O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 19 de 61

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O duelo dos reis

Preparado para o pior

 

GLOKTA ESTAVA SENTADO em sua sala de j antar, olhando para a m esa e esfregando a coxa dolorida com um a das m ãos. A outra m exia distraidam ente na fortuna em j oias espalhada no estoj o de couro preto.

Por que eu faço isso? Por que eu fico aqui e interrogo? Poderia partir na próxima maré e ninguém iria se incomodar. Quem sabe uma viagem pelas belas cidades da Estíria? Um cruzeiro pelas Mil Ilhas? Chegar à longínqua Thond ou à distante Suljuk, para viver meus dias retorcidos em paz entre pessoas que não entendem uma palavra do que digo? Sem ferir ninguém? Sem guardar segredos? Tão indiferente a inocência ou culpa, verdade ou mentira quanto esses pedacinhos de pedra.

As pedras preciosas brilhavam à luz das velas, batendo um as nas outras, fazendo cócegas nos seus dedos enquanto ele as em purrava para um lado e de volta para o outro. Mas Sua Eminência choraria e choraria pelo meu desaparecimento súbito. Assim como, imaginamos, a casa bancária Valint e Balk. Onde, em todo o amplo Círculo do Mundo, eu estaria a salvo das lágrimas de senhores tão poderosos? E para quê? Para que possa ficar sentado na minha bunda aleijada o dia inteiro, esperando por meus assassinos? Para que eu possa ficar deitado, sentindo dor e pensando em tudo o que perdi?

Franziu a testa para as j oias: lim pas, duras e lindas. Fiz minha escolha há muito tempo. Quando aceitei o dinheiro de Valint e Balk. Quando beijei o anel de Sult. Até mesmo antes das prisões do imperador, quando cavalguei pela ponte, certo de que só o magnífico Sand dan Glokta poderia salvar o mundo…

Um a batida forte ecoou na sala e Glokta levantou a cabeça num m ovim ento brusco, a boca desdentada aberta. Desde que não seja o arquileitor…

– Abra em nom e de Sua Em inência!

Fez um a careta por causa de um espasm o que atravessou as costas ao se levantar da cadeira, am ontoando as pedras. Punhados inestim áveis, reluzentes. O suor havia brotado em sua testa.

E se o arquileitor descobrisse meu pequeno tesouro? Deu um risinho e pegou o estoj o de couro. Eu ia mencionar tudo isso, ia mesmo, mas nunca parecia o momento certo. É uma coisa insignificante, afinal de contas… não mais do que o resgate de um rei. Seus dedos bateram sem j eito nas j oias e, na pressa, ele derrubou um a, que caiu no chão com um clic-clic agudo.

Outra batida, m ais alta, fez a tranca pesada estrem ecer com a força do golpe.

– Abra!

– Estou indo!

Com um gem ido, ele se obrigou a ficar de quatro, procurando no chão, o pescoço ardendo de dor. Avistou-a, um a pedra lisa verde sobre as tábuas, brilhando à luz da lareira.

Peguei, sua desgraçada! Agarrou-a, levantou-se apoiado na borda da m esa, dobrou o estoj o um a, duas vezes. Não há tempo de escondê-lo. Enfiou-o dentro da cam isa, de m odo que ficasse preso pelo cinto, depois agarrou a bengala e foi m ancando até a porta da frente, enxugando o rosto suado, aj eitando as roupas, fazendo o m áxim o para apresentar um a aparência calm a.

– Estou indo! Não precisa…

Quatro práticos enorm es passaram por ele e entraram em seus aposentos, quase derrubando-o. Atrás deles, no corredor de fora, estava Sua Em inência, o arquileitor, franzindo a testa de form a m alévola, e outros dois práticos gigantescos atrás. Uma hora surpreendente para uma visita tão aprazível. Glokta podia ouvir os quatro batendo os pés pela casa, escancarando portas, abrindo arm ários. Não se incomodem comigo, senhores, a casa é sua. Depois de um instante, eles voltaram m archando.

– Vazia – grunhiu um deles por trás da m áscara.

– Hum – zom bou Sult, passando tranquilam ente pela porta e olhando ao redor com um a careta de desprezo. Parece que minhas novas acomodações não são mais impressionantes do que as antigas.

Os seis práticos tom aram posição j unto às paredes da sala de j antar de Glokta, os braços cruzados diante do peito. Um monte de homenzarrões para ficar de olho num pequeno aleijado.

Os sapatos de Sult golpeavam o chão enquanto ele andava de um lado para outro, os olhos azuis arregalados, um a carranca furiosa torcendo o rosto. Não é preciso ser um excelente avaliador de caráter para ver que ele não é um homem feliz. Será que um dos meus segredos chegou ao seu conhecimento? Uma das minhas pequenas desobediências? Suando, Glokta sentiu um trem or subir pela coluna torta. A não execução da mestra Eider, talvez? Meu acordo com a prática Vitari para contar menos do que toda a verdade? O canto do estoj o de couro pressionou suavem ente suas costelas quando ele aj eitou o quadril. Ou apenas a pequena questão da grande fortuna com que fui comprado por uma casa bancária altamente suspeita?

Um a im agem se form ou na cabeça de Glokta: o estoj o de j oias rasgando-se de repente sob o cinto, as pedras se derram ando pelas pernas da calça num a cascata inestim ável diante do arquileitor e de seus práticos pasm os. Como será que eu tentaria explicar isso? Precisou conter um risinho.

– Aquele desgraçado do Bay az! – rosnou Sult, com os punhos cerrados com força dentro das luvas brancas.

Glokta se sentiu relaxar um pouco. Então eu não sou o problema. Pelo menos por ora.

– Bay az?

– Aquele careca m entiroso, aquele im postor cheio de sorrisos, aquele velho charlatão! Ele roubou o Conselho Fechado! – Parado aí, ladrão! – Ele colocou aquele verm e do Luthar para nos dar ordens! Você disse que ele era um nada! – Eu disse que antigamente ele era um nada e o senhor me ignorou. – Aquele cachorrinho m aldito provou que tem dentes e não tem m edo de usá-los, e aquele Prim eiro dos Magos desgraçado está segurando a coleira! Está rindo de nós! Está rindo de m im ! De m im ! – berrou Sult, cutucando o próprio peito.

– Eu…

– Danem -se suas desculpas, Glokta! Eu estou m e afogando num m ar de desculpas, quando preciso é de respostas! Preciso é de soluções! Preciso é saber m ais sobre esse m entiroso!

Então talvez isso vá impressioná-lo.

– Na verdade, j á tom ei a liberdade de dar alguns passos nessa direção.

– Que passos?

– Pude colocar o navegador dele sob custódia – respondeu Glokta, perm itindo-se o m enor dos sorrisos.

– O navegador? – Sult não deu sinal de estar im pressionado. – E o que aquele im becil observador de estrelas disse?

Glokta fez um a pausa.

– Que viaj ou através do Antigo Im pério até a borda do Mundo com Bay az e nosso novo rei, antes de este ser elevado ao trono. – Buscou palavras que se encaixassem no m undo de Sult, um m undo de lógica, razões e boas explicações. – Que eles estavam procurando por… um a relíquia do Tem po Antigo…

– Relíquias? – perguntou Sult, com a carranca se aprofundando. – Do Tem po Antigo?

Glokta engoliu em seco.

– De fato, m as eles não a encontraram …

– Então agora nós sabem os um a dentre m il coisas que Bay az não fez? Ora! – Sult rasgou o ar com a m ão, furioso. – Ele não é ninguém , e lhe disse m enos do que nada! Mais dos seus m itos e bobagens!

– Certo, Em inência – m urm urou Glokta. Algumas pessoas são mesmo impossíveis de agradar.

Sult franziu a testa para o tabuleiro de quadrados sob a j anela, a m ão enluvada pairando sobre as peças com o se fosse fazer um a j ogada.

– Nem sei m ais quantas vezes você fracassou, m as vou lhe dar um a últim a chance de se redim ir. Investigue de novo esse Prim eiro dos Magos. Encontre algum a fraqueza, algum a arm a que possam os usar contra ele. Ele é um a doença e devem os exterm iná-lo. – Sult cutucou com raiva um a peça branca. – Quero que ele sej a destruído! Quero que sej a liquidado! Quero-o acorrentado na Casa das Perguntas!

Glokta engoliu em seco.

– Em inência, Bay az está enfiado no palácio e fora do m eu alcance… O protegido dele agora é nosso rei… – Graças em parte aos nossos esforços desesperados. Glokta quase se encolheu, m as não conseguiu se im pedir de fazer a pergunta. – Com o farei isso?

– Com o? – guinchou Sult. – Com o, seu verm e aleij ado? – Correu a m ão furiosam ente sobre o tabuleiro e j ogou as peças no chão. E quem será que vai ter de se abaixar para pegá-las?

Com o se fossem controlados pelo tom da voz do arquileitor, os seis práticos se afastaram das paredes e assum iram um a posição m ais am eaçadora.

– Se eu quisesse cuidar pessoalm ente de cada detalhe, não precisaria de seus serviços inúteis! Saia daqui e resolva isso, sua lesm a torta!

– Vossa Em inência é m uito gentil – m urm urou Glokta, curvando hum ildem ente a cabeça m ais um a vez. Mas até o cão mais baixo precisa de uma coçada entre as orelhas, de vez em quando, caso contrário pode pular no pescoço do dono…

– E, enquanto estiver fazendo isso, exam ine essa história dele.

– História, arquileitor?

– Esse conto de fadas sobre Carm ee dan Roth! – Os olhos de Sult se estreitaram m ais ainda, com sulcos fundos cortando a testa. – Se não puderm os controlar a coleira, devem os sacrificar o cachorro, entendeu?

Glokta sentiu o olho estrem ecer, apesar dos esforços para im obilizá-lo. Encontramos um modo de levar o reinado do rei Jezal a um fim abrupto. Isso é perigoso. Se a União é um navio, ele acaba de passar por uma tempestade e está adernando. Perdemos um capitão. Se substituirmos outro agora, o barco pode se despedaçar. Estaremos todos nadando em águas fundas, frias e desconhecidas. Guerra civil, alguém concorda aí? Franziu a testa para as peças do j ogo espalhadas no chão. Mas Sua Eminência falou. O que foi que Shickel disse? Quando seu senhor lhe dá uma tarefa, você se esforça ao máximo para cumpri-la, mesmo se a tarefa for sinistra. E alguns de nós somos adequados apenas para tarefas sinistras…

– Carm ee dan Roth e seu filho bastardo. Vou encontrar a verdade, Em inência, pode contar com igo.

A expressão de Sult chegou a novos níveis de desprezo.

– Quem m e dera!

 

A Casa das Perguntas estava m ovim entada, para um fim de tarde. Glokta não via ninguém à m edida que m ancava pelo corredor, com seus arrem edos de dentes pressionando o lábio, a m ão apertando o cabo da bengala, escorregadia de suor. Não via ninguém , m as ouvia.

Vozes vinham de trás das portas reforçadas com ferro. Graves e insistentes. Fazendo as perguntas. Agudas e desesperadas. Dando as respostas. De vez em quando um berro ou um rugido ou um uivo de dor cortavam o silêncio pesado. Esses não precisam de explicação. Severard perm aneceu encostado na parede suj a enquanto Glokta m ancava até ele. Tinha um dos pés apoiado no reboco e assobiava desafinado atrás da m áscara.

– O que é isso tudo? – perguntou Glokta.

– Alguns hom ens do lorde Brock se em bebedaram e ficaram barulhentos. Cinquenta. Fizeram um a baita confusão perto dos Quatro Cantos. Reclam ando sobre direitos, dizendo que as pessoas foram enganadas, que Brock deveria ser o rei. Estão alegando que foi um a m anifestação. Nós acham os que foi traição.

– Traição, é? – O termo tem uma definição tão abrangente. – Escolha alguns chefes e faça com que assinem alguns papéis. Angland está de volta nas m ãos da União. É hora de com eçarm os a encher aquele lugar de traidores.

– Já estão cuidando disso. Mais algum a coisa?

– Ah, claro. – Malabarismo com facas. Uma desce e duas sobem. Sempre mais lâminas girando no ar, e todas com gumes mortais. – Hoj e recebi um a visita de Sua Em inência. Um a visita breve, m as longa dem ais para o m eu gosto.

– Trabalho para nós?

– Nada que fará de você um hom em rico, se é o que você esperava.

– Eu sem pre espero. Sou o que podem cham ar de otim ista.

– Sorte sua. – Eu tendo a ser o contrário. Glokta respirou fundo e soltou o ar aos poucos. – O Prim eiro dos Magos e seus ousados com panheiros.

– De novo?

– Sua Em inência quer inform ações.

– Mas esse Bay az, ele não é unha e carne com o novo rei?

Glokta levantou um a sobrancelha na hora que um rugido de dor abafado ecoou no corredor. Unha e carne? É mais como se o velho tivesse feito o novo rei a partir do barro.

– É por isso que precisam os ficar de olho, prático Severard. Para a proteção dele. Os hom ens poderosos têm am igos poderosos, m as inim igos poderosos tam bém .

– Acha que aquele navegador sabe m ais algum a coisa?

– Nada que sirva.

– Que pena. Eu estava m e acostum ando a ter aquele m oleque por aqui. Ele conta um a história e tanto sobre um peixe enorm e.

Glokta correu a língua pelas gengivas vazias.

– Mantenha-o onde está, por ora. Talvez o prático Frost aprecie as histórias dele. – Ele tem um ótimo senso de humor.

– Se o navegador não serve, quem vam os apertar?

Quem, afinal? Nove Dedos se foi. O próprio Bayaz está enfiado no palácio e o aprendiz praticamente não sai do lado dele. O ex-Jezal dan Luthar, devemos admitir, está agora fora do nosso alcance…

– E aquela m ulher?

Severard levantou os olhos.

– O quê, a vaca m arrom ?

– Ela ainda está na cidade, não está?

– Pelo que ouvi dizer.

– Siga-a, então, e descubra o que ela está fazendo.

O prático fez um a pausa.

– Preciso m esm o?

– O quê? Está com m edo?

Severard levantou a m áscara e coçou por baixo.

– Posso im aginar outras pessoas que eu preferiria seguir.

– A vida é um a série de coisas que preferiríam os não fazer. – Glokta olhou para um lado e outro do corredor, certificando-se de que não havia ninguém ali. – Tam bém precisam os fazer algum as perguntas sobre Carm ee dan Roth, suposta m ãe do nosso rei atual.

– Que tipo de perguntas?

Ele se inclinou para Severard e sussurrou baixinho em seu ouvido:

– Perguntas do tipo: ela teve m esm o um filho antes de m orrer? Esse filho era m esm o fruto da pelve exageradam ente ativa do rei Guslav? Esse filho era de fato o m esm o hom em que tem os agora no trono? Você sabe que tipo de perguntas. – Perguntas que podem nos meter em um bocado de encrencas. Perguntas que algumas pessoas podem chamar de traição. Afinal de contas, o termo tem uma definição tão abrangente.

A m áscara de Severard era a m esm a de sem pre, m as o que se via do rosto dem onstrava preocupação.

– Tem certeza de que nós querem os fuçar aí?

– Por que não pergunta ao arquileitor se ele tem certeza? Ele m e pareceu ter certeza. Pegue Frost para aj udar, se você tiver dificuldade.

– Mas… o que estam os procurando? Com o vam os…

– Com o? – sibilou Glokta. – Se eu quisesse cuidar pessoalm ente de cada detalhe, não precisaria de seus serviços. Saia daqui e resolva isso!

 

Quando Glokta era j ovem e belo, rápido e prom issor, adm irado e invej ado, passava um bocado de tem po nas tavernas de Adua. Mas não me lembro de ter decaído tanto, mesmo nos piores momentos.

Não se sentia deslocado agora, m ancando entre os fregueses. Ali, ser aleij ado era a norm a, e ele tinha m ais dentes do que a m édia. Quase todo m undo tinha cicatrizes feias ou ferim entos debilitantes, feridas ou verrugas capazes de ruborizar um sapo. Havia hom ens com rostos ásperos com o o fundo de um a tigela suj a de m ingau seco. Hom ens que trem iam m ais do que folhas num vendaval e fediam a m ij o de um a sem ana. Hom ens que pareciam capazes de cortar a garganta de um a criança só para m anter as facas afiadas. Um a prostituta bêbada se encostava num poste num a atitude que não seria excitante nem para o m arinheiro m ais desesperado. O mesmo fedor de cerveja choca e desesperança, suor azedo e morte precoce de que me lembro dos locais de meus piores excessos. Só que mais forte.

Havia alguns reservados num a das extrem idades do salão fedorento, passagens em arco cheias de som bras m iseráveis e bêbados m ais m iseráveis ainda. E quem poderíamos ter esperança de encontrar num ambiente assim? Glokta parou, arrastando os pés, ao lado do últim o.

– Ora, ora, ora. Nunca pensei que o encontraria vivo de novo.

Nicom o Cosca parecia pior ainda do que quando Glokta o havia encontrado da prim eira vez, se é que era possível. Estava de costas contra um a parede im unda, esparram ado, as m ãos caídas, a cabeça pendendo para um lado, os olhos quase fechados. Glokta se acom odou de form a dolorida na cadeira oposta. A pele do outro se m ostrava pálida e m acilenta à luz trêm ula da única vela, com olheiras escuras, e som bras se balançavam no rosto fino e com prido. O eczem a no pescoço tinha piorado e se espalhava pela lateral do m axilar com o hera sobre ruínas. Com um pouquinho mais de esforço, ele pode parecer quase tão doente quanto eu.

– Superior Glokta – chiou ele, num a voz áspera com o casca de árvore. – É um prazer enorm e saber que o senhor recebeu m eu recado. Que honra nos encontrarm os de novo, contra todas as possibilidades! Seus senhores não recom pensaram seus esforços no Sul com um corte na garganta, hein?

– Fiquei tão surpreso quanto você, m as não. – Se bem que ainda houve tempo suficiente. – Com o ficou Dagoska depois da m inha saída?

O estiriano inflou as bochechas fundas.

– Dagoska ficou um horror, j á que está perguntando. Muitos hom ens m ortos. Muitos hom ens escravizados. É o que acontece quando os gurkenses vêm j antar, não é? Hom ens bons term inaram m al e os m aus não se saíram m uito m elhor. Finais ruins para todo m undo. O seu am igo, o general Vissbruck, foi um deles.

– Soube que ele cortou a própria garganta. – Com aprovação extasiada do público. – Com o você se livrou?

O canto da boca de Cosca se curvou para cim a, com o se ele tivesse vontade de sorrir m as não tivesse energia.

– Eu m e disfarcei com o um a j ovem serviçal e dei para sair.

– Engenhoso. – Mas é muito mais provável que você tenha aberto os portões para os gurkenses em troca da liberdade. Imagino se eu teria feito o mesmo nessa posição. Provavelmente. – E um a sorte para nós dois.

– Dizem que a sorte é um a m ulher. Sente-se atraída pelos que m enos m erecem .

– Talvez. – Mas parece que eu sou ao mesmo tempo imerecedor e azarado. – Com certeza é um a sorte você ter aparecido em Adua neste m om ento. As coisas estão… inquietas.

Glokta ouviu um guinchado e um farfalhar, depois um rato enorm e saiu correndo de baixo de sua cadeira e parou um instante, à vista de todos. Cosca enfiou a m ão m eio sem j eito no paletó suj o e tirou-a rapidam ente. Um a faca veio j unto e relam pej ou no ar. Cravou-se nas tábuas a um ou dois passos do alvo. O rato ficou parado m ais um m om ento, com o se quisesse deixar claro seu desprezo, depois se afastou depressa entre as pernas das m esas e das cadeiras, entre as botas gastas dos fregueses.

Cosca sugou o ar por entre os dentes m anchados e foi buscar a faca.

– Eu costum ava ser fantástico lançando facas, sabe?

– Mulheres lindas costum avam se agarrar a cada palavra m inha. – Glokta sugou o ar por entre as próprias gengivas vazias. – Os tem pos m udam .

– É o que dizem . Mudam m esm o. Novos governantes significam novas preocupações. Preocupações significam negócios para as pessoas do m eu ram o.

– Talvez eu tenha utilidade para os seus talentos específicos, daqui a não m uito tem po.

– Não posso dizer que eu recusaria. – Cosca inclinou a garrafa e enfiou a língua no gargalo, tentando lam ber a últim a gota. – Minha bolsa está vazia com o um poço seco. Tão vazia que nem tenho bolsa.

Nesse ponto, pelo menos, eu posso ajudar. Glokta se certificou de que não estavam sendo observados, depois j ogou algo sobre o tam po áspero da m esa. A pedra foi quicando com estalos, até que girou e parou diante de Cosca. O m ercenário a pegou entre o indicador e o polegar, levantou-a diante da cham a da vela e a avaliou com um olho inj etado.

– Parece um diam ante.

– Considere-se contratado. Acho que você poderia encontrar alguns hom ens da m esm a opinião para j untar-se a você. Alguns hom ens de confiança, que não falem dem ais nem façam perguntas. Alguns hom ens bons para aj udar.

– Quer dizer alguns hom ens m aus?

Glokta riu, exibindo as falhas entre os dentes.

– Bem , acho que depende de a pessoa ser a contratante ou parte do serviço.

– Acho que sim . – Cosca deixou a garrafa vazia cair nas tábuas m alfeitas do piso. – E qual é o serviço, superior?

– Por enquanto é só esperar e não ser notado. – Ele se inclinou para fora do reservado com um a careta de dor e estalou os dedos para um a garçonete carrancuda. – Outra garrafa do que m eu am igo está bebendo!

– E m ais tarde?

– Tenho certeza de que poderei arranj ar algum a coisa para você fazer. – Ele se arrastou dolorosam ente na cadeira para sussurrar: – Cá entre nós, ouvi um boato de que os gurkenses estão vindo.

Cosca se encolheu.

– Eles de novo? Precisa m esm o? Aqueles desgraçados não seguem as regras. Deus, j ustiça e fé. – Estrem eceu. – Isso m e deixa nervoso.

– Bom , independentem ente de quem estej a batendo à porta, tenho certeza de que posso organizar um a resistência final, heroica e em desvantagem , sem esperança de aj uda. – Afinal de contas, o que não me falta são inimigos.

Os olhos do m ercenário brilharam quando a garota bateu com um a garrafa cheia em cim a da m esa em penada.

– Ah, as causas perdidas. São as m inhas prediletas.