O duelo dos reis
Amado pela Lua
CACHORRÃO SE LEVANTOU, estreitou os olhos por causa do sol e observou os rapazes da União arrastarem os pés na direção oposta. Existe um a aparência com um aos derrotados, depois de um a luta. Movem -se devagar, encurvados, suj os de lam a, m uito interessados no chão. Cachorrão j á tinha visto m uito essa expressão antes. Ele m esm o a tivera m ais de um a vez. Triste por terem perdido. Envergonhado por terem perdido. Culpado por ter desistido sem receber um ferim ento. Cachorrão sabia com o era essa sensação e com o aquele sentim ento corroía a pessoa por dentro, m as a culpa era m enos dolorosa do que um corte de espada e se curava um pouco m ais depressa.
Parte dos feridos não estava tão m al. Com bandagens ou talas, m ancando apoiados num pedaço de pau ou com o braço em volta dos om bros de um colega. Era o bastante para receber serviço leve durante algum as sem anas. Outros não tinham tanta sorte. Cachorrão pensou ter reconhecido um . Um oficial pálido, praticam ente sem idade para ter barba, o rosto liso todo retorcido de dor e m edo, a perna decepada logo acim a do j oelho, as roupas, a m aca e os dois hom ens que o carregavam suj os de sangue. Era ele que estava sentado j unto ao portão quando Cachorrão e Três Árvores haviam chegado a Ostenhorm para se j untar à União. O que os havia olhado com o se eles fossem dois cagalhões. Não parecia m uito esperto agora, guinchando a cada m ovim ento brusco da m aca, m as isso não fez Cachorrão sorrir. Perder um a perna parecia um castigo duro dem ais por se agir com desprezo.
West estava m ais adiante, falando com um oficial que tinha um a bandagem suj a em volta da cabeça. Cachorrão não podia ouvir o que eles diziam , m as com prendia o sentido. De vez em quando um deles apontava na direção dos m orros de onde tinham vindo. Duas colinas íngrem es e de aparência m aligna, densam ente cobertas de árvores, com algum as faces duras de rocha nua aparecendo. West se virou e captou o olhar de Cachorrão, e seu rosto ficou sério com o o de um coveiro. Não era preciso ter a m ente ágil para entender que a guerra ainda não estava vencida.
– Merda – m urm urou Cachorrão, baixinho.
Tinha aquela sensação desagradável na barriga. Aquela sensação ruim que costum ava ter quando fazia o trabalho de batedor ou sem pre que Três Árvores pedia arm as ou que não havia nada além de água fria para o desj ej um . Mas desde que se tornara chefe parecia sentir isso na m aior parte do tem po. Agora tudo era problem a seu.
– Não deu certo? – perguntou.
West fez que não com a cabeça enquanto ele se aproxim ava.
– Bethod esperava por nós, e em grande núm ero. Ele se abrigou naqueles m orros. Ficou bem entocado e bem preparado, entre nós e Carleon. Provavelm ente se preparou para isso antes m esm o de atravessar a fronteira.
– Bethod sem pre gosta de estar preparado. Não há com o contornar as tropas dele?
– Kroy tentou as duas estradas e tom ou duas surras. Agora Poulder tentou os m orros de frente e levou um a pior ainda.
Cachorrão suspirou.
– Não há com o dar a volta.
– Nenhum m odo que não dê a Bethod um a bela chance de cravar a faca em nós.
– E Bethod não vai perder um a chance dessas. Vem esperando por isso.
– O lorde m arechal concorda. Ele quer que você leve seus hom ens para o norte – falou West e olhou para os m orros que se insinuavam , cinzentos, ao longe. – Quer que vocês procurem um ponto fraco. Bethod não pode cobrir toda a cordilheira.
– Não? – perguntou Cachorrão. – Acho que vam os descobrir.
Ele seguiu na direção das árvores. Os rapazes iriam adorar aquilo.
Subiu pela trilha e logo chegou aonde seu pessoal estava acam pado. O núm ero aum entava o tem po todo. Podiam ser uns quatrocentos agora e além disso era um grupo rude. Eram principalm ente hom ens que nunca haviam gostado m uito de Bethod, que haviam lutado contra ele nas guerras. E contra Cachorrão, tam bém , por sinal. As florestas estavam apinhadas do pessoal dele, sentados em volta de fogueiras, cozinhando, polindo as arm as e trabalhando nos equipam entos, dois treinando com espadas. Cachorrão estrem eceu ao ouvir o som de aço se chocando. Haveria m ais disso depois, e com resultados m ais sangrentos, não duvidava.
– Chefe! – gritavam para ele. – Cachorrão! Chefe! Ei, ei!
Bateram palm as e fizeram barulho com suas arm as nas pedras em que estavam sentados. Cachorrão levantou o punho, lhes deu um m eio sorriso e disse “certo, bom , bom ” e coisa e tal. Ainda não tinha a m enor ideia de com o parecer um chefe, para dizer a verdade, por isso sim plesm ente agia com o sem pre. Mas todo o bando parecia bastante satisfeito. Ele achava que eles sem pre pareciam . Até que com eçassem a perder lutas e decidissem que queriam um chefe novo.
Chegou à fogueira onde o grupo de seus Hom ens Nom eados passava o dia. Nenhum sinal de Logen, m as o restante do pessoal antigo estava sentado ao redor das cham as com ar entediado. Pelo m enos os que continuavam vivos. Tul o viu chegando.
– Cachorrão voltou.
– Uh – disse Sinistro, aparando algum as penas com um a navalha.
Barca Negra se ocupava de aproveitar a gordura de um a panela num pedaço de pão.
– E então, com o a União se virou nos m orros? – perguntou, e sua voz tinha um ar de desprezo que indicava que ele j á sabia a resposta. – Fizeram m erda, não foi?
– Bom , eles ficaram com o segundo lugar, se é isso que está perguntando.
– Segundo lugar com dois concorrentes é o que eu cham o de m erda.
Cachorrão respirou fundo e deixou passar.
– Bethod está bem entocado, vigiando as estradas para Carleon. Ninguém consegue ver um m odo fácil de chegar até ele, nem um m odo fácil de contorná-lo. Acho que ele estava bem preparado.
– Eu poderia ter dito isso a você! – rosnou Barca Negra, deixando escapar m igalhas gordurosas da boca. – Ele vai colocar Ossinho num dos m orros e Mecha Branca no outro e Pálido-Com o-Neve e Crendel Afiado m ais adiante. Esses quatro não vão dar nenhum a chance a ninguém , m as se os oficiais da União decidirem fazer isso, Bethod vai estar por trás deles com m ais gente e seus shankas e a porra do Tem ível, pronto para acabar com todos num instante.
– É m ais do que provável – concordou Tul, que levantou sua espada à luz, exam inou-a, depois recom eçou a polir a lâm ina. – Bethod sem pre gostou de ter um plano.
– E o que os caras que seguram nossa coleira têm a dizer? – zom bou Barca Negra. – Que tipo de trabalho o Furioso tem para seus anim ais?
– Burr quer que a gente vá um pouco para o norte, pela floresta, para verificar se Bethod deixou algum ponto fraco por lá.
– Hã – bufou Barca Negra. – Bethod não tem o hábito de deixar furos. A não ser que tenha deixado um para a gente cair. Cair e quebrar o pescoço.
– Bom , então acho m elhor a gente ter cuidado com o lugar onde pisa, não é?
– Mais tarefas de m erda.
Cachorrão achou que estava ficando quase tão irritado com as reclam ações de Barca Negra quanto Três Árvores antigam ente.
– E o que m ais seria, hein? A vida é isso m esm o. Um punhado de tarefas. Se você vale algum a m erda, se esforça ao m áxim o para cum prir. O que está incom odando tanto você, afinal?
– Isso! – rugiu Barca Negra, virando a cabeça para as árvores. – Só isso! Nada m udou tanto assim , não é? A gente podia ter atravessado o Torrente Branca e estar de volta no Norte, m as Bethod se entocou direitinho por lá, e não há j eito de a União contorná-lo sem ficar com a bunda à m ostra. E se a União tirar esses sacanas dos m orros, o que acontece? Se ela chegar a Carleon e entrar e queim ar a cidade direitinho, com o Nove Dedos fez da últim a vez? E aí? Não quer dizer nada. Bethod vai continuar, com o sem pre, lutando e recuando, e sem pre vai haver m ais m orros onde ficar e m ais truques para pôr em prática. Vai chegar a hora em que a União ficará cheia disso, vai se m andar para o sul e deixar a gente na m ão. Aí Bethod vai voltar e, sabe de um a coisa, ele é que vai perseguir a gente por toda a porra do Norte. Inverno, verão, inverno, verão, e é m ais da m esm a m erda de sem pre. Aqui estam os, em núm ero m enor do que antes, m as ainda m ij ando no m eio do m ato. Isso parece fam iliar?
Parecia um tanto, m as, agora que fora m encionado, Cachorrão não via o que poderia fazer a respeito.
– Logen voltou agora, não é? Isso vai aj udar.
Barca Negra bufou de novo.
– Rá! E quando foi que o Nove Sangrento trouxe algum a coisa que não fosse a m orte?
– Calm a aí – resm ungou Tul. – Você deve a ele, lem bra? Todos nós devem os.
– Acho que há um lim ite para o que um hom em pode dever – rebateu Barca Negra, depois j ogou sua panela perto da fogueira e se levantou, lim pando as m ãos no casaco. – Por onde ele andou, hein? Ele deixou a gente nos vales sem dizer um a palavra, não foi? Deixou a gente para os cabeças-achatadas e saiu pelo m undo! Quem garante que ele não vai em bora de novo, se achar m elhor, ou que não vai passar para o lado de Bethod ou com eçar a m atar sem m otivo ou só os m ortos sabem o que m ais?
Cachorrão olhou para Tul, e Tul olhou de volta, cheio de culpa. Todos tinham visto Logen fazer alguns trabalhos sinistros, quando estava de hum or virado.
– Isso foi há m uito tem po – argum entou Tul. – As coisas m udam .
Barca Negra apenas riu.
– Não. Não m udam . Contem essa história a vocês m esm os, se ela faz vocês dorm irem m elhor, m as eu vou continuar com um olho aberto, isso eu posso dizer! É do Nove Sangrento que estam os falando! Quem sabe o que ele vai fazer em seguida?
– Tenho um a ideia.
Cachorrão se virou e viu quem falara. Era Logen, encostado num a árvore. Cachorrão j á com eçava a sorrir para ele, m as viu a expressão em seu olhar. Um a expressão da qual se lem brava, de m uito tem po atrás, e que arrastava todo tipo de lem branças ruins. Aquela expressão que os m ortos têm , de quando a vida sum iu e eles não se im portam com m ais nada.
– Se você tem algum a coisa a dizer, acho que pode dizer na m inha cara – falou Logen.
Ele se aproxim ou até chegar perto de Barca Negra, com a cabeça m eio de lado, as cicatrizes em evidência naquele ângulo. Os pelos dos braços de Cachorrão se eriçaram e ele sentiu frio m esm o sob o sol quente.
– Qual é, Logen – adulou Tul, tentando parecer que a coisa toda era um a piada, quando estava tão claro quanto a m orte lenta que não era isso. – Barca Negra não estava falando sério. Ele só…
Logen não esperou que ele concluísse a fala. Encarando Barca Negra com olhos de cadáver o tem po todo, foi dizendo:
– Quando lhe dei a últim a lição, achei que você não precisaria de outra. Mas algum as pessoas têm m em ória curta.
Logen chegou m ais perto ainda, tão perto que os rostos dos dois quase se tocaram .
– E então? Precisa de um corretivo, garoto?
Cachorrão estrem eceu. Tinha certeza de que os dois tentariam m atar um ao outro e não tinha a m ínim a ideia de com o im pedi-los depois que com eçassem . Um m om ento de tensão absoluta que pareceu durar um a eternidade. Barca Negra não aceitaria isso de nenhum outro hom em , vivo ou m orto, nem de Três Árvores, m as no fim apenas abriu um sorriso am arelo.
– Nããã. Um a lição j á basta pra m im .
Ele virou a cabeça de lado, pigarreou e cuspiu no chão. Depois recuou, sem pressa, com aquele sorriso ainda no rosto, com o se dissesse que dessa vez aceitaria a bronca, m as que na próxim a talvez não aceitasse.
Assim que se afastou sem nenhum sangue derram ado, Tul deixou o ar sair com força dos pulm ões, com o se eles tivessem escapado im punes depois de com eter um assassinato.
– Certo, então. Para o norte, é? É m elhor alguém preparar os rapazes para andar.
– Uh – fez Sinistro, enfiando a últim a flecha na alj ava e seguindo-o por entre as árvores.
Logen ficou parado um instante, olhando-os cam inhar. Quando sum iram de vista, virou-se e se agachou perto da fogueira, com os braços apoiados nos j oelhos e as m ãos pendendo.
– Graças aos m ortos por isso. Eu quase m e caguei – falou.
Cachorrão percebeu que estivera prendendo o fôlego o tem po todo. Deixou o ar sair com um som ofegante.
– Acho que eu posso ter m e cagado, só um pouquinho. Você precisava fazer aquilo?
– Você sabe que eu precisava. Se deixar um hom em com o Barca Negra tom ar liberdades, ele não para nunca. Aí todo o resto dos rapazes vai achar que o Nove Sangrento não é nem um pouco apavorante com o ouviram dizer, e vai ser questão de tem po até que alguém ressentido decida vir com um a faca para cim a de m im .
Cachorrão balançou a cabeça.
– É um m odo duro de ver as coisas.
– É com o elas são. Não m udaram nada. Nunca m udam .
Verdade, talvez, pensou Cachorrão, m as elas não iriam m udar se ninguém desse chance.
– Mesm o assim . Você tem certeza de que tudo aquilo era necessário?
– Para você, não, talvez. Você tem algo que faz as pessoas gostarem de você – falou Logen e coçou o queixo, olhando tristem ente para a floresta. – Acho que perdi a chance de ser assim faz uns quinze anos. E não vou ter outra.
A floresta era quente e fam iliar. Pássaros piavam nos galhos, sem dar a m ínim a para Bethod, para a União ou para qualquer coisa relacionada aos hom ens. Nenhum lugar parecera tão pacífico antes, e Cachorrão não gostava disso nem um pouco. Farej ava o ar, puxando-o pelo nariz, deixando-o sobre a língua. Andava m ais cauteloso desde que aquela flecha havia aparecido e m atado Cathil na batalha. Talvez ele pudesse tê-la salvado, se confiasse um pouquinho m ais no próprio nariz. Queria ter salvado. Mas querer não aj udava em nada.
Barca Negra se agachou no m ato, observando a floresta silenciosa.
– O que foi, Cachorrão? Que cheiro você sentiu?
– De hom ens, acho, m as m eio azedo – disse e farej ou de novo. – Tem cheiro de…
Um a flecha veio voando das árvores, se fincou no tronco ao lado de Cachorrão e ficou ali, balançando.
– Merda! – guinchou ele, deslizando até cair de bunda e tirando o arco do om bro, tarde dem ais, com o sem pre.
Barca Negra deslizou para perto dele, xingando, e os dois ficaram em bolados. O m achado de Barca Negra quase furou o olho de Cachorrão, m as ele conseguiu em purrá-lo a tem po. Virou a palm a da m ão para os hom ens que vinham atrás, indicando que parassem , m as eles j á se espalhavam em busca de cobertura, arrastando-se na direção das árvores e das pedras, pegando arm as e olhando ao redor.
Um a voz veio da floresta adiante.
– Vocês estão com Bethod? – perguntou alguém em nórdico com sotaque estranho.
Barca Negra e Cachorrão se entreolharam por um m inuto, depois deram de om bros.
– Não! – rugiu Barca Negra de volta. – E, se você está, é m elhor se preparar para encontrar os m ortos!
Um a pausa.
– Não estam os com aquele desgraçado e nunca vam os estar!
– Isso é bom ! – gritou Cachorrão, levantando a cabeça não m ais do que a largura de um dedo, o arco totalm ente retesado e pronto. – Então apareçam !
Um hom em saiu de trás de um a árvore a uns seis passos de distância. Cachorrão ficou tão chocado que quase se atrapalhou com a corda e disparou a flecha. Mais hom ens com eçaram a sair da floresta ao redor. Dezenas. Tinham cabelo em aranhado, rostos m anchados com riscas de terra m arrom e tinta azul, as roupas eram de peles esfarrapadas e couro m eio curtido, m as as pontas das lanças e das flechas e as lâm inas das espadas m al forj adas brilhavam de tão lim pas.
– Hom ens das m ontanhas – m urm urou Cachorrão.
– Hom ens das m ontanhas e com m uito orgulho! – pronunciou-se um a voz forte, que ecoou na floresta.
Alguns deles com eçaram a se afastar para o lado, com o se abrissem cam inho para alguém . Cachorrão piscou. Um a criança vinha passando entre eles. Um a garota, talvez de uns 10 anos, com pés suj os e descalços. Tinha um a m arreta enorm e num om bro, um cabo grosso de m adeira com um pedaço de ferro cheio de m arcas, do tam anho de um tij olo. Grande dem ais para ela brandir. A m enina parecia ter dificuldade até m esm o em m antê-la no om bro.
Um m enino veio em seguida. Tinha um escudo redondo pendurado às costas, largo dem ais para ele, e segurava um grande m achado com as duas m ãos. Outro garoto estava ao lado, com um a lança que tinha o dobro de seu tam anho, a ponta balançando acim a da cabeça, as nesgas de sol causando um brilho dourado na lâm ina. Ele ficava olhando para cim a, para garantir que ela não se prendesse num galho.
– Estou sonhando – m urm urou Cachorrão. – Não estou?
Barca Negra franziu a testa.
– Se está, é um sonho estranho.
As três crianças não estavam sozinhas. Um desgraçado enorm e vinha atrás delas. Usava um a pele esfarrapada em volta dos om bros largos e um grande colar cuj os pingentes iam até sua grande barriga. Eram um m onte de ossos. Ossos de dedos, percebeu Cachorrão à m edida que ele chegava m ais perto. Dedos de hom ens, m isturados com pedaços de m adeira com sím bolos estranhos entalhados. Um sorriso largo, de dentes am arelos, surgia entre a barba castanha e grisalha, m as isso não deixou Cachorrão m ais à vontade.
– Ah, m erda – gem eu Barca Negra. – Vam os voltar. Vam os voltar para o sul e chega disso.
– Por quê? Você conhece ele?
Barca Negra virou a cabeça e cuspiu.
– Não é Crum m ock-i-Phail?
Cachorrão quase desej ou que aquilo fosse um a em boscada em vez de um bate-papo. Era um fato que toda criança conhecia: Crum m ock-i-Phail, chefe dos hom ens das m ontanhas, devia ser o desgraçado m ais louco de toda a porcaria do Norte.
Ele em purrou lanças e flechas gentilm ente para fora do cam inho ao se aproxim ar.
– Agora não precisam disso, não é, m inhas belezas? Som os todos am igos, ou tem os os m esm os inim igos, pelo m enos, o que é m uito m elhor, não percebem ? Mas todos tem os um m onte de inim igos nas m ontanhas, não é? A Lua sabe que eu adoro um a boa luta, m as ir atrás de um a subindo rochas enorm es, com Bethod e todos os seus lam be-cus enfiados lá em cim a? É um pouco de luta de m ais para qualquer um , hein? Até para os seus novos am igos sulistas.
Ele parou na frente dos recém -chegados, e os ossos de dedos chacoalharam sobre sua barriga. As três crianças pararam atrás, segurando com dificuldade suas arm as enorm es e franzindo a testa para Barca Negra e Cachorrão.
– Sou Crum m ock-i-Phail – apresentou-se. – Chefe de todos os hom ens das m ontanhas. Ou de todos que valem algum a m erda. – Ele riu com o se tivesse acabado de aparecer num a festa de casam ento. – E quem está no com ando dessa turm a anim ada?
Cachorrão teve aquela sensação de vazio outra vez, m as não havia o que fazer.
– Sou eu.
Crum m ock levantou as sobrancelhas para ele.
– É m esm o? Você é um suj eito pequeno para dizer a todos esses grandões o que fazer, não é? Estou pensando que você deve ter um trem endo nom e nos om bros.
– Sou Cachorrão. Este é Barca Negra.
– Você tem um pessoal estranho aí – disse Barca Negra, franzindo a testa na direção das crianças.
– Ah, é sim ! É sim ! E são m uito coraj osos! O garoto com a m inha lança é o m eu filho Scofen. O que está com m eu m achado é m eu filho Rond – disse Crum m ock e franziu a testa para a garota com a m arreta. – O nom e desse garoto eu não lem bro.
– Sou sua filha! – gritou a m enina.
– O quê, m eus filhos acabaram ?
– Scenn ficou velho dem ais e você deu um a espada para ele e Sceft ainda é pequeno dem ais para carregar qualquer coisa.
Crum m ock balançou a cabeça.
– Não parece certo um a m ulher carregar a m arreta.
A garota j ogou a m arreta no chão e deu um chute no tornozelo de Crum m ock.
– Então você m esm o pode carregar, seu velho idiota!
– Ai! – guinchou ele, rindo e esfregando a perna ao m esm o tem po. – Agora sei quem você é, Isern. Seu chute fez a lem brança voltar. Pode ficar com a m arreta, pode sim . A m enor pega a m aior carga, não é?
– Quer o m achado, papai? – ofereceu o m enino m enor, cam baleando ao erguer a arm a.
– Quer a m arreta? – ofertou a garota, pegando-a nos arbustos e dando um a om brada no irm ão para tirá-lo do cam inho.
– Não, m eus am ores, agora só preciso de palavras, e tenho um m onte delas sem a aj uda de vocês. Vão poder ver seu pai trabalhar em algum assassinato em breve, se as coisas correrem bem , m as hoj e não precisam os de m achados nem m arretas. Não viem os aqui para m atar.
– Por que vocês vieram ? – perguntou Cachorrão, m as não sabia nem m esm o se desej ava a resposta.
– Vai direto aos negócios, é, sem tem po para ser am istoso? – falou Crum m ock, que esticou o pescoço de lado, com os braços acim a da cabeça e em seguida levantou um dos pés e o sacudiu. – Eu vim porque acordei no m eio da noite e andei na escuridão e a Lua sussurrou para m im . Na floresta, sabe? Nas árvores e nas vozes das coruj as nas árvores, e sabe o que a Lua disse?
– Que você é m aluco para cacete? – resm ungou Barca Negra.
Crum m ock bateu na coxa enorm e.
– Você tem um m odo bonito de falar, para um hom em feio, Barca Negra, m as não. A Lua disse… – Ele cham ou Cachorrão com um gesto, com o se tivesse um segredo a com partilhar. –… que vocês estão com o Nove Sangrento aqui.
– E se estiverem ?
Era Logen que chegava silencioso de trás, com a m ão esquerda pousada na espada. Tul e Sinistro vinham j unto e franziram a testa para os m ontanheses de cara pintada e as três crianças suj as, m as principalm ente para o pai enorm e.
– Ali está ele! – rugiu Crum m ock, balançando um dedo do tam anho de um a linguiça. – Tire a m ão dessa espada, Nove Sangrento, antes que eu m ij e nas calças!
Crum m ock se deixou cair de j oelhos na terra.
– É ele! É ele m esm o! – berrou e em seguida se arrastou pelo m ato baixo e se agarrou à perna de Logen, com o um cão j unto ao dono.
Logen o encarou.
– Solte a m inha perna.
– Vou soltar!
Crum m ock deu um repelão para trás e caiu com a bunda gorda no chão.
Cachorrão nunca vira um com portam ento daqueles. Parecia que os boatos sobre o suj eito ser m aluco eram verdade.
– Sabe de um a coisa ótim a, Nove Sangrento?
– Mais de um a, por sinal.
– Então aqui vai outra. Eu vi você lutar contra Sham a Sem Coração. Vi você abrir ele feito um pom bo na panela, e m eu próprio ser abençoado não faria m elhor. Um a coisa linda de ver!
Cachorrão franziu a testa. Ele tam bém estivera lá, e não se lem brava de m uita beleza naquilo.
– Então eu disse… – Crum m ock se aj oelhou de novo. –… e venho dizendo desde então… – Ficou de pé. –… e disse quando desci das m ontanhas para procurar vocês – E levantou o braço para apontar para Logen. –… que você é um hom em m ais am ado pela Lua do que qualquer outro!
Cachorrão olhou para Logen, que deu de om bros.
– Quem pode dizer do que a Lua gosta ou não gosta? E daí?
– E daí, ele disse! Rá! Eu poderia vê-lo m atar o m undo inteiro e seria um a coisa linda! E daí que eu tenho um plano. Ele brotou j unto com as fontes frias em baixo das m ontanhas e foi carregado pelos riachos em baixo das pedras e derram ado na m argem do lago sagrado bem perto de m im , quando eu estava enfiando os dedos dos pés na água gelada.
Logen coçou o queixo cheio de cicatrizes.
– Nós tem os trabalho a fazer, Crum m ock. Se vai dizer algo que valha a pena, pode ir direto ao ponto.
– Então vou. Bethod m e odeia, e o sentim ento é m útuo, m as ele odeia você m ais ainda. Porque você se levantou contra ele e é a prova viva de que um hom em do Norte pode ser dono de si, sem se aj oelhar e lam ber o cu daquele desgraçado de chapéu de ouro, de seus dois filhos gordos e de sua bruxa – disse e franziu a testa. – Se bem que eu poderia ser convencido a levar m inha língua até ela. Está seguindo m eu raciocínio até aqui?
– Estou – respondeu Logen, m as Cachorrão não tinha tanta certeza disso.
– Se você ficar para trás, é só assobiar que eu volto logo. Quero dizer o seguinte: se Bethod tivesse um a boa chance de pegar você sozinho, longe dos seus am igos da União, aqueles am antes do tem po ensolarado que se arrastam feito form igas lá em baixo, então, bem , talvez ele abrisse m ão de m uita coisa para fazer isso. Ele poderia ser convencido a descer dos seus m orros bonitos em troca de um a chance dessas, e eu fiquei pensando: hum m m m ?
– Você está apostando que ele m e odeia um bocado.
– O quê? Duvida que alguém possa odiar você tanto assim ?
Crum m ock se virou, abrindo os braços enorm es e longos na direção de Tul e Sinistro.
– Mas não é só você, Nove Sangrento! São todos vocês, e eu tam bém , e m eus três filhos hom ens aqui!
A garota j ogou a m arreta no chão de novo e plantou as m ãos no quadril, m as Crum m ock a ignorou e apenas continuou falando:
– Fiquei pensando: seus garotos podem se j untar aos m eus garotos e podem ser um as boas oitocentas lanças. Seguim os para o norte, com o se fôssem os para os Lugares Altos, para passar por trás de Bethod e nos divertir pelas costas dele. Fiquei pensando que isso vai acender o sangue daquele desgraçado. Fiquei pensando que ele não vai deixar passar um a chance de m andar todos nós de volta à lam a.
Cachorrão pensou nisso. Era provável que m uitos hom ens de Bethod estivessem nervosos agora. Preocupados com a possibilidade de estarem lutando do lado errado do Torrente Branca. Talvez ouvissem dizer que o Nove Sangrento estava de volta e pensassem que haviam escolhido o lado errado. Bethod adoraria colocar algum as cabeças em pontas de lanças para todo m undo ver: Nove Dedos, Crum m ock-i-Phail, Tul Duru e Barca Negra, e talvez até Cachorrão tam bém . Bethod gostaria disso, gostaria sim . Para m ostrar ao Norte que não havia futuro em nada que não fosse ele. Gostaria um bocado.
– Supondo que a gente vá para o norte – com eçou Cachorrão –, com o Bethod vai saber disso?
Crum m ock deu um sorriso m ais largo do que nunca.
– Ah, ele vai saber porque a bruxa dele vai saber.
– Bruxa desgraçada – trinou o garoto com a lança, os braços finos trem endo enquanto ele lutava para m antê-la de pé.
– Aquela feiticeira de cara pintada que Bethod m antém . Ou será que ela é que m antém Bethod? É um a questão a se pensar. De qualquer m odo, ela está vigiando. Não está, Nove Sangrento?
– Sei de quem você está falando – disse Logen, não parecendo feliz. – Caurib. Um am igo m eu disse um a vez que ela tem o olho longo.
Cachorrão não fazia a m enor ideia do que fosse tudo isso, m as, se Logen acreditava, ele achou m elhor acreditar tam bém .
– Olho longo, é? – Crum m ock riu. – Seu am igo tem um nom e bonito para um truque feio. Ela vê todo tipo de acontecim entos. Todo tipo de coisa que seria m elhor, para nós, se ela não visse. Bethod confia nos olhos dela m ais do que nos dele hoj e em dia e vai colocar a m ulher para vigiar a gente, você em particular. Ela vai estar com os dois olhos longos abertos para isso, vai sim . Eu posso não ser m ago – Ele girou um dos sím bolos entalhados em m adeira em seu colar –, m as a Lua sabe que tam bém não sou alheio a esse tipo de coisa.
– E se for com o você diz? – trovej ou Tul. – O que acontece? Além de darm os nossas cabeças a Bethod?
– Ah, eu gosto da m inha cabeça onde ela está, garotão. A gente atrai ele, sem pre para o norte, foi o que a floresta m e disse. Tem um lugar nas m ontanhas, um lugar am ado pela Lua. Um vale forte, vigiado pelos m ortos da m inha fam ília e pelos m ortos do m eu povo e pelos m ortos das m ontanhas, voltando gerações até quando o m undo foi feito.
Cachorrão coçou a cabeça.
– Um a fortaleza nas m ontanhas?
– Um lugar forte, alto. Alto e forte o bastante para uns poucos segurarem uns m uitos até a chegada de aj uda. Nós o atraím os para o vale e seus am igos da União vão atrás, a um a boa distância. Longe o bastante para a bruxa não ver que estão chegando, de tão ocupada que estiver vigiando a gente, e… – Ele bateu palm as com um estalo que provocou ecos. –… nós esm agam os ele entre nós, aquele desgraçado trepador de ovelhas!
– Trepador de ovelhas! – xingou a garota, chutando a m arreta que estava no chão.
Todos se entreolharam por um m om ento. Cachorrão não gostava m uito do plano. Não gostava m uito da ideia de sua vida depender do que aquele m ontanhês m aluco dizia. Mas parecia um a espécie de oportunidade. Razoável o bastante para que ele não pudesse recusar, por m ais que desej asse.
– Precisam os conversar sobre isso.
– Claro que precisam , m eus novos m elhores am igos, claro que precisam . Mas não dem orem m uito, hein? – falou Crum m ock com um sorriso largo. – Desci dos Lugares Altos há m uito tem po, e o resto dos m eus lindos filhos e das m inhas lindas m ulheres e as próprias m ontanhas lindas devem estar sentindo m inha falta. Pensem no lado fácil disso. Se Bethod não for atrás, vocês vão ter algum as noites para descansar nos Lugares Altos enquanto o verão m orre, esquentando-se j unto à m inha fogueira e ouvindo m inhas canções, olhando o sol descer sobre as m ontanhas. Parece m uito ruim ? Parece?
– Vocês estão pensando em ouvir aquele m aluco? – m urm urou Tul assim que chegaram a um ponto onde não poderiam ser ouvidos. – Bruxas e m agos e todo esse lixo m aldito? Ele vai inventando enquanto fala!
Logen coçou o rosto.
– Ele não é tão m aluco com o parece, nem um pouco. Ele se sustentou contra Bethod todos esses anos. Foi o único. Já faz doze invernos, não é?, que ele está escondido e atacando e m antendo-se um passo à frente. Nas m ontanhas, talvez, m as m esm o assim . Ele tem que ser escorregadio feito um peixe e forte feito ferro para conseguir isso.
– Então você confia nele? – perguntou Cachorrão.
– Confiar? – bufou Logen. – Merda, não. Mas a rixa dele com Bethod é m ais profunda ainda do que a nossa. Ele está certo com relação à tal bruxa, eu a vi, e vi outras coisas nesse ano que passou… Se ele diz que ela vai ver a gente, acho que acredito. Se ela não vir e Bethod não for, bem , não perdem os nada, não é?
Cachorrão tinha aquela sensação de vazio, pior do que nunca. Olhou para Crum m ock, que estava sentado num a pedra com os filhos ao redor, e o louco sorriu para ele com um bocado de dentes am arelos. Nem de longe era o tipo de hom em em quem se gostaria de colocar todas as esperanças, m as Cachorrão sentia o vento m udando.
– Vam os correr um risco desgraçado – m urm urou. – E se Bethod alcançar a gente e se sair m elhor?
– Então a gente se m ove depressa, não é? – rosnou Barca Negra. – É um a guerra. É preciso correr riscos se quiser ganhar!
– Uh – disse Sinistro.
Tul assentiu com a cabeçorra.
– Precisam os fazer algum a coisa. Eu não vim aqui para olhar Bethod sentado num m orro. Ele precisa ser tirado de lá.
– Levado para onde a gente possa dar um j eito nele! – sibilou Barca Negra.
– Mas a escolha é sua – em endou Logen, batendo no om bro de Cachorrão. – Você é o chefe.
Ele era o chefe. Lem brou-se deles decidindo isso, em volta da sepultura de Três Árvores. Cachorrão precisava adm itir: preferiria m andar Crum m ock se foder, depois dar m eia-volta e dizer a West que não encontraram nada a não ser m ata. Mas, quando a gente recebe um a tarefa, cum pre. Era o que Três Árvores diria. Cachorrão soltou um longo suspiro, com aquela sensação borbulhando tão forte nas entranhas que ele estava a ponto de vom itar.
– Certo. Mas esse plano só vai fazer a gente m orrer, a não ser que a União estej a pronta para cum prir com a parte dela e na hora certa. Vam os falar com o Furioso e dizer o que pensam os ao chefe deles, Burr.
– Furioso? – perguntou Logen.
Tul riu.
– É um a longa história.