O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 26 de 61

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O duelo dos reis

O casal perfeito

 

UM DOS INÚMEROS lacaios de Jezal se em poleirou na escada portátil e, concentrado, baixou a coroa com precisão em sua cabeça, o único diam ante enorm e relam pej ando de form a inestim ável e lum inosa. Torceu-a ligeiram ente para trás e para a frente, fazendo a borda com acabam ento de pele se fixar no crânio de Jezal. Desceu, afastou a escada e exam inou o resultado. O m esm o fez m eia dúzia de seus colegas. Um aj eitou o posicionam ento preciso da m anga bordada a ouro. Outro fez um a careta e espanou um grão de poeira infinitesim al em seu colarinho de um branco puro.

– Muito bom – disse Bay az, assentindo pensativo. – Acredito que você estej a pronto para o casam ento.

O curioso, agora que Jezal tinha um raro instante para pensar, era que ele não havia concordado em se casar, de nenhum m odo do qual tivesse consciência. Não tinha feito nem aceitado um pedido. Nunca dissera “sim ” de verdade a nada. No entanto ali estava, preparando-se para se unir em m atrim ônio dentro de algum as poucas horas com um a m ulher que ele m al conhecia. Não lhe escapara que, para terem sido feitos tão depressa, os arranj os deviam estar bem encam inhados antes m esm o que lhe sugerissem a ideia. Talvez antes m esm o que Jezal fosse coroado… Mas supôs que isso não era tão surpreendente. Desde sua ascensão ao trono, ele fora carregado, im potente, de um evento incom preensível a outro, com o um náufrago lutando para m anter a cabeça acim a d’água, sem enxergar terra, arrastado não sabia para onde por correntes invisíveis e irresistíveis. Porém consideravelm ente m ais bem -vestido.

Aos poucos com eçava a perceber que quanto m ais poderoso um hom em se tornava, m enos opções tinha de verdade. O capitão Jezal dan Luthar podia com er o que quisesse, dorm ir quando bem entendesse, ver quem escolhesse. Sua Augusta Maj estade, o rei Jezal I, por outro lado, era preso pelas correntes invisíveis de tradição, expectativa e responsabilidade, que prescreviam cada aspecto de sua existência, por m enor que fosse.

Bay az deu um passo adiante, observando.

– Talvez o botão de cim a devesse ficar aberto aqui…

Jezal deu um repelão, um tanto irritado. A atenção do m ago a cada detalhe m inúsculo de sua vida estava se tornando m ais do que cansativa. Parecia que ele m al podia usar a latrina sem que o velho desgraçado exam inasse o resultado.

– Eu sei abotoar um casaco! – disse com rispidez. – Será que devo esperar encontrar você aqui esta noite, quando eu levar m inha esposa para o quarto, pronto para m e instruir sobre qual é o m elhor m odo de usar m eu pau?

Os lacaios tossiram , desviaram o olhar e arrastaram os pés para os cantos da sala. Já Bay az não sorriu nem franziu a testa.

– Estou sem pre pronto a aconselhar Vossa Maj estade, m as esperava que esse assunto o senhor pudesse resolver sozinho.

 

– Espero que você estej a preparado para nossa pequena saída. Estive m e preparando durante toda a m anh… – Ardee se im obilizou quando levantou os olhos e viu o rosto de Glokta. – O que aconteceu com você?

– O quê, isso? – Ele balançou a m ão indicando a m assa variada de hem atom as. – Um a m ulher de Kanta invadiu m inha casa à noite, m e deu um a sequência de socos e quase m e afogou na banheira. – Uma experiência que eu não recomendaria.

Ardee não acreditou.

– O que aconteceu de verdade?

– Caí da escada.

– Ah. Escada. Elas podem ser brutais quando você não está com os pés m uito firm es.

Ela olhou para a taça pela m etade, os olhos ligeiram ente nublados.

– Você está bêbada?

– É de tarde, não é? Eu sem pre tento estar bêbada neste horário. Quando a gente com eça um a tarefa, deve se esforçar ao m áxim o para concluí-la. Pelo m enos era o que m eu pai gostava de m e dizer.

Glokta estreitou os olhos para ela, e Ardee o encarou por cim a da borda da taça. Sem lábio trêmulo, sem rosto trágico, sem riscas de lágrimas amargas escorrendo pelas faces. Ela não parecia menos feliz do que o usual. Ou não mais infeliz, talvez. Mas o dia do casamento de Jezal dan Luthar não pode ser uma ocasião de júbilo para ela. Ninguém gosta de levar um fora, não importam as circunstâncias. Ninguém gosta de ser abandonado.

– Não precisam os ir, sabe? – Glokta estrem eceu quando tentou, sem sucesso, alongar um pouco e m over a perna devastada, e o próprio trem or provocou um a ondulação de dor pelos lábios cortados e pelo rosto espancado. – Certam ente não vou reclam ar se não tiver que dar m ais nenhum passo hoj e. Podem os ficar sentados aqui e conversar sobre bobagens e política.

– E perder o casam ento do rei? – ofegou Ardee, um a das m ãos no peito num horror fingido. – Mas eu preciso m esm o ver o que a princesa Terez vai usar! Dizem que é a m ulher m ais linda do m undo, e até um lixo com o eu deve ter alguém para adm irar. – Inclinou a cabeça para trás e engoliu o resto do vinho. – Ter trepado com o noivo não é desculpa para perder um casam ento, sabe?

 

A nau capitânia do grão-duque Orso de Talins avançava devagar, deliberada e m aj estosam ente, usando não m ais do que um quarto do velam e, com um bando de aves m arinhas batendo asas e gritando no céu de um azul intenso. Era de longe o m aior navio em que Jezal, ou qualquer um no m eio da enorm e m ultidão enfileirada no cais e apinhada nos telhados e j anelas dos prédios j unto ao m ar, j á havia posto os olhos.

Estava enfeitada com os adornos m ais finos: flâm ulas coloridas balançavam no cordam e e os três m astros enorm es tinham bandeiras vistosas, a cruz negra de Talins e o sol dourado da União lado a lado em honra da ocasião feliz. Mas nem por isso parecia m enos am eaçadora. Era com o Logen Nove Dedos poderia ficar, se usasse um casaco de dândi. Ainda era inconfundivelm ente um navio de guerra, e parecia m ais selvagem ainda com os enfeites espalhafatosos que o deixavam tão claram ente desconfortável. Sendo o m eio de transporte de um a única m ulher a Adua, e essa m ulher sendo a noiva de Jezal, essa em barcação poderosa não era nem um pouco tranquilizadora. Sugeria que o grão-duque Orso podia ser um a presença intim idante no papel de sogro.

Agora Jezal via m arinheiros percorrerem as m iríades de cordas com o form igas num arbusto, içando m etros e m ais m etros de velas com velocidade e precisão. Deixaram o navio portentoso avançar sob seu próprio ím peto, com a som bra enorm e caindo sobre o cais e m ergulhando m etade do grupo de recepção no escuro. Dim inuiu a velocidade, com o ar cheio dos estalos de m adeiras e cordas. Quando parou, fez com que os outros barcos atracados parecessem anões hum ildes, com o a presença de um tigre faria em com paração a um bando de gatinhos. A estátua dourada que ornava a proa, um a m ulher com o dobro do tam anho norm al que erguia um a lança na direção do céu, brilhava am eaçadora m uito acim a da cabeça de Jezal.

Um desem barcadouro enorm e fora construído especialm ente para o ocasião, no m eio do cais, no seu ponto m ais fundo. Por essa ram pa suave o grupo real de Talins desceu para Adua, com o visitantes de um a estrela rem ota onde todo m undo era rico, lindo e obviam ente feliz.

De cada lado m archava um a fileira de guardas barbudos, todos de uniform es pretos idênticos, os elm os polidos até refletirem a luz com o um espelho. Entre eles, em duas fileiras de seis, vinha um a dúzia de dam as de com panhia vestidas com sedas verm elhas, azuis ou de um púrpura vívido, todas tão esplêndidas quanto rainhas.

Mas ninguém na m ultidão m aravilhada à beira d’água poderia ter dúvida de quem era o centro das atenções. A princesa Terez deslizava à frente: alta, esguia, im possivelm ente régia, graciosa com o um a dançarina de circo e im ponente com o um a im peratriz de lenda. Seu vestido de um branco puro era bordado com ouro brilhante, o cabelo reluzente era da cor de bronze polido, um a corrente de diam antes espantosos cintilava e faiscava no peito claro, ao sol forte. Nesse m om ento, “Joia de Talins” era um nom e realm ente adequado. Terez parecia tão pura e ofuscante, orgulhosa e brilhante, dura e linda quanto um a pedra preciosa sem j aça.

Quando seus pés tocaram as pedras, a m ultidão irrom peu em gritos e aplausos, e pétalas de flores com eçaram a cair em cascatas das j anelas dos prédios. E foi assim que ela avançou até Jezal, com dignidade m agnífica, a cabeça im periosam ente erguida, as m ãos cruzadas com orgulho diante do corpo, sobre um tapete m acio e através de um a névoa perfum ada, rosa e verm elha.

Cham ar isso de entrada de tirar o fôlego seria um eufem ism o de nível épico.

– Vossa Augusta Maj estade – m urm urou ela, de algum m odo conseguindo fazer com que ele se sentisse hum ilde, enquanto fazia um a reverência.

Atrás dela, as dam as a acom panharam e os guardas se curvaram , todos com coordenação im pecável.

– Meu pai, o grão-duque Orso de Talins, m anda suas desculpas profundas – ela se levantou, perfeitam ente ereta de novo, com o se erguida por fios invisíveis –, m as questões urgentes na Estíria o im pedem de com parecer ao nosso casam ento.

– Você é tudo de que precisam os – grasnou Jezal, xingando-se em silêncio um instante depois, ao perceber que havia ignorado a form a adequada de se dirigir a ela.

Era difícil pensar com clareza, naquelas circunstâncias. Terez era ainda m ais im pressionante agora do que quando ele a vira pela últim a vez, fazia um ano ou m ais, discutindo furiosam ente com o príncipe Ladisla na festa oferecida em sua hom enagem . Lem brar os berros m alignos dela não o encoraj ava m uito, m as Jezal tam bém não ficaria em polgado com a perspectiva de se casar com Ladisla. Afinal de contas, o suj eito era um com pleto im becil. Jezal era um tipo de pessoa totalm ente diferente, e sem dúvida podia receber um a reação diferente. Pelo m enos esperava.

– Por favor, Alteza – disse, e estendeu a m ão para ela.

Ela pousou sua na dele, parecendo pesar m enos do que um a pena.

– Vossa Maj estade m e honra dem ais.

Os cascos dos cavalos cinza ressoaram no pavim ento, as rodas da carruagem chiaram suaves. Eles partiram pela via do Rei, cercados e protegidos por um destacam ento m ontado de cavaleiros do Grupo com arm as e arm aduras reluzentes, a grande avenida ladeada por plebeus apreciando, todas as portas e j anelas preenchidas por súditos sorridentes. Todos estavam ali para aplaudir o novo rei e a m ulher que logo seria a rainha.

Jezal estava ciente de que devia parecer um idiota ao lado dela. Um pateta desaj eitado, m alnascido, m al-educado, que não tinha o m enor direito de estar na m esm a carruagem que a princesa – a não ser, talvez, que ela o estivesse usando com o descanso para os pés. Jam ais na vida se sentira realm ente inferior, antes disso. Mal podia acreditar que se casaria com aquela m ulher. Hoj e. Suas m ãos trem iam . Sem som bra de dúvidas trem iam . Talvez algum as palavras sinceras pudessem aj udar os dois a relaxar.

– Terez…

Ela continuou a acenar im periosam ente para a m ultidão.

– Sei que… não nos conhecem os nem um pouco, m as… eu gostaria de conhecê-la.

Um trem or levíssim o na boca foi o único sinal de que ela o ouvira.

– Sei que deve ter sido um choque terrível para você, com o foi para m im . Espero, se há algo que eu possa fazer… para tornar a situação m ais fácil, que…

– Meu pai acha que os interesses de m eu país são bem atendidos por esse casam ento, e o dever de um a filha é obedecer. Nós, que nascem os em situação elevada, som os preparados desde cedo para fazer sacrifícios.

Sua cabeça perfeita girou suavem ente no pescoço perfeito e ela sorriu. Um sorriso um pouco forçado, talvez, m as nem por isso m enos radiante. Era difícil acreditar que um rosto tão liso e im pecável fosse feito de carne, com o o de todo m undo. Parecia porcelana ou pedra polida. Era um deleite constante, m ágico, vê-lo se m over. Im aginou se os lábios dela seriam frios ou quentes. Queria m uito descobrir. Ela se inclinou para perto e pôs a m ão com suavidade em cim a da dele. Quente, sem dúvida era quente, e m acia, e m uito feita de carne.

– Você precisa acenar – m urm urou ela, a voz cheia de canto estiriano.

– É, é – grasnou ele, com a boca m uito seca. – É claro.

 

Glokta estava de pé, com Ardee ao lado, e franziu a testa para a rotunda dos Lordes. Para além daquelas portas altíssim as, no grande salão circular, a cerim ônia acontecia. Oh, dia jubiloso! As sábias exortações do j uiz suprem o Marovia ecoariam na cúpula dourada, o casal feliz faria seus votos solenes de coração leve. Só uns poucos sortudos tiveram perm issão de testem unhar. O restante de nós deve prestar sua adoração de longe. E um a baita m ultidão havia se reunido exatam ente para isso. A am pla praça dos Marechais estava apinhada. Os ouvidos de Glokta se enchiam com a tagarelice em polgada. Uma multidão de puxa-sacos, todos ansiosos para que Suas Majestades Divinas apareçam.

Ele se balançava im paciente para a frente e para trás, de um lado para outro, fazendo careta e sibilando, tentando fazer o sangue correr nas pernas doloridas, acalm ar as cãibras. Mas ficar parado por tanto tempo é, para dizer de modo simples, uma tortura.

– Quanto tem po um casam ento pode dem orar?

Ardee levantou um a sobrancelha.

– Talvez eles não tenham conseguido m anter as m ãos longe um do outro e estej am ocupados consum ando o m atrim ônio ali m esm o, no chão da rotunda dos Lordes.

– Quanto tem po um a porcaria de consum ação pode dem orar?

– Apoie-se em m im , se for preciso – disse ela, estendendo o cotovelo.

– O aleij ado usando a bêbada com o apoio? – Glokta franziu a testa. – Form am os um casal e tanto.

– Caia, se preferir, e perca o resto dos dentes. Não vou deixar de dorm ir por causa disso.

Talvez eu deva aceitar a oferta, nem que seja por um momento. Afinal de contas, qual mal há? Mas então os prim eiros gritos agudos com eçaram a surgir, logo seguidos por outros e m ais outros, até que um rugido de j úbilo ondulou pelo ar. As portas da rotunda dos Lordes foram por fim abertas e, de m ãos dadas, o rei suprem o e a rainha da União saíram ao sol forte.

Até Glokta foi obrigado a adm itir que eles form avam um par deslum brante. Com o m onarcas de m ito, estavam vestidos de branco ofuscante, com acabam ento de bordados cheios de brilho, sóis dourados nas costas do vestido longo de Terez e na capa com prida dele, que cintilavam quando se viravam para a m ultidão. Am bos altos, esguios e graciosos, cada qual coroado com ouro brilhante e um único diam ante luzidio. Ambos tão jovens, e tão lindos, e com a vida inteira – feliz, rica e poderosa – pela frente. Urra! Urra para eles! Meu coração, esse cagalhão encolhido, explode de júbilo sem fim!

Glokta apoiou a m ão no cotovelo de Ardee, se inclinou na direção dela e deu seu sorriso m ais retorcido, banguela e grotesco.

– É m esm o verdade que o nosso rei é m ais bonito do que eu?

– Que bobagem ofensiva! – Ela im peliu o peito adiante e sacudiu a cabeça, dando a Glokta um a expressão de desprezo esm agador por cim a do nariz. – E eu brilho m ais do que a Joia de Talins!

– Ah, brilha, m inha cara, sem dúvida. Nós fazem os com que eles pareçam m endigos!

– Pareçam lixo.

– Pareçam aleij ados.

Os dois riram j untos enquanto o casal real passava m aj estosam ente pela praça, acom panhado por vinte atentos cavaleiros do Grupo. O Conselho Fechado ia atrás, a um a distância respeitosa, onze velhos im ponentes com Bay az no m eio, usando suas roupas de m ago, com um sorriso quase tão largo quanto o do próprio casal glorioso.

– Eu nem gostava dele – m urm urou Ardee baixinho –, para com eço de conversa. De verdade, não.

Nisso, certamente, somos dois.

– Não precisa chorar. Você é inteligente dem ais para se satisfazer com um pateta feito ele.

Ela inspirou com força.

– Sei que você está certo. Mas eu estava tão entediada, solitária, cansada! – E bêbada, sem dúvida. Ela deu de om bros, im potente. – Ele fazia com que eu m e sentisse algo m ais do que um fardo. Ele fazia com que eu m e sentisse… desej ada.

E o que faz você supor que eu quero saber disso?

– Desej ada, você diz? Que m aravilhoso. E agora?

Ela olhou para o chão, sofrendo, e Glokta sentiu apenas um traço levíssim o de culpa. Mas a culpa só dói quando não há mais nada com que se preocupar.

– Nem era am or verdadeiro – continuou Ardee, e Glokta viu os finos tendões no pescoço dela se m ovendo enquanto ela engolia em seco. – Mas de algum m odo sem pre achei que seria eu a abandoná-lo.

– Hum . – Como é raro que um de nós receba o que espera!

O grupo real foi se afastando, com os últim os cortesãos em esplendor e guarda-costas reluzentes pisando firm e atrás deles, o som dos aplausos fascinados seguindo na direção do palácio. Na direção de seu futuro glorioso, e nós, segredos cheios de culpa, não somos convidados.

– Cá estam os – m urm urou Ardee. – Os elim inados.

– As sobras desventuradas.

– As plantas podres.

– Eu não m e preocuparia com m uita coisa. – Glokta deu um suspiro. – Você ainda é j ovem , é inteligente e tem um a beleza passável.

– É um elogio épico, sem dúvida.

– Você tem todos os dentes e as duas pernas. Um a vantagem nítida sobre algum as pessoas. Não duvido que ainda vá agarrar outro idiota bem -nascido, e nenhum m al terá sido feito.

Ardee lhe virou as costas e deu de om bros, e ele supôs que ela estivesse m ordendo o lábio. Ele se encolheu e levantou a m ão para pôr em seu om bro… A mesma mão que cortou em fatias os dedos de Sepp dan Teufel, que arrancou os mamilos do inquisidor Harker, que fez um emissário gurkense em pedacinhos e queimou outro, que mandou homens inocentes apodrecer em Angland, e assim por diante… Puxou a m ão de volta e a deixou pender. Melhor chorar todas as lágrimas do mundo do que ser tocado por essa mão. O conforto vem de outras fontes e corre para outros destinos. Franziu a testa para o outro lado da praça e deixou Ardee com seu sofrim ento.

A m ultidão continuava a com em orar.

 

Foi um acontecim ento m agnífico, claro. Nenhum esforço ou despesa foi poupado. Jezal não ficaria nem um pouco surpreso se lhe contassem que havia quinhentos convidados ali – e ele não poderia dizer que conhecia m ais de um a dúzia deles o suficiente. Os lordes e as dam as da União. Os grandes hom ens dos conselhos Fechado e Aberto. Os m ais ricos e poderosos, vestidos com seus m elhores traj es e exibindo seu m elhor com portam ento.

O salão dos Espelhos era um local adequado. A câm ara m ais espetacular de todo o palácio, grande com o um cam po de batalha e parecendo m aior ainda devido aos grandes espelhos que cobriam cada parede, criando a im pressão desconcertante de haver dezenas de outros casam entos m agníficos, em dezenas de salões de baile adj acentes. Um a infinidade de velas bruxuleava nas m esas, nos candelabros de parede e nos lustres de cristal lá no alto. Sua luz suave brilhava na prataria, reluzia nas j oias dos convidados e era refletida de volta nas paredes escuras, reluzindo até a distância: um m ilhão de pontos de luz, com o as estrelas num céu noturno. Um a dúzia dos m elhores m úsicos da União tocava m elodias sutis e inebriantes, que se m isturavam com os sons de conversas satisfeitas, com o tilintar e o chacoalhar de dinheiro antigo e talheres novos.

A festa era puro j úbilo. A noite m ais m arcante de toda a vida. Para os convidados.

Para Jezal era outra coisa, e ele não tinha certeza do quê. Estava sentado a um a m esa dourada com sua rainha ao lado, cada qual cercado por dez serviçais solícitos e expostos a todos os presentes com o se fossem um par de caros anim ais de zoológico. Jezal perm anecia num a névoa de inadequação, num silêncio onírico, e se assustava com o um coelho de tem pos em tem pos, quando um lacaio em poado servia algo em seu prato. Terez se sentara à sua direita e ocasionalm ente fisgava um bocado m inúsculo de com ida com um garfo m eticuloso, levantava-o, m astigava, engolia com precisão e elegância. Jezal nunca havia pensado que era possível com er com beleza. Agora percebia seu erro.

Mal conseguia se lem brar das palavras do j uiz suprem o que, supostam ente, havia unido os dois para sem pre. Algo sobre am or e segurança da nação, lem brava-se por alto. Mas podia ver o anel que, em seu torpor, entregara a Terez na rotunda dos Lordes, sua enorm e pedra verm elho-sangue brilhando no longo dedo m édio. Mastigou um a fatia finíssim a de carne e o gosto foi de lam a. Os dois eram m arido e m ulher.

Bay az estivera certo, com o sem pre. As pessoas ansiavam por adm irar algo que, sem esforço, estej a acim a delas. Talvez nem todas tivessem o rei que desej avam , m as ninguém poderia negar que Terez era tudo o que um a rainha deveria ser, e m ais ainda. A m era ideia de Ardee West sentada naquela cadeira dourada era absurda. E, no entanto, Jezal sentiu um a pontada de culpa quando isso lhe ocorreu, seguida de perto por um a pontada m aior ainda de tristeza. Seria um consolo ter alguém com quem conversar. Soltou um suspiro doloroso. Se ia passar a vida com essa m ulher, eles precisariam conversar. Quanto m ais cedo com eçassem , supôs, m elhor.

– Ouvi dizer que Talins… é um a cidade linda.

– De fato – disse ela com form alidade cautelosa. – Mas Adua tem belas paisagens tam bém . – Ela fez um a pausa e olhou, sem esperança, para o prato.

Jezal pigarreou.

– É m eio… difícil se adaptar – arriscou ele, e tentou esboçar um sorriso.

Ela piscou e olhou para o salão.

– É m esm o.

– Você dança?

Ela virou a cabeça suavem ente para olhá-lo sem o m enor m ovim ento aparente dos om bros.

– Um pouco.

Ele em purrou a cadeira para trás e se levantou.

– Então vam os dançar, Maj estade?

– Com o quiser, Maj estade.

Enquanto se encam inhavam para o centro do grande salão, as conversas dim inuíram gradualm ente. O salão dos Espelhos ficou num silêncio m ortal, exceto pelo som das botas engraxadas dele e dos sapatos polidos dela sobre a pedra brilhante. Jezal engoliu em seco quando os dois ocuparam seus lugares, cercados de três lados pelas m esas com pridas e pelas legiões de convidados m agníficos, todos assistindo. Era m ais ou m enos a ansiedade ofegante, o m edo e a em polgação que sentia quando entrava no círculo de esgrim a contra um oponente desconhecido, diante da m ultidão que rugia.

Os dois ficaram im óveis com o estátuas, olhando nos olhos um do outro. Ele estendeu a m ão com a palm a para cim a. Ela estendeu a dela, m as, em vez de pousá-la na do m arido, deixou as costas de sua m ão tocarem com firm eza as costas da m ão dele e a em purrou até que seus dedos se nivelassem . Levantou um a sobrancelha de form a quase im perceptível. Um desafio silencioso, que m ais ninguém no salão poderia notar.

A prim eira nota soluçou nas cordas e ecoou no salão. Eles com eçaram , circulando um ao outro com lentidão exagerada. A bainha dourada do vestido de Terez sussurrava no piso e cobria os pés dela, de m odo que ela parecia deslizar, em vez de dançar, e seu queixo perm anecia dolorosam ente erguido. Eles se m overam prim eiro para um lado e depois para o outro, e nos espelhos ao redor m il outros casais se m overam no m esm o ritm o, estendendo-se até o infinito, coroados e vestidos em im pecável branco e ouro.

No início do segundo encadeam ento de notas, quando outros instrum entos se j untaram à m úsica, Jezal com eçou a perceber que pertencia a um a classe inferior, pior até do que estivera com relação a Brem er dan Gorst. Terez se m ovia com postura tão im aculada que ele teve certeza de que ela poderia equilibrar um a taça de vinho na cabeça sem derram ar um a gota. A m úsica ficou m ais alta, m ais rápida, m ais ousada, e os m ovim entos de Terez vinham m ais rápidos e m ais ousados j unto com ela. Parecia que, de algum m odo, a rainha controlava os m úsicos com suas m ãos estendidas, de tão perfeita que era a sincronia. Ele tentou guiá-la e ela se m oveu sem esforço ao seu redor. Ela j ogou o corpo para um lado e girou para o outro, e Jezal quase caiu de bunda. Ela se desviou e rodopiou, enganando-o de form a m agistral, e deixou-o acom panhando o nada.

A m úsica ficou ainda m ais rápida, os m úsicos serravam com os arcos e dedilhavam em furiosa concentração. Jezal fez um a tentativa inútil de pegá-la, m as Terez girou para longe, ofuscando-o com um a agitação de saias que ele m al conseguia acom panhar. Ela quase o fez tropeçar com um pé que sum iu antes que ele percebesse, inclinou a cabeça e por pouco não cravou a coroa no olho dele. Os grandes e bons da União olhavam em silêncio, encantados. Até Jezal se via com o um espectador pasm o. Precisava se esforçar ao m áxim o para perm anecer m ais ou m enos nas posições e não ser feito de idiota por com pleto.

Ele não entendeu se foi alívio ou decepção o que sentiu quando a m úsica voltou a ficar lenta e ela lhe ofereceu a m ão com o se fosse um tesouro raro. Tocou as costas de sua m ão nas da dela e os dois circularam um ao outro, chegando cada vez m ais perto. Quando o últim o refrão saiu chorando dos instrum entos, a rainha pousou as costas no peito dele. Os dois giraram cada vez m ais devagar, Jezal com o nariz cheio do perfum e do cabelo dela. Na últim a nota, ela se deixou tom bar para trás e ele a baixou suavem ente, o pescoço de Terez esticando-se, a cabeça baixando, a coroa delicada quase roçando o chão. E fez-se silêncio.

O salão irrom peu em aplausos arrebatados, m as Jezal m al ouvia. Estava ocupado dem ais olhando para a esposa. Agora havia um a leve cor nas faces dela, os lábios ligeiram ente afastados expunham dentes im pecáveis na frente, e as linhas do m axilar, o pescoço esticado e as clavículas esguias estavam desenhados com som bras e cercados de diam antes reluzentes. O fôlego acelerado fazia o peito subir e descer de form a im periosa no corpete e um a película levíssim a e fascinante de suor se aninhara no decote. Jezal quis m uito se aninhar ali tam bém . Piscou, com a própria respiração cortando-lhe a garganta.

– Se for do agrado de Vossa Maj estade… – m urm urou ela.

– Hein? Ah… claro. – Ele a pôs de volta em pé em m eio aos aplausos. – Você dança de um j eito… m agnífico.

– Vossa Maj estade é m uito gentil – respondeu ela, com um m inúsculo fragm ento de sorriso, m as m esm o assim um sorriso.

Ele reagiu sorrindo feito um im becil. No espaço de um a única dança, seu m edo e sua confusão haviam se transform ado com facilidade num a em polgação m uito agradável. Ele fora presenteado com um vislum bre do que havia por baixo da casca gélida, e sem dúvida sua nova rainha era um a m ulher de paixão rara e feroz. Era um a faceta oculta que agora ele estava ansioso para desvendar. Tão ansioso que, de fato, foi obrigado a afastar os olhos para um canto, franzindo a testa e tentando desesperadam ente pensar em outras coisas, para que a rigidez dentro de sua calça não o fizesse passar vergonha diante dos convidados.

Pela prim eira vez, ver Bay az rindo no canto foi exatam ente o que ele precisava: o sorriso frio do velho esfriou seu ardor com tanta eficácia quanto um balde de água gelada.

 

Glokta deixara Ardee em sua sala exageradam ente m obiliada, esforçando-se ao m áxim o para ficar m ais bêbada ainda, e desde então ele estava de péssim o hum or. Até mesmo para mim, não há nada como a companhia de alguém mais desgraçado ainda para fazer a gente se sentir melhor. O problema é que, quando o sofrimento do outro sai, o seu toma lugar com o dobro de frieza e pavor.

Tom ou outra colherada de sopa com textura de areia e fez um a careta tentando forçar garganta abaixo a gororoba salgada dem ais. Imagino que coisas maravilhosas o rei Jezal estará desfrutando agora. Saudado e admirado por todos, empanturrando-se com a melhor comida e a melhor companhia. Seu olho esquerdo estrem eceu e ele largou a colher na tigela e se encolheu quando um a onda de dor partiu das costas e desceu pela perna. Oito anos desde que os gurkenses me soltaram, no entanto ainda sou prisioneiro deles, e sempre serei. Preso numa cela que não é maior do que meu corpo aleijado.

A porta se abriu com um rangido e Barnam entrou arrastando os pés para pegar a tigela. Glokta olhou da sopa m eio m orta para o velho m eio m orto. A melhor comida e a melhor companhia. Ele riria, se os lábios rachados perm itissem .

– Acabou, senhor? – perguntou o serviçal.

– Parece que sim . – Não consegui arrancar da bunda uma forma de destruir Bayaz, portanto Sua Eminência não ficará satisfeito. Até que ponto ele pode ficar insatisfeito antes de perder a paciência por completo? É, devo estar acabado. Mas fazer o quê?

Barnam levou a tigela para fora, fechou a porta e deixou Glokta sozinho com sua dor. O que fiz para merecer isso? E o que Luthar fez? Ele não é exatamente como eu era? Arrogante, vaidoso e egoísta feito o diabo? Ele é um homem melhor? Então por que a vida me castigou de forma tão dura e o recompensou de forma tão exuberante?

Mas Glokta j á sabia a resposta. O mesmo motivo pelo qual o inocente Sepp dan Teufel definha em Angland com os dedos encurtados. O mesmo motivo pelo qual o leal general Vissbruck morreu em Dagoska, enquanto a traidora mestra Eider foi deixada viva. O mesmo motivo pelo qual Tulkis, o embaixador gurkense, foi trucidado diante de uma multidão, por um crime que não cometeu.

Encostou a língua ferida num dos poucos dentes que restavam . A vida não é justa.

 

Jezal saracoteava pelo corredor num sonho, só que j á não era o pesadelo em pânico da m anhã. Sua cabeça girava de tantos elogios, aplausos e aprovação. Seu corpo irradiava dança, vinho e, cada vez m ais, luxúria. Com Terez, pela prim eira vez em seu breve reinado, ele se sentia de fato um rei. Pedras e m etais preciosos, seda e bordados, pele clara e lisa brilhavam de m odo excitante à luz suave das velas. A noite acabara sendo um deleite e o restante dela prom etia ser m elhor ainda. Terez podia ter parecido dura feito um a j oia a distância, m as Jezal a havia segurado nos braços e sabia que não era assim .

A grande porta dupla do quarto real foi aberta por um par de lacaios tensos, depois se fechou em silêncio quando o rei e a rainha da União passaram . A cam a portentosa dom inava o outro lado do côm odo, com plum as altas nos cantos do dossel lançando som bras com pridas no teto dourado. As am plas cortinas de um verde intenso pendiam de form a convidativa e deixavam o espaço no outro extrem o cheio de som bras suaves e hipnotizantes.

Terez deu alguns passos lentos para dentro do quarto, à frente dele, de cabeça baixa, enquanto Jezal virava a chave na fechadura com um chacoalhar longo, suave, do m ecanism o. Sua respiração saía rápida quando ele chegou por trás da esposa e pousou a m ão em seu om bro nu. Sentiu os m úsculos se enrij ecerem por baixo da pele lisa, sorriu do nervosism o dela, que com binava tanto com o dele. Im aginou se deveria dizer algo para tentar acalm á-la, m as de que adiantaria? Os dois sabiam o que precisava acontecer, e Jezal, pelo m enos, estava im paciente para com eçar.

Chegou m ais perto e deslizou a m ão livre pela cintura dela, sentindo a palm a sibilar sobre a seda. Roçou a nuca de Terez com os lábios, um a, duas, três vezes. Encostou o nariz em seu cabelo, sentiu seu perfum e e soltou o ar suavem ente na face dela. Sentiu-a trem er com sua respiração na pele, m as isso apenas o encoraj ou. Deslizou os dedos sobre os om bros dela e por cim a do peito, depois os diam antes seguiram o contorno de sua m ão quando ele a enfiou dentro do corpete. Chegou m ais perto, encostando-se nela, produzindo um rosnado satisfeito na garganta, com o pau cutucando agradavelm ente o traseiro dela por sobre as roupas…

No instante seguinte, ela se afastou bruscam ente, ofegando, e lhe deu um tapa no rosto que estalou e fez sua cabeça retinir.

– Seu desgraçado im undo! – berrou ela, com cuspe voando da boca retorcida. – Seu filho de um a porra de um a puta! Com o ousa m e tocar? Ladisla era um cretino, m as pelo m enos o corpo dele era lim po!

Jezal ofegou, rígido de choque, um a das m ãos apertando o rosto que ardia. Estendeu a outra debilm ente.

– Mas eu… uuuuf!

O j oelho dela o acertou entre as pernas com um a precisão im placável, arrancando o fôlego de seu peito, fazendo-o cam balear ofegante, depois derrubando-o com o um a m arreta faria a um castelo de cartas. Enquanto ele gem ia no tapete, naquela agonia alucinante que só um golpe nos bagos pode produzir, pouco serviu de consolo o fato de que ele estava certo.

Ficara evidente que sua rainha era um a m ulher de paixão rara e feroz.

As lágrim as que escorriam tão fartam ente dos olhos dele não eram apenas de dor e de terrível surpresa e de decepção passageira; eram , cada vez m ais, de um horror profundo e crescente. Parecia que ele se equivocara por com pleto em relação aos sentim entos de Terez. Ela sorrira para a m ultidão, m as agora, sozinha com ele, dava toda a indicação de desprezá-lo e a tudo o que ele significava. O fato de ter nascido bastardo não era algo que Jezal poderia m udar. Ao que tudo indicava, sua noite de núpcias seria passada no chão real. A rainha j á havia atravessado o quarto às pressas e as cortinas da cam a estavam bem fechadas para ele.