O duelo dos reis

Joe Abercrombie · Capítulo 34 de 61

Páginas do PDF

O duelo dos reis

O círculo

 

O ALVORECER ESTAVA chegando, um a sugestão de cinza, um toque levíssim o de claridade ao redor da silhueta solene das m uralhas de Carleon. Todas as estrelas haviam desbotado no céu de pedra, m as a lua continuava a pairar ali, logo acim a do topo das árvores, e parecia tão próxim a que quase seria possível acertá-la com um a flecha.

West não havia pregado os olhos a noite toda e tinha passado para aquele estranho reino de vigília incôm oda, onírica, que está além da exaustão. Durante algum tem po, no escuro, em silêncio, depois de todas as ordens serem dadas, ele havia se sentado à luz de um único lam pião para escrever um a carta à irm ã. Vom itar desculpas. Exigir perdão. Ficara sentado não sabia por quanto tem po, com a pena sobre o papel, m as as palavras sim plesm ente não vieram . Quisera dizer tudo o que sentia, m as, pensando bem , não sentia nada. As tavernas quentes de Adua, as cartas de baralho no pátio ensolarado. O sorriso torto de Ardee. Tudo parecia ter acontecido m il anos antes.

Os nórdicos j á estavam ocupados cortando o capim à som bra da m uralha. Os estalos que produziam lim pando um círculo de doze passos de diâm etro até as raízes eram com o um eco estranho dos j ardineiros do Agriont. Aquele devia ser o terreno onde aconteceria o duelo. O terreno onde, dali a um a ou duas horas, o destino do Norte seria decidido. Muito parecido com um círculo de esgrim a, só que logo poderia estar coberto de sangue.

– Um costum e bárbaro – m urm urou Jalenhorm , com os pensam entos evidentem ente voltados para um rum o parecido com o de West.

– Verdade? – resm ungou Pike. – Eu estava pensando em com o é um costum e civilizado.

– Civilizado? Dois hom ens trucidando-se diante de um a m ultidão?

– Melhor do que um a m ultidão trucidando outra. Solucionar um problem a com a m orte de apenas um hom em ? É um bom m odo de term inar um a guerra, no m eu pensam ento.

Jalenhorm se encolheu e soprou nas m ãos em concha.

– Mesm o assim . É m uita coisa para depender de dois hom ens lutando. E se Nove Dedos perder?

– Então acho que Bethod ficará livre – respondeu West, infeliz.

– Mas ele invadiu a União! Provocou m ilhares de m ortes! Ele m erece ser castigado!

– Raram ente as pessoas recebem o que m erecem – falou West.

Pensou nos ossos do príncipe Ladisla apodrecendo no erm o. Alguns crim es terríveis ficam sem castigo, e uns poucos, sem nenhum m otivo além dos m ovim entos caprichosos do acaso, são ricam ente recom pensados. Ele parou.

Um hom em estava sentado sozinho no longo declive, de costas para a cidade. Um hom em encurvado e usando um casaco velho, tão im óvel e silencioso à m eia-luz que West quase não o viu.

– Já alcanço vocês – disse ao sair da trilha.

Coberto com um a penugem pálida de geada, o capim estalava delicadam ente sob suas botas a cada passo.

– Puxe um a cadeira – convidou-o Nove Dedos, com a respiração saindo suave com o fum aça em volta de seu rosto escurecido.

West se agachou na terra fria ao lado dele.

– Você está preparado?

– Fiz isso dez vezes antes. Não posso dizer que j á estive preparado. Não sei se existe um m odo de se preparar para isso. O m elhor que descobri foi sim plesm ente m e sentar e esperar o tem po se arrastar. E tentar não m e m ij ar.

– Im agino que um a calça m olhada seria em baraçosa no círculo.

– É. Mas acho que é m elhor do que um a cabeça rachada.

Não dava para negar. West tinha ouvido histórias desses duelos nórdicos, claro. Crescendo em Angland, as crianças sussurravam histórias sinistras sobre isso. Mas ele tinha pouca ideia de com o aconteciam de fato.

– Com o esse negócio funciona?

– Eles delim itam um círculo. Em volta ficam hom ens com escudos, m etade são de um lado e m etade, do outro, e garantem que ninguém saia antes que a coisa sej a resolvida. Dois hom ens entram no círculo. O que m orrer perde. A não ser que alguém decida ser m isericordioso. Mas de algum m odo não consigo im aginar isso acontecendo hoj e.

Tam bém não dava para im aginar.

– Com o que vocês lutam ?

– Cada um de nós traz um a arm a. Pode ser qualquer coisa. Então giram um escudo e o ganhador escolhe a que quer.

– Então você pode acabar lutando com o que seu inim igo trouxe?

– Isso pode acontecer. Matei Sham a Sem Coração com a espada dele e fui furado pela lança que levei para lutar contra Harding Sinistro – contou Logen e coçou a barriga, com o se a lem brança doesse ali. – Mas ser furado pela própria lança não m achuca m ais do que pela de outra pessoa.

West pôs a m ão na própria barriga, pensativo.

– É.

Os dois ficaram sentados em silêncio um pouco m ais.

– Quero lhe pedir um favor – falou Nove Dedos.

– É só dizer.

– Você e seus am igos segurariam escudos para m im ?

– Nós? – falou West, e piscou na direção dos Carls à som bra da m uralha. Seus grandes escudos redondos pareciam bastante difíceis de levantar, quanto m ais de usar bem . – Tem certeza? Nunca segurei um na vida.

– Talvez, m as você sabe de que lado está. Não há m uita gente em quem eu confie, no m eio daqueles. A m aioria ainda está tentando decidir quem odeia m ais, Bethod ou eu. Alguém m e dá um encontrão quando eu precisar de apoio ou m e deixa cair quando eu precisar ser seguro. Aí todos estarem os acabados. Principalm ente eu.

West estufou as bochechas.

– Farem os o que puderm os.

– Que bom . Que bom .

O silêncio frio se arrastou. Sobre as m ontanhas negras e as árvores escuras, a lua afundou e sua luz ficou m ais fraca.

– Diga, Furioso: você acha que um hom em precisa pagar pelas coisas que fez?

West levantou a cabeça de im ediato, com o pensam ento irracional e doentio de que Nove Dedos estava falando de Ardee ou de Ladisla ou de am bos. Certam ente os olhos do nórdico pareciam brilhar de form a acusadora. Então West sentiu essa ânsia dim inuir. Nove Dedos estava falando de si, claro, com o todo m undo faz quanto tem chance. O que havia nos olhos dele era culpa, não acusação. Todo hom em é perseguido pelos próprios erros.

– Talvez – respondeu West, pigarreando por causa da secura na garganta. – Às vezes. Não sei. Acho que todos fizem os coisas das quais nos arrependem os.

– É. Acho que sim .

Voltaram a ficar em silêncio e olharam a luz vazar pelo céu.

 

– Vam os, chefe! – sibilou Barca Negra. – Vam os, porra!

– Eu digo quando! – cuspiu Cachorrão de volta.

Afastou do cam inho os ram os orvalhados e espiou a m uralha, a cerca de cem passos de distância, do outro lado de um a cam pina úm ida.

– Agora tem m uita luz. Vam os esperar aquela porcaria de lua baixar m ais um pouco, depois saím os correndo.

– Não vai ficar m ais escuro que isso! Bethod não pode ter m uitos hom ens lá, depois dos que m atam os nas m ontanhas, e é um bocado de m uralha. Eles vão estar espalhados, finos que nem teias de aranha lá em cim a.

– Só é preciso um para…

Mas Barca Negra j á partira correndo pelo cam po, tão visível no capim quanto um cagalhão num cam po coberto de neve.

– Merda! – sibilou Cachorrão, im potente.

– Uh – concordou Sinistro.

Não havia nada a fazer além de olhar e esperar que Barca Negra fosse crivado de flechas. Esperar os gritos, as tochas serem acesas e o alarm e soar e a coisa toda ir para a vala. Então Barca Negra subiu o últim o trecho da encosta e m ergulhou nas som bras j unto à m uralha.

– Ele conseguiu – disse Cachorrão.

– Uh – fez Sinistro.

Era para ser um a boa notícia, m as Cachorrão não sentiu m uita vontade de sorrir. Agora ele m esm o precisava fazer a corrida, e não tinha a sorte de Barca Negra. Olhou para Sinistro, que deu de om bros. Os dois saíram j untos das árvores, os pés batendo na cam pina m acia. Sinistro tinha pernas m ais com pridas, com eçou a se afastar. O terreno era m uito m ais m ole do que Cachorrão havia…

– Ai!

Seu pé afundou até o tornozelo e ele voou, se esparram ou na lam a e saiu deslizando. Levantou-se todo atrapalhado, ofegando e com frio, e correu o resto do cam inho com a cam isa m olhada grudada na pele. Subiu de qualquer j eito a encosta e, quando chegou à base da m uralha, se curvou e apoiou as m ãos nos j oelhos, soltando o ar com força e cuspindo capim .

– Parece que você levou um tom bo lá, chefe – com entou Barca Negra, com um sorriso que era um a curva branca nas som bras.

– Seu m aluco desgraçado! – sibilou Cachorrão, com o m au hum or explodindo no peito frio. – Poderia ter sido a m orte de todos nós!

– Ah, ainda há tem po.

– Shhh. – Sinistro sacudiu um a das m ãos para silenciá-los.

Cachorrão se grudou à m uralha, com a preocupação apagando sua raiva de im ediato. Ouviu hom ens se m overem lá em cim a, viu o brilho de um lam pião passar lento pela m uralha. Esperou, im óvel, sem qualquer som além da respiração calm a de Barca Negra ao lado e do próprio coração m artelando, até que os hom ens no alto se afastaram e tudo ficou silencioso outra vez.

– Isso não fez seu sangue correr rápido, fez, chefe? – sussurrou Barca Negra.

– Tem os sorte de ele não estar correndo para fora da gente.

– E agora?

Cachorrão trincou os dentes enquanto tentava raspar a lam a da cara.

– Agora a gente espera.

 

Logen se levantou, bateu o orvalho das calças, respirou fundo o ar gelado. Já não havia com o negar que o sol nascera. Podia estar escondido no leste por trás da m ontanha de Skarling, m as as torres pretas e altas lá em cim a ganhavam bordas douradas, as nuvens finas e altas com eçavam a ficar rosadas por baixo, o céu frio entre elas se tornava azul-claro.

– É m elhor fazer a coisa – sussurrou Logen – do que viver com m edo dela.

Lem brou-se do pai dizendo isso. No salão enfum açado, com a luz da fogueira m ovendo-se em seu rosto cheio de rugas, o dedo com prido balançando. Logen dissera o m esm o ao filho, sorrindo perto do rio, ensinando-lhe a pescar. O pai e o filho, am bos m ortos agora, terra e cinzas. Ninguém teria aprendido isso com Logen, quando ele se fosse. Ninguém sentiria m uita falta sua, calculou. Mas quem se im portava? Não há nada que valha m enos do que aquilo que pensam de você depois que você voltou para a lam a.

Segurou com firm eza o cabo da espada do Artífice, sentiu as linhas m arcadas pinicarem a palm a da m ão. Deslizou-a para fora da bainha e deixou-a pender, fez círculos com o om bro, m ovendo-a, balançou a cabeça de um lado para outro. Mais um a vez respirou o ar frio, depois soltou-o, então com eçou a cam inhar subindo por entre a m ultidão que havia se reunido num am plo arco nas proxim idades do portão. Um a confusa m istura dos Carls de Cachorrão e dos m ontanheses de Crum m ock, além de uns poucos soldados da União que receberam licença para assistir aos nórdicos m alucos se m atarem . Alguns gritaram para ele, todos sabendo, no fundo, que havia m uito m ais vidas na balança do que a de Logen.

– É o Nove Dedos!

– O Nove Sangrento.

– Dê um fim nisso!

– Mate aquele desgraçado!

Estavam com seus escudos, todos os hom ens que Logen havia escolhido para segurá-los, parados num em aranhado solene perto da m uralha. West era um e Pike e Gorro Verm elho e Trem edeira tam bém . Logen se perguntou se teria com etido um erro com o últim o, m as havia salvado a vida do suj eito na m ontanha e isso devia significar algum a coisa. “Devia” era um a linha tênue para valer sua vida, m as ali estava. Sua vida sem pre estivera por um fio, desde que ele podia recordar.

Crum m ock-i-Phail acertou o passo ao seu lado, o grande escudo parecendo pequeno no braço enorm e, a outra m ão pousando de leve na barriga gorda.

– Está ansioso por isso, então, Nove Sangrento? Eu posso dizer que estou!

Logen recebia tapinhas nos om bros, ouvia encoraj am entos, m as não dizia nada. Não olhava à esquerda nem à direita enquanto cam inhava para o círculo aparado. Sentiu os hom ens fechando o espaço ao redor, ouviu-os colocando os escudos num sem icírculo em volta da borda do capim curto, virados para o portão de Carleon. Mais atrás a turba se com prim ia. Sussurrando uns com os outros. Esforçando-se para ver. Agora não havia com o recuar, isso era fato. Mas nunca houvera. Ele sem pre estivera voltando para ali. Parou no centro do círculo e virou o rosto para as am eias.

– Am anheceu! – rugiu. – Vam os logo com isso!

O silêncio foi se instalando à m edida que os ecos m orriam e o vento em purrava algum as folhas soltas no capim . Foi um silêncio longo o bastante para Logen com eçar a acreditar que ninguém responderia. Para com eçar a ter esperança de que, de algum m odo, os outros tivessem escapado durante a noite e não houvesse m ais duelo.

Então apareceram rostos na m uralha. Um aqui, outro ali, depois toda um a m ultidão, alinhando-se no parapeito até onde Logen podia enxergar, nas duas direções. Centenas de pessoas: guerreiros, m ulheres, até crianças nos om bros. Todo m undo da cidade, ao que parecia. Metal guinchou e m adeira rangeu e as altas folhas do portão se separaram m uito devagar, deixando a claridade do sol nascente vazar pela fresta no m eio, depois se derram ar por sua arcada. Duas filas de hom ens vieram pisando firm e. Carls, todos com rostos sérios e cabelos em aranhados, a m alha pesada tilintando, escudos pintados nos braços.

Logen conhecia alguns deles. Estavam entre os m ais íntim os de Bethod, que o seguiam desde o início. Todos hom ens im placáveis, que haviam segurado escudos para Logen m ais de um a vez, nos velhos tem pos. Form aram seu próprio sem icírculo, fechando o anel com força. Um a parede de escudos – caras de anim ais, árvores e torres, água corrente, m achados cruzados, todos riscados e arranhados em um a centena de lutas antigas. Todos virados na direção de Logen. Um a j aula de hom ens e m adeira, da qual a única saída era m atar. Ou m orrer, claro.

Um a silhueta negra surgiu no arco ilum inado. Parecia um hom em , m as era m ais alto, com o se preenchesse a passagem até o topo. Logen ouviu passos. Passos fortes, pesados com o bigornas caindo. Um tipo estranho de m edo o tom ou. Um pânico insensato, com o se tivesse acordado preso sob a neve outra vez. Obrigou-se a não olhar para Crum m ock por cim a do om bro; obrigou-se a olhar adiante enquanto o cam peão de Bethod saía ao alvorecer.

– Pela porra dos m ortos – ofegou Logen.

A princípio achou que poderia ser algum truque da luz que o fazia aparentar aquele tam anho. Tul Duru Cabeça de Trovão tinha sido um desgraçado bem alto, sem dúvida, o suficiente para algum as pessoas o cham arem de gigante. Mas m esm o assim parecia um hom em . Fenris, o Tem ível, era feito em tal escala que parecia outra coisa. De outra raça. Um gigante m esm o, que tivesse saído das histórias antigas e ganhado carne. Muita carne.

Seu rosto se contorcia à m edida que ele andava, a grande cabeça careca virando rápido de um lado para outro. A boca sorria com desprezo, os olhos piscavam e se arregalavam alternadam ente. Metade dele era azul. Não havia outro m odo de dizer. Um a linha nítida descia pelo rosto e separava a pele azul da pele clara. O enorm e braço direito era branco. O esquerdo era azul desde o om bro até as pontas dos dedos enorm es. Nessa m ão ele carregava um saco, que balançava para trás e para a frente a cada passo, volum oso com o se estivesse cheio de m arretas.

Dois dos hom ens que seguravam escudos de Bethod se afastaram do cam inho dele. Pareciam crianças ao seu lado e torceram o rosto com o se a própria m orte estivesse bafej ando em suas nucas. O Tem ível entrou no círculo e Logen viu que as m arcas azuis eram coisas escritas, com o o espírito dissera. Sím bolos retorcidos, rabiscados em cada parte de seu lado esquerdo: m ão, braço, rosto, até os lábios. As palavras de Glustrod, escritas no Tem po Antigo.

O Tem ível parou a alguns passos de distância e um horror doentio parecia brotar dele e pairar sobre a m ultidão silenciosa, com o se um grande peso apertasse o peito de Logen, esprem endo sua coragem . Mas a tarefa era bastante sim ples, a seu m odo. Se o lado pintado do Tem ível não podia sofrer m al, Logen só precisaria escavar o restante dele… escavar fundo. Já havia derrotado alguns hom ens im placáveis, no círculo. Dez dos desgraçados m ais sinistros de todo o Norte. Este era apenas m ais um . Ou pelo m enos era o que ele tentava dizer a si m esm o.

– Onde está Bethod? – Logen planej ara bradar isso cheio de desafio, m as saiu com o um grasnido seco.

– Posso olhar você m orrer m uito bem daqui de cim a!

O rei dos nórdicos estava nas am eias acim a do portão aberto, bem -arrum ado e feliz. Pálido-Com o-Neve e alguns guardas estavam ao seu redor. Se ele tivera algum a dificuldade para dorm ir, Logen j am ais saberia. A brisa da m anhã agitava seu cabelo e a pele densa ao redor dos om bros; o sol da m anhã brilhava na corrente de ouro, provocava fagulhas no diam ante em sua testa.

– Que bom que você veio! Eu estava preocupado, pensando que você iria fugir! – falou o rei dos nórdicos e soltou um suspiro despreocupado, que virou fum aça no ar frio. – Am anheceu, com o você disse. Vam os com eçar.

Logen olhou os olhos arregalados, agitados, loucos do Tem ível e engoliu em seco.

– Estam os aqui para testem unhar um desafio! – rugiu Crum m ock. – Um desafio para dar um fim a esta guerra e resolver a questão entre Bethod, que passou a se cham ar de rei dos nórdicos, e Furioso, que fala pela União. Se Bethod vencer, o cerco é interrom pido e a União deixa o Norte. Se Furioso vencer, os portões de Carleon são abertos e Bethod fica à m ercê dele. Falei a verdade?

– Falou – disse West, com a voz soando m iúda naquele espaço.

– É – concordou Bethod do topo da m uralha, balançando a m ão com preguiça. – Ande logo, gordo.

– Então digam seus nom es, cam peões! – gritou Crum m ock. – E apresentem seus feitos! Logen deu um passo adiante. Era um passo difícil de dar, com o se fosse contra um vento forte, m as ele deu m esm o assim , inclinou a cabeça para trás e olhou para o Tem ível, direto na cara que se retorcia.

– Sou o Nove Sangrento, e não existe núm ero para os hom ens que m atei.

As palavras saíram devagar e sem vida. Não havia nenhum orgulho na voz vazia, m as tam bém não existia m edo. Era um fato frio. Frio com o o inverno.

– Dez desafios enfrentei e todos venci – continuou. – Neste círculo derrotei Sham a Sem Coração, Rudd Três Árvores, Harding Sinistro, Tul Duru Cabeça de Trovão, Barca Negra e m ais ainda. Se eu citasse os Hom ens Nom eados que m andei de volta à lam a, ainda estaríam os aqui am anhã ao nascer do sol. Não há um hom em no Norte que não conheça m inha obra.

Nada m udou no rosto do gigante. Pelo m enos nada m ais do que o usual.

– Meu nom e é Fenris, o Tem ível. Meus feitos estão todos no passado – falou ele e, erguendo a m ão pintada, contraiu os dedos grandes, e os tendões nos enorm es braços azuis incharam com o raízes nodosas. – Com estes sím bolos o grande Glustrod m e tornou seu escolhido. Com esta m ão derrubei as estátuas de Aulcus. Agora m ato hom ens pequenos, em guerras pequenas.

Logen notou um m inúsculo dar de om bros, de enorm es om bros.

– Assim são as coisas – concluiu o Tem ível.

Crum m ock olhou para Logen e levantou as sobrancelhas.

– Certo, então. Que arm as vocês trouxeram para a luta?

Logen levantou a espada pesada, forj ada por Kanedias para sua guerra contra os m agos, e a ergueu à luz. Metal opaco, com um brilho fraco no gum e ao pálido nascer do sol.

– Esta espada.

Ele a cravou no chão entre os dois e a deixou ali, im óvel.

O Tem ível j ogou no chão seu saco, que se abriu, frouxo. Dentro havia grandes placas pretas, cheias de espetos e calom bos, com arranhões e am assados.

– Esta arm adura.

Logen olhou para aquele vasto peso de ferro escuro e lam beu os dentes. Se o Tem ível ganhasse no giro do escudo, poderia ficar com a espada e deixar Logen com um a desconj untada arm adura inútil, grande dem ais para ele. O que faria, então? Iria se esconder em baixo daquilo? Só precisava esperar que sua sorte durasse alguns m inutos a m ais.

– Certo, m inhas belezinhas – falou Crum m ock, pousando seu escudo sobre a ponta e segurando a parte de cim a. – Pintado ou liso, Nove Dedos?

– Pintado.

Crum m ock puxou o escudo e o fez girar. Girou e girou – pintado, liso, pintado, liso. Esperança e desespero se revezavam a cada giro. A m adeira com eçou a ficar m ais lenta, a bam bolear na borda. Caiu de um a vez só, o lado liso para cim a, as tiras balançando.

A sorte j á era.

Crum m ock se encolheu. Olhou para o gigante.

– Você escolhe, garotão.

O Tem ível segurou a espada do Artífice e a puxou para fora do chão. Parecia um brinquedo em sua m ão m onstruosa. Seus olhos saltados se viraram na direção dos de Logen e sua bocarra se retorceu num sorriso. Ele j ogou a espada aos pés de Logen e ela tom bou na terra.

– Fique com sua faca, hom enzinho.

 

O som de vozes exaltadas flutuou fraco na brisa.

– Certo – sibilou Barca Negra, alto dem ais para os nervos de Cachorrão. – Eles estão com eçando!

– Estou ouvindo! – reagiu Cachorrão rispidam ente, enrolando a corda em círculos frouxos, pronto para lançar.

– Sabe o que fazer com essa coisa? Não seria bom se isso caísse em cim a de m im .

– É m esm o? – Cachorrão balançou o arpéu um pouquinho para trás e para a frente, sentindo o peso. – Eu estava exatam ente pensando que, depois de prender na m uralha, prender na sua cabeça gorda seria o segundo m elhor resultado possível.

Girou a corda num círculo, depois num círculo m aior, deixando um pouco de corda escorregar pela m ão, depois girou com m ais força e deixou-a voar. O arpéu subiu com facilidade, a corda se desenrolando atrás, e passou por cim a das am eias. Cachorrão se encolheu ao ouvi-lo bater com estardalhaço na passarela, m as ninguém apareceu. Puxou a corda. Ela desceu pela extensão de um ou dois passos, depois se prendeu. Parecia firm e feito rocha.

– De prim eira – disse Sinistro.

Cachorrão assentiu, quase sem acreditar.

– Incrível, não é? Quem vai prim eiro?

Barca Negra riu para ele.

– Quem está segurando a corda, im agino.

Ao com eçar a subir, Cachorrão se descobriu pensando em todos os m odos pelos quais um hom em poderia ser m orto escalando aquela m uralha. O arpéu escorregava e ele caía. A corda puía e arrebentava, e ele caía. Alguém via o arpéu e ficava esperando que ele chegasse ao topo para cortar a corda – ou sua garganta. Ou alguém estaria agora m esm o cham ando um a dúzia de hom ens grandalhões para aprisionar o idiota que tentava invadir sozinho a cidade.

Suas botas raspavam na pedra áspera, o cânham o raspava suas m ãos, os braços queim avam com o esforço, e o tem po todo ele tentava ao m áxim o m anter a respiração silenciosa. As am eias foram ficando m ais próxim as e m ais próxim as, e então ele chegou. Firm ou os dedos na pedra e olhou por cim a. A passarela estava vazia nos dois sentidos. Deslizou sobre o parapeito, sacando um a faca, só para garantir. Facas nunca são dem ais, e coisa e tal. Verificou se o arpéu estava bem firm e, depois se inclinou sobre o parapeito e viu Barca Negra lá em baixo, olhando para o alto, e Sinistro com a corda nas m ãos e um pé na m uralha, pronto para subir. Cachorrão sinalizou cham ando-o, viu-o com eçar a subir, com Barca Negra segurando a ponta da corda para im pedi-la de balançar. Logo ele estava na m etade…

– Que porra…

Cachorrão virou a cabeça bruscam ente para a esquerda. Havia um a dupla de servos não m uito longe: tinham acabado de sair de um a porta da torre m ais próxim a para a m uralha. Eles o encararam e ele os encarou de volta pelo que pareceu um tem po enorm e.

– Tem um a corda aqui! – gritou Cachorrão, brandindo sua faca e fingindo cortá-la do arpéu. – Algum desgraçado está tentando subir!

– Pelos m ortos! – Um deles veio correndo, olhou boquiaberto para Sinistro balançando-se na corda. – Ele está subindo agora!

O outro sacou sua espada.

– Não se preocupem com isso. – Levantou a arm a, rindo, pronto para cortar a corda. Então parou. – Ei, por que você está todo enlam eado?

Cachorrão lhe deu um a facada no peito, com o m áxim o de força possível, e de novo.

– Uh! – gem eu o servo, o rosto retorcido, ao bater de costas na am eia e largar sua espada pela borda.

Seu colega veio atacando, girando um a grande m aça. Cachorrão se desviou abaixando-se, m as o servo se chocou contra ele e o derrubou de costas, a cabeça batendo na pedra.

A m aça foi j ogada longe e os dois lutaram . O servo chutava e dava socos enquanto Cachorrão tentava apertar o pescoço dele, im pedi-lo de gritar. Os dois rolaram para um lado, depois de volta para o outro, tentaram se levantar e cam balearam na passarela. O servo enfiou o om bro sob a axila de Cachorrão e o em purrou de costas contra as am eias, tentando j ogá-lo por cim a.

– Merda – ofegou Cachorrão quando seus pés saíram do chão.

Ele sentia a bunda raspar na pedra, m as continuou agarrado, as m ãos apertando o pescoço do servo, im pedindo que ele respirasse direito. Subiu m ais 2 centím etros, sentiu a cabeça ser forçada para trás, quase com m ais peso do lado errado do parapeito do que do certo.

– Você vai descer, desgraçado! – grasnou o servo, tentando afastar o queixo das m ãos de Cachorrão e em purrando-o um pouquinho m ais. – Você vai… – Seus olhos se arregalaram . Ele cam baleou para trás, com um a flecha se proj etando do lado do corpo. – Ah, eu não…

Outra acertou seu pescoço e ele cam baleou m ais um passo. Teria caído da m uralha se Cachorrão não tivesse agarrado seu braço e o arrastado para baixo, na passarela, m antendo-o ali enquanto ele babava nos últim os suspiros.

Quando viu que ele estava m orto, Cachorrão rolou e se levantou, curvado sobre o cadáver, ofegando. Sinistro veio correndo, dando um a boa olhada ao redor para garantir que não havia a probabilidade de m ais alguém aparecer.

– Tudo certo?

– Só um a vez. Só um a vez eu gostaria de receber aj uda antes de estar perto de m orrer.

– É m elhor do que depois.

Cachorrão precisou adm itir que havia algum a verdade nisso. Viu Barca Negra se erguer por cim a das am eias e rolar na passarela. O servo que Cachorrão havia esfaqueado ainda respirava, fraco, sentado perto do arpéu. Barca Negra arrancou um pedaço do crânio dele com o m achado enquanto passava, despreocupado com o se cortasse lenha.

Ele balançou a cabeça.

– Deixo vocês dois sozinhos durante dez m inutos e olha o que acontece. Dois m ortos, é? – Barca Negra se abaixou, enfiou dois dedos num dos buracos feitos pela faca de Cachorrão, puxou-os e passou o sangue sobre um dos lados do rosto. E então riu. – O que vocês acham que a gente faz com dois m ortos?

 

O Tem ível parecia preencher o círculo, um a m etade nua e azul, a outra envolta em ferro preto, um m onstro arrancado das lendas. Não havia onde se esconder de seus punhos enorm es, não havia onde se esconder do m edo dele. Escudos se m oviam e se chocavam , hom ens rugiam e berravam , um m ar turvo de rostos retorcidos de fúria e loucura.

Logen se esgueirou pela borda do capim curto, tentando m anter os pés leves. Podia ser m enor, m as era m ais rápido, m ais inteligente. Pelo m enos esperava ser. Precisava ser, caso contrário viraria lam a. Continuar em m ovim ento, rolar, abaixar-se, ficar fora do cam inho e escolher o m om ento certo. Acim a de tudo, não ser atingido. Não ser atingido era a prim eira coisa.

O gigante veio para cim a dele com o se saísse de lugar nenhum , seu grande punho tatuado um borrão azul. Logen se j ogou para fora do cam inho, m as m esm o assim aquilo roçou seu rosto e acertou o om bro, fez com que ele cam baleasse. A estratégia de não ser atingido j á era! Um escudo, nada am istoso, em purrou suas costas e ele foi j ogado para o lado oposto, com a cabeça chicoteando. Caiu de cara, quase se cortou na própria espada, rolou desesperado e viu a bota enorm e do Tem ível bater no chão e fazer a terra voar onde seu crânio estivera um instante atrás.

Levantou-se atabalhoado a tem po de ver a m ão azul vir de novo. Desviou-se por baixo e golpeou a carne tatuada do Tem ível enquanto ele passava. A espada do Artífice se cravou fundo na coxa do gigante com o um a pá em terra fofa. A perna enorm e se dobrou e ele tom bou para a frente, sobre o j oelho coberto com a arm adura. Devia ter sido um golpe m ortal atravessando as grandes veias, m as praticam ente não houve m ais sangue do que um arranhão ao fazer a barba.

Mas, quando um a coisa falha, você tenta outra. Logen rugiu e golpeou a cabeça careca do Tem ível. A lâm ina ressoou contra o m etal da arm adura no braço direito do Tem ível, que fora levantado bem a tem po. Ela raspou aquele aço preto e deslizou, inofensiva, cravando-se na terra e deixando as m ãos de Logen trem er.

– Uuuf!

O j oelho do Tem ível afundou-se na barriga de Logen, fez com que ele se dobrasse e cam baleasse, precisando tossir, m as sem ar para isso. O gigante j á havia se reequilibrado e j ogou para trás a m anopla da arm adura, um naco de ferro preto do tam anho da cabeça de um hom em . Logen m ergulhou de lado, rolando no capim curto, sentiu o vento do grande braço passar a toda a velocidade. Chocou-se contra um escudo no ponto onde antes estivera de pé, partiu-o em lascas e lançou por terra, gem endo, o hom em que o estivera segurando.

Parecia que o espírito estava certo. O lado pintado não podia ser ferido. Logen se agachou na esperança de que a dor lancinante na barriga dim inuísse o suficiente para ele respirar, tentando pensar em algum truque e não descobrindo nenhum . O Tem ível virou na direção de Logen o rosto que se retorcia. Atrás dele, no chão, o hom em caído gem ia sob os destroços do escudo. Os Carls dos dois lados arrastaram os pés para fechar a abertura com algum a relutância.

O gigante deu um passo lento adiante e Logen deu um passo dolorido para trás.

– Ainda estou vivo – sussurrou consigo m esm o.

Mas era difícil prever por quanto tem po.

 

West nunca se sentira tão apavorado, tão em polgado, tão vivo. Nem quando vencera o Cam peonato sob os aplausos de toda a enorm e praça dos Marechais. Nem quando atravessara a m uralha de Ulrioch e saíra da poeira e do caos para o calor da luz do sol.

Sua pele form igava de esperança e horror. As m ãos se m oviam im potentes acom panhando os m ovim entos de Nove Dedos. Ainda que fosse inútil, seus lábios m urm uravam conselhos, encoraj am entos m udos. Ao seu lado, Pike e Jalenhorm em purravam , acotovelavam , gritavam até ficar roucos. Atrás deles a m ultidão rugia, esforçando-se para ver. Na m uralha as pessoas se inclinavam para fora, gritando e brandindo os punhos no ar. O círculo de hom ens se flexionava seguindo os m ovim entos dos lutadores, j am ais im óvel, inclinando-se para trás ou para a frente à m edida que os cam peões avançavam ou recuavam .

E em quase todas as ocasiões, até ali, quem recuava era Nove Dedos. Mesm o sendo um brutam ontes, parecia m inúsculo, fraco e frágil ao lado daquela criatura aterrorizante. Para piorar m uito as coisas, havia algo m uito estranho acontecendo ali. Algo que West só poderia cham ar de m agia. Grandes ferim entos, ferim entos m ortais, fechavam -se na pele azul do Tem ível diante de seus olhos. Aquela coisa não era hum ana. Só podia ser um dem ônio e, sem pre que ele se aproxim ava, enorm e, West sentia m edo com o se estivesse parado à beira do próprio inferno.

O rosto de West se contorceu quando Nove Dedos bateu desam parado nos escudos do lado oposto do círculo. O Tem ível levantou a m anopla da arm adura para dar um golpe que certam ente esm agaria um crânio, transform ando-o em geleia. Mas não acertou nada além do ar. Nove Dedos se afastou no últim o instante e deixou o ferro errar seu queixo por um fio de cabelo. Sua espada pesada golpeou para baixo e ricocheteou no om bro blindado do Tem ível com um clangor sonoro. O gigante cam baleou para trás e Nove Dedos partiu para cim a dele, as cicatrizes pálidas esticadas no rosto rígido.

– Isso! – sibilou West, com os hom ens ao redor berrando em aprovação.

O golpe seguinte acertou a lateral blindada do gigante de cim a para baixo, deixando um arranhão longo, brilhante, e escavando um grande torrão de terra. O golpe subsequente se cravou fundo nas costelas pintadas, fez j orrar um a névoa de sangue e deixou Fenris sacudindo os braços, sem equilíbrio. A boca de West foi se escancarando à m edida que o gigante caía em sua direção. O Tem ível bateu em seu escudo com o um a árvore caindo e o derrubou de j oelhos, trêm ulo e sem forças sob o enorm e peso, com o estôm ago em brulhado de noj o e m edo.

Então West viu. Um a das fivelas da arm adura cheia de pontas e calom bos, logo abaixo do j oelho do gigante, estava a centím etros de sua m ão livre. Tudo em que conseguiu pensar, naquele m om ento, foi que, depois de toda a m orte que espalhara de um lado a outro de Angland, Bethod poderia escapar. Trincou os dentes e puxou a ponta da tira de couro, grossa com o um cinto de hom em . Puxou-a enquanto o Tem ível levantava o corpanzil. A fivela se abriu com um tilintar e a proteção do tornozelo poderoso se soltou na hora em que o pé bateu de novo no chão e o braço golpeou Nove Dedos e o m andou longe.

West se levantou do chão com dificuldade, j á arrependido de ter sido tão im pulsivo. Olhou o círculo ao redor, procurando algum sinal de que alguém tivesse visto, m as todos os olhares estavam fixos nos lutadores. Agora aquilo parecia um a sabotagem m inúscula, um a insolência que j am ais poderia fazer nenhum a diferença. Nenhum a além de levá-lo à m orte, claro. Era um fato que ele conhecia desde a infância. Se você for apanhado trapaceando num duelo nórdico, cortam a cruz sangrenta em você e arrancam suas tripas.

 

– Arg!

Logen desviou-se do punho blindado, cam baleou para a direita enquanto o azul passava diante de seu rosto, m ergulhou para a esquerda quando a m anopla de ferro tentou atingi-lo de novo. Escorregou e quase caiu. Qualquer um daqueles golpes fora forte o bastante para arrancar sua cabeça. Viu o braço pintado recuar, trincou os dentes ao desviar-se de outro soco poderoso do Tem ível, j á girando a espada para cim a e para o lado.

A lâm ina decepou o braço azul logo abaixo do cotovelo. Ele saiu rolando pelo círculo, j unto com um j orro de sangue. Logen sugou o ar para dentro dos pulm ões ardentes e levantou bem alto a espada do Artífice, preparando-se para um últim o esforço. Os olhos do Tem ível se viraram para cim a, na direção da lâm ina cinza e opaca. Ele j ogou a cabeça para o lado m as a espada se cravou em seu crânio pintado, lançando um a chuva de sangue escuro e rachando a cabeça até as sobrancelhas.

O cotovelo blindado do gigante acertou as costelas de Logen, erguendo-o do chão e j ogando-o longe no círculo. Logen bateu num escudo e caiu esparram ado de cara. Ficou ali, cuspindo terra, enquanto o m undo todo girava num borrão.

Estrem eceu ao tentar se levantar. Piscou para afastar as lágrim as e se im obilizou. O Tem ível deu um passo adiante com a espada ainda cravada fundo no crânio e segurou o antebraço decepado. Apertou-o contra o cotoco sem sangue, torceu-o para a direita, depois para a esquerda e o soltou. O grande braço estava inteiro de novo; as letras corriam do om bro até o pulso sem interrupção.

Os hom ens que fechavam o círculo ficaram em silêncio. O gigante m exeu os dedos azuis por um instante, depois levantou a m ão e fechou-a em volta do punho da espada do Artífice. Girou-a para um lado, depois para o outro, o crânio estalando à m edida que os ossos se m oviam . Soltou a lâm ina, sacudiu a cabeça com o que para se recuperar de um a leve tontura, depois j ogou a espada, que caiu na frente de Logen pela segunda vez naquele dia.

Logen olhou para ela, arfando. Ficava m ais pesada a cada troca de golpes. Os ferim entos que ele havia sofrido nas m ontanhas doíam , os golpes que recebera no círculo latej avam . O ar continuava frio, m as sua cam isa estava pegaj osa de suor.

O Tem ível não m ostrava qualquer sinal de cansaço, m esm o com m eia tonelada de ferro presa ao corpo. Não havia sequer um a gota de suor no rosto que se retorcia. Nem ao m enos um arranhão no crânio tatuado.

Logen sentiu-se m ais um a vez oprim ido pelo m edo. Agora sabia com o um cam undongo se sentia entre as patas de um gato. Deveria ter fugido. Deveria ter fugido sem olhar para trás, m as tinha escolhido aquilo. Se um a coisa podia ser dita sobre Logen Nove Dedos, era que o desgraçado nunca aprendia. A boca do gigante se abriu devagr num sorriso retorcido.

– Mais – disse ele.

 

Cachorrão sentiu vontade de m ij ar enquanto seguia até o portão da m uralha interna de Carleon. Sem pre precisava m ij ar em ocasiões assim .

Estava usando a roupa de um dos servos m ortos, grande a ponto de ele ter precisado apertar dem ais o cinto. A capa escondia o buraco de faca ensanguentado na cam isa. Sinistro usava o equipam ento do outro, com o arco em um dos om bros e a m aça enorm e pendendo da m ão livre. Barca Negra ia entre os dois, encurvado e arrastando os pés, os pulsos am arrados às costas, a cabeça ensanguentada pendendo com o se tivessem lhe dado um a bela surra.

Para ser honesto, era um ardil digno de pena. Cachorrão havia im aginado cinquenta coisas desde que tinham descido da m uralha, coisas que poderiam denunciá-los. Mas não tinham tem po para nada m ais inteligente. Fale bem , sorria, e ninguém vai notar as pistas. Pelo m enos era o que esperava.

Havia um guarda de cada lado da am pla passagem em arco, um par de Carls com cotas de m alha com pridas e elm os, am bos segurando lanças.

– O que houve? – perguntou um deles, franzindo a testa quando chegaram perto.

– Encontram os esse desgraçado tentando entrar. – Cachorrão deu um soco no lado da cabeça de Barca Negra, só para ser m ais convincente. – Vam os levá-lo para baixo e trancá-lo até depois de eles term inarem .

Ele fez m enção de passar. Um dos guardas o parou com a m ão no seu peito, e Cachorrão engoliu em seco. O Carl assentiu para o portão da cidade.

– Com o vai a coisa lá em baixo?

– Bem , acho. – Cachorrão deu de om bros. – Pelo m enos está indo. Bethod vai se dar bem , não é? Ele sem pre se dá bem .

– Não sei. – O Carl balançou a cabeça. – Aquele tal Tem ível m e dá calafrios. Ele e aquela porcaria de bruxa. Não posso dizer que vou chorar m uito se o Nove Sangrento m atar os dois.

O outro deu um risinho e em purrou o elm o para a nuca, levando um pano para enxugar o suor da cabeça.

– Você está com um …

Barca Negra deu um salto à frente, com os pedaços soltos de corda balançando em volta dos pulsos, e cravou um a faca até o cabo na testa do Carl. Derrubou-o com o um a cadeira cuj as pernas fossem chutadas. Quase no m esm o instante, a m aça de que Sinistro se apossara ressoou no topo do elm o do outro, deixando um a grande m ossa e fazendo a borda do elm o descer até quase a ponta do nariz do Carl. O hom em babou um pouco, cam baleando para trás com o se estivesse bêbado. Então o sangue saiu borbulhando de seus ouvidos e ele caiu de costas.

Cachorrão girou, tentando abrir a capa roubada para que ninguém visse Barca Negra e Sinistro arrastar os dois cadáveres para longe, m as a cidade parecia vazia. Ele se perguntou por um m om ento o que estaria acontecendo lá fora, no círculo. Por tem po suficiente para ter um a sensação ruim nas tripas.

– Venha.

Virou-se e viu Barca Negra rindo, com todo o rosto ensanguentado. Tinha enfiado os dois corpos atrás do portão, um deles olhando vesgo para o buraco de faca na cabeça.

– Foi bom o bastante para você? – perguntou Cachorrão.

– O quê? Você quer dizer algum as palavras pelos m ortos, é?

– Você sabe o que eu quis dizer, se alguém …

– Não tem os tem po para pensar. – Barca Negra o agarrou pelo braço e o puxou pelo portão. – Vam os m atar um a bruxa.

 

A sola da bota de m etal do Tem ível acertou o peito de Logen, deixou-o sem fôlego e o j ogou na terra. A espada caiu apesar de ele querer agarrá-la e o vôm ito queim ou sua garganta. Antes que com preendesse o que tinha acontecido, um a grande som bra caiu sobre ele. Metal se fechou com um estalo em volta de seu pulso, apertando feito um torno. Suas pernas foram chutadas e ele caiu de cara, o braço torcido atrás do corpo e um bocado de terra na boca, para pensar. Algo se com prim iu contra sua bochecha. A princípio frio, depois doloroso. O grande pé do Tem ível. Seu pulso foi torcido, puxado para cim a. Sua cabeça foi ainda m ais esm agada no chão úm ido, o capim curto pinicando no nariz.

A dor lancinante no om bro era terrível. Logo ficou m uito pior. Ele fora pego rápido e estava indefeso, esticado com o um coelho prestes a ser esfolado. A m ultidão havia caído num silêncio sufocante: os únicos sons que ouvia eram o chiar da carne m achucada em volta de sua boca e o grasnar do ar que passava pelas narinas esprem idas. Ele teria gritado se seu rosto não estivesse tão com prim ido a ponto de ele m al conseguir inalar m eia respiração. Se um a coisa podia ser dita sobre Logen Nove Dedos, era que ele estava acabado. De volta à lam a, e ninguém poderia dizer que ele não m erecia. Um fim adequado para o Nove Sangrento, despedaçado no círculo.

Mas os grandes braços não puxaram m ais. De esguelha, o olho trêm ulo, Logen vislum brou Bethod encostado nas am eias. O rei dos nórdicos balançou a m ão, girando-a em círculos lentam ente. Logen se lem brava do significado.

Vá com calm a. Enrole. Dê a ele um a lição que j am ais esqueça.

A grande bota do Tem ível deslizou de seu queixo e Logen se sentiu lançado ao ar, os m em bros balançando feito um a m arionete com os fios cortados. A m ão tatuada subiu, preta contra o sol, e deu um tapa no rosto de Logen. Mão aberta, com o um pai poderia bater num a criança encrenqueira. Foi com o ser acertado por um a panela. Logen viu estrelas, sua boca se encheu de sangue. Sua vista voltou a focalizar bem a tem po de ele perceber a m ão pintada girando para a direita. Ela desceu com um a inevitabilidade terrível e lhe acertou um golpe com a parte de trás, com o um m arido cium ento espancando um a esposa indefesa.

– Urr… – ouviu-se dizendo, e estava voando.

Céu azul, sol ofuscante, capim am arelo, rostos olhando, tudo eram m anchas sem significado. Chocou-se contra os escudos na borda do círculo, despencou m eio sem sentidos no chão. Ao longe, hom ens gritavam , berravam , sibilavam , m as ele não conseguia ouvir as palavras e não se im portava. Só conseguia pensar na sensação fria na barriga. Com o se suas tripas estivessem cheias de gelo inchando.

Viu a m ão pálida, m anchada de sangue rosado, tendões brancos aparecendo na pele arranhada. Era a sua m ão, claro. Ali estava o cotoco de dedo. Mas, quando tentou fazer com que os dedos se abrissem , eles só apertaram com m ais força a terra m arrom .

– Sim – sussurrou, e o sangue escorreu da boca entorpecida para o capim .

O gelo se espalhou da barriga até as pontas dos dedos, entorpecendo cada parte dele. Era bom que isso acontecesse. Já não era sem tem po.

– Sim – repetiu.

Apoiou-se num dos j oelhos, os lábios ensanguentados repuxando-se para m ostrar os dentes, a m ão direita ensanguentada serpenteando pela gram a, procurando o cabo da espada do Artífice, fechando-se com força em volta dele.

– Sim ! – sibilou, e Logen gargalhou, e o Nove Sangrento gargalhou j unto.

 

West não esperava que Nove Dedos se recuperasse, j am ais, m as ele se levantou e, quando o fez, gargalhava. A princípio quase pareceu um choro, um risinho choram ingado, agudo e estranho, m as foi ficando m ais alto, m ais agudo, m ais frio à m edida que ele se levantava. Com o se risse de um a piada cruel que ninguém m ais pudesse ouvir. Um a piada fatal. Sua cabeça pendeu para o lado feito a de um hom em na forca, o rosto lívido todo frouxo em volta de um riso talhado a foice.

O sangue m anchava os dedos com um tom rosa, escorria dos cortes no rosto, dos lábios rasgados. A gargalhada ecoou m ais alto, e m ais alto, rasgando os ouvidos de West, cortante com o um a serra. Mais agonizante que qualquer choro, m ais furiosa que qualquer grito de guerra. Errada, de um m odo m edonho, doentio. Rindo de um m assacre. Um riso de m atadouro.

Nove Dedos cam baleou adiante feito um bêbado, oscilando, louco, a espada pendendo da m ão ensanguentada. Os olhos m ortos brilhavam , úm idos e fixos, pupilas dilatadas a ponto de parecerem dois poços negros. Seu riso louco cortava, arranhava e retalhava o círculo ao redor. West se sentiu recuar, com a boca seca. Toda a m ultidão tam bém recuou ligeiram ente. Já não sabiam quem era m ais apavorante: Fenris, o Tem ível, ou o Nove Sangrento.

O m undo queim ava.

Sua pele pegava fogo. A respiração era vapor escaldante. A espada era um pedaço de m etal derretido na m ão.

O sol gravava padrões incandescentes em seus olhos que ardiam , silhuetas de um cinza frio: dos hom ens, dos escudos, da m uralha e de um gigante feito de palavras azuis e ferro preto. O m edo escorreu para fora dele em ondas doentias, m as o Nove Sangrento apenas sorriu m ais. O m edo e a dor eram com bustíveis para o fogo, e as cham as cresciam cada vez m ais.

O m undo queim ava e, no centro dele, o Nove Sangrento queim ava m ais quente do que tudo. Ele estendeu a m ão, fechou os quatro dedos e cham ou:

– Estou esperando.

Os grandes punhos buscaram o rosto do Nove Sangrento, as m ãos enorm es se lançaram a golpear seu corpo. Mas tudo que o gigante pegou foi a gargalhada. Era m ais fácil acertar cham as em m ovim ento. Era m ais fácil pegar fum aça.

O círculo era um forno. As folhas de capim queim ado eram línguas de cham a am arela por baixo dele. O suor, o cuspe, o sangue pingavam com o caldo desprendendo-se da carne que cozinhava.

O Nove Sangrento sibilou, água sobre carvões. O sibilo virou um rosnado, ferro espirrando da forj a. O rosnado virou um grande rugido, a floresta seca em cham as, e ele libertou a espada.

O m etal cinza fazia círculos cortantes, abria buracos sem sangue na carne azul, ressoava contra ferro preto. O gigante sum iu e a lâm ina se cravou no rosto de um dos hom ens que seguravam escudos. Sua cabeça explodiu e espirrou sangue sobre outra, um buraco aberto na parede em volta do círculo. Os outros recuaram arrastando os pés, escudos oscilando, o círculo inchando de m edo. Tem iam -no m ais ainda do que tem iam o gigante, e eram sábios nisso. Todo ser vivente era inim igo dele e, depois que o Nove Sangrento tivesse despedaçado aquela coisa dem oníaca, term inaria a tarefa com eles.

O círculo era um caldeirão. No alto da m uralha, as pessoas se agitavam com o um vapor furioso. O chão se m exia e inchava sob os pés do Nove Sangrento com o óleo fervente.

Seu rugido virou um grito escaldante e a espada baixou num relâm pago e se chocou contra a arm adura cheia de pontas com o um a m arreta na bigorna. O gigante apertou a m ão azul contra o lado pálido da cabeça, o rosto rem exendo feito um ninho de larvas. A lâm ina havia errado o crânio, m as arrancara m etade de sua orelha. O sangue borbulhou do ferim ento, escorreu pela lateral do grande pescoço em duas linhas finas, e não parou.

Os grandes olhos se arregalaram e o gigante saltou para a frente com um berro de trovão. O Nove Sangrento rolou e deslizou, viu o ferro preto solto naquela perna, com a fivela brilhante pendurada. A espada deu um bote e entrou pela abertura, com endo fundo o grande tornozelo pálido. O gigante rugiu de dor, girou, cam baleou e caiu de j oelhos.

O círculo era um cadinho. Os gritos dos hom ens ao redor dançavam feito fum aça, nadavam com o m etal derretido, os escudos fundindo-se j untos.

Agora era a hora. O sol da m anhã cham ej ava, reluzia no peitoral pesado, m arcando o ponto. Agora era o m om ento lindo.

O m undo ardia e, com o um a cham a que se alastrasse, o Nove Sangrento se ergueu, arqueou as costas, levantou a espada bem alto. A obra de Kanedias, o Mestre Artífice: nenhum a outra lâm ina forj ada j á fora m ais afiada que ela. Seu gum e m ordaz abriu um longo talho na arm adura preta, atravessou o ferro e se cravou na carne m acia atrás dele, provocando fagulhas e espirrando sangue, o berro do m etal torturado m isturando-se com o uivo de dor arrancado da boca retorcida do Tem ível. O ferim ento que ela deixou foi fundo.

Mas não o suficiente.

Os braços do gigante deslizaram em volta das costas do Nove Sangrento, envolvendo-o num abraço esm agador. As pontas de m etal preto furaram sua carne em um a dúzia de lugares. O gigante o puxou m ais para perto, e m ais para perto, e um a borda serrilhada furou o rosto do Nove Sangrento, atravessou a bochecha e raspou em seus dentes, m ordeu o lado da língua e encheu a boca de sangue salgado.

O aperto do Tem ível era o peso das m ontanhas. Não im portava o tam anho da fúria do Nove Sangrento, não im portava quanto ele se retorcesse, se sacudisse e gritasse em fúria, estava preso, tão apertado quanto a terra fria segura os m ortos. O sangue que escorria de seu rosto e de suas costas e do grande talho na arm adura do Tem ível encharcava suas roupas e espalhava um calor cham ej ante na pele.

O m undo ardia. Acim a do forno, do caldeirão, do cadinho, Bethod assentiu, e os braços frios do gigante apertaram m ais.

 

Cachorrão seguia seu olfato. Raram ente o seu nariz o levava para o lugar errado, e ele esperava m uito que não falhasse agora. Era um cheiro enj oativo – com o bolos doces deixados por tem po de m ais no forno. Guiou os outros por um corredor vazio, descendo um a escada som bria, esgueirando-se pela escuridão úm ida nas entranhas enoveladas da m ontanha de Skarling. Agora, além de sentir cheiro, ouvia algo, e o som era tão ruim quanto o odor. Um a voz de m ulher, cantando baixinho e grave. Um canto estranho, em nenhum a língua que Cachorrão pudesse entender.

– Deve ser ela – m urm urou Barca Negra.

– Não gosto nem um pouco desse som – sussurrou Cachorrão. – Parece m agia.

– O que você esperava? Ela é a porra de um a bruxa, não é? Vou dar a volta por trás.

– Não, espere…

Mas Barca Negra j á se esgueirava para o outro lado, as botas pisando suaves e silenciosas.

– Merda.

Cachorrão foi seguindo o cheiro, esgueirando-se pelo corredor com Sinistro atrás e o canto cada vez m ais alto. Um fio de luz brotava de um a passagem em arco e ele foi para lá, grudou a lateral do corpo na parede e espiou pela borda.

O côm odo era tudo o que se poderia im aginar dos aposentos de um a bruxa. Escuro e sem j anelas, com três outras portas negras nas paredes. Era ilum inado apenas por um braseiro que soltava fum aça na extrem idade m ais distante, com carvões que chiavam e davam a tudo um a luz verm elha e suj a e exalavam um odor enj oativo, doce. Havia j arros e potes espalhados a toda a volta, feixes de gravetos e capim , além de flores secas penduradas nos caibros oleosos que lançavam som bras estranhas nos cantos, com o silhuetas de corpos balançando num a forca.

Um a m ulher estava de pé j unto ao braseiro, de costas para Cachorrão. Seus braços com pridos e brancos estavam abertos, brilhando de suor. Ouro reluzia em volta dos pulsos finos, o cabelo preto escorrendo pelas costas. Cachorrão podia não entender as palavras que ela cantava, m as podia adivinhar que era algum a obra sinistra.

Sinistro levantou seu arco, com um a sobrancelha erguida. Cachorrão balançou a cabeça fazendo não e sacou a faca em silêncio. Seria difícil m atá-la de um a vez com um a flecha, e quem sabia o que ela poderia fazer assim que fosse atingida? O aço frio no pescoço era garantido.

Esgueiraram -se j untos para dentro do côm odo. O ar era quente ali dentro, denso com o água de pântano. Cachorrão foi em frente, tentando não respirar, certo de que o fedor iria sufocá-lo. Ele suava, ou a sala suava; de qualquer m odo sua pele ficou orvalhada num instante. Escolheu onde pisava, encontrando um cam inho entre todo o entulho espalhado no chão – caixas, feixes, garrafas. Moveu a palm a da m ão úm ida em volta do cabo da faca, fixou os olhos no ponto entre os om bros dela, o ponto em que ele cravaria…

Seu pé bateu num a j arra, derrubando-a com estardalhaço. A cabeça da m ulher girou bruscam ente, o cântico parou nos lábios. Um rosto m agro, branco, pálido com o o de um afogado, com tinta preta em volta dos olhos estreitos – olhos azuis, frios com o o oceano.

 

O círculo estava em silêncio. Os hom ens ao redor perm aneciam im óveis, os rostos pasm os e os escudos, frouxos. A m ultidão atrás, as pessoas com prim idas no parapeito acim a, todos continuavam im óveis, todos quietos com o os m ortos.

Apesar de toda a fúria louca de Nove Dedos, apesar de todo o seu esforço em se contorcer e lutar, o gigante o prendia com firm eza. Músculos grossos trabalhavam sob a pele azul e os grandes braços do Tem ível apertavam Logen e lentam ente extraíam sua vida. A boca de West estava am arga de decepção e im potência. Tudo que ele fizera, tudo que havia sofrido, todas aquelas vidas perdidas por nada. Bethod ficaria livre.

Então Nove Dedos deu um rugido anim al. O Tem ível continuou a segurá-lo, m as seu braço azul trem ia com o esforço. Com o se estivesse subitam ente enfraquecido e não pudesse apertar m ais. Cada tendão do corpo de West ficou rígido enquanto ele olhava. A tira grossa do escudo cortava a palm a de sua m ão. Seu m axilar estava tão trincado que os dentes doíam . Os dois lutadores estavam presos, um fazendo força contra o outro com cada fibra, no entanto perm aneciam com pletam ente im óveis, congelados no centro do círculo.

 

Cachorrão deu um salto adiante, a faca levantada e pronta.

– Pare.

Ele se im obilizou, rígido, num instante. Nunca tinha escutado um a voz assim . Bastara um a palavra e não sobrara nenhum pensam ento em sua cabeça. Olhou a m ulher pálida, boquiaberto, a respiração praticam ente não saindo, desej ando que ela dissesse algo m ais.

– Você tam bém – disse ela, olhando para Sinistro, e o rosto dele ficou flácido e ele riu, na m etade do m ovim ento para retesar o arco.

Ela olhou Cachorrão de cim a a baixo, depois fez beicinho com o se estivesse desapontada.

– Isso é m odo de visitantes se com portarem ?

Cachorrão piscou. Que diabo ele estivera pensando, ao entrar ali com um a faca na m ão? Não podia acreditar que fizera um a coisa assim . Ficou ruborizado até as raízes dos cabelos.

– Ah… desculpe… Pelos m ortos!…

– Gug! – fez Sinistro, j ogando o arco para um canto da sala, com o se tivesse percebido subitam ente que segurava um cagalhão, depois olhou pasm o para a flecha.

– Assim está m elhor – disse ela sorrindo, e Cachorrão descobriu que sorria feito um idiota.

Talvez um pouco de cuspe tivesse saído de sua boca, só um pouquinho, m as ele não se incom odou m uito. Desde que ela continuasse falando, nada parecia ter m uita im portância. Ela os cham ou, os dedos longos e brancos acariciando o ar denso.

– Não precisam ficar tão longe de m im . Venham m ais para perto.

Ele e Sinistro cam balearam na direção dela com o crianças ansiosas, Cachorrão quase tropeçando nos próprios pés, na pressa de agradar, Sinistro trom bando num a m esa no cam inho e por pouco não caindo de cara.

– Meu nom e é Caurib.

– Ah – disse Cachorrão.

O nom e m ais lindo do m undo, sem dúvida. Incrível com o um a palavra podia ser tão linda.

– Harding Sinistro é o m eu nom e!

– Me cham am de Cachorrão, por causa do olfato aguçado e… é…

Pelos m ortos, era difícil pensar direito. Tinha algo im portante a fazer, m as não conseguia pensar de j eito nenhum no que seria.

– Cachorrão… perfeito.

A voz dela era relaxante com o um banho quente, um beij o suave, leite e m el…

– Não durm a ainda!

A cabeça de Cachorrão girava e o rosto pintado de Caurib se tornava um borrão preto e branco que ondulava à sua frente.

– Desculpe! – gorgolej ou ele, ruborizando de novo e tentando esconder a faca às costas. – Desculpe pela faca… Não fazia ideia do que…

– Não se preocupe. Estou feliz porque você a trouxe. Acho que seria m elhor se você a usasse para esfaquear seu am igo.

– Ele? – Cachorrão franziu os olhos para Sinistro.

– É, sem dúvida! – falou o am igo, assentindo com um sorriso no rosto.

– Certo, certo, boa ideia. – Cachorrão levantou a faca, que parecia pesar um a tonelada. – É… tem algum lugar específico onde a senhora quer que eu dê a facada?

– No coração vai ser ótim o.

– Está certa. Certo. No coração, então.

Sinistro se virou de frente para facilitar. Cachorrão piscou, enxugou um pouco de suor da testa.

– Vam os lá, então. – Maldição, ele estava tonto. Franziu os olhos para o peito de Sinistro, querendo ter certeza de que acertaria de prim eira, para não passar vergonha de novo. – Vam os lá…

– Agora! – sibilou ela. – É só…

A lâm ina do m achado estalou ao rachar sua cabeça bem no m eio, até o queixo. O sangue espirrou e bateu no rosto de um Cachorrão boquiaberto, e o corpo m agro da bruxa tom bou nas pedras com o se fosse feito apenas de trapos.

Barca Negra franziu a testa enquanto girava o cabo do m achado para um lado e para o outro, até a lâm ina se soltar do crânio arruinado de Caurib com um leve som de sucção.

– Essa vaca fala dem ais – grunhiu.

O Nove Sangrento sentiu a m udança. Com o o prim eiro broto verde da prim avera. Com o o prim eiro calor do vento quando chega o verão. Havia um a m ensagem no m odo com o o Tem ível o segurava. Os ossos de Logen j á não gem iam , não am eaçavam se quebrar. A força do gigante dim inuía e a dele aum entava.

O Nove Sangrento puxou o ar e sua fúria queim ou m ais do que nunca. Devagar, devagar, afastou o rosto do om bro do gigante, sentiu o m etal deslizar para fora da boca. Torceu-se, torceu-se até que seu pescoço estivesse livre. Até estar de cara para o rosto retorcido do gigante. O Nove Sangrento sorriu, depois atacou bruscam ente, rápido com o um a chuva de fagulhas, e cravou os dentes fundo naquele grande lábio inferior.

O gigante grunhiu, m oveu os braços, tentou em purrar a cabeça do Nove Sangrento para longe, afastar os dentes que m ordiam sua boca. Mas seria m ais fácil afastar a peste. Seus braços se afrouxaram e o Nove Sangrento torceu a m ão que segurava a espada do Artífice. Torceu-a com o a cobra se retorce no ninho, e lentam ente com eçou a soltá-la.

O braço esquerdo do gigante, o azul, se desenrolou do corpo do Nove Sangrento, a m ão azul segurou o pulso do Nove Sangrento, m as não havia com o im pedi-lo. Quando a sem ente da árvore encontra um a rachadura na m ontanha, ao longo dos anos suas raízes fundas vão estourar a própria rocha. Assim o Nove Sangrento forçou cada m úsculo e deixou o tem po passar lento, sibilando seu ódio na boca retorcida do Tem ível. A lâm ina se esgueirou para a frente, devagar, devagar, e sua ponta furou a carne pintada, logo abaixo da costela inferior do gigante.

O Nove Sangrento sentiu o sangue quente escorrendo pelo cabo e por cim a do punho cerrado, escorrendo da boca do Tem ível para a sua, descendo pelo pescoço, vazando dos ferim entos em suas costas, pingando no chão, com o devia ser. Devagar, suavem ente, a lâm ina penetrou o corpo tatuado do Tem ível, de lado, para cim a, em frente.

As grandes m ãos agarravam o braço do Nove Sangrento, suas costas, procurando desesperadam ente algum apoio que im pedisse o avanço terrível daquela lâm ina. Mas a cada m om ento a força do gigante se esvaía, com o gelo diante de um a fornalha. Era m ais fácil parar o Torrente Branca do que o Nove Sangrento. O m ovim ento de suas m ãos era um a árvore poderosa crescendo, aum entando de espessura, a largura de um fio de cabelo de cada vez, m as nem carne, nem pedra, nem m etal podiam im pedi-lo.

Não era possível ferir o lado pintado do gigante. O grande Glustrod fizera isso, longos anos atrás, no Tem po Antigo, quando as palavras foram escritas na pele do Tem ível. Mas Glustrod só escrevera num a m etade. Agora, lenta, suave e gentilm ente, a ponta da espada do Artífice com eçava a cruzar o lim ite da tinta azul e penetrar na m etade sem m arcas, cavando as entranhas, furando-o feito carne sendo preparada para ir ao fogo.

O gigante soltou um grito alto, agudo, e as últim as forças se dissolveram de suas m ãos. O Nove Sangrento abriu a boca e o soltou, m antendo um braço para segurar suas costas com força enquanto o outro cravava a espada. O Nove Sangrento soltou um a gargalhada por entre os dentes trincados e destilou gargalhada pelo buraco aberto no rosto. Cravou a lâm ina até onde era possível, e a ponta deslizou para fora entre as placas de arm adura, logo abaixo da axila do gigante, e brilhou rubra ao sol.

Fenris, o Tem ível, cam baleou para trás, ainda soltando seu guincho longo, a boca aberta e um fio de cuspe verm elho pendendo dos lábios, a m etade pintada j á curada, a m etade pálida dilacerada. O círculo de hom ens estava im óvel, todos olhando boquiabertos por cim a dos escudos. O Tem ível arrastava os pés, tentava com um a das m ãos pegar o punho verm elho da espada do Artífice, enterrada até o fim na lateral de seu corpo, o sangue pingando do cabo e deixando m anchas verm elhas pelo chão. Seu guincho virou um gem ido entrecortado, um pé tropeçou no outro e ele tom bou feito um a árvore cortada: de costas, no centro do círculo, com os grandes braços e pernas arreganhados. Os trem ores em seu rosto por fim pararam e se fez um longo silêncio.

– Pelos m ortos!

A frase foi dita baixinho, de form a conclusiva. Logen estreitou os olhos ao sol da m anhã, viu a silhueta de um hom em que o observava de cim a da m uralha alta.

– Pelos m ortos, nunca pensei que você conseguiria.

O m undo oscilava quando Logen com eçou a andar, com a respiração passando sibilante e fria pelo ferim ento no rosto, raspando na garganta. Os hom ens que tinham feito o círculo agora saíam de seu cam inho, suas vozes silenciadas, seus escudos pendendo das m ãos.

– Nunca pensei que você conseguiria, m as, quando se trata de m atar, não existe hom em m elhor! Não existe hom em pior! Sem pre falei isso!

Logen cam baleou pelo portão aberto, encontrou um a passagem em arco e com eçou a subir os degraus, girando e girando, as botas reverberante na pedra e deixando m anchas escuras. O sangue pingava, tap, tap, tap, dos dedos frouxos da m ão esquerda. Cada m úsculo doía. A voz de Bethod o feria:

– Mas quem ri por últim o sou eu, não é, Nove Sangrento? Você não passa de folhas na água! Vai para onde a chuva o leva!

Logen continuou, cam baleando, as costelas ardendo, o m axilar trincado, o om bro raspando na parede curva. Subia e subia, e girava e girava, sua respiração ecoando em estalos atrás dele.

– Você nunca vai ter nada! Nunca vai ser nada! Nunca vai gerar nada além de cadáveres!

Chegou ao topo, piscou na claridade da m anhã, cuspiu um bocado de sangue por cim a do om bro. Bethod estava j unto às am eias. Os Hom ens Nom eados saíram rapidam ente do cam inho de Logen.

– Você é feito de m orte, Nove Sangrento! Você é feito de…

O punho de Logen se chocou contra o queixo de Bethod e ele deu um passo cam baleante para trás. A outra m ão de Logen esm agou sua face e ele girou contra o parapeito, com um longo fio de baba sangrenta voando da boca rasgada. Logen segurou a nuca de Bethod e m andou o j oelho contra seu rosto, sentiu o nariz ser esm agado e se quebrar. Fincou os dedos no couro cabeludo de Bethod, apertou com força, puxou a cabeça dele para cim a e a golpeou contra as pedras.

– Morra! – sibilou.

Bethod se sacudiu, gorgolej ou, Logen levantou sua cabeça e a golpeou de novo, e m ais um a vez. O aro de ouro voou do crânio partido, ricocheteou no telhado com um tilintar alegre.

– Morra!

Ossos se partiram e sangue saltou sobre a pedra em gotas grossas e j orros finos. Pálido-Com o-Neve e seus Hom ens Nom eados olhavam , lívidos, im potentes e tem erosos, horrorizados e deliciados.

– Morra, seu desgraçado!

E, com um últim o esforço, Logen levantou o cadáver arruinado de Bethod e o atirou por cim a das am eias. Observou-o cair. Observou-o bater com um estalo no chão e ficar parado, de lado, braços e pernas se proj etando do j eito errado, m ãos fechadas com o se segurassem algo, a cabeça apenas um a m ancha escura na terra. Todos os rostos na m ultidão de hom ens lá em baixo estavam virados para aquele cadáver. Depois, devagar, olhos e bocas escancarados, se ergueram para Logen.

Crum m ock-i-Phail, parado no m eio deles, no centro do círculo de capim aparado j unto ao grande corpo do Tem ível, levantou devagar o braço grande, com o indicador gordo apontando para cim a.

– Nove Sangrento! – gritou ele. – Rei dos nórdicos!

Logen olhou para ele boquiaberto e ofegante, de pernas bam bas, tentando com preender. A fúria havia sum ido e não deixara nada além de um cansaço terrível em sua esteira. Cansaço e dor.

– Rei dos nórdicos! – berrou alguém , no fundo da m ultidão.

– Não – grasnou Logen.

Mas ninguém ouviu. Estavam todos bêbados de sangue e fúria ou ocupados pensando no que seria m ais côm odo ou apavorados dem ais para dizer outra coisa. As vozes irrom peram de toda parte, a princípio um fiapo, depois um j orro, depois um a enchente, e Logen só pôde observar, agarrado à pedra ensanguentada e tentando não cair.

– Nove Sangrento! Rei dos nórdicos!

Pálido-Com o-Neve se curvou ao lado dele sobre um dos j oelhos, com m anchas do sangue de Bethod na pele branca de seu casaco. Ele sem pre fora de lam ber o saco de quem estivesse m ais perto, m as agora não era o único. Todos se aj oelharam , na m uralha e no capim . Os Carls de Cachorrão e os de Bethod. Os hom ens que tinham segurado os escudos para Logen e os que haviam segurado os escudos para o Tem ível. Talvez Bethod tivesse lhes ensinado algo. Talvez eles agora precisassem de outra pessoa para lhes dizer o que fazer, talvez tivessem esquecido com o ser donos de si m esm os.

– Não – sussurrou Logen, m as tudo que saiu foi um som engrolado e sem vida.

Não tinha forças para im pedir aquilo, assim com o não tinha forças para fazer o céu desabar. Então lhe ocorreu que os hom ens realm ente pagam pelas coisas que fazem , sem dúvida. Mas às vezes o tipo de cobrança não é o que eles esperavam .

– Nove Sangrento! – rugiu Crum m ock de novo. Em seguida se aj oelhou e levantou os braços para o céu. – Rei dos nórdicos!