O verão que mudou minha vida

Jenny Han · Capítulo 2 de 48

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O verão que mudou minha vida

Capítulo 2

nas paredes, na cama com dossel e, principalmente, na caixinha de música.

Precisei fazer uma pausa para recuperar o fôlego depois de finalmente rever Conrad, ainda mais depois daquela olhada que ele me deu. Abracei o urso-polar de pelúcia que ficava em cima da cômoda. O nome dele era Junior Mint, mas, para mim, era só Junior.

Eu me sentei com o ursinho na cama de solteiro; meu coração batia tão alto que dava até para ouvir. Tudo estava igual, mas diferente.

Os dois tinham me olhado como se eu fosse uma garota de verdade, não a irmã mais nova de um amigo.

2

Doze anos

FOI AQUI NESTA casa que tive o coração partido pela primeira vez. Eu tinha doze anos.

Era uma das raras noites em que os meninos não estavam todos juntos: Steven e Jeremiah tinham saído para uma pescaria noturna com uns garotos do fliperama, mas Conrad recusara o convite. Eu nem tinha sido convidada, claro. Então nós dois ficamos.

Quer dizer, não ficamos. Só estávamos na mesma casa.

Eu estava lendo um livro no meu quarto, com os pés apoiados na parede, quando Conrad entrou. Ele me olhou e perguntou:

— Belly, o que você vai fazer hoje à noite?

Fechei o livro mais que depressa e respondi:

— Nada.

Tentei manter a voz neutra, sem demonstrar muita empolgação ou ansiedade. Tinha deixado a porta aberta de propósito, na esperança de que ele entrasse.

— Quer passear no calçadão? — convidou Conrad, um tanto indiferente, talvez indiferente até demais.

Ali estava: o momento pelo qual eu vinha esperando. Finalmente tinha idade suficiente para aquilo. Parte de mim já sabia que eu estava pronta. Olhei para Conrad com quase tanta indiferença quanto ele demonstrou ao me fazer o convite.

— Pode ser. Estou com desejo de comer maçã do amor.

— Eu compro uma pra você. Mas tem que ser rápido, só vista uma roupa e vamos. Nossas mães vão ao cinema e podem deixar a gente lá no caminho.

— Ok — respondi, me sentando na cama.

Assim que Conrad saiu do quarto, fechei a porta e corri para o espelho. Soltei a trança e escovei o cabelo — que batia quase na cintura. Tirei o maiô e vesti um short branco e minha blusa cinza preferida, a que meu pai dizia que combinava com meus olhos.

Passei um pouco de gloss de morango e guardei o tubinho no bolso, para mais tarde. Caso eu precisasse retocar.

No carro, Susannah não parava de sorrir para mim pelo retrovisor.

Olhei para ela com uma cara de “Fique quieta, por favor”, mas querendo retribuir o sorriso. Conrad não estava prestando atenção.

Passou o percurso inteiro olhando pela janela.

— Divirtam-se, crianças — disse Susannah, dando uma piscadinha quando fechei a porta.

Conrad comprou a maçã do amor para mim, mas só quis beber um refrigerante. Em condições normais, ele comeria pelo menos duas maçãs do amor, ou talvez uma porção de churros. Mas parecia nervoso, o que me deixou menos nervosa.

Quando caminhamos pelo calçadão balancei o braço bem perto dele — vai qu ê... Mas Conrad nem encostou em mim. Era uma daquelas noites de verão perfeitas, com brisa fresca e nenhum sinal de chuva. Choveria no dia seguinte, mas naquela noite só tinha um ventinho gostoso vindo do mar.

— Vamos parar aqui pra eu comer minha maçã — pedi, e nos sentamos em um banco virado para o mar.

Mordi a maçã com cuidado, com medo de que o caramelo grudasse nos dentes. Como iria beijá-lo toda suja de caramelo?

Conrad tomou a Coca fazendo bastante barulho com o canudo e olhou o relógio.

— Quando você terminar, vamos na barraca das argolas.

Ele queria ganhar um bicho de pelúcia para me dar! Eu até já sabia qual ia escolher: o urso-polar com óculos de arame e cachecol. Eu tinha passado o verão inteiro de olho naquele urso. Já conseguia até me imaginar me exibindo para Taylor. Ah, esse ursinho? Conrad ganhou pra mim.

Devorei o resto da maçã do amor em duas mordidas.

— Pronto! — anunciei, limpando a boca com a mão. — Vamos lá.

Conrad foi direto para a barraca, e tive que andar bem depressa para acompanhar seu passo. Como sempre, ele estava meio calado, então eu comecei a falar mais que o normal, para compensar.

— Acho que quando a gente voltar minha mãe vai finalmente assinar alguma TV a cabo. Já faz séculos que Steven e meu pai estão tentando convencê-la. Ela diz que é contra televisão, mas sempre assiste aos filmes do A&E quando estamos aqui. É tão hipócrita…

Minha voz foi morrendo quando notei que Conrad nem me ouvia.

O olhar dele estava vidrado na garota que trabalhava na barraca das argolas.

A garota parecia ter uns quinze anos, e a primeira coisa em que reparei foi no short dela. Era amarelo-canário e muito, muito curto.

Exatamente igual ao que eu tinha usado dois dias antes e que gerara tantos comentários debochados dos meninos. Eu havia ficado tão feliz quando comprei aquele short com Susannah, e os meninos só riram da minha cara. Na menina da barraca das argolas, ficava bem melhor.

As pernas dela eram finas e cheias de sardas, assim como os braços. Tudo nela era fino, até os lábios. A garota era ruiva, com o cabelo longo e ondulado, mas o tom dos fios era tão claro que parecia quase cor de pêssego. Acho que era o cabelo mais bonito que eu já tinha visto. Estava repartido para o lado, e era tão comprido que ela não parava de jogá-lo para trás, porque os fios caíam no rosto sempre que entregava as argolas para alguém.

Conrad tinha ido ao calçadão por causa dela. E havia me levado porque não queria ir sozinho, mas também não queria que Steven e Jeremiah soubessem e enchessem seu saco. Era por isso. Era essa a razão. Dava para ver pela forma como ele a olhava, quase prendendo a respiração.

— Você conhece essa garota? — perguntei.

Conrad me olhou espantado, como se tivesse esquecido que eu estava ali.

— Hã? Não, não conheço.

Mordisquei o lábio.

— Bem, quer conhecer?

— O quê?

Ele parecia confuso, e fiquei bem irritada.

— Quer conhecer aquela menina? — perguntei, impaciente.

— Pode ser.

Eu o puxei pela manga até a barraca.

A garota sorriu para nós, e eu retribuí com um sorriso forçado.

Pura falsidade.

— Quantas argolas?

A garota usava aparelho, mas nela ficava bonito, como se fossem joias, não um instrumento ortodôntico.

— Vamos querer três — respondi. — Gostei do seu short.

— Obrigada!

Conrad pigarreou.

— É bem bonito.

— Pensei que fosse achar curto demais como achou o short exatamente igual a esse que eu usei anteontem. — Virei para a garota. — Conrad é muito protetor, sabe? Você tem irmãos mais velhos?