O duelo dos reis
O número de mortos
SEG UNDA PARTE
“O argumento final dos reis”
INSCRIÇÃO QUE LUÍS XIV MANDOU GRAVAR EM SEUS CANHÕES
O número de mortos
A ALDEIA ESTAVA silenciosa. As poucas casas, construídas com pedras antigas e telhados de ardósia cheios de m usgo, pareciam abandonadas. A única vida nos cam pos m ais adiante, quase totalm ente recém -colhidos e arados, era um punhado de corvos m iseráveis. Perto de Ferro o sino da torre rangia baixinho. Alguns postigos soltos nas j anelas balançavam e batiam . Um as poucas folhas enroladas caíram num sopro de vento e flutuaram devagar até a praça vazia. No horizonte, três colunas de fum aça escura subiam com igual suavidade no céu pesado.
Os gurkenses estavam chegando, e eles sem pre haviam adorado queim ar.
– Malj inn! – cham ou de baixo o m aj or Vallim ir, em oldurado pelo alçapão.
Ferro fez um a careta. Ele a fazia se lem brar de Jezal dan Luthar quando o conhecera. Um rosto gorducho e pálido cheio de um a m istura irritante de pânico e arrogância. Estava bastante claro que ele nunca fizera um a em boscada para um a cabra, quanto m ais para batedores gurkenses. Mas m esm o assim fingia saber tudo.
– Está vendo algum a coisa? – sibilou para ela, pela quinta vez em um a hora.
– Eles estão vindo – rosnou Ferro.
– Quantos?
– Ainda um a dúzia.
– A que distância?
– Talvez a quinze m inutos de cavalgada, agora, e ficar perguntando não vai fazer com que cheguem m ais depressa.
– Quando estiverem na praça, eu vou dar o sinal batendo palm as duas vezes.
– Preste atenção para conseguir acertar as m ãos um a na outra, rosado.
– Eu disse para não m e cham ar disso! – Um a pausa breve. – Precisam os pegar um deles vivo, para interrogar.
Ferro franziu o nariz. Seu gosto não era por capturar gurkenses vivos.
– Vam os ver.
Virou-se para o horizonte e em pouco tem po ouviu o som de Vallim ir sussurrando ordens para alguns de seus hom ens. Os dem ais estavam espalhados nas outras construções, escondidos. Um grupo estranho de soldados que haviam sobrado. Alguns eram veteranos, m as a m aioria era ainda m ais j ovem e m ais nervosa do que o próprio Vallim ir. Ferro desej ou, e não pela prim eira vez, que Nove Dedos estivesse com eles. Gostando ou não dele, ninguém poderia negar que o suj eito conhecia o serviço. Com ele, Ferro sabia o que esperar. Experiência sólida ou, ocasionalm ente, fúria assassina. Qualquer das duas coisas seria útil.
Mas Nove Dedos não estava ali.
Então Ferro ficou de pé na j anela am pla da torre do sino, sozinha, franzindo a testa na direção dos cam pos ondulados da Terra do Meio e olhando os cavaleiros se aproxim arem . Um a dúzia de batedores gurkenses, trotando j untos por um a trilha, m as não em form ação. Pontos m óveis num a risca pálida entre retalhos de terra escura.
Dim inuíram a velocidade ao passar pelo prim eiro celeiro de m adeira, espalhando-se. Um a grande tropa gurkense teria soldados de todo o Im pério, guerreiros de m ais de vinte províncias conquistadas. A j ulgar pelos rostos com pridos e os olhos estreitos, pelas bolsas de sela feitas de tecido estam pado e por trazerem arcos e lanças, arm as leves, esses doze batedores eram kadiris. Matá-los não seria um a grande vingança, m as seria algum a. Preencheria o espaço, por enquanto. Um espaço que estivera vazio por tem po de m ais.
Um deles levou um susto quando um corvo alçou voo de um a árvore m irrada. Ferro prendeu a respiração, certa de que Vallim ir ou um dos seus rosados desaj eitados escolheria esse m om ento para tropeçar um no outro. Mas só houve silêncio enquanto os cavaleiros entravam com cuidado na praça da aldeia, o líder com a m ão erguida, pedindo cautela. Ele olhou direto para Ferro, m as não viu nada. Idiotas arrogantes. Só viam o que queriam . Um a aldeia de onde todos haviam fugido, esm agados de m edo do inigualável exército do im perador. Seus dedos se fecharam com força no arco. Eles iriam aprender.
Ela iria ensinar.
O líder tinha nas m ãos um quadrado de papel que analisava com o se fosse um a m ensagem num a língua que não entendia. Um m apa, talvez. Um dos seus hom ens puxou as rédeas do cavalo, deslizou da sela, segurou as rédeas e levou o anim al até um cocho m ofado. Outros dois hom ens estavam sentados relaxadam ente nas m ontarias, conversando e rindo, m ovendo as m ãos, contando piadas. Um quarto lim pava as unhas com um a faca. Outro cavalgava devagar pela borda da praça, inclinando-se na sela e espiando pelas j anelas das casas. Procurando algo para roubar. Um dos hom ens que contavam piadas gargalhou alto.
Então duas palm as agudas ecoaram nas casas.
O batedor j unto ao cocho acabava de encher seu cantil quando a flecha de Ferro se cravou em seu peito. O cantil tom bou de sua m ão, gotas brilhantes derram ando-se do gargalo. Setas de bestas estalaram nas j anelas. Batedores gritaram e olharam . Um cavalo tropeçou de lado e caiu, fazendo poeira subir com os cascos agitados e esm agando o cavaleiro que gritava em baixo dele.
Soldados da União correram das casas, gritando, lanças em riste. Um dos cavaleiros desem bainhara m etade da espada quando recebeu um a seta de besta e caiu m ole da sela. A segunda flecha de Ferro acertou outro nas costas. O que estivera lim pando as unhas foi derrubado do cavalo e se levantou com dificuldade a tem po de ver um soldado da União vindo para cim a dele com um a lança. Ele largou a faca e levantou os braços tarde dem ais: foi atravessado de qualquer m odo, a ponta da lança proj etando-se ensanguentada das costas enquanto ele caía.
Dois tentaram partir na direção de onde tinham vindo. Ferro m irou em um , m as, quando eles chegaram à trilha estreita, um a corda foi esticada à frente. Os dois foram arrancados das selas, arrastando para fora de um a casa um soldado da União aos gritos que foi quicando de cara no chão por alguns m etros com a corda enrolada no braço. Um a das flechas de Ferro atingiu um batedor entre os om bros enquanto ele tentava se levantar do chão. O outro se arrastou por alguns passos, grogue, antes que um soldado da União o acertasse na cabeça com um a espada e fizesse pender a parte de trás do crânio.
Dos doze, apenas o líder saiu da aldeia. Esporeou o cavalo na direção de um a cerca estreita entre duas construções, que ele saltou com os cascos do cavalo raspando na ripa de cim a. Galopou pelos restos de plantas de um cam po colhido, abaixado na sela, apertando os calcanhares contra o flanco do cavalo.
Ferro m irou longam ente, devagar, sentindo o sorriso repuxar os cantos do rosto. Num instante avaliou o m odo com o ele estava na sela, a velocidade do cavalo, a altura da torre, sentiu o vento no rosto, o peso da flecha, a tensão na m adeira, a corda apertada contra os lábios. Olhou a flecha voar, um a risca preta girando contra o céu cinzento, e o cavalo correu à frente para encontrá-la.
Às vezes Deus é generoso.
O líder arqueou as costas e tom bou da sela, rolando várias vezes na terra poeirenta, com punhados de lam a e hastes de plantas cortadas voando ao redor. Seu grito de agonia chegou ao ouvido de Ferro um instante depois. Os lábios dela se repuxaram m ais ainda, m ostrando os dentes.
– Rá!
Ela j ogou o arco no om bro, deslizou pela escada, saltou pela j anela dos fundos e correu pelo cam po. Suas botas batiam no solo m acio entre os tufos de plantas cortadas, a m ão apertando o cabo da espada.
O suj eito gem ia e tentava se arrastar até o cavalo. Conseguira enganchar um dedo no estribo, desesperado, quando ouviu os passos rápidos de Ferro, m as caiu para trás com um guincho ao tentar se levantar. Ficou deitado de lado enquanto ela vinha correndo, a lâm ina sibilando furiosa dentro da bainha de m adeira. Seus olhos se reviraram para ela, loucos de dor e m edo.
Um rosto escuro, com o o dela.
Um rosto nada excepcional, com uns 40 anos, barba falhada e um a m arca de nascença pálida num a bochecha, poeira grudada na outra, gotas de suor brilhantes na testa. Ela parou j unto dele e a luz do sol cintilou no gum e da espada curva.
– Dê um m otivo para eu não fazer isso – ela se pegou dizendo.
Estranho ter falado assim , e logo com um soldado do exército do im perador. No calor e na poeira das Terras Ruins de Kanta, ela não tinha o hábito de oferecer chances. Talvez algo tivesse m udado em Ferro, no ocidente m olhado e arruinado do m undo.
Ele olhou para cim a por um m om ento, os lábios trem endo.
– Eu… – grasnou. – Minhas filhas! Tenho duas filhas. Rezo para vê-las casadas…
Ferro franziu a testa. Não devia ter deixado que ele com eçasse a falar. Um pai, com filhas. Assim com o ela j á tivera um pai, com o fora um a filha. Esse hom em não lhe fizera m al. Não era m ais gurkense do que ela. Não tinha optado por lutar, provavelm ente, nem tinha opção além de fazer o que o poderoso Uthm an-ul-Dosht ordenava.
– Eu vou… j uro por Deus… vou voltar para m inha m ulher e m inhas filhas.
A flecha o atravessara direto em baixo do om bro e se partira quando ele bateu no chão. Ferro podia ver a haste lascada em baixo do braço. Tinha errado o pulm ão, pelo m odo com o ele estava falando. Não iria m atá-lo. Pelo m enos de im ediato. Ferro podia aj udá-lo a m ontar no cavalo e ele iria em bora, com chance de viver.
O batedor levantou a m ão trêm ula, com um a m ancha de sangue no polegar com prido.
– Por favor… esta guerra não é m inha, eu…
A espada escavou um ferim ento profundo no rosto dele, atravessou a boca e partiu o m axilar inferior. Ele soltou um gem ido chiado. O golpe seguinte quase o decapitou. Ele rolou, o sangue escuro j orrando na terra escura, tentando se agarrar a restos de plantas cortadas. A espada abriu sua nuca e ele ficou im óvel.
Parecia que Ferro não estava com ânim o m isericordioso nesse dia.
O cavalo do batedor trucidado olhou para ela em silêncio.
– O que foi? – disse Ferro com rispidez.
Talvez tivesse m udado, lá no ocidente, m as ninguém m uda tanto assim . Menos um soldado no exército de Uthm an era um a coisa boa, independentem ente do lugar de onde tivesse vindo. Ela não precisava pedir desculpas. Ainda m ais a um cavalo. Agarrou as rédeas e deu um puxão.
Vallim ir podia ser um idiota rosado, m as Ferro precisava adm itir que ele adm inistrara bem a em boscada. Dez batedores estavam m ortos na praça da aldeia, as roupas rasgadas balançando ao vento, o sangue m anchando o chão em poeirado. A única baixa da União era o idiota que fora puxado pela própria corda e agora estava coberto de poeira e arranhões.
Um bom dia de trabalho, até agora.
Um soldado cutucou um cadáver com a bota.
– Então os gurkenses são assim , é? Não parecem m uito tem íveis.
– Esses não são gurkenses – disse Ferro. – São batedores kadiris, obrigados a servir. Eles não queriam estar aqui, tanto quanto vocês não os queriam aqui.
O hom em a encarou, perplexo e chateado.
– Kanta é cheia de gente. Nem todo m undo de rosto m arrom é gurkense, nem reza para o deus deles, nem baixa a cabeça para o im perador deles.
– A m aioria faz isso.
– A m aioria não tem escolha.
– Mesm o assim , eles são o inim igo – zom bou ele.
– Eu não disse que deveríam os poupá-los.
Ela passou dando-lhe um a om brada e voltou para a construção que tinha a torre do sino. Parecia que Vallim ir conseguira um prisioneiro, afinal. Ele e alguns outros estavam am ontoados, nervosos, em volta de um batedor aj oelhado com os braços presos às costas. Ele tinha um arranhão ensanguentado na bochecha e olhava com aquela expressão que os prisioneiros costum am ter.
Apavorado.
– Onde… está… o… seu… exército… principal? – rosnava Vallim ir.
– Ele não fala a sua língua, rosado – disse Ferro com rispidez. – E gritar não vai aj udar.
Vallim ir a encarou com raiva.
– Talvez devêssem os ter trazido alguém que falasse kanticense – disse com ironia.
– Talvez.
Houve um a longa pausa enquanto Vallim ir esperava que ela dissesse m ais algum a coisa, m as ela não disse. No fim ele soltou um longo suspiro.
– Você fala kanticense?
– Claro.
– Então poderia fazer a gentileza de fazer algum as perguntas por nós?
Ferro sugou o ar por entre os dentes. Era um a perda de seu tem po, m as, se precisava ser feito, era m elhor que fosse rápido.
– O que devo perguntar?
– Bom … a que distância está o exército gurkense, quantos hom ens há nele, que cam inho está tom ando, você sabe…
– Uh.
Ferro se agachou na frente do prisioneiro e o olhou direto nos olhos. Ele a encarou, im potente e apavorado, sem dúvida perguntando-se o que ela estaria fazendo com aqueles rosados. Ela se perguntava o m esm o.
– Quem é você? – sussurrou ele.
Ela desem bainhou a faca e a ergueu.
– Você vai responder às m inhas perguntas ou eu vou m atá-lo com esta faca. Esta sou eu. Onde está o exército gurkense?
Ele lam beu os lábios.
– A uns… dois dias de m archa, ao sul.
– Quantos?
– Mais do que eu poderia contar. Muitos m ilhares. Povos dos desertos, das planícies e das…
– Que rota eles vão pegar?
– Não sei. Só disseram para virm os a esta aldeia e ver se estava vazia. – Ele engoliu em seco, fazendo o pom o de adão suado subir e descer. – Talvez m eu capitão saiba m ais…
– Ssss – sibilou Ferro.
O capitão dele não contaria nada a ninguém , agora que ela havia escavado sua cabeça.
– Um m onte – disse ela rispidam ente a Vallim ir, na língua com um – e m uito m ais para vir, a dois dias de m archa. Ele não sabe a rota. E agora?
Vallim ir coçou a barba crescida no queixo.
– Acho que… devem os levá-lo para o Agriont. Entregá-lo à Inquisição.
– Ele não sabe nada. Só vai fazer a gente ir m ais devagar. Deveríam os m atá-lo.
– Ele se rendeu! Matá-lo seria assassinato, com ou sem guerra – argum entou Vallim ir e cham ou um soldado. – Não vou carregar isso na consciência.
– Eu vou.
A faca de Ferro penetrou fácil o coração do batedor e saiu. A boca e os olhos dele se escancararam . Sangue borbulhou pelo tecido cortado no peito e se espalhou rápido, form ando um círculo escuro. Ele ficou olhando, boquiaberto, e em itiu um som prolongado com o se sufocasse.
– Gug…
Sua cabeça tom bou para trás, o corpo se afrouxou. Ela se virou e viu os soldados encarando-a, rostos pálidos de choque. Havia sido um dia m ovim entado para eles, talvez. Tinham m uito a aprender, m as logo se acostum ariam .
Isso ou os gurkenses iriam m atá-los.
– Eles querem queim ar as fazendas de vocês e seus vilarej os e suas cidades. Querem escravizar seus filhos. Querem que todo m undo reze do m esm o m odo que eles, com as m esm as palavras que eles usam , e que a terra de vocês sej a um a província do im pério deles. Eu sei disso. – Ferro enxugou a lâm ina da faca na m anga da túnica do m orto. – A única diferença entre guerra e assassinato é o núm ero de m ortos.
Vallim ir olhou o cadáver de seu prisioneiro durante um m om ento, os lábios contraídos, pensativo. Ferro se perguntou se ele teria m ais coragem do que ela im aginara. Por fim o m aj or se virou para ela.
– O que você sugere?
– Poderíam os esperar por m ais aqui. Talvez consigam os até pegar algum gurkense de verdade. Mas isso pode significar um núm ero grande dem ais para nós, que som os poucos.
– E então?
– Vam os para o leste ou para o norte fazer outra em boscada igual a esta.
– E derrotar o exército do im perador a doze hom ens de cada vez? Passos pequenos.
Ferro deu de om bros.
– Passos pequenos na direção certa. A não ser que você tenha visto o suficiente e queira voltar para suas m uralhas.
Vallim ir franziu a testa para ela, dem oradam ente, depois se virou para um dos seus hom ens, um veterano corpulento com um a cicatriz na bochecha.
– Há um a aldeia logo a leste daqui, não é, sargento Forest?
– Sim , senhor. Marlhof não fica a m ais de 15 quilôm etros.
– Serve para você? – perguntou Vallim ir, levantando um a sobrancelha para Ferro.
– Gurkenses m ortos. É o que serve para m im .