O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 56 de 61

Páginas do PDF

O duelo dos reis

Homens bons, homens ruins

 

MANHÃ CINZENTA NO j ardim frio e úm ido, e Cachorrão estava parado, pensando em com o as coisas eram m elhores antigam ente. Estava no m eio do círculo de sepulturas m arrons, olhando a terra revirada sobre Harding Sinistro. Era estranho com o um hom em que falava tão pouco podia deixar um vazio tão grande.

Tinha sido um a longa j ornada a de Cachorrão nos últim os anos, e m uito estranha. De lugar nenhum a lugar nenhum , e perdendo um m onte de am igos no cam inho. Lem brava-se de todos os hom ens que tinham voltado para a lam a. Harding Sinistro. Tul Duru Cabeça de Trovão. Rudd Três Árvores. Forley, o Fraco. E para quê? Quem ficara m elhor por causa disso? Toda aquela devastação. Era bastante para deixar a pessoa doente até as solas das botas. Mesm o um hom em fam oso pelo tem peram ento calm o. Todos tinham partido e deixado Cachorrão solitário. O m undo era um lugar m enor sem eles.

Ouviu passos no capim m olhado. Era Logen, vindo sob a chuva nevoenta, a respiração virando fum aça em volta do rosto cheio de cicatrizes. Cachorrão se lem brou de com o se sentira feliz na noite em que ele surgira j unto à fogueira, ainda vivo. Na ocasião aquilo parecera um recom eço. Um m om ento bom , que prom etia tem pos m elhores. Não tinha sido bem assim . Era estranho com o Cachorrão não se sentia m ais tão feliz ao ver Logen Nove Dedos.

– O rei dos nórdicos – m urm urou. – O Nove Sangrento. Com o está o seu dia?

– Molhado. Quase no fim do ano.

– É. Outro inverno chegando – m urm urou Cachorrão, beliscando a pele dura da palm a da m ão. – Eles chegam cada vez m ais rápido.

– Acho que é hora de eu voltar ao Norte, não é? Calder e Scale ainda estão à solta, fazendo coisas ruins, e os m ortos sabem que tipo de encrenca Barca Negra deve ter aprontado.

– É, acho que sim . Já era hora de a gente ir.

– Quero que você fique.

Cachorrão levantou os olhos.

– Hein?

– Alguém precisa falar com os sulistas, fazer um acordo. Você sem pre foi o m elhor hom em que eu conheci para falar. Afora Bethod, talvez, m as… ele não é opção agora, é?

– Que tipo de acordo?

– Pode ser que a gente precise da aj uda deles. Vai haver todo tipo de gente no Norte que não está gostando de com o as coisas aconteceram . Pessoas que não querem um rei, ou pelo m enos não este rei. Ter a União do nosso lado vai aj udar. Não fará m al se você trouxer algum as arm as tam bém , quando voltar.

Cachorrão se encolheu.

– Arm as, é?

– É m elhor ter do que não ter, do que precisar e não…

– Sei o resto. O que aconteceu com aquilo de só m ais um a luta e term inam os? O que aconteceu com cultivar coisas?

– Talvez elas tenham de ser cultivadas sem nós, por enquanto. Escute, Cachorrão, eu nunca procurei um a briga, você sabe, m as é preciso ser…

– Nem se dê o trabalho.

– Estou tentando ser um hom em m elhor, Cachorrão.

– É m esm o? Não vej o você tentando tanto assim . Você m atou Tul?

Os olhos de Logen se estreitaram .

– Barca Negra andou falando, foi?

– Não im porta quem disse. Você m atou o Cabeça de Trovão ou não? Não é m uito difícil dizer. Só um sim ou um não.

Logen soltou um a espécie de fungada, com o se fosse com eçar a rir, ou a chorar, m as não fez um a coisa nem outra.

– Não sei o que eu fiz.

– Não sabe. De que adianta não saber? É isso que você vai dizer depois de m e dar um a facada pelas costas, quando eu estiver tentando salvar sua vida sem valor?

Logen franziu os olhos para a gram a m olhada.

– Talvez sej a assim . Não sei.

Seu olhar voltou-se para os olhos de Cachorrão e o penetrou.

– Mas esse é o preço, não é? Você sabe o que eu sou. Poderia ter escolhido outro hom em para seguir.

Cachorrão o observou afastar-se, sem saber o que dizer, sem saber sequer o que pensar. Sentiu alguém chegar ao lado. Era Gorro Verm elho, olhando para a chuva, vendo a silhueta de Logen ficar cada vez m ais indistinta. Ele balançou a cabeça, a boca franzida com força.

– Nunca acreditei nas histórias que contavam sobre ele. Sobre o Nove Sangrento. Achava que era tudo fanfarronice. Mas agora acredito. Ouvi dizer que ele m atou o m enino do Crum m ock naquela luta nas m ontanhas. Cortou-o sem pensar, com o a gente esm aga um besouro, sem m otivo. Aquele hom em não se im porta com nada. Acho que não existe hom em pior em todo o Norte. Nem Bethod. É um desgraçado m aligno, o pior que j á houve.

– É m esm o? – Cachorrão se pegou grudado na cara do Gorro Verm elho e gritando. – Bom , vá se catar, seu m olenga! Quem disse que você é a porra do j uiz?

– Só estou falando, só isso. – Gorro Verm elho olhou para ele. – Quero dizer… achei que a gente estava pensando a m esm a coisa.

– Bom , não estam os! É preciso um a m ente m aior do que um a ervilha para pensar algum a coisa, e você não tem esse equipam ento, idiota! Você não saberia separar um hom em bom de um hom em ruim nem se ele m ij asse em você!

Gorro Verm elho piscou.

– Está certo. Já vi que entendi errado.

Recuou um passo, depois foi andando pela garoa, balançando a cabeça.

Cachorrão só ficou de dentes trincados, vendo-o ir, pensando em com o queria bater em alguém , m as não sabia quem . Não havia ninguém ali, a não ser ele. Ele e os m ortos. Mas talvez sej a isso que acontece, quando a luta acaba, com um hom em que não sabe fazer nada além de lutar. Ele luta consigo m esm o.

Respirou fundo o ar frio e úm ido e franziu a testa para a sepultura de Sinistro. Im aginou se ainda saberia distinguir um hom em bom de um hom em ruim . Im aginou qual seria a diferença.

Manhã cinzenta no j ardim frio e úm ido, e Cachorrão continuou parado, pensando em com o as coisas eram m elhores antigam ente.