O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 5 de 61

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O duelo dos reis

Hora da ração

 

NÃO SE SENTARAM tão perto a ponto de ficar óbvio que estavam j untos. Dois homens que, no correr de seus negócios cotidianos, por acaso colocam a bunda no mesmo pedaço de madeira. Era o início da m anhã e, apesar de o sol lançar um brilho ofuscante nos olhos de Glokta e colocar um tom dourado na gram a orvalhada, nas árvores farfalhantes, no lago do parque, ainda havia um frio traiçoeiro no ar. Lorde Wetterlant era evidentem ente alguém que acordava cedo. Mas eu também. Nada encoraja tanto um homem a deixar a cama quanto ter ficado acordado a noite toda por causa de cãibras lancinantes.

O lorde enfiou a m ão num a sacola de papel, tirou algum as m igalhas de pão segurando-as entre o polegar e o indicador e j ogou-as j unto aos pés. Um grupo de patos cheios de si j á havia se reunido e agora os bichos brigavam furiosam ente tentando alcançar as m igalhas enquanto o nobre os observava, com o rosto enrugado parecendo um a m áscara frouxa e sem em oção.

– Não tenho ilusões, superior – entoou, quase sem m over os lábios e sem levantar os olhos. – Não tenho im portância suficiente para entrar nessa disputa, m esm o se quisesse. Mas tenho o suficiente para ganhar algum a coisa com ela. Pretendo conseguir o que puder.

Direto ao ponto, então, pela primeira vez. Não precisamos conversar sobre o tempo, ou falar dos filhos, ou do valor relativo dos patos de diferentes cores.

– Não há vergonha nisso.

– Não creio. Tenho um a fam ília a alim entar, e ela cresce ano a ano. Aconselho-o enfaticam ente a não ter m uitos filhos.

Rá, isso não deve ser problema.

– E, além disso, tenho cães, e eles tam bém devem ser alim entados, e têm m uito apetite. – Wetterlant soltou um suspiro longo, chiado, e j ogou m ais algum as m igalhas para as aves. – Quanto m ais se sobe, superior, m ais gente depende das nossas m igalhas; esse é um triste fato.

– O senhor tem um a grande responsabilidade, m eu lorde. – Glokta fez um a careta por causa de um espasm o na perna e a estendeu com cuidado até o j oelho estalar. – Qual é o tam anho dela, se é que posso perguntar?

– Eu tenho m eu próprio voto, claro, e controlo os votos de três outras cadeiras no Conselho Aberto. Fam ílias ligadas à m inha por laços de terra, am izade, casam ento e tradição.

Esses laços podem se mostrar frágeis em momentos como este.

– O senhor tem certeza desses três?

Wetterlant virou os olhos frios para Glokta.

– Não sou bobo, superior. Mantenho m eus cães bem acorrentados. Tenho certeza. Tanta certeza quanto podem os ter de qualquer coisa, nestes tem pos incertos.

Ele j ogou m ais m igalhas na gram a e os patos grasnaram , bicaram e bateram uns nos outros com as asas.

– Quatro votos no total, então. – Não é uma fatia pequena do grande bolo.

– Quatro votos no total.

Glokta pigarreou, verificou se não havia ninguém que pudesse escutar. Um a garota olhava distraída e indiferente para a água, m ais adiante no cam inho. Dois desalinhados oficiais do Próprio do Rei estavam sentados num banco distante, do outro lado, disputando em voz alta quem estivera m ais bêbado na noite anterior. Será que a jovem indiferente estaria ouvindo em nome de lorde Brock? Será que os dois oficiais prestariam contas ao juiz supremo Marovia? Vejo agentes em toda parte, o que é bom. Existem agentes em toda parte. Baixou a voz até um sussurro:

– Sua Em inência estaria disposto a oferecer 15 m il m arcos em troca de cada voto.

– Sei. – Os olhos sem iocultos por pálpebras pesadas de Wetterlant nem ao m enos se m exeram . – Tão pouca carne m al satisfaria m eus cães. Não restaria nada para a m inha m esa. Devo lhe dizer que lorde Barezin, de m odo um tanto indireto, j á m e ofereceu 18 m il por voto, além de um excelente pedaço de terra adj acente a m inhas propriedades. Florestas para caçar cervos. O senhor caça, superior?

– Caçava. – Glokta bateu na perna arruinada. – Mas isso foi há um bom tem po.

– Ah. Lam ento. Eu sem pre gostei desse esporte. Mas então lorde Brock foi m e visitar.

Que ótimo para vocês dois.

– Ele teve a bondade de m e oferecer 20 m il e um acordo m uito adequado de casar sua filha m ais nova com m eu filho m ais velho.

– O senhor aceitou?

– Eu disse que era cedo dem ais para aceitar qualquer coisa.

– Tenho certeza de que Sua Em inência poderia chegar a 21, m as isso teria de ser…

– O representante do j uiz suprem o Marovia j á m e ofereceu 25.

– Harlen Morrow? – sibilou Glokta através dos dentes que restavam .

Lorde Wetterlant levantou um a sobrancelha.

– Creio que sej a esse o nom e.

– Lam ento só poder igualar a proposta dele no m om ento. Inform arei sua posição a Sua Em inência. – O deleite dele, tenho certeza, não terá limites.

– Estou ansioso para ter notícias suas, superior.

Wetterlant se virou de volta para os patos e distribuiu m ais algum as m igalhas, com um vago sorriso nos lábios ao ver a disputa à sua frente.

Com algo parecido com um sorriso no rosto, Glokta foi m ancando com dor até a casa com um na rua que não tinha nada de excepcional. Um momento livre da companhia sufocante dos grandes e bons. Um momento em que não preciso mentir, nem trapacear, nem ficar atento a uma possível facada nas costas. Talvez até encontre um cômodo que ainda não esteja fedendo a Harlen Morrow. Isso seria revigorante e…

A porta se abriu bruscam ente no instante em que ele levantava a m ão para bater e ele ficou olhando o rosto sorridente de um hom em que usava uniform e do Próprio do Rei. Isso era tão inesperado que Glokta não o reconheceu a princípio. Então sentiu um j orro de consternação.

– Ora, capitão Luthar. Que surpresa. – E muito desagradável.

Ele tinha m udado consideravelm ente. Antes era j uvenil e harm onioso; agora havia adquirido um a aparência rígida, até m esm o bruta. Antes erguia o queixo num a pose arrogante, ao passo que agora inclinava a cabeça quase com o em um pedido de desculpas. Deixara a barba crescer, tam bém , talvez num a tentativa m alsucedida de disfarçar um a cicatriz de aparência m aligna que lhe atravessava o lábio e descia pelo m axilar. Se bem que isso não o deixou nem um pouco feio, infelizmente.

– Inquisidor Glokta… é…

– Superior.

– Verdade? – Luthar piscou. – Bom … nesse caso… – O sorriso fácil de Luthar reapareceu e Glokta ficou surpreso ao ver sua m ão ser apertada calorosam ente. – Parabéns. Eu adoraria conversar, m as o dever m e cham a. Não tenho m uito tem po para ficar na cidade, vej a bem . Vou para o Norte e tal.

– Claro.

Glokta franziu a testa enquanto Jezal saía a passos leves para a rua, com um único olhar furtivo por cim a do om bro ao virar a esquina. Deixando apenas a questão de por que estava ali, para começo de conversa. Glokta passou m ancando pela porta aberta e a fechou silenciosam ente. Se bem que, para ser honesto, um homem saindo da casa de uma mulher de manhã cedo? Não precisamos da Inquisição de Sua Majestade para resolver esse mistério. Eu mesmo não saí de um bom número de residências de manhã cedo, afinal de contas? Fingindo ter esperanças de não ser visto, mas na verdade torcendo para ser? Passou pela porta da sala de estar. Ou teria sido outro homem?

Ardee West estava de costas para ele e Glokta ouviu o som de vinho caindo num a taça.

– Esqueceu algum a coisa? – perguntou ela por cim a do om bro, com voz suave e brincalhona.

Não é um tom que eu costume ouvir das mulheres. Horror, nojo e um levíssimo toque de piedade são mais comuns. Houve um tilintar quando ela guardou a garrafa.

– Ou decidiu que realm ente não poderia viver sem outra…

Ardee tinha um sorriso torto quando se virou, m as ele desapareceu no instante que ela viu quem estava ali.

Glokta bufou.

– Não se preocupe, recebo esse tipo de reação de todo m undo. Até de m im m esm o, toda m anhã, quando m e olho no espelho. – Isso quando consigo ficar de pé diante daquela porcaria.

– Não é isso, e você sabe. Eu só não esperava que você entrasse.

– Então todos nós tivem os um a baita surpresa esta m anhã. Você nunca vai adivinhar por quem eu passei no seu corredor.

Ela se im obilizou apenas por um m om ento, depois inclinou a cabeça para trás, sem dar im portância, enquanto tom ava o vinho.

– Não vai m e dar um a dica?

– Certo, vou. – Glokta estrem eceu ao se sentar e esticar a perna dolorida diante do corpo. – Um j ovem oficial do Próprio do Rei, sem dúvida com um futuro brilhante pela frente. – Se bem que podemos esperar que não.

Ardee o olhou com irritação por cim a da borda da taça.

– Existem tantos oficiais no Próprio do Rei que eu m al identifico quem é quem .

– Verdade? Este ganhou o Cam peonato do ano passado, acho.

– Nem m e lem bro direito de quem estava na final. Todo ano é igual ao anterior, não acha?

– Verdade. Desde que eu com petia, a coisa só vem decaindo. Mas achei que se lem braria desse suj eito. Parece que alguém o acertou na cara com força desde a últim a vez que nos vim os. E com força, eu poderia dizer. – Se bem que não tanta quanto eu gostaria.

– Você está com raiva de m im – disse ela, sem aparentar a m enor preocupação.

– Eu diria que estou decepcionado. Mas o que seria de esperar? Achei que você seria m ais inteligente.

– Inteligência não é garantia de sensatez. Meu pai costum ava dizer isso o tem po todo. – Ela term inou o vinho com um m ovim ento treinado da cabeça. – Não se preocupe. Posso cuidar de m im .

– Não pode, não. Você deixou isso m uito claro. Percebe o que vai acontecer quando as pessoas souberem ? Você vai ser desprezada.

– E qual seria a novidade? – Ela deu um riso de escárnio. – Talvez isso o surpreenda, m as recebo poucos convites para o palácio. Nem posso ser considerada um em baraço. Ninguém fala com igo.

Afora eu, claro, mas não sou o tipo de companhia que as jovens desejem.

– As pessoas cagam e andam para o que eu faço. Se descobrirem , não será nada pior do que o esperado de um a m ulher im unda com o eu. Essas porcarias de plebeus não têm m ais autocontrole do que anim ais, não sabe? De qualquer m odo, você não disse que eu podia foder com quem eu quisesse?

– Tam bém disse que quanto m enos foda, m elhor.

– E acho que era isso que você dizia a todas as suas conquistas, não é?

Glokta deu um sorriso am arelo. Não exatamente. Eu adulava e implorava, ameaçava e incomodava. Sua beleza me feriu, feriu meu coração! Estou arrasado, vou morrer sem você! Você não tem pena? Não me ama? Eu fazia tudo, a não ser mostrar meus instrumentos, e, depois de conseguir o que desejava, eu as jogava de lado e partia alegre para a próxima, sem olhar para trás.

– Rá! – bufou Ardee, com o se lesse os pensam entos dele. – Sand dan Glokta fazendo serm ões sobre os benefícios da castidade? Por favor! Quantas m ulheres você arruinou antes que os gurkenses o arruinassem ? Você era fam oso!

Um m úsculo com eçou a trem er no pescoço de Glokta e ele girou o om bro até senti-lo relaxar. Ela tem razão. Talvez uma palavra suave com o cavalheiro em questão dê resultado. Uma palavra suave ou uma noite dura com o prático Frost.

– A sua cam a é coisa sua, acho, com o dizem na Estíria. Por que o capitão Luthar apareceu entre os civis, afinal? Ele não tem nórdicos para perseguir? Quem vai salvar Angland enquanto ele estiver aqui?

– Ele não estava em Angland.

– Não? – O pai arranjou um belo posto fora de encrenca para ele, é?

– Ele esteve no Antigo Im pério, ou algo assim . Atravessou o m ar para o ocidente, até longe. – Ardee suspirou com o se tivesse ouvido m uita coisa a respeito e agora o assunto a entediasse.

– Antigo Im pério? Que diabo ele foi fazer por lá?

– Por que não pergunta a ele? Foi um a j ornada e tanto. Ele falou m uito sobre um nórdico… Nove Dedos, ou algo assim .

Glokta ergueu a cabeça de im ediato.

– Nove Dedos?

– U-hum . Ele e um velho careca.

Um arrepio percorreu o rosto de Glokta.

– Bay az.

Ardee deu de om bros e tom ou m ais um gole, j á dem onstrando nos m ovim entos um a ligeira deselegância bêbada.

Bayaz. Tudo de que precisamos, com uma eleição pela frente, é que aquele velho mentiroso venha intrometer sua careca.

– Ele está aqui, na cidade?

– Com o é que eu vou saber? – resm ungou Ardee. – Ninguém m e conta nada.