem anos antes.

Agora um grupo digno de pena estava am ontoado ali perto, nos lim ites de um j ardim pisoteado. Mulheres e crianças na m aioria, além de alguns velhos. Suj os e desanim ados, vários com m uletas ou bandagens ensanguentadas, segurando seus poucos obj etos salvos. Tinham ficado sem teto nos incêndios da noite anterior, da luta da noite anterior. A respiração de Jezal ficou presa na garganta. Ardee estava ali, sentada num a pedra, usando um vestido fino, trem endo e olhando para o chão, o cabelo escuro caído sobre m etade do rosto. Ele foi na direção dela. Devia ser a prim eira vez que sorria em sem anas.

– Ardee.

Ela se virou, os olhos arregalados, e Jezal se im obilizou. Era outra m ulher, m ais nova e consideravelm ente m enos bonita. Piscou para ele, balançando-se devagar para trás e para a frente. As m ãos dele estrem eceram sem sentido, ele m urm urou algo incoerente. Todos o olhavam . Não poderia sim plesm ente se afastar.

– Por favor, aceite isto – disse ele, e tirou m eio sem j eito a presilha de ouro da capa carm im , que estendeu para a j ovem .

Ela não disse nada ao aceitá-la, apenas olhou para Jezal. Era um gesto ridículo, sem valor, quase ofensivo por sua hipocrisia. Porém os outros civis desabrigados não pareceram pensar assim .

– Viva o rei Jezal! – gritou alguém , e um clam or estrondoso soou.

Um garoto com m uleta olhou para ele com adoração e desespero. Um soldado tinha um a bandagem ensanguentada sobre um dos olhos, o outro estava m arej ado de orgulho. Um a m ãe apertava um bebê enrolado no que parecia os restos de um a bandeira da União. Era com o se toda a cena tivesse sido cuidadosam ente m ontada para causar o m aior im pacto em ocional. Um grupo de m odelos arrum ados para um a obra vívida e bizarra sobre os horrores da guerra.

– Rei Jezal! – soou o grito outra vez, acom panhado por um fraco “Viva!”.

A adulação era com o veneno para ele. Só fazia o peso da responsabilidade aum entar m ais ainda. Jezal se virou, incapaz de m anter a im itação torta de sorriso por m ais um instante.

– O que foi que eu fiz? – sussurrou, um a das m ãos repuxando incessantem ente a outra. – O que foi que eu fiz?

Montou de novo na sela, com a culpa furando suas entranhas.

– Leve-m e m ais para perto da m uralha de Arnault.

– Maj estade, não creio que…

– Você m e ouviu! Mais perto da luta. Quero ver.

Varuz franziu a testa.

– Muito bem .

Ele virou o cavalo e guiou Jezal e seus guardas na direção dos Arcos, por rotas tão fam iliares e ao m esm o tem po tão horrivelm ente m udadas. Depois de alguns m inutos, o lorde m arechal conteve a m ontaria e apontou para um a rua deserta na direção oeste. Falou baixo, com o se estivesse preocupado com a hipótese de o inim igo escutar:

– A m uralha de Arnault não está a m ais de trezentos passos naquela direção, e os gurkenses estão concentrados do outro lado. Realm ente deveríam os dar m eia-volta…

Jezal sentiu um a vibração fraca na sela, seu cavalo se agitou, poeira caiu dos telhados das casas de um dos lados da rua.

Ia abrir a boca para perguntar o que acontecera quando o ar foi rasgado por um ruído trovej ante. Um a m uralha de som esm agadora, terrível, que deixou seus ouvidos zum bindo. Hom ens ofegaram , boquiabertos. Os cavalos se agitaram e escoicearam , os olhos se reviraram de m edo. A m ontaria de Varuz em pinou, derrubando o velho soldado da sela, sem cerim ônia.

Jezal não lhe deu atenção. Estava ocupado dem ais instigando seu cavalo na direção do estrondo, tom ado por um a curiosidade m edonha. Pequenas pedras tinham com eçado a chover, ricocheteando nos telhados e batendo na rua com o granizo. Um a grande nuvem de poeira m arrom subia no céu a oeste.

– Maj estade! – gritou Gorst, suplicante. – Precisam os voltar!

Mas Jezal não lhe deu ouvidos.

Entrou num a praça am pla, onde um a grande quantidade de entulho se espalhava no calçam ento quebrado, alguns blocos do tam anho de casas. À m edida que a poeira sufocante se acom odava num silêncio fantasm agórico, Jezal percebeu que conhecia o lugar. Conhecia bem . No lado norte ficava um a taverna que ele costum ava frequentar, m as algo havia m udado – estava m ais aberto do que antigam ente… Seu queixo caiu. Antes um longo trecho da m uralha de Arnault form ava o lim ite oeste da praça. Agora não havia nada ali além de um a cratera gigantesca.

Os gurkenses deviam ter cavado um túnel e o enchido com seu m aldito pó explosivo. O sol escolheu esse m om ento para rom per as nuvens, e Jezal pôde enxergar através da fissura escancarada, até o arruinado distrito dos Arcos. Ali, apinhado do lado oposto, descendo pela encosta de entulho, com arm aduras brilhando e lanças balançando, estava um grupo considerável de soldados gurkenses.

Os prim eiros j á vinham saindo da cratera e alcançando os destroços da praça. Alguns defensores sem iconscientes se arrastavam pela poeira, sufocando e cuspindo. Outros j á não se m exiam . Não havia ninguém para repelir os gurkenses, pelo que Jezal podia ver. Ninguém além dele. Im aginou o que Harod, o Grande, teria feito.

A resposta não era m uito difícil.

A coragem pode vir de m uitos lugares e ser feita de m uitas coisas, e o covarde de ontem pode virar o herói de am anhã num instante, se for a hora certa. A inebriante inundação de coragem que Jezal experim entou naquele m om ento consistia principalm ente de culpa e m edo e de vergonha do m edo, inchada por um a frustração im pertinente por nada ter acontecido com o ele esperava e por um a percepção súbita e vaga de que ser m orto poderia resolver um grande núm ero de problem as irritantes para os quais ele não via solução. Não eram ingredientes nobres, com certeza. Mas ninguém j am ais pergunta o que o padeiro coloca na m assa, desde que o gosto sej a bom .

Desem bainhou a espada e a ergueu à luz do sol.

– Cavaleiros do Grupo! – rugiu. – Com igo!

No desespero, Gorst segurou as rédeas dele.

– Maj estade, o senhor não pode se colocar em …

Jezal esporeou a m ontaria, que saltou adiante com um vigor inesperado, e sua cabeça foi dolorosam ente j ogada para trás, quase fazendo-o soltar as rédeas. Aprum ou-se na sela, os cascos m artelando, o pavim ento suj o voando por baixo. Tinha um a leve consciência de sua escolta seguindo-o a algum a distância, m as sua atenção estava voltada para o grupo cada vez m aior de soldados gurkenses logo adiante.

Seu cavalo o carregou com um a velocidade que abalava as entranhas, direto contra um hom em na frente dos invasores, um porta-estandarte com um m astro alto de sím bolos dourados reluzentes. Azar dele, supôs Jezal, ter recebido um a tarefa tão proem inente. Os olhos do suj eito se arregalaram quando ele viu um cavalo enorm e vindo para cim a. Jogou o estandarte longe e tentou rolar para o lado. O gum e da espada de Jezal cortou fundo seu om bro com toda a força da carga, abriu-o e atirou-o de costas. Mais hom ens, Jezal não sabia quantos, caíram gritando sob os cascos de sua m ontaria, que avançava sobre eles.

E então era tudo caos. Ele estava acim a de um a m assa de rostos escuros que rosnavam , arm aduras que brilhavam , lanças que perfuravam . Madeira estalava, m etal retinia, hom ens gritavam palavras que não dava para entender. Jezal golpeava ao redor, de um lado e depois do outro, gritando palavrões insensatos. Um a ponta de lança guinchou ao raspar em sua perna coberta pela arm adura. Ele acertou a m ão que tentava agarrar suas rédeas e dois dedos voaram longe. Algo bateu na lateral de seu corpo e quase o derrubou da sela. Sua espada afundou um elm o com um a pancada surda e derrubou o hom em que ficara em baixo na confusão de corpos.

O cavalo de Jezal soltou um relincho e em pinou, retorcendo-se. Ele sentiu um m edo terrível quando se desgarrou da sela com o m undo dando cam balhota. Bateu no chão com poeira nos olhos e na boca, tossindo e lutando. Rolou para se aj oelhar. Cascos batiam no chão partido. Botas escorregavam e pisavam . Procurou o aro de ouro que trazia na cabeça, m as ele devia ter caído em algum lugar. Com o alguém saberia que ele era rei? Ele ainda era rei? Seu cabelo estava pegaj oso. Teria sido m uito útil trazer um elm o, m as agora era um pouco tarde. Rem exeu debilm ente o entulho, virou um a pedra. Tinha esquecido o que procurava. Levantou-se cam baleante e algum a coisa agarrou seu pé e o puxou, derrubando-o de novo de cara no chão. Esperou que alguém então esm agasse sua nuca, m as tinha sido apenas seu estribo, ainda preso ao cadáver do cavalo m agnífico. Liberou a bota, ofegando, e deu dois passos trôpegos sob o peso da arm adura, com a espada pendendo da m ão frouxa.

Alguém levantou um a lâm ina curva e Jezal o acertou no peito. O hom em vom itou sangue no rosto de Jezal e caiu arrancando a espada de sua m ão. Algo bateu no peitoral de Jezal com um tinido oco e o j ogou para o lado, direto contra um soldado gurkense com um a lança. O hom em a deixou cair e os dois se agarraram , cam baleando. Jezal estava ficando terrivelm ente cansado. Sua cabeça doía. Respirar era um esforço enorm e. Agora sua ideia do ataque heroico parecia m uito ruim . Ele queria se deitar.

O soldado gurkense soltou um braço e o levantou bem alto, com um a faca em punho. A m ão foi decepada no pulso e voou com um longo j ato de sangue. O hom em com eçou a deslizar para o chão, olhando o cotoco e gem endo.

– O rei! – trinou a vozinha de m enino de Gorst. – O rei!

Sua espada longa descreveu um arco am plo e m andou para longe a cabeça do soldado que gritava. Outro saltou à frente, com um a espada curva erguida. Antes que desse um passo, a lâm ina pesada de Gorst abriu seu crânio. Um m achado bateu no om bro blindado de Gorst e ele o afastou com o se fosse um a m osca; depois, num a chuva de sangue, cortou o hom em que o havia brandido. Um quarto agressor recebeu no pescoço o golpe da espada curta e cam baleou, os olhos arregalados, a m ão ensanguentada apertando a garganta.

Jezal cam baleava para trás e para a frente, entorpecido. Quase sentia pena dos gurkenses. Eles podiam im pressionar a distância pela quantidade, m as de perto ficava evidente que esses hom ens eram auxiliares, lançados para dentro da cratera sem grandes esperanças. Eram m agros, suj os, estavam terrivelm ente desorganizados, m al arm ados e quase sem arm aduras. Muitos pareciam apavorados, percebeu. Gorst abria cam inho entre eles sem se abalar, com o um touro no m eio de um rebanho de ovelhas, rosnando enquanto suas espadas provocavam ferim entos enorm es com sons enj oativos de carne sendo cortada. Mais hom ens com arm aduras se apinhavam atrás dele, em purrando com escudos, cortando com suas espadas brilhantes, abrindo um espaço sangrento na turba gurkense.

A m ão de Gorst deslizou por baixo da axila de Jezal e o arrastou para trás, com os calcanhares chutando o entulho. Ele tinha um a vaga consciência de que havia largado a espada em algum lugar, m as agora parecia idiotice procurá-la. Algum m endigo sem dúvida receberia um prêm io inestim ável quando revirasse os escom bros, m ais tarde. Jezal viu um cavaleiro arauto ainda m ontado, um a silhueta com o elm o alado no m eio da poeira sufocante, o m achado longo cortando ao redor.

Foi m eio carregado para trás, saindo da confusão. Alguns defensores regulares da cidade haviam se reagrupado ou vinham de outras partes da m uralha. Hom ens com elm os de aço com eçaram a se aj oelhar na borda da cratera, disparando setas de besta na direção da m assa de gurkenses, todos em bolados na lam a e no entulho. Outros puxaram um a carroça e a tom baram de lado para form ar um a barreira tem porária. Um soldado gurkense soluçou ao ser aberto ao m eio, tropeçou por cim a da borda da cratera e caiu de volta na lam a. Mais bestas da União apareceram nos lim ites da praça, depois m ais lanças. Barris, pedras de alvenaria, ripas quebradas vinham com eles até que se im provisou um a barricada ao redor de toda a grande abertura na m uralha de Arnault, cheia de hom ens e arm as.

Sob um a chuva de setas e pedaços de alvenaria, os gurkenses hesitaram , depois recuaram , correndo pelo entulho até o seu lado da cratera, voltando para onde estariam em segurança e deixando o solo coberto de cadáveres.

– Para o Agriont, Maj estade – disse Gorst. – Im ediatam ente.

Jezal não fez esforço para resistir. Tinha lutado m ais do que o suficiente para um dia.

 

Algum a coisa estranha estava acontecendo na praça dos Marechais. Operários trabalhavam nas pedras do pavim ento com picaretas e cinzéis, cavando trincheiras rasas, aparentem ente ao acaso. Ferreiros suavam j unto de forj as tem porárias, ilum inados pelo brilho de m etal derretido, derram ando ferro em m oldes. A algazarra das m arretas batendo e das pedras quebrando era forte a ponto de fazer os dentes de Jezal doerem , m as de algum m odo a voz do Prim eiro dos Magos conseguia soar m ais alta ainda:

– Não! Um círculo, seu asno, daqui até lá!

– Preciso voltar ao Palácio Marcial, Maj estade – disse Varuz. – Com a brecha na m uralha de Arnault, não vai dem orar m uito até que os gurkenses tentem atravessá-la de novo. Mas eles j á estariam na via do Meio se não fosse pelo seu ataque, hein? Agora vej o com o o senhor ganhou sua reputação no ocidente! Foi a coisa m ais nobre que j á vi!

– Uh.

Jezal olhou os m ortos sendo levados. Três cavaleiros do Grupo, um dos aj udantes de Varuz e um paj em que não teria m ais de 12 anos, este últim o com a cabeça pendendo por um a tira de cartilagem . Ele havia levado três hom ens e um a criança à m orte. E isso sem contar os ferim entos que o restante de seu séquito fiel havia recebido em nom e dele. Um a coisa nobre, de fato.

– Espere aqui – ordenou subitam ente a Gorst. Depois seguiu por entre os trabalhadores suados na direção do Prim eiro dos Magos.

Ferro estava ali perto, sentada de pernas cruzadas num a fileira de barris, as m ãos pendendo, com o m esm o desprezo absoluto no rosto escuro que sem pre havia lhe ofertado. Era quase reconfortante ver que algum as coisas nunca m udavam . Bay az olhava carrancudo para as páginas de um grande livro preto evidentem ente m uito velho, com a capa de couro rachada e rasgada. Parecia m agro e pálido, velho e encolhido. Um lado do rosto estava coberto de arranhões com cascas.

– O que aconteceu com você? – perguntou Jezal.

Bay az franziu a testa, um m úsculo trem endo abaixo de um olho roxo.

– Eu poderia lhe fazer a m esm a pergunta.

Jezal notou que o m ago nem havia se incom odado em dizer um “m aj estade”. Ele encostou a m ão na bandagem ensanguentada em volta do crânio.

– Estive num com bate.

– Num o quê?

– Os gurkenses derrubaram um trecho da m uralha de Arnault quando eu fazia um a ronda pela cidade. Não havia ninguém para repeli-los, portanto… eu m esm o fiz isso.

Ficou quase surpreso ao se ouvir dizendo essas palavras. Estava longe de sentir orgulho, com certeza. Tinha feito pouco m ais do que cavalgar, cair e bater com a cabeça. Seu cavalo m orto e Brem er dan Gorst tinham sido responsáveis pela m aior parte da luta, e contra um adversário que quase não com batia. Porém supunha que pela prim eira vez tinha feito a coisa certa, se é que isso existia.

Bay az não concordou.

– Os poucos m iolos que o destino salvou para você viraram m erda?

– Viraram …?

Jezal piscou à m edida que o significado das palavras de Bay az penetravam devagar em sua consciência. “Com o você ousa, seu cagalhão velho introm etido? Está falando com um rei!” Era isso que queria dizer, m as sua cabeça latej ava e algo no rosto trêm ulo e devastado do m ago o im pediu. Em vez disso, pegou-se m urm urando num tom que era quase de desculpas:

– Mas… eu não entendo. Achei que… Não era isso que Harod, o Grande, teria feito?

– Harod? – Bay az deu um a risada de desprezo na cara de Jezal. – Harod era um covarde e um palerm a sem tam anho! Aquele idiota m al conseguia se vestir sem a m inha aj uda!

– Mas…

– É fácil achar um hom em para com andar um ataque. – O m ago pronunciou cada palavra com extrem o cuidado, com o se falasse com um retardado. – Encontrar hom ens para com andar nações é consideravelm ente m ais difícil. Não pretendo que o esforço que fiz com você sej a desperdiçado. Da próxim a vez que tiver desej o de arriscar a vida, talvez sej a m elhor se trancar na latrina. As pessoas respeitam um hom em com reputação de guerreiro, e isso você teve a sorte de receber. As pessoas não respeitam um cadáver. Aqui, não! – rugiu Bay az, passando por Jezal com passo trôpego e brandindo um braço com raiva para um ferreiro.

O coitado levou um susto, com o um coelho am edrontado, e brasas saltaram de seu cadinho.

– Eu j á disse, idiota! Você precisa seguir o desenho à risca! Fazer exatam ente com o eu m andei! Um erro pode ser m ais do que fatal!

Jezal olhou para o m ago com ultraj e, culpa e a sim ples exaustão lutando para controlar seu corpo. A exaustão venceu. Foi até os barris e se deixou cair ao lado de Ferro.

– Sua porra de Maj estade – disse ela.

Ele esfregou os olhos com o indicador e o polegar.

– Você m e honra com sua gentileza.

– Bay az não está feliz, hein?

– Parece que não.

– Bom , quando é que esse velho desgraçado fica feliz com algum a coisa?

Jezal soltou um grunhido, concordando. Percebeu que não falava com Ferro desde que fora coroado. Não que tivessem sido am igos antes, claro, m as precisava adm itir que a absoluta falta de deferência da parte dela era inesperadam ente revigorante. Era quase com o ser, por um breve m om ento, o hom em vaidoso, preguiçoso, inútil e feliz de antes. Franziu os olhos na direção de Bay az, que batia com o dedo em algum a coisa em seu livro velho.

– O que ele está aprontando, afinal?

– Salvando o m undo, pelo que m e disse.

– Ah. Isso. Ele deixou para um pouquinho tarde, não acha?

Ela deu de om bros.

– Eu não sou encarregada do tem po.

– Com o ele planej a fazer isso? Com picaretas e forj as?

Ferro o encarou. Jezal ainda achava aqueles olhos de um am arelo dem oníaco inquietantes com o sem pre.

– Dentre outras coisas.

Jezal pôs os cotovelos nos j oelhos, apoiou o queixo nas palm as das m ãos e soltou um longo suspiro. Estava m uito, m uito cansado.

– Parece que fiz a coisa errada – m urm urou.

– Rá – fez Ferro e desviou o olhar. – Você leva j eito para isso.