O verão que mudou minha vida

Jenny Han · Capítulo 43 de 48

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O verão que mudou minha vida

Capítulo 43

E eu não conseguia admitir.

* * *

Naquela noite, fiquei chorando na cama. Meu corpo inteiro doía. Abri a janela do quarto e me deitei no escuro, ouvindo o barulho do mar.

Desejei que uma onda me levasse para longe e nunca mais me trouxesse de volta. Eu me perguntava se era assim que Conrad estava se sentindo, que Jeremiah estava se sentindo. Se era assim que minha mãe estava se sentindo.

Parecia que o mundo estava acabando e que nada mais seria como antes. Estava. E não seria.

43

QUANDO ÉRAMOS PEQUENOS, a casa vivia cheia — de pessoas como meu pai, o Sr. Fisher e outros amigos —, então Jeremiah e eu dormíamos na mesma cama, e Conrad e Steven compartilhavam a outra. Minha mãe nos cobria, prendendo o edredom embaixo de nós. Os meninos fingiam que estavam velhos demais para aquilo, mas eu sabia que gostavam tanto quanto eu da sensação de estar enrolado como em um casulo. Eu ficava deitada na cama, ouvindo a música que vinha do andar de baixo, e Jeremiah e eu contávamos histórias de terror em voz baixa até pegarmos no sono. Ele sempre dormia primeiro. Eu tentava beliscá-lo para mantê-lo acordado, mas nunca funcionava. Da última vez que isso aconteceu, acho que foi quando me senti segura pela última vez. Como se tudo estivesse no lugar certo.

* * *

Na noite da briga dos meninos, eu bati à porta do quarto de Jeremiah.

Ele estava deitado na cama, olhando para o teto, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça. O rosto estava molhado, e os olhos, vermelhos e cheios de lágrimas. Havia uma mancha cinza-amarelada em seu olho direito, que já começava a inchar. Quando me viu, ele esfregou os olhos com as costas das mãos.

— Oi — falei. — Posso entrar?

Ele se sentou.

— Sim, tudo bem.

Andei até ele e me sentei na beirada da cama, apoiando as costas na parede.

— Eu sinto muito — comecei.

Tinha ensaiado o que dizer, e como dizer, para que ele soubesse quanto eu lamentava tudo aquilo. Mas comecei a chorar e estraguei tudo.

Jeremiah estendeu a mão e apertou meu ombro, sem jeito. Ele não conseguia nem olhar para mim, o que de certa forma facilitava as coisas.

— Não é justo — falei, e comecei a chorar.

— Pensei nisso o verão inteiro. Em como este provavelmente é o último verão. Este é o lugar preferido dela, sabe? Eu queria que fosse perfeito, mas o Conrad estragou tudo. Ele foi embora. Minha mãe está tão preocupada, e esta é a última coisa de que ela precisa: ficar preocupada com o Conrad. Ele é a pessoa mais egoísta do mundo, depois do meu pai.

Ele também está sofrendo, pensei, mas não disse, porque aquilo não ia ajudar em nada. Então apenas falei:

— Eu queria ter ficado sabendo. Se eu estivesse prestando atenção, seria diferente.

Jeremiah balançou a cabeça.

— Ela não queria que você soubesse. Não queria que nenhum de nós soubesse. Como era o que ela queria, fingimos não saber. Por ela. Mas eu queria poder ter contado a você. Talvez tivesse sido mais fácil.

Ele enxugou os olhos com o colarinho da camiseta, e percebi que estava se esforçando para se manter firme, para ser forte.

Estendi a mão para abraçá-lo e ele estremeceu. Algo pareceu se quebrar dentro dele, e Jeremiah começou a chorar muito, mas em silêncio. Nós dois choramos juntos, nossos ombros tremendo com o impacto de tudo aquilo. Ficamos chorando assim por um longo tempo. Quando paramos, ele se afastou de mim e assoou o nariz.

— Chega pra lá — mandei.

Ele chegou mais para perto da parede e eu me deitei ao lado dele, esticando as pernas.

— Vou dormir aqui — anunciei.

Não era uma pergunta.

Jeremiah assentiu, e dormimos daquele jeito mesmo, sem nem trocar de roupa, em cima da colcha da cama. Mesmo depois de tanto tempo, parecia que nada mudara. Dormimos com o rosto colado um no outro, como quando éramos pequenos.

Acordei cedo na manhã seguinte, quase caindo da cama.

Jeremiah estava esparramado, roncando. Eu o cobri com meu lado do edredom, embrulhando-o como se ele estivesse em um saco de dormir, e saí do quarto.

Fui para o meu quarto, e estava com a mão na maçaneta quando ouvi a voz do Conrad.

— Bom dia.

Logo entendi que ele tinha me visto sair do quarto do Jeremiah.

Eu me virei devagar e lá estava ele. Usando as mesmas roupas da véspera, assim como eu. Estava todo amarrotado e balançou um pouco o corpo. Parecia prestes a vomitar.

— Você está bêbado?

Ele deu de ombros, como se não ligasse, mas seus ombros estavam tensos e rígidos.

— Você não deveria ser legal comigo? Assim como foi legal com o Jere ontem à noite? — perguntou, em um tom malicioso.

Abri a boca para me defender, para dizer que nada acontecera, que tínhamos só chorado juntos até dormir, mas preferi não falar nada. Conrad não merecia explicação.

— Você é a pessoa mais egoísta que eu conheço — falei, devagar, pronunciando bem as palavras. Deixei que cada sílaba ecoasse no ar. Eu nunca quis tanto magoar alguém. — Nem acredito que um dia cheguei a pensar que amava você.

Ele empalideceu. Abriu a boca, então fechou. Depois abriu e fechou de novo. Nunca tinha visto Conrad sem saber o que dizer.

Fui novamente para o meu quarto. Era a primeira vez que eu tinha a última palavra com Conrad. Enfim o superara. Eu me sentia livre, mas uma liberdade que havia sido conquistada a um preço muito alto. Que direito eu tinha de magoá-lo daquela maneira, quando ele já estava tão machucado? Aliás, que direito eu tinha de fazer aquilo? Ele estava sofrendo tanto quanto eu.

Quando voltei para a cama, entrei debaixo das cobertas e chorei ainda mais, mesmo pensando que não tinha mais lágrimas. Estava tudo errado.

Como eu pude passar o verão inteiro pensando em garotos, nadar e pegar sol, enquanto Susannah estava doente? Como? Era impossível pensar na vida sem Susannah. Era inconcebível. Eu não conseguia nem imaginar. Eu não conseguia nem pensar em como era para Conrad e Jeremiah. Era a mãe deles.

Naquela manhã, não consegui nem sair da cama. Dormi até as onze, depois continuei deitada. Tive medo de descer e dar de cara com Susannah. Ela logo perceberia que eu já sabia de tudo.

Por volta do meio-dia, minha mãe entrou no quarto sem bater.

— Bom dia, flor do dia — cumprimentou, examinando minha bagunça.

Ela pegou um short e uma camiseta e começou a dobrá-los.

— Eu ainda não estou preparada pra sair da cama — avisei, me virando.

Eu estava com raiva dela, como se ela tivesse me enganado.

Minha mãe devia ter me contado. Devia ter me alertado. Eu havia passado a vida toda pensando que minha mãe nunca mentia. Mas ela mentia. Todas as vezes que ela e Susannah diziam estar fazendo compras, ou visitando museus, ou passeando… nada disso era verdade. Elas estavam em consultas médicas e hospitais. Eu agora entendia. Queria ter entendido antes.

Minha mãe se sentou na beirada da minha cama e coçou minhas costas. Eu gostava de sentir suas unhas passando na minha pele.

— Você precisa sair da cama, Belly — disse, muito calma. —

Você está viva, e Susannah também. Você precisa ser forte por ela. Ela precisa de você.

Minha mãe tinha razão. Se Susannah precisava de mim, então havia algo que eu podia fazer.

— Posso fazer isso — falei, me virando para ela. — Só não entendo como o Sr. Fisher pôde deixá-la, logo quando ela mais precisa dele.

Minha mãe olhou para longe, pela janela, então se virou de novo para mim.

— Beck quis desse jeito. E Adam é assim. — Ela apertou minhas bochechas. — Não cabe a nós decidir isso.

* * *

Susannah estava na cozinha fazendo muffins de mirtilo. Estava inclinada sobre a bancada, batendo a massa em uma grande tigela de metal. Vestia uma de suas camisolas de algodão, e me dei conta de que ela tinha usado aquelas camisolas o verão inteiro porque eram largas. Escondiam como seus braços estavam finos e como as saboneteiras estavam saltadas.

Susannah ainda não tinha me visto, e me senti tentada a fugir antes que ela se virasse. Mas não fugi. Não consegui.

— Bom dia, Susannah — falei.

Minha voz pareceu diferente, alta e falsa.

Ela levantou a cabeça, me encarando.

— Já passou do meio-dia. Acho que não vale mais dar bom-dia.

— Boa tarde, então.

Eu me encostei na porta.

— Você também está com raiva de mim? — perguntou ela, em um murmúrio, e seus olhos pareciam apreensivos.

— Nunca ficaria com raiva de você — respondi, me aproximando por trás dela e a abraçando na altura da barriga.

Aninhei a cabeça no espaço entre seu pescoço e o ombro. Ela cheirava a flores.

— Você vai cuidar dele, não vai? — perguntou ela, ainda naquela voz baixinha.

— De quem?

Senti que ela estava sorrindo.

— Você sabe.

— Sei — sussurrei, ainda a abraçando apertado.

— Que bom. — Susannah soltou um suspiro. — Ele precisa de você.

Não perguntei quem era “ele”. Não precisava.

— Susannah?

— Hum?

— Quero que você me prometa uma coisa.

— Qualquer coisa.

— Prometa que nunca vai me deixar.

— Eu prometo — disse ela, sem hesitar.

Dei um suspiro e a soltei.

— Quer ajuda com os muffins?

— Quero, por favor.

Eu a ajudei a fazer a cobertura crocante com açúcar mascavo, manteiga e aveia. Tiramos os muffins do forno cedo demais, porque não aguentamos esperar, e comemos enquanto ainda estavam soltando fumaça, meio crus no meio. Eu comi três. Sentada ali com Susannah, vendo-a passar manteiga em seu bolinho, senti como se ela fosse viver para sempre.

Por algum motivo começamos a falar sobre bailes de formatura.

Susannah adorava falar de coisas de menina. Ela dizia que eu era a única pessoa com quem podia conversar sobre aquilo. Minha mãe não se interessava pelo assunto, nem Conrad e Jeremiah. Só eu, sua filha postiça.

— Não se esqueça de me mandar fotos do seu primeiro baile —

pediu.

Eu ainda não tinha ido a nenhum baile ou festa do colégio.

Ninguém havia me convidado, e eu não tinha muita vontade de ir. A única pessoa com quem eu queria realmente ir não estudava na minha escola.

— Vou mandar. Vou usar aquele vestido que você me deu no verão passado — disse a ela.

— Que vestido?

— O daquele dia no shopping, o lilás. Você e minha mãe brigaram por causa dele, lembra? Depois você o colocou na minha mala.

Ela franziu o cenho, confusa.

— Eu não comprei vestido nenhum. Laurel daria um chilique. — O rosto dela se iluminou, e então sorriu. — Sua mãe deve ter voltado na loja e comprado pra você.

— Minha mãe?

Minha mãe nunca faria uma coisa dessas.

— Sim, sua mãe. É a cara dela.

— Mas ela nunca disse nada… — Minha voz falhou.

Eu nem tinha considerado a possibilidade de minha mãe ter comprado o vestido.

— Ela não diria. Ela não é assim. — Susannah se inclinou por cima da mesa e pegou minha mão. — Você é a garota mais sortuda do mundo por tê-la como mãe. Você sabe disso.

* * *

O céu estava cinzento, e o ar, frio. Ia chover.

Tinha tanta neblina lá fora que levei um minuto para localizá-lo.

Finalmente consegui avistá-lo, a cerca de um quilômetro. Ele sempre vinha pela praia. Estava lá sentado, os joelhos junto ao peito. Ele não olhou para mim quando me sentei ao seu lado.

Continuou olhando para o mar.

Seus olhos pareciam dois abismos; não havia nada neles. O

garoto que eu pensava conhecer tão bem não existia mais. Ele parecia tão perdido, sentado ali. Senti aquela velha força que me atraía para ele, aquele desejo de compartilhar a vida com ele, de modo que, não importava em que lugar do mundo ele estivesse, eu estaria junto. Eu o encontraria e o levaria para casa. E cuidaria dele, como Susannah queria.

Fui a primeira a falar.

— Desculpa. Eu sinto muito, de verdade. Se eu soubesse...

— Por favor, para de falar — pediu ele.

— Desculpa — sussurrei, começando a me levantar.

Eu sempre falava a coisa errada.

— Fica — disse Conrad, e seus ombros desabaram, assim como o rosto.

Ele escondeu o rosto com as mãos, e pareceu ter cinco anos de novo. Nós dois tínhamos cinco anos de novo.

— Eu estou tão chateado com ela… — comentou ele, cada palavra saindo como uma lufada de ar.

Ele abaixou a cabeça, os ombros encurvados. Finalmente estava chorando.

Eu o observei em silêncio. Sentia como se estivesse invadindo um momento particular, algo que ele nunca me deixaria ver se não estivesse tão triste. O antigo Conrad gostava de estar no controle.

Senti aquele velho empuxo, a correnteza me levando de novo.

Continuava presa àquela corrente — a do primeiro amor. O primeiro amor continuava me trazendo de volta a isso, a ele. Eu ainda perdia o fôlego só de ficar perto dele. Tinha passado a noite anterior pensando que o superara, pensando que eu estava livre, que o tinha esquecido. Só que não importava o que ele dissesse ou fizesse: eu nunca o esqueceria.

Eu me perguntei se era possível acabar com a dor de alguém com um beijo. Porque era isso que eu queria fazer: tirar dele toda dor e sofrimento, confortá-lo, trazer de volta o menino que eu conhecia. Estiquei a mão e toquei a nuca dele. Conrad se inclinou para a frente, em um movimento quase imperceptível, mas não tirei a minha mão. Eu a deixei ali, acariciando a parte de trás do cabelo dele, então o puxei pela nuca, fazendo ele se virar para mim, e o beijei. O beijo começou hesitante, mas então ele correspondeu, e estávamos nos beijando. Os lábios dele eram quentes e desesperados. Conrad precisava de mim. Minha mente se esvaziou, e eu só conseguia pensar: Estou beijando o Conrad Fisher, e ele está retribuindo. Susannah estava morrendo, e eu estava beijando o Conrad.

Foi ele quem parou.

— Desculpa — disse, rouco.

Toquei meus lábios com as costas da mão.

— Pelo quê?

Eu não consegui evitar prender a respiração.

— Não pode ser assim. — Ele parou de falar, então recomeçou.

— Eu penso em você. Você sabe. Só que eu não posso… Você pode… Pode ficar aqui comigo?

Fiz que sim com a cabeça. Estava com medo de abrir a boca.

Peguei a mão dele e a apertei, e essa pareceu a coisa mais certa que eu fazia em muito tempo. Ficamos sentados na areia, de mãos dadas, como se fosse algo que sempre fazíamos. Começou a chover bem fraquinho. Os primeiros pingos caíram na areia espalhando grãozinhos para longe.

Então a chuva apertou. Eu queria me levantar e voltar para dentro de casa, mas não consegui dizer isso a Conrad. Então fiquei sentada ali com ele, de mãos dadas, sem falar nada. Todo o resto parecia muito distante, e só nós dois existíamos.