O duelo dos reis
Pontas soltas
UMA CAIXA BRANCA e suj a com duas portas, um a de frente para a outra. O teto era baixo dem ais para oferecer qualquer conforto, a sala ilum inada dem ais por lam piões fortes. A um idade se esgueirava a partir de um canto e o reboco havia sofrido um a erupção de bolhas que se soltavam em flocos, salpicadas de m ofo. Alguém tentara lavar um a com prida m ancha de sangue na parede, m as não com m uito em penho.
Dois enorm es práticos estavam encostados na parede de braços cruzados. Um a das cadeiras j unto à m esa aparafusada estava vazia. Carlot dan Eider se sentava na outra. A história se move em círculos, como dizem. Como as coisas mudaram! E no entanto como permaneceram as mesmas! O rosto dela estava pálido de preocupação, com olheiras causadas pela privação de sono. Ainda assim ela era linda. Mais do que nunca, de certa forma. A beleza da chama da vela que quase se apagou. De novo.
Glokta ouviu sua respiração apavorada ao se acom odar na cadeira livre, apoiar a bengala na m esa arranhada e franzir a testa para a m ulher.
– Ainda estou im aginando se, nos próxim os dias, vou receber aquela carta da qual você falou. Você sabe qual. A que você pretendia que Sult lesse. A que conta a história de m inha pequena m isericórdia autoindulgente para com você. A que você garantiu que seria m andada ao arquileitor… no caso de sua m orte. Será que ela encontrará o cam inho até m inha m esa? É um a ironia final.
Houve um a pausa.
– Percebo que com eti um erro sério quando voltei. – E um erro pior ainda quando não partiu rápido o bastante. – Espero que aceite m eu pedido de desculpas. Eu só queria alertá-lo sobre os gurkenses. Se o senhor descobrir, no coração, que pode ser m isericordioso…
– Você esperava que eu fosse m isericordioso m ais um a vez?
– Não – sussurrou ela.
– Então quais acha que são as chances de eu com eter o m esm o erro duas vezes? Jam ais volte, eu disse. Jam ais.
Ele balançou a m ão e um dos m onstruosos práticos levantou a tam pa da sua caixa.
– Não… não – disse ela, e seu olhar saltou sobre os instrum entos e de volta para ele. – O senhor venceu. O senhor venceu, claro. Eu deveria ter agradecido da prim eira vez. Por favor – pediu a m ulher. E, inclinando-se para a frente, fitou-o nos olhos e baixou a voz até um tom rouco: – Por favor. Certam ente deve haver… algo que eu possa fazer… para com pensar m inha idiotice…
Uma mistura peculiar de desejo fingido e nojo genuíno. Anseio falso e desprezo genuíno. E tudo tornado mais desagradável devido ao gume de terror crescente. Faz pensar por que fui misericordioso na primeira vez.
Glokta bufou.
– Será que isso precisa ser em baraçoso, além de doloroso?
O esforço de sedução sum iu rapidam ente. Mas noto que o medo não está indo a lugar nenhum. Agora era acom panhado por um a nota crescente de desespero.
– Sei que com eti um erro… Estava tentando aj udar… Por favor, eu não queria lhe fazer m al de verdade… Não provoquei nenhum m al, o senhor sabe!
Ele estendeu a m ão lentam ente para a caixa e viu os olhos aterrorizados dela acom panharem sua m ão de luva branca, a voz subindo até um guincho de pânico:
– É só dizer o que eu preciso fazer! Por favor! Eu posso aj udá-lo! Posso ser útil! Diga-m e o que fazer!
A m ão de Glokta parou em sua j ornada sem rem orso por cim a da m esa. Ele bateu com um dedo na m adeira. O dedo onde o anel do arquileitor reluzia à luz dos lam piões.
– Talvez haj a um m odo.
– Qualquer coisa – gorgolej ou ela, os olhos lacrim osos brilhando. – Qualquer coisa, é só dizer!
– Você tem contatos em Talins?
Ela engoliu em seco.
– Em Talins? C… claro.
– Bom . Eu e alguns colegas do Conselho Fechado estam os preocupados com o papel que o grão-duque Orso pretende representar na política da União. Sentim os… sentim os de form a m uito intensa que ele deveria se ater a intim idar os estirianos e m anter o nariz fora dos nossos negócios.
Fez um a pausa sugestiva.
– Com o eu posso…
– Você irá a Talins. Você será m eus olhos na cidade. Um a traidora, fugindo para salvar a vida, sem am igos e sozinha, buscando apenas um lugar para recom eçar a vida. Um a traidora linda m as arruinada, precisando desesperadam ente de um braço forte para protegê-la. Você captou a ideia.
– Acho… acho que eu poderia fazer isso.
Glokta bufou.
– É m elhor fazer.
– Vou precisar de dinheiro…
– Seus bens foram expropriados pela Inquisição.
– Tudo?
– Você deve ter notado que há m uita reconstrução a fazer. O rei precisa de cada m arco em que possa colocar as m ãos, e os traidores confessos não podem m anter seus bens em tem pos assim . Arranj ei um a passagem para você. Quando chegar, faça contato com a casa bancária Valint e Balk. Eles vão arranj ar um em préstim o para você com eçar.
– Valint e Balk? – repetiu Eider, e pareceu m ais apavorada do que antes, se fosse possível. – Prefiro dever a qualquer um , m enos a eles.
– Conheço esse sentim ento. Mas é isso ou nada.
– Com o é que eu vou…
– Um a m ulher com seus recursos? Tenho certeza de que vai encontrar um m odo.
Ele se levantou da cadeira.
– Quero que chovam cartas suas para m im . Tudo o que acontecer na cidade. O que Orso está tram ando. Com quem ele faz guerra, com quem ele faz paz. Quem são seus aliados e seus inim igos. Você parte na próxim a m aré – disse ele e, j unto à porta, virou-se um instante para ela de novo. – Vou estar de olho.
Ela m aneou a cabeça em concordância, enxugando as lágrim as de alívio com as costas da m ão trêm ula. Primeiro alguém faz isso conosco, depois fazemos com os outros, depois ordenamos que seja feito. É como as coisas são.
– Você está sem pre bêbado a esta hora da m anhã?
– Em inência, o senhor m e ofende – brincou Nicom o Cosca. – Geralm ente a esta hora j á estou bêbado há m uito tem po.
Uh. Cada um de nós arranja um modo de passar o dia.
– Devo agradecer por toda a sua aj uda.
O estiriano balançou a m ão num gesto floreado. Um a m ão que relam pej ava de tantos anéis pesados, notou Glokta.
– Para o inferno seus agradecim entos. Recebi seu dinheiro.
– E acho que cada centavo foi bem gasto. Espero que perm aneça na cidade e desfrute a hospitalidade da União por m ais um tem po.
– Sabe de um a coisa? Acho que vou fazer isso. – O m ercenário coçou o eczem a do pescoço, deixando m arcas verm elhas de unhas na pele escam osa enquanto pensava a respeito. – Pelo m enos até o ouro acabar.
– Em quanto tem po você conseguiria gastar o que lhe paguei?
– Ah, o senhor ficaria pasm o. Já gastei dez fortunas na m inha vida, e m ais ainda. Estou ansioso para gastar outra.
Cosca bateu nas coxas, levantou-se, cam inhou um tanto bam bo até a porta e se virou com um floreio.
– Pode m e cham ar quando organizar a próxim a resistência final desesperada.
– Meu prim eiro convite vai ter o seu nom e.
– Então lhe dou… adeus!
Cosca tirou o enorm e chapéu e fez um a reverência. Depois, com um sorriso astucioso, passou pela porta e se foi.
Glokta havia transferido a sala do arquileitor para um grande salão no térreo da Casa das Perguntas. Mais perto dos negócios verdadeiros da Inquisição: os prisioneiros. Mais perto das perguntas e das respostas. Mais perto da verdade. E, claro, a maior vantagem… sem escadas.
Havia j ardins bem cuidados do lado de fora e o som da água da fonte chegava pelas grandes j anelas. Mas na sala não havia nada da parafernália feia do poder. As paredes eram rebocadas e pintadas de branco sim ples. A m obília era dura e funcional. O incentivo do desconforto me deixou atento esse tempo todo. Não há motivo para perder isso simplesmente porque fiquei sem inimigos. Novos inimigos irão se apresentar em pouco tempo.
Havia algum as estantes pesadas, de m adeira escura. Várias m esas forradas de couro, j á com altas pilhas de docum entos exigindo sua atenção. Afora a grande m esa redonda com o m apa da União e o par de m arcas de pregos ensanguentadas, só havia um item da m obília de Sult que Glokta havia trazido. O quadro escuro que retratava o velho e careca Zoller o observava sobre a lareira sim ples. Uma semelhança espantosa com certo mago que conheci. É justo, afinal, que mantenhamos a perspectiva adequada. Todo mundo presta contas a alguém.
Houve um a batida à porta e a cabeça do secretário de Glokta surgiu na abertura.
– Os lordes m arechais chegaram , arquileitor.
– Mande-os entrar.
Às vezes, quando velhos am igos se encontram , as coisas voltam instantaneam ente a ser com o eram tantos anos antes. A am izade retorna, intocada, com o se não tivesse havido interrupção. Às vezes, mas não agora. Collem West estava praticam ente irreconhecível. O cabelo se resum ia a tufos m edonhos. O rosto estava encovado e tinha um tom am arelo. O uniform e estava largo nos om bros ossudos, m anchado no colarinho. Ele arrastou os pés para dentro da sala, curvado, com passo de velho, apoiando-se pesadam ente num a bengala. Parecia um cadáver am bulante.
Glokta havia esperado algo do tipo, claro, pelo que Ardee dissera. Mas m esm o assim foi pego de surpresa pela náusea que o im pacto da decepção e do horror lhe causou. É como voltar ao local feliz onde passamos a juventude e encontrá-lo em ruínas. Mortes. Elas acontecem todo dia. Quantas vidas destrocei com as próprias mãos? O que torna esta tão difícil de aceitar? No entanto era. Ele se pegou saltando da cadeira, andando dolorosam ente com o se fosse oferecer algum a aj uda.
– Em inência. – A voz de West estava frágil e falhada feito vidro quebrado. Ele fez um esforço débil para sorrir. – Ou, suponho que… devo cham á-lo de irm ão.
– West… Collem … que bom ver você. – Bom e medonho ao mesmo tempo.
Um grupo de oficiais acom panhou West para dentro da sala. Do tão competente tenente Jalenhorm eu me lembro, claro, mas agora ele é major. E Brint também, promovido a capitão pelo avanço rápido do amigo. O marechal Kroy, conhecemos e amamos do Conselho Fechado. Parabéns, todos, pelas promoções. Outro hom em vinha no final do grupo. Um hom em m agro com o rosto horrivelm ente queim ado. Mas nós, mais do que qualquer pessoa, não deveríamos encarar uma desfiguração repulsiva como algo negativo. Cada um deles franziu a testa com nervosism o para West, com o se estivessem prontos para saltar em seu apoio caso ele despencasse no chão. Em vez disso, ele arrastou os pés até a m esa redonda e deixou o corpo trêm ulo cair na cadeira m ais próxim a.
– Eu deveria ter ido vê-lo – disse Glokta. Deveria ter ido muito antes.
West fez outro esforço para sorrir, m ais nauseante ainda do que o últim o. Faltavam vários dentes.
– Bobagem . Sei com o você anda ocupado. E hoj e estou m e sentindo m uito m elhor.
– Bom , bom . Isso é… bom . Posso pedir algum a coisa para você? – O que poderia ajudar? – Qualquer coisa.
West balançou a cabeça.
– Acho que não. Você conhece esses cavalheiros, claro. Afora o sargento Pike.
O hom em queim ado m aneou a cabeça para ele.
– É um prazer. – Sempre, conhecer alguém mais mutilado ainda do que eu.
– Ouvi… notícias felizes da parte da m inha irm ã.
Glokta se encolheu, quase incapaz de encarar o velho am igo.
– Eu deveria ter pedido sua perm issão, claro. Certam ente pediria, se houvesse tem po.
– Eu entendo. – Os olhos brilhantes de West se fixaram nos dele. – Ela explicou tudo. Traz certo conforto saber que ela será bem cuidada.
– Pode contar com isso. Garantirei isso. Ela j am ais será m agoada de novo.
O rosto m agro de West se retorceu.
– Bom . Bom .
Ele coçou suavem ente o lado do rosto. As unhas estavam pretas, com um a borda de sangue seco, com o se estivessem se descolando da carne.
– Sem pre há um preço a ser pago, não é, Sand? Pelas coisas que fazem os?
Glokta sentiu o olho estrem ecer.
– Parece que sim .
– Eu perdi alguns dentes.
– Estou vendo, e posso m e identificar com isso. Sopa, im agino… – Acho totalmente abominável.
– Eu… m al consigo andar.
– Tam bém posso m e identificar com isso. Sua bengala vai ser sua m elhor am iga. – Assim como a minha vai ser logo, acho.
– Sou um resto lam entável do que j á fui.
– Sinto de fato sua dor. – Verdade. Quase mais intensamente do que a minha.
West balançou a cabeça branca.
– Com o você aguenta isso?
– Um passo de cada vez, am igo. Fique longe de escadas quando possível. E dos espelhos, sem pre.
– Sábio conselho.
West tossiu. Um a tosse ecoante, vinda do m eio das costelas. Ele engoliu ruidosam ente.
– Acho que m eu tem po está se acabando.
– Certam ente não!
A m ão de Glokta se estendeu por um m om ento, com o se fosse pousar no om bro encolhido de West, com o se fosse oferecer conforto. Ele a puxou de volta, sem j eito. Ela não é adequada à tarefa.
West lam beu as gengivas vazias.
– É assim que a m aioria de nós vai, não é? Não em um ataque final. Não em um m om ento de glória. Só… desm oronam os.
Glokta queria poder dizer algo otim ista. Mas esse lixo sai de outras bocas, não da minha. Bocas mais jovens, mais bonitas, com todos os dentes, talvez.
– Os que m orrem no cam po de batalha são, de certa form a, os poucos sortudos. Jovens para sem pre. Gloriosos para sem pre.
West assentiu devagar.
– Aos poucos sortudos, então…
Seus olhos se reviraram para trás, ele oscilou e tom bou de lado. Jalenhorm foi o prim eiro a avançar, pegando-o antes que batesse no chão. West se afrouxou nos braços do suj eito enorm e, com um fio longo e fino de vôm ito batendo no piso.
– De volta ao palácio! – ordenou Kroy. – Agora m esm o!
Brint correu na frente para abrir a porta enquanto Jalenhorm e Kroy carregavam West pendurado entre eles com os braços sobre seus om bros. Os sapatos raspavam o piso, a cabeça m eio careca balançava. Glokta ficou parado e im potente, vendo-os ir, a boca banguela m eio aberta, com o se fosse falar. Com o se quisesse desej ar sorte ao am igo, ou saúde, ou um a tarde alegre. Mas nada disso parece adequado nessas circunstâncias.
A porta se fechou de form a ruidosa e Glokta perm aneceu parado, olhando para ela. Suas pálpebras trem eram , ele sentiu a face m olhada. Não com lágrimas de compaixão, claro. Nem lágrimas de sofrimento. Não sinto nada, não temo nada, não me importo com nada. Nas prisões do imperador, cortaram as partes de mim que podiam chorar. Isso só pode ser água salgada, nada mais. Meramente um reflexo num rosto arruinado. Adeus, irmão. Adeus, meu único amigo. E adeus ao fantasma do lindo Sand dan Glokta, também. Nada dele permanece. E é melhor assim, claro. Um homem na minha posição não pode se dar ao luxo de ser indulgente.
Respirou fundo e enxugou o rosto com as costas da m ão. Foi m ancando até a m esa, sentou-se, recom pôs-se por um m om ento, aj udado por um a pontada súbita no pé sem dedos. Voltou a atenção para os docum entos. Papéis de confissão, tarefas importantes, todo o negócio tedioso do governo…
Levantou os olhos. Um a figura havia se destacado das som bras j unto a um a das estantes altas e agora andava pela sala, de braços cruzados. O hom em de rosto queim ado que viera com os oficiais. Parecia que ele ficara para trás, na agitação da saída.
– Sargento Pike, não é? – m urm urou Glokta, franzindo a testa.
– É o nom e que eu assum i.
– Assum iu?
O rosto coberto de cicatrizes se torceu num a farsa de sorriso. Um sorriso ainda mais hediondo do que o meu, se é possível.
– Não é surpreendente que o senhor não m e reconheça. Na m inha prim eira sem ana, houve um acidente na forj a. Acidentes acontecem frequentem ente em Angland. – Angland? Aquela voz… algo naquela voz… – Nada, ainda? E se eu chegar um pouco m ais perto?
Ele saltou pela sala, do nada. Glokta ainda lutava para se levantar e o hom em j á m ergulhava por cim a da m esa. Os dois caíram no chão j untos num a nuvem de papéis voando, Glokta por baixo, a nuca batendo com força contra a pedra, todo o ar expelido num chiado longo, agonizante.
Glokta sentiu o roçar de aço contra o pescoço. O rosto de Pike estava a poucos centím etros do seu, a m assa de queim aduras captada em detalhes particularm ente repugnantes.
– E agora? – sibilou ele. – Algum a coisa parece fam iliar?
Glokta sentiu o olho esquerdo trem er à m edida que era varrido por um a onda gelada de reconhecim ento. Diferente, claro. Completamente mudado. No entanto eu o conheço.
– Rews – ofegou.
– Nenhum outro.
Rews soltou as palavras com satisfação sinistra.
– Você sobreviveu. – Glokta sussurrou as palavras, prim eiro com espanto, depois com diversão crescente. – Você sobreviveu! Você é um hom em m uito m ais durão do que eu acreditava! Muito, m uito m ais durão.
Com eçou a rir, as lágrim as escorrendo de novo pela face.
– Algum a coisa engraçada?
– Tudo! Você tem de apreciar a ironia. Eu suplantei tantos inim igos poderosos e é Salem Rews que está com a faca no m eu pescoço! É sem pre a lâm ina que a gente não vê chegando que corta m ais fundo, não é?
– Você não vai receber cortes m ais fundos do que este.
– Então corte, hom em , estou pronto – falou Glokta. Inclinando a cabeça para trás, esticou o pescoço, com prim indo-o contra o m etal frio. – Estou pronto há m uito tem po.
O punho de Rews aj eitou o cabo da faca. Seu rosto queim ado trem eu, os olhos se estreitaram a ponto de virarem fendas brilhantes nas órbitas rosadas. Agora.
Seus lábios queim ados deslizaram para longe dos dentes. Os tendões do pescoço se destacaram enquanto ele se preparava para usar a lâm ina. Faça.
A respiração de Glokta entrava e saía sibilando, a garganta coçava de ansiedade. Agora, enfim… agora…
Mas Rews não se m oveu.
– E no entanto você hesita – sussurrou Glokta por entre as gengivas vazias. – Não por m isericórdia, claro, e não por fraqueza. Eles congelaram essa parte sua, hein? Em Angland. Você hesita porque percebe que, em todo aquele tem po que sonhou m e m atar, nunca pensou no que aconteceria em seguida. O que você terá ganhado de fato, depois de suportar tanta coisa? Com toda a sua inteligência e seus esforços? Vai ser caçado? Vai ser m andado de volta? Eu posso lhe oferecer m uito m ais.
A carranca derretida de Rews ficou m ais severa ainda.
– O que você poderia m e dar, depois disso?
– Ah, isso não é nada. Eu sofro o dobro da dor e um a hum ilhação dez vezes m aior só de acordar de m anhã. Um hom em com o você poderia ser m uito útil para m im . Um hom em … im placável com o você provou ser. Um hom em que perdeu tudo, inclusive os escrúpulos, toda a m isericórdia, todo o m edo. Nós dois perdem os tudo. Nós dois sobrevivem os. Eu entendo você, Rews, com o ninguém m ais pode entender.
– Agora m eu nom e é Pike.
– Claro que é. Deixe-m e levantar, Pike.
Lentam ente a faca se afastou do pescoço dele. O hom em que havia sido Salem Rews se levantou de perto dele, franzindo a testa para baixo, olhando para o arquileitor. Quem poderia prever as reviravoltas do destino?
– De pé, então.
– É m ais fácil falar do que fazer.
Glokta inspirou fundo algum as vezes, depois, rosnando com um esforço enorm e e doloroso, rolou e ficou de quatro. Um feito heroico, na verdade. Testou lentam ente os m em bros, encolhendo-se quando as j untas tortas estalaram . Nada quebrado. Pelo menos não mais do que o normal. Estendeu a m ão e pegou com dois dedos o cabo da bengala caída, puxou-a através dos papéis espalhados. Sentiu a ponta da faca pressionando suas costas.
– Não pense que sou idiota, Glokta. Se tentar algum a coisa…
Glokta segurou a beira da m esa e se içou.
– Você vai cortar m eu fígado e coisa e tal. Não se preocupe. Sou aleij ado dem ais para tentar algum a coisa pior do que m e cagar. Mas tenho um a coisa para m ostrar a você. Um a coisa que tenho certeza que vai apreciar. Se eu estiver errado… bem , você pode cortar m inha garganta m ais tarde.
Glokta saiu m ancando pela porta pesada de sua sala, com Pike perto de seu om bro com o um a som bra, a faca m antida cuidadosam ente fora de vista.
– Fiquem – disse rispidam ente aos dois práticos na antessala.
Passou pelo secretário, que estreitou os olhos, sentado à m esa enorm e. Saiu para o corredor largo que atravessava o coração da Casa das Perguntas e m ancou m ais depressa, a bengala estalando nos ladrilhos. Doía fazer isso, m as ele ergueu a cabeça e deixou nos lábios um esgar de frieza. Em sua visão periférica, notava os funcionários, os práticos e os inquisidores fazerem reverências e abrirem cam inho. Como eles me temem! Mais do que qualquer pessoa em Adua, e com bons motivos. Como as coisas mudaram! E, no entanto, como permaneceram iguais. Sua perna, seu pescoço, suas gengivas. Essas coisas continuavam com o sem pre. E sempre continuarão. A não ser que eu seja torturado de novo, claro.
– Você parece bem – disse Glokta por cim a do om bro. – Afora as terríveis queim aduras no rosto, claro. Perdeu peso.
– A fom e causa isso.
– É m esm o, é m esm o. Eu perdi m uito peso em Gurkhul. E não só por causa dos pedaços que cortaram de m im . Por aqui.
Atravessaram um a porta grossa flanqueada por dois práticos carrancudos, passaram por um portão de ferro aberto, entraram num corredor com prido e sem j anelas que descia cada vez m ais, ilum inado por pouquíssim os lam piões e caiado de branco, ainda que não m uito recentem ente. Havia um ar deprim ente no local, e um cheiro de um idade. Como sempre. Os estalos da bengala de Glokta, o som de sua respiração, o farfalhar do casaco branco, tudo parecia m orto no ar gelado e úm ido.
– Me m atar vai lhe dar pouca satisfação, sabe?
– Verem os.
– Eu garanto. Não fui o responsável por sua pequena viagem ao Norte. Executei o serviço, talvez, m as outros deram as ordens.
– Eles não eram m eus am igos.
Glokta bufou.
– Por favor. Os am igos são pessoas de quem a gente finge gostar para tornar a vida m ais suportável. Hom ens com o nós não precisam desse tipo de indulgência. Nós som os m edidos por nossos inim igos. – E aqui estão os meus. Dezesseis degraus o confrontavam . Essa escada antiga e familiar. Cortados na pedra lisa, um pouco gastos no centro. – Degraus. Coisas desgraçadas. Se eu pudesse torturar um hom em , sabe quem seria?
O rosto de Pike era um a única cicatriz inexpressiva.
– Bom , não im porta.
Glokta desceu sem incidentes e m ancou por m ais alguns passos dolorosos, até um a porta de m adeira grossa, reforçada com ferro.
– Chegam os.
Glokta tirou um m olho de chaves do bolso do casaco branco, revirou-as até encontrar a certa, destrancou a porta e entrou.
O arquileitor Sult não era o m esm o hom em de antes. Mas, afinal de contas, nenhum de nós é. Seus m agníficos cabelos brancos estavam em plastrados no crânio m agro, com sangue seco grudado num a m assa m arrom am arelada de um dos lados. Seus olhos azuis penetrantes haviam perdido o brilho autoritário, afundados nas órbitas e com as bordas de um rosa furioso. Suas roupas tinham sido tiradas e o corpo nodoso de velho, um tanto peludo em volta dos om bros, estava m anchado com a suj eira das celas. Na verdade ele não parecia nada m ais do que um m endigo idoso. Será que esse aí pode ter sido mesmo um dos homens mais poderosos de todo o grande Círculo do Mundo? Não daria para adivinhar. É uma lição para todos nós. Quanto mais alto você sobe, maior é a queda.
– Glokta! – rosnou ele, sacudindo-se im potente, acorrentado à cadeira. – Seu infeliz traiçoeiro e deform ado.
Glokta levantou a m ão enluvada, com a pedra roxa do anel do cargo brilhando à luz lancinante.
– Acredito que Eminência é o tratam ento certo.
– Você? – Sult gargalhou. – Arquileitor? Um a casca de hom em m urcha e lam entável? Você m e enoj a!
– Não m e venha com isso – falou Glokta e sentou na outra cadeira, encolhendo-se de dor. – Noj o é para os inocentes.
Sult olhou para Pike, que perm anecia am eaçadoram ente de pé j unto à m esa, com a som bra caindo sobre a caixa polida que continha os instrum entos de Glokta.
– O que é essa coisa aí?
– Um velho am igo nosso, m estre Sult, que voltou recentem ente das guerras no Norte e busca novas oportunidades.
– Parabéns! Nunca acreditei que pudesse encontrar um assistente ainda m ais hediondo do que você m esm o!
– Você não é gentil, m as felizm ente não nos ofendem os com facilidade. Digam os que ele é tão hediondo quanto eu. – E igualmente implacável, espero.
– Quando será m eu j ulgam ento?
– Julgam ento? Por que eu quereria isso? Você foi dado com o m orto e eu não fiz nenhum esforço para negar.
– Exij o o direito de m e dirigir ao Conselho Aberto! – berrou Sult, lutando inutilm ente com suas correntes. – Exij o… seu m aldito! Exij o um a audiência!
Glokta bufou.
– Pode exigir, m as olhe em volta. Ninguém está interessado em ouvir, nem eu. Todos estam os ocupados dem ais. O Conselho Aberto está em recesso por tem po indefinido. O Conselho Fechado m udou totalm ente e ninguém se lem bra de você. Agora eu com ando as coisas. Mais do que você sonharia.
– Com aquele dem ônio do Bay az segurando a coleira!
– Correto. Talvez com o tem po eu consiga afrouxar um pouco o aperto, com o fiz com você. O bastante para fazer as coisas do m eu m odo, quem sabe?
– Nunca! Você nunca vai se livrar dele!
– Verem os. – Glokta deu de om bros. – Mas existem destinos piores do que ser o prim eiro dos escravos. Muito piores. Eu os vi. – Eu os vivi.
– Seu idiota! Nós poderíam os ser livres!
– Não. Não poderíam os. E a liberdade é superestim ada, de qualquer m odo. Todos tem os nossas responsabilidades. Todos devem os algum a coisa a alguém . Só quem não tem valor é inteiram ente livre. Quem não tem valor e quem j á m orreu.
– O que isso im porta, agora? – falou Sult e encarou a m esa. – O que im porta? Faça suas perguntas.
– Ah, não estam os aqui para isso. Desta vez, não. Não viem os atrás de perguntas, nem de verdade, nem de confissões. Eu j á tenho m inhas respostas. – Então por que eu faço isso?
Glokta se inclinou devagar por cim a da m esa.
– Estam os aqui para nos divertir.
Sult o encarou por um m om ento, depois soltou um a gargalhada louca.
– Divertir? Você nunca terá seus dentes de volta! Nunca terá sua perna de volta! Nunca terá sua vida de volta!
– Claro que não, m as posso tom ar a sua.
O superior se virou rígida, lenta e dolorosam ente e deu um sorriso banguela.
– Prático Pike, poderia fazer o favor de m ostrar os instrum entos ao nosso prisioneiro?
Pike franziu a testa para Glokta. Franziu a testa para Sult. Ficou parado por longo tem po, im óvel.
Então ergueu a tam pa da caixa.
“O demônio sabe que é um demônio?”
ELIZABETH MADOX ROBERTS