O verão que mudou minha vida
Capítulo 23
CAM LIGOU DE novo na noite seguinte, e na outra depois dessa. Nós nos falamos duas vezes antes de nos encontrarmos de novo por umas quatro ou cinco horas seguidas. Eu me deitava em uma das espreguiçadeiras da varanda e ficava olhando a lua, balançando os dedos dos pés. E ria tão alto que Jeremiah chegou a gritar da janela do quarto, me mandando fazer silêncio. Nós conversávamos sobre tudo. Eu adorava, mas ficava o tempo todo me perguntando quando ele ia sugerir que nos víssemos de novo. Só que ele não sugeriu.
Então tive que tomar as rédeas da situação. Convidei Cam para jogar videogame comigo, ou talvez nadar. Eu me senti uma mulher empoderada, como se eu fizesse aquilo o tempo todo, mas na verdade só o chamei porque sabia que não teria ninguém em casa.
Não queria que Jeremiah, Conrad, minha mãe ou mesmo Susannah o encontrassem ainda. Por enquanto, ele era só meu.
— Eu nado muito bem, então nada de se irritar quando eu ganhar de você — avisei ao telefone.
Ele riu e perguntou:
— Estilo livre?
— Qualquer estilo.
— Por que você é tão competitiva?
Eu não tinha uma resposta para aquela pergunta, só disse que era divertido, e, afinal de contas, quem não gostava de ganhar?
Crescendo com Steven e passando todos os verões com Conrad e Jeremiah, vencer sempre tinha sido algo importante, e mais ainda porque eu era menina e ninguém esperava isso de mim. A vitória é ainda mais doce quando ninguém aposta em você.
Observei Cam chegar da janela do meu quarto. O carro dele era velho, azul-escuro. Parecia já ter passado por poucas e boas, assim como o moletom que eu planejava roubar para sempre. Era exatamente o tipo de carro que eu esperava que ele tivesse.
Ele tocou a campainha, e desci a escada correndo para abrir a porta, cumprimentando-o com um simples “Oi”. Eu estava vestindo seu moletom.
— Você está usando meu moletom — comentou, sorrindo para mim.
Cam era mais alto do que eu me lembrava.
— Sabe, pensei em roubar pra mim — comentei, fechando a porta. — Só que não quero nada de mão beijada. Vou competir por ele.
— Mas, se a gente competir, você não pode ficar brava se eu vencer — retrucou Cam, levantando uma das sobrancelhas. — É
meu moletom preferido. Se eu ganhar, fico com ele.
— Tudo bem.
Saímos pela porta dos fundos e descemos os degraus da varanda até a piscina. Sem pensar muito, tirei o short, o moletom e a camiseta. Eu competia com Jeremiah o tempo todo, nem passou pela minha cabeça ficar envergonhada de usar biquíni na frente do Cam. Naquela casa, passávamos o verão inteiro usando roupas de banho.
Mas ele desviou o olhar e tirou a camiseta.
— Pronta? — perguntou, se posicionando na borda da piscina.
Fui para o lado dele.
— Uma volta completa? — perguntei, mergulhando o dedo do pé na água.
— Claro. Você precisa de uma vantagem?
Bufei.
— Você precisa de uma vantagem?
— Touché — retrucou ele, rindo.
Eu nunca tinha ouvido um garoto falar “touché”. Nunca tinha ouvido ninguém falar aquilo naquele sentido. Talvez minha mãe.
Mas ele falando parecia legal. Era diferente.
Ganhei a primeira volta; foi fácil demais.
— Você me deixou ganhar — acusei.
— Não deixei, não — retrucou ele, mas eu sabia que não era verdade.
Em todos aqueles verões e todas aquelas competições, nenhum garoto — nem Conrad, nem Jeremiah e, principalmente, nem Steven — jamais tinha me deixado ganhar.
— É melhor dar tudo de si desta vez — avisei. — Ou vou ficar com seu moletom.
— Melhor de três — pediu Cam, tirando o cabelo dos olhos.
Ele ganhou a volta seguinte, e eu, a última. Eu não estava cem por cento convencida de que ele não tivesse me deixado ganhar.
Cam era tão alto, tinha braços tão longos, e sua envergadura era quase o dobro da minha... Mas eu queria ficar com o moletom, então não contestei. Vitória é vitória, afinal.
* * *
Fui com ele até o carro quando chegou a hora de nos despedirmos. Ele não entrou de imediato. Ficamos parados um bom tempo, em silêncio — a primeira vez que isso acontecia no dia, por incrível que pareça. Cam pigarreou e disse:
— Um conhecido meu, Kinsey, vai dar uma festa amanhã à noite.
Você quer ir?
— Quero — respondi, na mesma hora.
Cometi o erro de mencionar isso no café da manhã do dia seguinte. Minha mãe e Susannah tinham ido fazer compras.
Estávamos só eu e os meninos, como na maior parte do tempo naquele verão.
— Vou a uma festa hoje à noite — anunciei, em parte porque queria me gabar.
— Você? — duvidou Conrad, erguendo as sobrancelhas.
— Que festa? — quis saber Jeremiah. — A do Kinsey?
Larguei o suco.
— Como você sabe?
Jeremiah riu e apontou um dos dedos para mim em reprovação.
— Eu conheço todo mundo aqui em Cousins, Belly. Sou salva-vidas, lembra? É que nem ser prefeito. Greg Kinsey trabalha naquela loja de surfe do shopping.
Conrad franziu a testa.
— Não é o Greg Kinsey que vende metanfetamina na mala do carro?
— O quê? Não. Cam nunca seria amigo de alguém assim — retruquei, na defensiva.
— Quem é Cam? — perguntou Jeremiah.
— Aquele cara que eu conheci na festa do Clay. Ele me chamou pra essa festa, e eu aceitei.
— Olha, me desculpa, mas você não vai na festa de um viciado em metanfetamina — disse Conrad.
Era a segunda vez que ele tentava me dizer o que fazer, e eu já estava de saco cheio daquilo. Quem ele pensava que era? Eu tinha que ir à festa e não me importava se teria metanfetamina ou não.
— Eu estou dizendo, Cam nunca seria amigo de alguém assim!
Ele odeia essas coisas.
Conrad e Jeremiah bufaram ao mesmo tempo. Em momentos como aquele, eles se uniam contra mim.
— Ele odeia essas coisas? — retrucou Jeremiah, tentando não sorrir. — Que maravilha.
— Muito legal — concordou Conrad.
Eu revirei os olhos. Primeiro não queriam que eu saísse com um drogado, agora ser careta também não era legal.
— Ele não usa drogas, está bem? É por isso que duvido muito que ele seja amigo de um traficante.
Jeremiah coçou a cabeça e disse:
— Olha, talvez seja o Greg Rosenberg que vende metanfetamina.
Greg Kinsey é bem bacana. Ele tem uma mesa de sinuca. Acho que
também vou a essa festa.
— Hã? O quê?
Eu estava começando a entrar em pânico.
— Acho que também vou — anunciou Conrad. — Eu gosto de sinuca.
Eu me levantei.
— Vocês não vão, não. Nem foram convidados.
Conrad se recostou na cadeira e colocou os braços atrás da cabeça.
— Relaxa, Belly. Não vamos atrapalhar seu encontro.
— A menos que ele encoste em você. — Jeremiah fechou o punho, ameaçador. — Nesse caso, ele já era.
— Vocês não podem ir… Meninos, eu estou implorando. Por favor, por favor, não vão.
Jeremiah me ignorou.
— Con, com que roupa você vai?
— Ainda não decidi. Talvez com o short cáqui. Com que roupa você vai?
— Ai, como eu odeio vocês — resmunguei.
As coisas estavam estranhas entre mim e Conrad, e também entre mim e Jeremiah... Um pensamento improvável passou pela minha cabeça: e se eles não quisessem que eu ficasse com Cam porque eles sentiam algo por mim? Seria possível? Eu não acreditava. Eu era uma irmã para eles. Só que não era irmã deles.
Quando terminei de me arrumar, já era quase hora de sair, e parei no quarto da Susannah para me despedir. Ela e minha mãe estavam enfiadas lá dentro, remexendo em fotos antigas. Susannah estava pronta para dormir, mesmo que ainda fosse bem cedo. Ela estava recostada nos travesseiros, usando um dos robes de seda que o Sr.
Fisher tinha comprado em uma viagem de negócios para Hong Kong. Era cor de creme, com estampa de papoulas — quando eu fosse casada, queria usar um exatamente igual.
— Vem cá, ajuda a gente a arrumar este álbum — pediu minha mãe, vasculhando uma velha caixa de chapéus listrada.
— Laurel, não está vendo que ela está toda arrumada? Belly tem coisas mais interessantes para fazer do que ficar olhando fotos velhas e empoeiradas. — Susannah piscou para mim. — Belly, você
está parecendo uma margarida. Adoro quando você está bronzeada e usa branco. Combina com você, fica uma moldura perfeita.
— Obrigada, Susannah.
Eu não estava toda arrumada, mas também não estava de short, como na noite da fogueira. Usava um vestido branco e sandálias de dedo, e tinha feito tranças no cabelo ainda úmido. Eu sabia que em mais ou menos meia hora provavelmente teria que soltá-las, porque estavam muito apertadas, mas não ligava. Tinham ficado muito bonitinhas.
— Você está linda mesmo. Aonde vai? — perguntou minha mãe.
— A uma festa.
Ela franziu a testa.
— Conrad e Jeremiah também vão?
— Eles não são meus seguranças — retruquei, revirando os olhos.
— Não foi isso que eu falei — respondeu minha mãe.
Susannah gesticulou para que eu saísse, dizendo:
— Vai logo, Belly. Divirta-se!
— Vou me divertir — assegurei, batendo a porta antes que minha mãe pudesse fazer mais perguntas.
Eu tinha esperanças de que Conrad e Jeremiah estivessem só de brincadeira, que eles não quisessem ir à festa de verdade. Mas, quando estava saindo, quase chegando ao carro do Cam, Jeremiah me chamou.
— Ei, Belly!
Ele e Conrad estavam vendo televisão. Espiei pelo vão da porta.
— O que foi? — perguntei, ríspida. — Estou com pressa.
Jeremiah se virou para mim, dando uma piscadela preguiçosa.
— Até daqui a pouco.
— Que perfume é esse? — perguntou Conrad. — Está me dando dor de cabeça. E por que você está usando tanta maquiagem?
Eu não estava usando tanta maquiagem assim. Tinha passado um pouco de blush, rímel nos cílios e um pouquinho de gloss, só.
Ele é que não estava acostumado a me ver daquele jeito. E havia colocado perfume no pescoço e nos pulsos, mais nada. Conrad não havia se importado com o perfume da loira de boné; pelo contrário, tinha adorado, até. Mesmo assim, dei uma última conferida no
espelho do hall de entrada e esfreguei as bochechas e os pulsos para tirar um pouco do blush e do perfume.
Fechei a porta e fui apressada para a entrada da garagem, onde o carro de Cam estava parado. Eu ficara vigiando da janela do quarto para ver o exato momento em que ele chegaria, assim ele não precisaria entrar e conhecer minha mãe.
Pulei para dentro do carro.
— Oi.
— Oi. Eu queria ter tocado a campainha.
— Acredite em mim, é melhor assim — respondi, de repente morrendo de vergonha.
Como era possível passar horas e horas falando com alguém ao telefone, nadar com essa pessoa e, mesmo assim, sentir que não a conhecia?
— Então. Esse cara, Kinsey, é meio estranho, mas é gente boa —
comentou Cam, dando ré. Ele dirigia bem, era cuidadoso.
— Ele vende metanfetamina? — perguntei, casualmente.
— Hum, não que eu saiba — respondeu Cam, sorrindo.
Ele tinha uma covinha na bochecha direita. Eu não havia reparado nela na outra noite. Era fofo.
Relaxei. Agora que a história da metanfetamina tinha sido eliminada, só faltava uma coisa. Rodei a pulseira que usava várias vezes, então perguntei:
— Sabe aqueles caras com quem eu estava lá na fogueira?
Conrad e Jeremiah?
— Seus irmãos de mentirinha?
— Isso. Pode ser que eles deem uma passada nessa festa.
Eles… hã... conhecem o Kinsey.
— Ah, é? Legal. Quem sabe assim eles não veem que não sou um mau elemento.
— Eles não acham que você é um mau elemento. Quer dizer, eles meio que acham, sim, mas pensam isso de qualquer cara com quem eu fale, não é nada pessoal.
— Eles devem gostar muito de você, para serem tão protetores.
Será?
— Nem tanto. Bem, o Jeremiah gosta, mas com o Conrad é mais uma questão de respeito. Ou costumava ser. Ele deve ter sido um
samurai em outra vida, sei lá. — Olhei de relance para Cam. —
Desculpa, estou sendo chata?
— Não, pode continuar falando. Onde aprendeu sobre os samurais?
Cruzei as pernas, me sentando sobre elas, e respondi:
— Com a Srta. Baskerville, a professora de estudos globais no nono ano. Tivemos um módulo inteiro sobre o Japão e o Bushido.
Fiquei obcecada com o conceito de seppuku.
— Meu pai é metade japonês — comentou ele. — Minha avó mora no Japão, a gente vai todo ano lá, para visitá-la.
— Uau!
Eu nunca tinha ido ao Japão nem a nenhum lugar na Ásia. Minha mãe, nas viagens dela, também nunca viajara para lá, embora eu soubesse que ela tinha vontade.
— Você fala japonês?
— Pouco — disse ele, coçando a testa. — Mas entendo bem. Assobiei. Meu assobio era algo de que eu me orgulhava. Meu irmão, Steven, tinha me ensinado.
— Então você fala inglês, francês e japonês? Isso é incrível. Você é tipo um gênio, né? — debochei.
— Também falo latim — lembrou ele, rindo.
— Ninguém fala latim. É uma língua morta — retruquei, só para ser do contra.
— Não é uma língua morta. Está presente em todos os idiomas ocidentais.
Ele parecia meu professor de latim do sétimo ano, o Sr. Coney.
* * *
Quando chegamos à casa do tal Kinsey, eu meio que desejei ter continuado dentro do carro. Adorava a sensação de falar e ter alguém realmente escutando o que eu tinha a dizer. Era uma sensação incrível, como se eu fosse poderosa, mas com um poder estranho, diferente.
Estacionamos no fim de uma rua sem saída que já estava lotada de carros. Alguns estavam metade na grama. Cam andava rápido;
as pernas dele eram tão compridas que eu tinha que correr para acompanhá-lo.
— De onde você conhece esse cara? — perguntei.
— Ele é meu fornecedor. — Cam riu quando viu minha cara. —
Você é muito assustada, Flavia. Os pais do Kinsey têm um barco.
Foi lá que a gente se conheceu. Ele é legal.
Entramos sem bater. A música estava tão alta que dava para ouvir da calçada. Era caraoquê, e uma garota cantava “Like a Virgin” a plenos pulmões, rolando no chão com o microfone preso na calça jeans. Havia umas dez pessoas na sala, bebendo cerveja e folheando a lista de músicas.
— Coloca “Livin’ on a Prayer” depois dessa — pediu um cara para a garota no chão.
Uns garotos que eu não conhecia ficaram me olhando, e me perguntei se tinha exagerado na maquiagem. Ter caras me secando era uma novidade, que dirá ser convidada para sair. Era ao mesmo tempo muito legal e aterrorizante. Notei que a garota da fogueira estava lá, a que gostava do Cam. Ela nos encarou e logo desviou o olhar, mas nos espiava de tempos em tempos. Eu me sentia mal por ela, sabia o que era passar por aquilo.
Também reconheci a vizinha da casa de praia, Jill, que passava os fins de semana na cidade. Ela acenou para mim, e me dei conta de que nunca a vira em outro lugar que não fosse a vizinhança, o nosso jardim. Ela estava sentada junto do cara da locadora de vídeos que trabalhava às terças e usava a plaquinha com o nome de cabeça para baixo. Eu nunca o vira da cintura para baixo, pois ele estava sempre atrás do balcão. Katie, a garçonete do restaurante de frutos do mar, também estava lá, sem o uniforme listrado vermelho e branco. Eram pessoas que eu via todo verão, a minha vida inteira. Então era ali que eles estavam esse tempo todo.
Saindo, indo a festas, enquanto eu ficava trancada em casa como uma Rapunzel, assistindo a filmes antigos com Susannah e minha mãe.
Cam parecia conhecer todo mundo. Ele cumprimentava os garotos com uma batidinha no ombro e as garotas com um abraço.
E me apresentava também. Dizia que eu era Flavia, amiga dele.
— Essa é a Flavia, minha amiga. Flavia, esse é o Kinsey. O dono da casa.
— Oi, Kinsey — cumprimentei.
O menino estava sem camisa, jogado no sofá. Ele era magricela e não parecia um traficante de metanfetamina. Parecia mais um entregador de jornal.
Ele tomou um gole da cerveja e informou:
— Na verdade, meu nome não é Kinsey. É Greg. Mas todo mundo me chama de Kinsey.
— Na verdade, meu nome não é Flavia. É Belly. Só o Cam me chama de Flavia.
Kinsey balançou a cabeça, como se aquilo fizesse sentido.
— Tem um isopor com bebidas na cozinha, se quiserem beber alguma coisa.
— Quer tomar algo? — perguntou Cam.
Eu não sabia o que responder. Por um lado, eu meio que queria.
Nunca tinha bebido. Seria uma experiência nova, mais uma prova de que aquele verão era especial, importante. Mas, por outro, será que Cam ficaria desapontado se eu bebesse? Será que ele me julgaria? Eu não sabia direito quais eram as regras daquele estilo de vida dele.
Decidi não beber. A última coisa de que eu precisava era ficar cheirando a álcool como Clay naquela outra noite.
— Vou querer só uma Coca — pedi a ele.
Cam fez que sim com a cabeça, e percebi que ele tinha aprovado minha escolha. Fomos para a cozinha. No caminho, pesquei trechos de conversas: “Ouvi dizer que a Kelly foi presa por dirigir bêbada e que foi por isso que ela não veio pra cá este verão.” “Acho que ela foi expulsa da escola.” Fiquei me perguntando quem era Kelly e se eu a reconheceria se a visse. Era tudo culpa de Steven, Jeremiah e Conrad, eles nunca me levavam a lugar algum. Era por isso que eu não conhecia ninguém.
Todas as cadeiras da cozinha estavam ocupadas com bolsas e casacos, então Cam afastou umas garrafas de cerveja vazias e abriu espaço na bancada. Dei impulso e me sentei.
— Você conhece todo mundo aqui? — perguntei.
— Na verdade, não. Só queria que você me achasse legal.
— Eu já acho — falei, ficando vermelha.
Ele riu, como se fosse uma piada, o que diminuiu minha vergonha. Foi até o isopor de bebidas e pegou uma Coca, que abriu e me entregou.
— Só porque eu não bebo não significa que você não possa beber. Quer dizer, vou julgar você por isso, mas pode beber, se quiser. Essa parte do julgar foi uma piada.
— Eu sei. Mas estou bem tomando esta Coca.
Era verdade.
Tomei um longo gole e soltei um arroto.
— Desculpa — falei, soltando uma das tranças. Estavam muito apertadas, me dando dor de cabeça.
— Você arrota que nem um bebê — comentou ele. — É meio nojento, mas também é bonitinho.
Soltei a outra trança e dei um tapinha no ombro do Cam. Na minha cabeça, já ouvia Conrad falando: Own, você deu um tapinha nele. Muito sedutora, Belly, muito sedutora. Aquele chato parecia me importunar mesmo quando não estava presente. Só que ele tinha chegado, e agora estava de fato ali.
Do nada, ouvi o grito característico do Jeremiah vindo do caraoquê. Mordisquei o lábio.
— Eles vieram — resmunguei.
— Quer ir lá cumprimentá-los?
— Não — respondi, mas desci da bancada.
Voltamos para a sala. Jeremiah estava no meio do palco, cantando em falsete uma música que eu nunca tinha ouvido. As meninas riam e olhavam para ele, espantadas. Conrad estava no sofá com uma cerveja na mão. A garota do boné do Red Sox tinha se empoleirado no braço do sofá, bem perto dele, o cabelo cobrindo o rosto do Conrad como se fosse uma cortina protegendo os dois.
Eu me perguntei se ele e Jeremiah tinham ido buscá-la em casa, se ele tinha deixado que ela se sentasse no banco do carona.
— Ele canta bem — comentou Cam. Então seguiu meu olhar e perguntou: — Ele e a Nicole estão juntos?
— Não sei e não estou nem aí.
Jeremiah me viu, fazendo uma mesura para a plateia ao fim da apresentação.
— Belly! A próxima música é pra você! — Ele apontou para Cam, perguntando: — Qual é seu nome?
Cam pigarreou.
— Cam. Cameron.
Jeremiah falou ao microfone.
— Seu nome é Cam Cameron? Cara, que merda.
Todo mundo riu, até Conrad, que um segundo antes parecia muito entediado.
— É só Cam — murmurou Cam, olhando para mim.
Fiquei com vergonha. E não por ele, mas do que ele estaria pensando de mim. Odiei aqueles dois por isso. Era como se Cam fosse achar que, como Conrad e Jeremiah não gostavam dele, eu também não gostava. E pensar que minutos antes eu me sentira tão próxima a ele...
— Certo, Cam Cameron. Esta música vai pra você e sua Belly.
Vamos lá, senhoritas.
Uma garota apertou play no controle remoto.
— Summer lovin’, had me a blast...
Quis matar Jeremiah, mas só consegui balançar a cabeça e fuzilá-lo com o olhar. Não dava para arrancar o microfone da mão dele na frente de todo mundo. Jeremiah apenas sorriu para mim e começou a dançar, cantarolando “amor de verão é como uma explosão”. Uma das garotas sentadas no chão se levantou em um pulo e começou a dançar com ele. Ela cantou a parte da Olivia Newton-John, mas era bem desafinada. Conrad assistiu a tudo com um ar divertido, condescendente. “Quem é essa garota?”, ouvi alguém perguntar, olhando para mim.
Cam, ao meu lado, estava rindo. Eu não conseguia acreditar.
Estava morrendo de vergonha, e ele ria sem parar.
— Sorria, Flavia — disse ele, me cutucando.
Sempre que alguém me manda sorrir, não tem jeito: eu sorrio.
Cam e eu saímos no meio da música do Jeremiah, e eu senti que Conrad nos observava.
Ficamos sentados na escada, batendo papo. Cam se sentou um degrau acima. Era legal conversar com ele, nada intimidador. Eu amava o riso fácil dele, tão diferente do Conrad. Era um sacrifício arrancar um sorriso do Conrad. Tudo com ele era um sacrifício.
Cam estava inclinado na minha direção, e achei que ele talvez tentaria me beijar. Com certeza eu corresponderia. Mas a cada vez que ele se inclinava, só coçava o tornozelo ou ajeitava a meia, depois se afastava, até que se inclinava de novo.
Durante um desses momentos, ouvi vozes alteradas vindo do deque, lá fora. Uma delas com certeza era do Conrad. Eu me levantei em um pulo.
— Tem alguma coisa acontecendo lá fora.
— Vamos ver o que é — sugeriu Cam, indo na frente.
Conrad estava brigando com um cara que tinha uma tatuagem de arame farpado no antebraço. O cara era mais baixo que ele, só que mais forte; era musculoso e parecia ter uns vinte e cinco anos.
Jeremiah observava a cena, atônito, mas eu sabia que ele estava alerta, pronto para interferir caso necessário.
— Por que os dois estão brigando? — perguntei a Jeremiah, em um sussurro.
Ele deu de ombros.
— Conrad está bêbado. Não se preocupe. Eles só estão se exibindo.
— Parece que eles vão se matar — retruquei, nervosa.
— Eles vão ficar bem — comentou Cam. — Mas é melhor a gente ir. Está tarde.
Olhei para Cam. Quase tinha me esquecido de que ele estava ali do lado.
— Eu não vou agora — anunciei.
Não que eu pudesse fazer alguma coisa para impedir aquela briga, mas não dava para simplesmente ir embora e deixar Conrad ali.
Conrad se aproximou do cara tatuado, que o empurrou para longe sem a menor dificuldade. Conrad riu. Dava para ver uma briga de verdade prestes a acontecer, como uma tempestade se assomando no céu. Era como quando o mar fica completamente parado antes que as nuvens desabem.
— Você não vai fazer nada? — murmurei.
— Ele é bem grandinho — retrucou Jeremiah, com os olhos colados em Conrad. — Vai ficar bem.
Mas Jeremiah não acreditava no que estava falando, nem eu.
Conrad não parecia nada bem. Daquele jeito, todo doido e fora de controle, ele não se parecia em nada com o Conrad Fisher que eu conhecia. E se ele se machucasse? Eu tinha que ajudar, não me restava outra opção.
Avancei na direção dele, afastando Jeremiah, que tentou me deter. Quando cheguei perto, percebi que não fazia ideia do que dizer. Nunca havia tentado impedir uma briga.
— Hã... Oi — falei, me colocando entre os dois. — Temos que ir.
Conrad me tirou do caminho.
— Cai fora, Belly.
— Quem é essa? Sua irmãzinha?
O cara me olhou de cima a baixo.
— Não. Meu nome é Be... Belly — respondi, mas, como estava nervosa, gaguejei ao dizer meu nome.
— Belly?
O cara começou a rir, e eu segurei o braço do Conrad.
— Vamos. Temos que ir — falei.
Só percebi como Conrad estava bêbado quando ele se desequilibrou um pouco ao tentar se desvencilhar de mim.
— Não vou embora. Isto aqui está começando a ficar animado.
Olha só, estou prestes a dar uma surra nesse cara.
Eu nunca tinha visto Conrad daquele jeito. Ele estava me assustando. Onde a loira tinha ido parar? Desejei que ela estivesse ali para lidar com Conrad. Eu não sabia o que fazer.
O cara riu, mas notei que ele queria evitar aquela briga tanto quanto eu. Ele parecia cansado, como se só quisesse ficar em casa de cueca vendo televisão, mas Conrad estava a todo vapor. Parecia uma lata de refrigerante que tinha sido sacudida, pronta para explodir em alguém. Não importava em quem. Não importava que aquele cara fosse mais forte que ele. Não importaria nem se o cara tivesse seis metros de altura e fosse feito de concreto. Conrad queria brigar e não ficaria satisfeito enquanto isso não acontecesse.
E aquele cara ia acabar com ele.
O cara continuava olhando de Conrad para mim. Então, balançando a cabeça, pediu:
— Belly, é melhor você levar seu irmãozinho pra casa.
— Não fala com ela — advertiu Conrad.
Coloquei minha mão no peito dele. Eu nunca tinha feito aquilo.
Era firme e quente, e dava para sentir as batidas de seu coração rápidas e descontroladas.
— Por favor, vamos pra casa — pedi, mas era como se Conrad simplesmente não percebesse que eu estava ali, como se ele nem sentisse minha mão em seu peito.
— Escuta sua namoradinha, garoto — alertou o cara.
— Não sou namorada dele — retruquei, olhando para Cam, que estava com o rosto completamente inexpressivo.
Eu me virei para Jeremiah, desesperada. Ele se aproximou e falou alguma coisa baixinho no ouvido do irmão. Conrad o afastou, mas Jeremiah continuou falando com ele em voz baixa. Quando os dois me olharam, percebi que o assunto era eu. Conrad hesitou, mas por fim fez que sim com a cabeça. Então fingiu que socava o cara, meio que de brincadeira.
— Boa noite, otário — retrucou o cara, revirando os olhos e afastando Conrad com uma das mãos.
Soltei um suspiro de alívio.
Fomos andando até o carro, e Cam me segurou pelo braço.
— Você quer mesmo ir pra casa com eles? — perguntou.
Conrad se virou, indagando:
— Quem é esse cara?
— Está tudo bem — falei para Cam. — Não se preocupe. Eu ligo pra você.
Ele parecia preocupado.
— E quem vai dirigir?
— Eu — anunciou Jeremiah. Conrad não discutiu. — Não se preocupe, Sr. Careta, eu não bebo quando dirijo.
Eu estava morrendo de vergonha, e percebi que Cam ficou chateado, mas só assentiu. Eu o abracei depressa, e ele se retesou.
Eu só queria consertar as coisas.
— Obrigada pela noite — agradeci.
Fiquei olhando enquanto ele se afastava, sentindo uma pontada de ressentimento. Conrad e seu temperamento idiota tinham arruinado meu primeiro encontro de verdade. Não era justo.
— Entrem no carro. Deixei meu chapéu lá dentro. Já volto —
disse Jeremiah.
— Vai rápido — pedi.
Conrad e eu ficamos esperando no carro, em silêncio. Tudo parecia sinistramente quieto. Mesmo que só fosse pouco mais de uma da manhã, parecia que eram quatro da madrugada e o mundo inteiro estava dormindo. Ele se deitou no banco de trás, toda a energia de antes se esvaindo de seu corpo. Eu me sentei no banco do carona, apoiando os pés descalços no painel e jogando o corpo para trás. Nenhum de nós falou. Aquilo tudo tinha sido assustador.
Eu não reconhecia Conrad, não compreendia o jeito como ele agira.
De repente me senti muito cansada.
Meu cabelo estava jogado para trás. Do nada, senti que Conrad tocava as mechas, correndo os dedos por entre os fios. Acho que parei de respirar. Estávamos imersos no mais perfeito silêncio, e Conrad Fisher estava brincando com meu cabelo.
— Seu cabelo parece o de uma menininha, sempre todo bagunçado — comentou, baixinho.
Estremeci ao ouvir a voz dele. Parecia o som que o mar faz quando toca a areia.
Não falei nada. Nem olhei para trás. Não queria assustá-lo. Eu me sentia como da vez que tive uma febre alta e tudo parecia borrado, confuso e surreal. Tudo que eu sabia era que não queria que ele parasse.
Mas ele parou. Olhei pelo retrovisor. Ele fechou os olhos e suspirou. Eu fiz o mesmo.
— Belly — começou ele.
De repente, todos os meus sentidos estavam alertas. O sono tinha passado. Cada parte do meu corpo estava desperta. Eu prendia a respiração, esperando para ouvir o que ele ia dizer. Não respondi. Não queria quebrar o encanto.
Então Jeremiah voltou, abriu a porta e a bateu com força. Aquele momento, frágil e tênue, ficou pela metade. Tinha acabado. Não dava para saber o que ele ia dizer. Os momentos, quando passam, não podem ser recuperados — eles simplesmente passam.
Jeremiah me olhou de um jeito engraçado. Parecia que sabia que havia interrompido alguma coisa. Dei de ombros, e ele saiu com o
carro.
Liguei o rádio e aumentei o volume.
Uma tensão estranha tomou o ambiente durante todo o trajeto para casa. Estavam todos quietos: Conrad desmaiado no banco de trás, Jeremiah e eu na frente, sem nem olharmos um para o outro.