O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 16 de 61

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O duelo dos reis

O fazedor de reis

 

O DIA ESTAVA quente lá fora e a luz do sol j orrava pelos grandes vitrais, lançando raios coloridos no chão de ladrilhos da rotunda dos Lordes. A área am pla costum ava ser arej ada e fresca, m esm o no verão. Hoj e parecia apertada, sufocante, desconfortavelm ente quente. Jezal repuxava o colarinho para um lado e para outro, tentando deixar que entrasse um pouco de ar no uniform e sem se afastar da rígida posição de sentido.

A últim a vez em que estivera naquele local, com as costas j unto à parede circular, fora o dia em que a Guilda dos Mercadores de Tecidos foi dissolvida. Era difícil acreditar que m al havia se passado um ano; tanta coisa parecia ter acontecido desde então. Na época ele pensara que a rotunda dos Lordes não poderia ficar m ais apinhada, m ais tensa, m ais agitada. Com o estava errado!

As fileiras de assentos que ocupavam a m aior parte da câm ara estavam quase explodindo com os nobres m ais poderosos da União, e o ar ficara denso de sussurros cheios de expectativa, ansiosos, tem erosos. Estavam ali, ofegantes, todos os m em bros do Conselho Aberto, apinhados a ponto de seus om bros cobertos por peles se tocarem . Cada hom em exibia um a corrente brilhante que o destacava em ouro ou prata com o chefe de sua fam ília. Jezal poderia ter pouco m ais entendim ento de política do que um cogum elo, m as até ele ficava em polgado com a im portância da ocasião. A escolha de um novo rei suprem o da União por eleição aberta. Sentiu um j orro de nervosism o ao pensar nisso. Era difícil im aginar um a ocasião m ais im portante.

O povo de Adua certam ente sabia disso. Além daquelas paredes, nas ruas e praças da cidade, todos esperavam ansiosos a decisão do Conselho Aberto. Esperavam para aplaudir o novo m onarca, ou talvez vaiar, dependendo da escolha. Do lado de fora da rotunda dos Lordes, a praça dos Marechais era um a m assa única, todos os hom ens e m ulheres do Agriont aglom erados, ansiando pelo privilégio de ouvir em prim eira m ão a notícia vinda lá de dentro. Futuros seriam decididos, grandes dívidas seriam perdoadas, fortunas ganhas e perdidas de acordo com o resultado. Apenas um a pequena fração de sortudos recebera perm issão de entrar na galeria pública, m as m esm o assim era um núm ero suficiente para que os espectadores ficassem esprem idos no balcão, com o perigo im inente de serem em purrados por cim a da balaustrada e despencar no piso de ladrilhos lá em baixo.

Do outro lado do salão, as portas adornadas se abriram com um estrondo que ecoou no teto distante e ribom bou por todo o enorm e espaço. Houve um farfalhar à m edida que cada um dos m em bros do conselho girava em seu assento para olhar em direção à entrada, e então o som de pés quando o Conselho Fechado se aproxim ou vindo pelo corredor entre as cadeiras do anfiteatro. Um bando de secretários, escrivães e puxa-sacos o seguia, com papéis e livros nas m ãos ansiosas. O lorde cam arista Hoff vinha à frente, com a testa franzida e séria. Atrás dele estavam Sult, todo de branco, e Marovia, todo de preto, com os rostos igualm ente solenes. Em seguida vinham Varuz, Halleck e… O rosto de Jezal ficou perplexo. Quem m ais, senão o Prim eiro dos Magos, de novo usando seu ultraj ante m anto de m ago, com o aprendiz carrancudo ao lado. Bay az riu com o se não estivesse fazendo nada m ais do que com parecer a um teatro. Os olhares dos dois se encontraram e o m ago teve o desplante de piscar. Jezal não achou nem um pouco divertido.

Sob um coro crescente de m urm úrios, os velhos ocuparam suas cadeiras altas atrás de um a m esa longa e curva, virados para os nobres em seus bancos escalonados. Os aj udantes se arrum aram em cadeiras m enores e espalharam os papéis, abriram os livros, sussurraram inform ações para os senhores. A tensão subiu m ais um nível em direção à histeria com pleta.

Jezal sentiu um arrepio de suor nas costas. Glokta estava ali, ao lado do arquileitor, e o rosto fam iliar não o tranquilizava nem um pouco. Jezal passara aquela m esm a m anhã na casa de Ardee, assim com o toda a noite. Desnecessário dizer, não a havia rej eitado nem a pedira em casam ento. Sua cabeça girava, de tanto rem oer o assunto. Quanto m ais tem po passava com ela, m ais im possível parecia ser tom ar qualquer decisão.

O olhar febril de Glokta encontrou o dele, se m anteve, então se desviou. Jezal engoliu em seco com algum a dificuldade. Havia se colocado num a posição sinistra, sem dúvida. O que m ais iria fazer?

 

Glokta lançou um breve olhar para Luthar. Só para lembrá-lo do pé em que estamos. Depois girou em sua cadeira, fazendo um a careta ao estender a perna latej ante, com prim indo a língua contra as gengivas vazias ao sentir o j oelho estalar. Temos coisas mais importantes do que Jezal dan Luthar. Muito mais importantes.

Neste único dia o poder está com o Conselho Aberto, não com o Fechado. Com os nobres, não com os burocratas. Com os muitos, não com os poucos. Glokta olhou para a m esa, para os rostos dos grandes hom ens que haviam guiado a União nos últim os doze anos e m ais ainda: Sult, Hoff, Marovia, Varuz e todo o resto. Só um m em bro do Conselho Fechado sorria. O mais novo e menos bem-vindo acréscimo.

Bay az estava sentado em sua cadeira alta, tendo com o único acom panhante o aprendiz pálido, Malacus Quai. E ele não parece ser grande companhia para ninguém. Enquanto os outros poderiam liberar o conteúdo de suas tripas a qualquer instante, de tanto nervosism o, o Prim eiro dos Magos parecia adorar aquela tensão. Seu sorriso ficava absurdam ente deslocado no m eio dos rostos carrancudos. Expressões preocupadas. Testas suadas. Sussurros nervosos com os colegas. Equilibrados em fios de navalhas, todos eles. E eu também, claro. Não nos esqueçamos do pobre Sand dan Glokta, fiel servidor público! Estamos agarrados ao poder apenas pelas unhas – e escorregando, escorregando. Nós nos sentamos como acusados em nossos próprios julgamentos. Sabemos que o veredicto está prestes a ser anunciado. Será um imerecido adiamento de pena? Glokta sentiu um sorriso repuxar o canto de sua boca. Ou uma sentença de sangue? O que dizem os senhores do júri?

Seu olhar percorreu rapidam ente os rostos do Conselho Aberto, nos bancos. Trezentos e vinte rostos. Glokta visualizou os papéis pregados na parede do arquileitor e os associou aos hom ens sentados diante dele. Os segredos, as mentiras e as alianças. Sobretudo as alianças. Para que lado eles penderão?

Viu alguns de cuj o apoio tinha certeza. Ou o máximo de certeza que podemos ter nestes tempos incertos. Viu o rosto rosado de Ingelstad no m eio dos outros, perto dos fundos, e o suj eito engoliu em seco e desviou o olhar. Desde que você vote conosco, pode olhar para onde quiser. Viu as feições frouxas de Wetterlant algum as fileiras atrás, e o suj eito assentiu para ele de form a quase im perceptível. Então nossa última oferta foi aceitável. Mais quatro para o arquileitor? O bastante para fazer diferença e nos manter nos cargos? Para nos manter vivos? Glokta sentiu o sorriso vazio se alargar. Logo veremos…

No centro da prim eira fila, em m eio às m ais antigas e m elhores fam ílias da nobreza da Terra do Meio, estava sentado lorde Brock, de braços cruzados, fam into de expectativa. Nosso principal candidato, ansioso para o início da corrida. Não longe dele se sentava lorde Isher, velho e solene. O segundo favorito, ainda com todas as chances. Barezin e Heugen estavam perto, desconfortavelm ente j untos e ocasionalm ente olhando o outro de soslaio com certa aversão. Quem sabe? Uma arrancada final e o trono pode ser deles. O lorde governador Skald se posicionara na extrem a esquerda, na frente das delegações de Angland e Starikland. Homens novos, vindos das províncias. Mas um voto é um voto, por mais que torçamos o nariz. Na extrem a direita estavam sentados os doze edis de Westport, identificados com o gente de fora pelo corte das roupas e o tom da pele. Mas mesmo assim são doze votos, e não declarados.

Hoj e não havia representantes de Dagoska. Não resta nenhum, infelizmente. O lorde governador Vurms foi retirado de seu posto. Seu filho perdeu a cabeça e não pôde comparecer. Quanto ao resto da cidade, foi conquistado pelos gurkenses. Bem, perdas são inevitáveis. Seguiremos sem eles. O tabuleiro está arrumado, as peças prontas para serem movidas. Quem será o vencedor deste joguinho sórdido? Logo veremos…

O anunciador avançou para o centro do piso circular, levantou seu caj ado acim a da cabeça e o baixou com um a série de batidas que ecoaram nas paredes de m árm ore polido. As conversas foram parando, os nobres giraram para olhar, todos os rostos franzidos de tensão. Um silêncio sugestivo se assentou no salão repleto e Glokta sentiu um a sequência de fisgadas subir pelo lado esquerdo do rosto e fazê-lo piscar.

– Declaro iniciada esta reunião do Conselho Aberto da União! – trovej ou o anunciador.

Lentam ente e com a expressão m ais séria possível, lorde Hoff se levantou para encarar os m em bros do conselho.

– Am igos! Colegas! Lordes da Terra do Meio, Angland, Starikland, edis de Westport! Guslav V, nosso rei… está m orto. Seus dois herdeiros… foram m ortos. Um pelas m ãos de nossos inim igos do Norte e outro pelas m ãos de nossos inim igos do Sul. De fato, passam os por um m om ento de atribulações e estam os sem um líder. – Levantou os braços num gesto de quem im plora. – Agora os senhores estão diante de um a séria responsabilidade. A escolha, dentre nós, de um novo rei suprem o da União. Qualquer hom em que tenha um a cadeira neste Conselho Aberto é um candidato em potencial! Qualquer um dos senhores… pode ser nosso próxim o rei.

Um a onda de sussurros quase histéricos tom ou a galeria pública e Hoff foi obrigado a levantar a voz para ser ouvido acim a deles:

– Um a votação com o esta só aconteceu um a vez na longa história de nossa grande nação! Depois da guerra civil e da queda de Morlic, o Louco, quando Arnault foi alçado ao trono por um acordo quase unânim e. Foi ele o pai da grande dinastia que durou até poucos dias atrás. – Hoff deixou cair os braços e olhou triste para os ladrilhos. – Sábia foi a escolha que os antepassados de vocês fizeram naquele dia. Só podem os esperar que o hom em eleito esta m anhã, por seus pares e à vista dos m esm os, funde um a dinastia igualm ente nobre, igualm ente forte, igualm ente j usta e igualm ente longa!

Só esperamos que seja alguém que faça o que for mandado.

 

Ferro em purrou um a m ulher de vestido longo para que saísse de seu cam inho. Deu um a cotovelada num hom em gordo, que ficou com a papada trem endo de tanto ultraj e. Abriu cam inho pelo balcão e olhou irritada para baixo. A grande câm ara estava atulhada de velhos que usavam roupas com acabam ento de pele, todos eles esprem idos nas fileiras de assentos altos, todos com um a corrente brilhante em volta dos om bros e um a cam ada de suor lustroso no rosto pálido. Diante deles, atrás de um a m esa curva, estavam outros hom ens, em m enor núm ero. Ela fez um a careta ao ver Bay az sentado no m eio deles, sorrindo com o se soubesse de algum segredo que m ais ninguém poderia adivinhar.

Com o sem pre.

Ao lado dele estava um rosado gordo com o rosto cheio de vasos aparentes, gritando algo sobre os hom ens votarem com consciência. Ferro bufou. Ficaria surpresa se, entre as centenas de hom ens ali em baixo, houvesse cinco consciências. Parecia que todos ouviam atentam ente o discurso do gordo, m as Ferro via que não.

Havia m uitos sinais disso pela sala.

Hom ens olhavam de esguelha uns para os outros e assentiam disfarçadam ente. Piscavam um olho ou outro. Encostavam dedos no nariz ou na orelha. Coçavam -se de m odos estranhos. Um a teia de segredos, espalhando-se para todas as partes da câm ara, com Bay az sentado e rindo no m eio daquilo. Um pouco atrás dele, de costas para a parede, Jezal dan Luthar estava de pé, com um uniform e enfeitado com fios brilhantes. Ferro repuxou os lábios. Dava para ver, pela postura do suj eito: ele não havia aprendido nada.

O anunciador bateu com seu caj ado no chão outra vez.

– A votação terá início agora!

Houve um gem ido e Ferro viu a m ulher que ela havia em purrado desm aiar e cair no chão. Alguém a arrastou para longe, abanando-a com um pedaço de papel, e a turba m al-hum orada se fechou logo atrás.

– Na prim eira rodada, chegarem os a três opções. Os braços devem ser erguidos para apoiar os candidatos, que serão apresentados em ordem de posse de terras e de bens, da m aior para a m enor.

Lá em baixo, nos bancos, os suj eitos ricam ente vestidos suavam e trem iam com o hom ens antes de um a batalha.

– Prim eiro! – berrou um funcionário, a voz falhando, e consultou um livro enorm e. – Lorde Brock!

Na galeria, pessoas enxugavam o rosto, m urm urando e ofegando com o se estivessem diante da m orte. Talvez algum as estivessem . O lugar inteiro fedia a dúvida, agitação e terror. Tão forte que era contagioso. Tão forte que até Ferro, que cagava e andava para os rosados e sua porcaria de eleição, sentiu a boca ficar seca, os dedos latej arem e o coração m artelar.

O anunciador se virou para a câm ara.

– O prim eiro candidato será lorde Brock! Todos os m em bros do Conselho Aberto que desej em votar em lorde Brock para ser o próxim o rei suprem o da União, por favor, levantem a…

– Um m om ento, lordes!

 

Glokta virou a cabeça bruscam ente, m as os ossos do pescoço ficaram travados na m etade do cam inho e ele precisou espiar com o canto de um olho úm ido. Não precisaria ter se incom odado. Eu poderia adivinhar sem olhar. Bay az havia se levantado de sua cadeira e agora sorria com indulgência para o Conselho Aberto. No momento perfeito. Um a saraivada de gritos ultraj ados subiu dos m em bros do conselho, em reação.

– Não é hora de interrupções!

– Lorde Brock! Voto em lorde Brock!

– Um a nova dinastia!

O sorriso de Bay az não se alterou sequer um ínfim o.

– Mas e se a dinastia antiga continuasse? E se pudéssem os recom eçar… – Ele olhou de form a expressiva para o rosto de seus colegas do Conselho Fechado. –… ao m esm o tem po que m antem os tudo que é bom do nosso governo atual? E se houvesse um m odo de curar as feridas, em vez de provocá-las?

– Com o? – responderam gritos de zom baria.

– De que m odo?

O sorriso de Bay az ficou m ais largo ainda.

– Ora, com um bastardo real.

Houve um ofegar coletivo. Lorde Brock saltou de seu banco. Como se tivesse uma mola na bunda.

– Isso é um insulto a esta casa! Um escândalo! Um a m ancha na m em ória do rei Guslav! – É verdade: agora ele não parece só um vegetal babão, mas um vegetal babão e lascivo.

Outros hom ens se apressaram em acom panhá-lo, os rostos verm elhos de ultraj e ou brancos de fúria, brandindo os punhos e gritando com raiva. Todos os ocupantes das cadeiras pareciam bufar, grunhir e se retorcer. Igual aos porcos nos cercados do matadouro, clamando por qualquer lavagem oferecida.

– Esperem ! – berrou o arquileitor, com as m ãos enluvadas erguidas em súplica. Sentindo um leve vislumbre de esperança no escuro, talvez? – Esperem , senhores! Não há nada a perder em se ouvir! Terem os a verdade aqui, m esm o que sej a dolorosa! A verdade deve ser nossa única preocupação!

Glokta precisou se conter para não cair na gargalhada. Ah, claro, Eminência! A verdade sempre foi sua única preocupação!

Então o burburinho foi dim inuindo aos poucos. A vergonha fez os nobres se conterem . Não é fácil quebrar o hábito de obedecer ao Conselho Fechado. Mas nenhum hábito é. Sobretudo os que têm a ver com obediência. Basta perguntar aos cachorros da minha mãe. Brock e seus partidários voltaram a seus lugares resm ungando e perm itiram que Bay az continuasse.

– Os senhores talvez tenham ouvido falar de Carm ee dan Roth. – Os m urm úrios repentinos na galeria superior confirm aram que o nom e não era desconhecido. – Ela teve os favores do rei, quando ele era m ais novo. Foi m uito querida por ele. Tanto que ficou grávida. – Outra onda de m urm úrios, m ais alta. – Eu sem pre tive grande consideração pela União. Sem pre pensei no m elhor para ela, apesar dos poucos agradecim entos que recebi. – Bay az repuxou só um pouquinho os lábios na direção dos m em bros do Conselho Fechado. – Então, quando a dam a m orreu ao dar à luz, tom ei o bastardo do rei sob m eus cuidados. Depois o coloquei num a fam ília nobre, onde poderia ser bem criado e bem educado, para o caso de um dia a nação se encontrar sem um herdeiro. Agora m eus atos parecem ter sido prudentes, sem dúvida.

– Mentiras! – fez-se ouvir um a voz, aos berros. – Mentiras!

Mas poucas vozes se j untaram a ela, e as que o fizeram denotaram curiosidade.

– Um filho natural?

– Um bastardo?

– Carm ee dan Roth, foi o que ele disse?

Eles já ouviram essa história. Boatos, talvez, mas boatos familiares. Suficientemente familiares para fazê-los prestar atenção. Para fazê-los avaliar se será de seu interesse acreditar.

Mas lorde Brock não estava convencido.

– Um a invenção descarada! Será preciso m ais do que boatos e conj ecturas para influenciar esta casa! Materialize esse bastardo, se puder, suposto Prim eiro dos Magos! Faça sua m agia!

– Não é preciso m agia – zom bou Bay az. – O filho do rei j á está conosco, nesta câm ara. – Sons ofegantes e consternados vindos da galeria, suspiros de espanto entre os nobres, silêncio perplexo do Conselho Fechado e de seus auxiliares, todos os olhares fixos no dedo de Bay az, que girou a m ão na direção da parede. – Ninguém m enos do que o coronel Jezal dan Luthar!

O espasm o com eçou no pé sem dedos de Glokta, disparou pela perna arruinada, fez sua espinha torta trem er da bunda até o crânio, seu rosto estrem ecer com o geleia e os poucos dentes chacoalharem nas gengivas vazias e deixou as pálpebras batendo m ais depressa do que as asas de um a m osca.

As últim as palavras de Bay az foram passadas em sussurros por todo o salão subitam ente silencioso.

– Luthar, Luthar, Luthar…

Você deve estar brincando, porra.

 

Os nobres estavam pálidos e im óveis, os queixos caídos e os olhos arregalados de espanto ou estreitados de fúria. Os hom ens atrás da m esa estavam lívidos e boquiabertos. As pessoas descoradas no balcão apertavam as m ãos contra a boca. Jezal dan Luthar, que havia chorado de autopiedade enquanto Ferro costurava seu rosto. Jezal dan Luthar, aquele penico furado cheio de egoísm o, arrogância e vaidade. Jezal dan Luthar, que ela havia cham ado de princesa da União, tinha a chance de term inar o dia com o rei.

Ferro não conseguiu se conter.

Jogou a cabeça para trás e engasgou, tossiu e gorgolej ou de tanto rir. Lágrim as brotaram em seus olhos, seu peito se sacudiu e os j oelhos trem eram . Ela se agarrou à balaustrada do balcão, ofegou, balbuciou e babou. Ferro não gargalhava com frequência. Mal conseguia se lem brar da últim a vez que isso acontecera. Mas Jezal dan Luthar, rei?

Isso era engraçado.

 

Lá no alto, na galeria pública, alguém havia com eçado a gargalhar. Um riso espasm ódico, com pletam ente inadequado à solenidade do m om ento. Mas o prim eiro im pulso de Jezal, quando percebeu que era seu nom e que Bay az havia gritado, quando percebeu que era para ele que o dedo estendido apontava, tam bém foi rir. O segundo, à m edida que cada rosto dentro daquele am plo salão se virava para ele, foi vom itar. O resultado foi um a tosse deselegante, um sorriso envergonhado, um a queim ação desagradável no fundo da garganta e um em palidecim ento instantâneo.

– Eu… – pegou-se grasnando, m as sem a m enor ideia de com o continuaria a frase.

Que palavras poderiam aj udar num m om ento assim ? Só conseguiu ficar ali parado, suando em bicas, trem endo dentro do uniform e, enquanto Bay az continuava em tom solene, interrom pendo a gargalhada que vinha lá de cim a:

– Tenho aqui a declaração de seu pai adotivo, feita sob j uram ento, atestando que tudo o que eu disse é verdade, m as isso im porta? A verdade está clara para qualquer um enxergar! – Seu braço se estendeu para Jezal de novo. – Ele venceu um Cam peonato diante de todos vocês e m e acom panhou num a j ornada cheia de perigos sem j am ais reclam ar! Lançou-se ao ataque na ponte em Darm ium , sem ao m enos pensar na própria segurança! Salvou Adua da revolta dos cam poneses sem derram ar um a gota de sangue! Seu valor e sua capacidade, sua sabedoria e seu altruísm o são conhecidos de todos! Alguém pode duvidar que o sangue de reis corre em suas veias?

Jezal piscou. Fatos isolados com eçaram a tom ar form a em sua m ente confusa. Ele não era m uito parecido com os irm ãos. Seu pai sem pre o havia tratado de m odo diferente. Era a única pessoa bonita da fam ília.

Sua boca estava aberta, m as ele não conseguia fechá-la. Quando seu pai vira Bay az no Cam peonato, tinha ficado branco feito leite, com o se o reconhecesse. Havia reconhecido, m as não era seu pai.

Quando o rei dera os parabéns a Jezal por sua vitória, tinha-o confundido com o próprio filho. Não era um a tolice cega, evidentem ente, com o todos tinham pensado. O velho idiota estivera m ais certo do que todo m undo. De repente tudo fazia um horrível sentido.

Ele era um bastardo, era filho de um rei. E havia m uito m ais, ainda, com eçava lentam ente e com terror cada vez m aior a perceber: agora estava sendo cogitado com o seu substituto.

– Senhores! – gritou Bay az acim a das conversas incrédulas cuj o volum e aum entava a cada m om ento. – Os senhores estão pasm os! É um fato difícil de aceitar, entendo. Sobretudo com o calor sufocante aqui dentro! – Sinalizou para os guardas nas duas extrem idades do salão. – Abram as portas, por favor, e deixem que entre um pouco de ar!

As portas foram abertas e um a brisa suave percorreu a rotunda dos Lordes. Um a brisa refrescante, e outra coisa, j unto. A princípio difícil de identificar, depois chegando com m ais clareza. Algo com o o ruído da m ultidão no Cam peonato. Baixo, repetitivo e m ais do que um pouco apavorante.

– Luthar! Luthar! Luthar!

Jezal ouviu seu nom e entoado repetidam ente por um sem -fim de gargantas do outro lado das m uralhas do Agriont. Era inconfundível.

Bay az riu.

– Parece que o povo j á escolheu seu candidato.

– A escolha não é do povo! – rugiu Brock, ainda de pé, m as só agora recuperando a com postura. – Assim com o não é sua!

– Mas seria tolice ignorar a opinião deles. O apoio dos plebeus não pode ser desconsiderado, em especial nestes tem pos de inquietação. Se os decepcionarm os, no estado atual de coisas, quem sabe o que pode acontecer? Tum ultos nas ruas ou coisa pior? Nenhum de nós quer isso, não é, lorde Brock?

Vários m em bros do conselho se rem exeram , nervosos, nas cadeiras, olhando para as portas abertas, sussurrando para os vizinhos. Se antes todos ali estavam confusos, agora estavam pasm os. Mas a preocupação e a surpresa do Conselho Aberto não podiam se com parar com as de Jezal.

 

Uma história fascinante, mas, se ele supõe que os homens mais gananciosos da União vão simplesmente aceitar sua palavra e entregar a coroa, cometeu um erro calamitoso, quer os plebeus se molhem ao ouvir o nome de Jezal ou não. Lorde Isher se levantou na fila da frente pela prim eira vez, im ponente e m agnífico, as j oias de sua corrente reluzindo. E assim começam as objeções furiosas, as negativas ultrajadas, as exigências de punição.

– Eu acredito de todo o coração – bradou Isher a plenos pulm ões – que o hom em conhecido com o coronel Jezal dan Luthar é ninguém m enos do que o filho natural do recém -falecido rei Guslav V! – Glokta ficou boquiaberto. O m esm o pareceu acontecer com quase todo m undo na câm ara. – E que ele é adequado para governar, com seu caráter exem plar e seus grandes feitos, tanto dentro quanto fora da União! – Outra gargalhada feia soou lá em cim a, m as Isher a ignorou. – Meu voto e o voto daqueles que m e apoiam vão para Luthar, de todo o coração!

Se os olhos de Luthar se arregalassem m ais, poderiam cair das órbitas. E quem pode culpá-lo? Agora um hom em da delegação de Westport estava de pé.

– Os edis de Westport votam unanim em ente em Luthar! – entoou em seu sotaque estiriano. – Filho natural e herdeiro do rei Guslav V!

Um hom em se pôs de pé num salto, algum as fileiras atrás. Olhou de form a rápida e nervosa para Glokta. Era ninguém m enos do que lorde Ingelstad. Aquele merdinha mentiroso, o que ele vai fazer?

– Sou a favor de Luthar! – berrou.

– E eu, por Luthar! – Wetterlant, com os olhos fundos não revelando m ais em oção do que quando alim entava os patos. Ofertas melhores, hein, senhores? Ou ameaças melhores?

Glokta olhou para Bay az. Ele tinha um leve sorriso no rosto enquanto observava outros se porem de pé e declararem apoio ao suposto filho natural de Guslav V. O tem po todo, o clam or da m ultidão lá fora podia ser ouvido.

– Luthar! Luthar! Luthar!

À m edida que o espanto dim inuía, Glokta com eçou a raciocinar. Então foi por isso que o Primeiro dos Magos trapaceou no Campeonato a favor de Luthar. Por isso o manteve perto de si todo esse tempo. Por isso conseguiu um cargo tão notável para ele. Se tivesse apresentado um ninguém como filho do rei, receberia gargalhadas da câmara. Mas Luthar, amando-o ou odiando-o, é um de nós. É conhecido, é familiar, é… aceitável. Glokta olhou para Bay az com algo próxim o de adm iração. Peças de um quebra-cabeça, preparadas ao longo de anos de paciência, encaixadas com toda a calma diante de nossos olhos incrédulos. E não podemos fazer absolutamente nada, a não ser, talvez, dançar ao som de sua música.

Sult se inclinou de lado na cadeira e sibilou ansioso no ouvido de Glokta:

– Este garoto, Luthar, que tipo de hom em ele é?

Glokta franziu a testa para Jezal, parado perplexo j unto à parede. Nesse m om ento ele m al parecia capaz de controlar as próprias tripas, quanto m ais um país. Mas se poderia dizer quase o mesmo de nosso rei anterior, e ele cumpriu com seus deveres de forma admirável. Seus deveres de ficar sentado e babando, enquanto governávamos o país para ele.

– Antes dessa viagem ao estrangeiro, Em inência, ele era o j ovem idiota m ais cabeça oca, covarde e vaidoso que poderia ser encontrado em toda a nação. Mas na últim a vez que falei com ele…

– Perfeito!

– Mas, Em inência, o senhor deve avaliar que tudo isso segue o plano de Bay az…

– Lidarem os com esse velho idiota m ais tarde. Vou m e aconselhar.

Sem esperar resposta, Sult se virou para confidenciar algo a Marovia. Ora os dois olhavam para o Conselho Aberto, ora assentiam e faziam sinais para os hom ens que eles controlavam . O tem po todo Bay az sorria. Como um engenheiro sorri quando sua nova máquina funciona pela primeira vez exatamente como projetada. O m ago atraiu o olhar de Glokta e assentiu de form a m ais que sutil. Não restava nada para Glokta fazer além de dar de om bros e abrir um sorriso banguela. Será que algum dia todos desejaremos ter votado em Brock?

Agora Marovia falava às pressas com Hoff. O lorde cam arista franziu a testa, assentiu, virou-se para a plateia e sinalizou para o anunciador, que bateu seu caj ado violentam ente no chão para pedir silêncio.

– Lordes do Conselho Aberto! – rugiu Hoff assim que algo parecido com um silêncio se estabeleceu. – A descoberta de um filho natural obviam ente m uda o tom deste debate! O destino parece ter nos presenteado com a oportunidade de continuar a dinastia de Arnault sem m ais dúvidas ou conflitos! – O destino? Acho que nosso benfeitor é outro, menos desinteressado. – Em vista destas circunstâncias excepcionais e do forte apoio j á verbalizado por m em bros desta casa, o Conselho Fechado avalia que um a votação excepcional deve ser feita agora. Um a única votação, para saber se o hom em anteriorm ente conhecido com o Jezal dan Luthar deve ser declarado rei suprem o da União de agora em diante!

– Não! – rugiu Brock, com as veias saltando no pescoço. – Protesto veem entem ente!

Mas era o m esm o que protestar contra a m aré que subisse. Os braços j á se erguiam em núm ero espantoso. Os edis de Westport, os hom ens que apoiavam lorde Isher, os votos que Sult e Marovia haviam conseguido por pressão e suborno. Agora Glokta viu m uitos outros: hom ens que ele achara estarem indecisos ou que haviam se declarado fiéis a um ou outro candidato. Todos apoiando Luthar numa velocidade tamanha que sugere fortemente um arranjo anterior. Bay az se recostou, braços cruzados, enquanto olhava as m ãos erguidas. Já estava terrivelm ente claro que m ais de m etade do salão era favorável àquilo.

– Isso! – sibilou o arquileitor com um sorriso de triunfo no rosto. – Isso!

Os que não haviam levantado o braço, hom ens com prom etidos com Brock, Barezin ou Heugen, olhavam ao redor, perplexos e bastante horrorizados com a rapidez com que tinham perdido aquela oportunidade. Com que velocidade a chance de chegar ao poder escorreu por entre seus dedos! E quem pode culpá-los? Foi um dia surpreendente para todos nós.

Lorde Brock fez um últim o esforço, levantando um dedo e apontando para Luthar, ainda de olhos arregalados j unto à parede.

– Que prova vocês têm de que ele é filho de alguém em particular, além da palavra desse velho m entiroso? – Ele indicou Bay az. – Que prova, m eus lordes? Exij o prova!

Murm úrios irados percorreram as cadeiras, m as ninguém se pronunciou. É a segunda vez que lorde Brock se levanta diante deste conselho e exige uma prova e, pela segunda vez, ninguém se importa com o que ele exige. Que prova pode haver, afinal de contas? Uma marca de nascença em forma de coroa na bunda de Luthar? Prova é um negócio tedioso. Prova é um negócio cansativo. Prova é um negócio irrelevante. As pessoas preferem acreditar numa mentira fácil a buscar uma verdade difícil, ainda mais quando a mentira atende a seus propósitos. E a maioria de nós preferiria ter um rei sem amigos nem inimigos a um rei com muitos de ambos. A maioria de nós preferiria que as coisas ficassem como estão a se arriscar a um futuro incerto.

Mais m ãos se levantaram , e m ais. O apoio a Luthar chegara longe dem ais para que qualquer um pudesse detê-lo. Agora é como uma pedra enorme rolando por uma encosta. Eles não ousam ficar no caminho para não serem esmagados. Por isso se amontoam atrás dela, empurrando-a, e esperam poder catar o que sobrar depois.

Brock se virou com um a expressão m ortal no rosto, em seguida seguiu de form a intem pestiva pelo corredor e saiu da câm ara. Provavelm ente havia esperado que boa parte do Conselho Aberto o seguisse. Mas com isso, como com tantas outras coisas hoje, ele deve estar bastante desapontado. Não m ais de um a dúzia de seus seguidores m ais leais o acom panhou na m archa solitária para fora da rotunda dos Lordes. Os outros têm mais tino. Lorde Isher trocou um longo olhar com Bay az, depois levantou a m ão pálida. Os lordes Barezin e Heugen assistiram à m aior parte daqueles que os apoiavam debandar para a causa do j ovem pretendente, e apenas se entreolharam , se recostaram em suas cadeiras e m antiveram num silêncio cauteloso. Skald abriu a boca para falar, olhou em volta, pensou m elhor e, com evidente relutância, levantou o braço devagar.

Não houve m ais protestos.

O rei Jezal I foi alçado ao trono por acordo quase unânim e.