O verão que mudou minha vida
Capítulo 34
— Não — respondi.
— Não acredito.
Jeremiah estreitou os olhos, me examinando com atenção, como fazia quando tentava adivinhar minhas cartas no Uno.
Tirei os óculos escuros e olhei bem nos olhos dele.
— É verdade. Não penso mais nele.
— Vamos ver — retrucou Jeremiah, se levantando. — Meu horário de descanso acabou. Tudo bem aí? Se esperar meu turno acabar, eu levo você pra casa. Dá pra levar a bicicleta no carro.
Fiz que sim com a cabeça e fiquei olhando enquanto ele voltava para a cadeira de salva-vidas. Jeremiah era um bom amigo. Sempre tinha sido legal comigo, sempre cuidara de mim.
34
MINHA MÃE E Susannah se sentaram nas espreguiçadeiras, e eu me deitei em uma antiga toalha de praia com estampa de ursinhos da Ralph Lauren. Era minha toalha favorita, porque era bem comprida e tinha sido amaciada com as lavagens.
— O que você vai fazer hoje à noite, meu chuchuzinho? —
perguntou minha mãe.
Adorava quando ela me chamava de chuchuzinho. Lembrava quando eu tinha seis anos e dormia na cama dela.
— Eu e Cam vamos sair pra jogar minigolfe — anunciei, toda orgulhosa.
Sempre íamos jogar quando éramos crianças. O Sr. Fisher nos levava, sempre estimulando a competitividade entre os garotos. “O primeiro que conseguir acertar um buraco ganha vinte dólares.”
“Mais vinte dólares para o vencedor.” Steven adorava aquele tipo de coisa.
Acho que no fundo ele queria que o Sr. Fisher fosse nosso pai. E
ele bem que poderia ter sido. Susannah contou que minha mãe e
ele namoraram, mas minha mãe abriu mão dele pela Susannah, porque percebeu que os dois eram perfeitos juntos.
O Sr. Fisher me deixava participar dos torneios de minigolfe, mas nunca esperou que eu ganhasse. E eu nunca ganhei mesmo.
Eu odiava minigolfe. Odiava aqueles tacos pequenos e a grama falsa. Era tudo irritantemente perfeito. Mais ou menos como o Sr.
Fisher.
Conrad queria desesperadamente ser como ele, e eu torcia para que ele nunca conseguisse. Digo, que nunca conseguisse ser igual ao pai.
Da última vez que fui ao minigolfe, eu tinha treze anos. Foi quando veio minha primeira menstruação. Eu estava de short jeans branco, e Steven ficou assustado. Ele achou que eu tinha me cortado — por um segundo, eu também achei. Depois de ficar menstruada na quarta tacada, nunca mais voltei. Nem quando os meninos me chamavam. Por isso, voltar lá com Cam era como me apropriar do minigolfe de novo, como voltar a ter treze anos. O
passeio tinha sido ideia minha.
— Você pode voltar cedo? Eu queria que a gente passasse um tempinho juntas, ver um filme, talvez — pediu minha mãe.
— Cedo que horas? Vocês vão dormir às nove!
Minha mãe tirou os óculos e me encarou. O nariz dela estava com aquelas duas marquinhas no lugar onde a borrachinha dos óculos ficava.
— Queria que você ficasse um pouco mais em casa.
— Eu estou em casa agora — lembrei.
Ela fingiu que não tinha ouvido.
— Você está passando tempo demais com esse…
— Você disse que tinha gostado dele!
Olhei para Susannah em busca de apoio, e ela retribuiu meu olhar com simpatia.
Minha mãe suspirou, e Susannah interferiu, dizendo:
— Nós gostamos do Cam. Só estamos sentindo sua falta, Belly.
Aceitamos totalmente o fato de você ter sua própria vida. — Ela ajeitou o grande chapéu de palha na cabeça e deu uma piscadinha para mim. — Só queríamos que você nos incluísse nela de vez em quando.
Fiz um esforço para sorrir.
— Ok — falei, voltando a me deitar na toalha. — Vou voltar cedo.
Vamos ver um filme.
— Combinado — disse minha mãe.
Fechei os olhos e coloquei os fones de ouvido. Talvez ela tivesse razão. Eu estava passando tempo demais com Cam. Talvez ela sentisse minha falta. Acontece que ela não podia simplesmente presumir que eu passaria todas as noites em casa, como em todos os outros verões. Eu tinha quase dezesseis anos, não era mais criança. Minha mãe precisava aceitar que eu não seria o chuchuzinho dela para sempre.
Elas acharam que eu estava dormindo e começaram a falar. Mas eu não estava. Mesmo com a música, dava para ouvir a conversa.
— Conrad só tem feito merda — comentou minha mãe, em voz baixa. — Ele deixou uma porção de garrafas de cerveja no deque esta manhã pra eu limpar. Esse menino está fora de controle.
Susannah suspirou.
— Acho que ele sabe de alguma coisa. Já faz meses que vem se comportando assim. Ele é tão sensível, sei que vai sofrer muito quando descobrir.
— Não acha que está na hora de contar?
Sempre que minha mãe perguntava se alguém “não achava”
alguma coisa, o que ela realmente queria dizer era “eu acho, e você também deveria achar”.
— Eu conto no fim do verão. Ainda está muito cedo.
— Beck… — começou minha mãe. — Acho que já passou da hora.
— Eu vou saber quando a hora chegar — encerrou Susannah. —
Não me pressiona, Lau.
Eu sabia que não havia nada que minha mãe pudesse dizer que a fizesse mudar de ideia. Susannah era gentil, mas podia ser decidida e teimosa como uma mula. Por baixo de toda aquela delicadeza, ela era feita de aço.
Queria dizer que tanto Conrad quanto Jeremiah já sabiam, mas não pude. Não seria correto. Não cabia a mim contar.