O verão que mudou minha vida
Capítulo 32
— Fico com a de fora — anunciei.
Fiquei me perguntando se era daquele jeito que as paixões antigas morriam — um suspiro de agonia, até que, de repente, nada.
32
CAM VEIO NOS visitar de novo e ficou até tarde. Por volta de meia-noite, chamei-o para andar na praia. Ele topou, e passeamos de mãos dadas. O mar parecia prateado, infinito, como se tivesse um milhão de anos. E tinha mesmo, afinal.
— Verdade ou consequência? — perguntou ele.
Eu não estava a fim de grandes verdades. Do nada, uma ideia surgiu na minha cabeça: eu queria nadar nua. Com Cam. Era o que os adolescentes faziam na praia, assim como no drive-in. Se nadássemos sem roupa, seria uma prova de que eu estava mesmo ficando mais velha.
Então sugeri:
— Cam, vamos brincar de “O que você prefere”? Você prefere nadar nu agora ou...
Não consegui pensar em nenhuma alternativa.
— A primeira opção, a primeira opção — respondeu ele, rindo. —
Ou as duas, qualquer que seja a segunda opção.
De repente me senti tonta, como se estivesse bêbada. Corri para a água, jogando o moletom na areia. Eu estava de biquíni por baixo
da roupa.
— Aqui vão as regras! — gritei, desabotoando o short. — Você não pode ficar pelado até entrarmos de vez na água! E não pode espiar! — Ei! Espere aí! — protestou ele, correndo atrás de mim, espalhando areia por todo lado. — Vamos mesmo fazer isso?
— Vamos, ué. Você não quer?
— Quero, mas e se sua mãe nos vir?
Cam olhou para a casa.
— Ela não vai nos ver. Não dá pra ver nada lá da casa, está superescuro.
Ele olhou para mim, então olhou de volta para a casa.
— Melhor fazer isso outra hora… — começou, meio na dúvida.
Eu o encarei. Não era ele que deveria tentar me convencer a fazer aquilo?
— Está falando sério?
Na verdade, o que eu queria perguntar era: “Você não está a fim de mim?”
— Estou. Ainda é cedo. E se as pessoas estiverem acordadas? —
Ele pegou meu moletom e me entregou. — Mais tarde a gente volta aqui.
Eu sabia que não voltaríamos.
Uma parte de mim estava irritada e a outra estava aliviada. Era como preparar um sanduíche de banana com manteiga de amendoim e, depois de duas mordidas, perceber que não era o que você queria.
Arranquei o moletom da mão dele.
— Não precisa me fazer nenhum favor, Cam.
Eu me afastei o mais rápido que pude, erguendo um rastro de areia. Achei que ele iria atrás de mim, mas não foi o que aconteceu.
Não olhei para trás para ver o que ele estava fazendo. Devia estar sentado na areia escrevendo um daqueles poemas estúpidos à luz da lua.
Entrei em casa e fui direto para a cozinha. Conrad estava sentado à mesa, comendo melancia.
— Cadê o Cam Cameron? — perguntou.
Tive que parar para ver se ele estava sendo gentil ou de deboche.
A expressão parecia normal e calma, então deduzi que era um pouco de cada. Se ele ia fingir que nossa briga não tinha acontecido, então seríamos dois.
— Quem sabe? — perguntei, abrindo a geladeira, examinando o que tinha lá dentro e pegando um iogurte. — Quem se importa?
— Os namoradinhos brigaram?
Fiquei morrendo de vontade de dar um tapa naquela cara presunçosa dele.
— Que tal cuidar da sua vida?
Eu me sentei ao lado dele, com uma colher e um pote do iogurte desnatado da Susannah, que parecia meio aguado. Fechei a tampinha metálica e o deixei de lado.
Conrad empurrou um pedaço de melancia para mim.
— Você não pode ser tão exigente com as pessoas, Belly. —
Então se levantou, dizendo: — E devia botar o short.
Peguei um pedaço de melancia e fiz careta para as costas dele.
Por que Conrad sempre fazia com que eu me sentisse uma menininha de treze anos? Na minha cabeça, só ouvia minha mãe dizendo: “Ninguém pode fazer você se sentir mal, Belly. Não sem a sua permissão. Foi Eleanor Roosevelt quem disse isso. Quase coloquei o nome dela em você.” E um monte de blá-blá-blá. Mas era verdade.
Não ia mais permitir que Conrad me deixasse mal. Só queria que meu cabelo estivesse molhado, ou que minhas roupas estivessem sujas de areia, aí ele pensaria que Cam e eu tínhamos feito alguma coisa, mesmo que não tivesse sido o caso.
Comi quase metade da melancia. Estava esperando Cam voltar, mas, como ele não voltou, fiquei ainda mais irritada. Pensei em trancar a porta e deixá-lo preso do lado de fora. Cam devia ter encontrado algum morador de rua e se tornado melhor amigo dele, e contaria a história de vida do homem no dia seguinte. Não que houvesse algum morador de rua naquela nossa parte da praia. Não que eu já tivesse visto um morador de rua naquela cidade, para falar a verdade. Mas, se houvesse algum, Cam estaria conversando com ele.
Só que Cam não voltou. Ele foi embora. Ouvi quando ligou o carro e fiquei assistindo do corredor enquanto ele dava a ré para sair da garagem. Queria correr atrás dele e gritar de raiva. Ele devia ter voltado. E se eu tivesse estragado tudo e ele não gostasse mais de mim? E se eu nunca mais o visse?
Fiquei deitada na cama, pensando que os romances de verão realmente começam e acabam rápido demais.
Na manhã seguinte, quando saí para o deque para comer minha torrada, encontrei uma garrafa de água mineral na escada que levava à praia. Era da marca que Cam sempre bebia. Dentro da garrafa havia um pedaço de papel, um bilhete. Uma mensagem em uma garrafa. Estava meio borrada, mas dava para ler o que estava escrito: “Vale um mergulho sem roupa.”