O verão que mudou minha vida
Capítulo 5
Abri um sorriso, constrangida, feliz porque os garotos estavam lá no segundo andar, longe demais para ouvir aquilo.
— Ah, eu continuo a mesma…
— Você sempre foi linda, minha querida, mas agora… Ah, olhe só! — Ela balançou a cabeça, parecendo atordoada. — Está tão, tão bonita. Vai ter um verão incrível. Incrível. Um verão inesquecível.
Susannah sempre falava com muita convicção, então acabava soando mais como um decreto, como se tudo fosse se tornar verdade só porque ela estava dizendo.
A verdade é que Susannah estava certa. Foi um verão realmente inesquecível. Foi o verão que mudou minha vida. Porque, pela primeira vez, eu me senti linda. A cada ano, eu sempre achava que o verão seria diferente, que minha vida ia mudar. Naquele, ela finalmente mudou. Porque eu mudei.
5
O JANTAR DA primeira noite era sempre o mesmo: uma panela enorme de caldo apimentado de frutos do mar que Susannah preparava enquanto esperava a gente chegar. Era cheio de camarão, patas de caranguejo e lula — ela sabia como eu adorava lula. Desde pequena, eu guardava os pedaços de lula para comer por último. Susannah deixava a panela no centro da mesa, junto com uma cesta cheia do pão francês da padaria do bairro. Cada um pegava uma cumbuca, a enchia várias vezes durante o jantar e devolvia a concha de volta para aquele panelão. Susannah e minha mãe sempre tomavam vinho tinto, e eu e os meninos bebíamos Fanta Uva; mas, naquela noite, havia taças de vinho para todos.
— Acho que todos aqui já têm idade suficiente para tomar um vinhozinho, não acha, Lau? — perguntou Susannah, sentando-se à mesa.
— Não sei, não… — começou minha mãe, mas então mudou de ideia. — Ah, tudo bem. Estou sendo rígida demais, não é, Beck?
Susannah riu, tirando a rolha da garrafa.
— Você? Jamais! — respondeu ela, servindo um pouco de vinho para todos. — Hoje é uma noite especial. A primeira do verão.
Conrad tomou o vinho em dois goles; ele parecia acostumado a beber. Acho que muita coisa pode mudar em um ano.
— Mas esta não é a primeira noite do verão, mãe — retrucou ele.
— Ah, é, sim. O verão só começa quando nossos amigos chegam em casa — explicou Susannah, se debruçando na mesa, estendendo os braços e segurando minha mão e a de Conrad.
Ele se afastou, displicente. Susannah pareceu não notar, mas eu notei. Eu sempre prestava atenção no que Conrad fazia.
Jeremiah também deve ter notado, porque logo mudou o rumo da conversa.
— Belly, olha minha nova cicatriz! — exclamou, levantando a camisa. — Marquei três gols nesse dia.
Jeremiah jogava futebol americano e tinha muito orgulho de suas
“cicatrizes de guerra”.
Eu me aproximei para ver melhor. Era uma marca bem longa, já começando a sumir, que atravessava a parte de baixo da barriga de um lado a outro. Ficou bem evidente que Jeremiah andava malhando. Estava com a barriga reta e durinha, e não era assim no verão anterior. Ele também parecia mais alto que o irmão.
— Uau! — exclamei.
Conrad bufou.
— Jere só quer exibir o tanquinho — reclamou, arrancando um pedaço de pão e mergulhando na cumbuca. — Por que não mostra pra todos, em vez de só pra Belly?
— É, mostra pra gente! — pediu Steven, abrindo um sorrisinho debochado.
Jeremiah devolveu o sorrisinho, então se virou para Conrad:
— Você só está com inveja porque largou o futebol.
Então Conrad tinha largado o futebol? Aquilo era novidade para mim.
— Você largou o futebol, cara? — perguntou meu irmão.
Acho que era novidade para ele também. Conrad jogava muito bem, e Susannah sempre nos mandava as reportagens que saíam sobre o filho. Ele e Jeremiah estavam no mesmo time fazia dois anos, mas Conrad era a estrela.
Ele deu de ombros, indiferente. Ainda estava com o cabelo molhado da piscina — e eu também.
— Ficou chato — explicou.
— Ele está falando de si mesmo, ele é que ficou chato — retrucou Jeremiah, que se levantou e tirou a camisa. — Maneiro, não é?
Susannah deu uma boa risada, e minha mãe riu junto.
— Senta aí, Jeremiah — mandou Susannah, brandindo um pão francês na direção do filho, como se fosse uma espada.
— O que acha, Belly? — perguntou ele.
Pareceu dar uma piscadela, mas seu rosto continuava imóvel.
— Bem legal — concordei, tentando não rir.
— Agora é a vez da Belly se exibir — comentou Conrad, zombando.
— Belly não precisa se exibir. É só olhar pra ela que dá pra ver direitinho como está linda — interveio Susannah, tomando um gole do vinho e sorrindo para mim.
— Linda? Ah, sei! — retrucou Steven. — Ela é um lindo pé no saco, isso, sim.
— Steven… — repreendeu minha mãe.
— O quê? O que foi que eu disse?
— Steven é porco demais pra entender o conceito de beleza —
comentei, em um tom muito doce. Depois, empurrei o pão na direção dele. — Oinc, oinc, Steven. Ah, vamos lá. Coma mais um pedacinho de pão.
— Não seja por isso — disse meu irmão, arrancando um pedaço enorme.
— Belly, conta sobre as amigas gostosas que você vai apresentar pra mim — pediu Jeremiah.
— Já não tentamos isso uma vez? — perguntei. — Não me diga que você já se esqueceu da Taylor Jewel.
Todos à mesa riram, até Conrad.
Jeremiah ficou vermelho, mas riu também, balançando a cabeça.
— Você é muito má, Belly. Tem várias garotas bonitas no clube, não precisa se preocupar comigo. Conrad é que é o problema. Ele é que está ficando pra trás.