O verão que mudou minha vida
Capítulo 14
Ela deu um sorrisinho e balançou a cabeça.
— Não começa.
14
Treze anos
ELAS ACHARAM QUE a gente não fosse descobrir da primeira vez que fizeram aquilo. Foi até meio burro da parte delas, porque era uma das raras noites em que estávamos todos em casa. Eu e os meninos estávamos na sala de estar: Conrad com fones de ouvido escutando música, Jeremiah e Steven jogando videogame, e eu, deitada na poltrona reclinável, lendo Emma, de Jane Austen —
porque achava que aquilo me fazia parecer inteligente, e não porque gostava do livro. Se fosse por gosto mesmo, eu estaria trancada no quarto com O jardim dos esquecidos, de V.C. Andrews, ou algo do tipo, não com Jane Austen.
Acho que Steven foi o primeiro a sentir o cheiro. Ele olhou em volta, farejou como um cachorro e perguntou:
— Estão sentindo?
— Eu disse pra você não comer feijão, Steven! — brincou Jeremiah, com os olhos grudados na TV.
Dei uma risadinha. Mas não era cheiro de pum, eu também tinha sentido.
— É maconha — anunciei, em voz alta.
Queria ser a primeira a dizer, para provar que sabia das coisas.
— Está maluca! — retrucou Jeremiah.
Conrad tirou os fones.
— Belly está certa. É maconha.
Steven pausou o jogo e se virou para me encarar. Então perguntou, desconfiado:
— Como é que você conhece cheiro de maconha, Belly?
— Porque vivo chapada, Steven. Sou maconheira, não sabia?
Eu detestava quando Steven bancava o irmão mais velho, ainda mais na frente de Conrad e Jeremiah. Era como se ele tentasse me diminuir de propósito.
Steven me ignorou.
— Está vindo lá de cima?
— É minha mãe — explicou Conrad, botando os fones de novo.
— Por causa da químio.
Percebi que Jeremiah não sabia. Ele não disse nada, mas pareceu confuso, até magoado. Coçou a nuca e olhou para o nada por um minuto. Steven e eu nos entreolhamos. Era estranho; sempre que o assunto era o câncer de Susannah, nós dois nos sentíamos deslocados. Nunca sabíamos o que dizer, então nunca dizíamos nada. Na maior parte das vezes, fingíamos que nada estava acontecendo, assim como Jeremiah.
Com minha mãe era diferente. Ela parecia sempre calma.
Susannah dizia que com minha mãe ela se sentia normal de novo.
Minha mãe era boa naquilo, em fazer as pessoas se sentirem normais. Seguras. Como se, enquanto ela estivesse por perto, nada de ruim pudesse acontecer.
* * *
Quando as duas desceram, um pouco mais tarde, estavam rindo que nem adolescentes que roubaram bebida dos pais. Ficou bem evidente que minha mãe tinha fumado também.
Steven e eu nos entreolhamos, dessa vez horrorizados. Minha mãe era a última pessoa no planeta que fumaria maconha — depois da mãe dela, claro.
— Vocês comeram o Cheetos todo, meninos? — perguntou ela, inspecionando o armário da cozinha. — Estou morrendo de fome.
— Comemos — respondeu Steven, sem conseguir nem olhar para minha mãe.
— E aquele pacote de batatinhas? Pega lá pra gente — pediu Susannah, se aproximando por trás da minha poltrona.
Ela mexeu no meu cabelo delicadamente, daquele jeito que eu amava. Susannah era mais carinhosa que minha mãe e sempre dizia que eu era a filha que ela nunca tivera. E adorava me dividir com minha mãe, que não se incomodava — eu também não, aliás.
— O que está achando de Emma? — perguntou Susannah, daquele jeito dela que fazia com que a gente se sentisse a pessoa mais importante do lugar.
Abri a boca para mentir e dizer que estava achando ótimo, mas, antes que eu conseguisse, Conrad, ainda de fones de ouvido, se intrometeu, dizendo bem alto:
— Ela está na mesma página há mais de uma hora.
Olhei feio para ele, mas por dentro fiquei encantada por ter reparado em mim. Ao menos uma vez era ele quem estava me observando. Mas claro que estava, Conrad reparava em tudo. Sabia até se o cachorro do vizinho tinha mais remela no olho esquerdo que no direito, ou se o entregador de pizza havia trocado de carro.
Ser notada por Conrad não era exatamente um elogio; era quase natural.
— Ah, espera o livro engrenar, você vai adorar — garantiu Susannah, afastando a franja da minha testa.
— Eu sempre levo um tempo pra entrar na história — concordei, mas parecia que eu estava me desculpando.
Não queria que ela se sentisse mal; o livro tinha sido recomendação dela.
Minha mãe entrou na sala com um pacote daquelas balas compridas e azedinhas e um saco de batatinhas fritas que já estava pela metade. Ela jogou uma bala para Susannah, e tarde demais gritou:
— Segura!
Não deu tempo, e o doce caiu no chão. Susannah gargalhou enquanto se abaixava para pegar.
— Mas que desastrada… — comentou, mordiscando a bala como uma caipira mascando um pedaço de palha. — O que deu em mim?
— Mãe, todo mundo sabe que vocês estavam fumando maconha
— retrucou Conrad, balançando a cabeça de leve, no ritmo da música que só ele podia ouvir.
Susannah tapou a boca. Não disse nada, mas parecia genuinamente triste.
— Ops… — respondeu minha mãe. — Acho que nos pegaram, Beck. Meninos, a mãe de vocês está fazendo uso medicinal de marijuana pra tratar as náuseas causadas pela químio.
Steven não tirou os olhos da televisão ao perguntar:
— E você, mãe? Também está fazendo uso medicinal?
Eu sabia que ele estava tentando descontrair a tensão, e funcionou. Steven era bom nisso.
Susannah soltou uma gargalhada, e minha mãe bateu com uma das balas no topo da cabeça dele.
— Espertinho. Eu estou oferecendo apoio moral pra minha melhor amiga no mundo inteiro. Tem motivos piores.
Steven pegou o pacote e jogou uma bala inteira na boca.
— Então tudo bem se eu fumar maconha também, certo?
— Só quando você tiver câncer de mama — respondeu minha mãe, trocando um sorrisinho com Susannah, sua melhor amiga no mundo inteiro.
— Ou quando sua melhor amiga tiver — completou Susannah.
Em meio a tudo isso, Jeremiah estava quieto, não tinha falado nada. Seus olhos só ficaram se alternando entre Susannah e a TV, como se ele sentisse medo de que a mãe desaparecesse no ar caso desse as costas para ela.
* * *
Naquela tarde, nossas mães achavam que estávamos na praia. Não sabiam que Jeremiah e eu tínhamos ficado entediados e voltado
para casa, para fazer um lanche. Enquanto subíamos os degraus da varanda, ouvimos a conversa das duas pela janela.
Jeremiah parou quando escutou a mãe dizer:
— Lau, eu me odeio por pensar isso, mas acho que prefiro morrer a perder meu peito.
Ele prendeu a respiração e ficou lá, ouvindo. Então se sentou, e eu me sentei do lado.
— Sei que no fundo não é isso que você pensa — retrucou minha mãe.
Eu detestava quando ela falava aquilo, e acho que Susannah também não gostava, porque respondeu:
— Não venha me dizer o que penso ou deixo de pensar.
Eu nunca tinha ouvido Susannah falar daquele jeito, tão grossa e irritada.
— Está bem. Tudo bem. Retiro o que disse.
Então Susannah começou a chorar. Mesmo sem vê-las, eu sabia que minha mãe acariciava as costas dela em movimentos circulares, igualzinho fazia comigo quando eu ficava triste.
Desejei fazer o mesmo com Jeremiah. Sabia que aquilo o confortaria, mas não consegui. Apenas segurei a mão dele e apertei bem forte. Ele não olhou para mim, mas não soltou minha mão. Foi nesse momento que nos tornamos amigos de verdade.
Ouvimos minha mãe dizer, em um tom bem sério e impassível:
— Esses seus peitos malditos são mesmo maravilhosos.
Susannah começou a rir e a chorar ao mesmo tempo. Ficaria tudo bem. Enquanto minha mãe falasse daquele jeito, enquanto Susannah risse, tudo ficaria bem.
Soltei a mão de Jeremiah e me levantei. Ele fez o mesmo. Fomos andando de volta para a praia, e nenhum dos dois disse uma só palavra. O que teríamos para dizer? “Sinto muito por sua mãe ter câncer”? “Espero que ela não perca o peito”?
Ao chegarmos lá, encontramos Conrad e Steven, que tinham acabado de sair da água com suas pranchas de bodyboard.
Continuávamos mudos, e Steven percebeu. Acho que Conrad também, mas não comentou nada. Foi meu irmão quem perguntou:
— O que aconteceu?
— Nada — respondi, me sentando e abraçando os joelhos.
— Vocês se beijaram ou coisa do tipo? — insistiu ele, torcendo o calção e molhando meus joelhos.
— Cala a boca! — bradei.
Eu estava quase puxando o short dele, só para mudar de assunto.
No verão anterior, os meninos faziam aquilo o tempo todo. Eu nunca tinha participado da brincadeira, mas, naquele momento, realmente tive vontade.
— Ah, eu sabia! — insistiu ele, me dando um soquinho no ombro.
Afastei a mão dele e o mandei calar a boca de novo. Steven começou a cantar:
— Summer lovin’, had me a blast, summer lovin’, happened so fast...
— Cara, deixa de ser idiota — falei, me virando para Jeremiah e revirando os olhos.
Mas ele apenas se levantou, sacudiu a areia do short e foi até a água, afastando-se de nós e da casa.
— Jeremiah, você está de TPM? Eu só estava brincando! —
gritou Steven. Mas Jeremiah não se virou. Só continuou andando até o mar. — Qual é?!
— Deixa ele em paz — ordenou Conrad.
Os dois nunca foram muito próximos, mas em alguns momentos eu percebia quanto a conexão entre eles era forte, e aquele foi um desses momentos. Ver Conrad proteger o irmão me fez sentir uma enorme onda de amor por ele — uma onda que parecia inundar meu peito e me afogar. Mas então fiquei me sentindo culpada: como eu podia ficar pensando nessas coisas enquanto Susannah estava com câncer?
Dava para ver que Steven tinha ficado confuso e chateado.
Jeremiah não costumava agir daquele jeito. Ele sempre era o primeiro a rir e fazer outra piada.
E, como eu gostava de jogar sal na ferida, provoquei:
— Você é um imbecil, Steven.
Ele me encarou, boquiaberto.
— Meu Deus, o que foi que eu fiz?
Eu o ignorei, me deitei na toalha e fechei os olhos. Como eu queria estar usando os fones de ouvido de Conrad. Como eu queria que aquele dia nunca tivesse existido...
Mais tarde, Jeremiah não quis pescar com Conrad e Steven. E ele adorava pescar à noite. Sempre tentava convencer alguém a ir com ele. Mas, naquela noite, disse que não estava a fim. Os meninos foram, e Jeremiah ficou comigo. Vimos TV e jogamos baralho.
Passamos a maior parte do verão fazendo isso, só nós dois.
Estreitamos nossos laços. Ele me acordava cedo e saíamos para catar conchas ou caranguejos na areia, ou pedalávamos até a sorveteria, a quase cinco quilômetros de casa. Ele não fazia muitas piadas quando estávamos juntos, mas ainda era o Jeremiah de sempre.