O verão que mudou minha vida
Capítulo 36
Corri para a porta da frente e não precisei me virar para saber que Cam estava esperando que eu entrasse em casa para sair com o carro.
Minha mãe não disse nada no dia seguinte, mas não precisou. Ela sabia muito bem como fazer eu me sentir culpada sem precisar dizer uma palavra.
36
MEU ANIVERSÁRIO SEMPRE marcou o início do fim do verão; era a última felicidade do período. E nesse verão eu estava fazendo dezesseis anos. Chegar a essa idade supostamente deveria ser algo especial, um grande acontecimento. Taylor tinha alugado um salão de festas, chamado um primo para ser DJ e convidado a escola inteira para a festa dela. Ela passara anos planejando tudo, nos mínimos detalhes. Já os meus aniversários na praia eram sempre iguais: um bolo, presentes bobos dos garotos, e eu espremida no sofá, entre Susannah e minha mãe, enquanto folheávamos velhos álbuns de fotografia. Todos os meus aniversários tinham sido naquela casa. Tem fotos da minha mãe, grávida, sentada no portão com um copo de chá gelado e um chapéu de abas largas, comigo ainda na barriga. Tem fotos de nós quatro — eu, Conrad, Steven e Jeremiah — correndo na praia, eu peladinha, usando chapeuzinho de aniversário, correndo atrás deles. Minha mãe só me fez usar maiô depois dos quatro anos. Ela sempre me deixava livre.
Eu não esperava que esse aniversário fosse diferente, o que era reconfortante e até um pouco deprimente. A única diferença era que Steven não estaria conosco. Seria meu primeiro aniversário sem meu irmão tentando me empurrar para apagar as velas na minha frente.
Eu já sabia o que ia ganhar de presente dos meus pais: o carro velho do Steven. Eles tinham até ajeitado o carro, pintado e tudo mais. Quando as aulas começassem, eu tiraria minha carteira de motorista, e em pouco tempo não precisaria mais pedir carona a ninguém.
Sempre me perguntava se alguém na minha cidade se lembrava do meu aniversário. Taylor sempre lembrava e me ligava todo ano exatamente às nove e dois da manhã, cantando parabéns. Era muito legal, mas o problema de fazer aniversário no verão era que eu nunca conseguia dar uma festa e convidar todos os amigos da escola. Ninguém colocava balões no meu armário do colégio nem nada do tipo. Eu nunca tinha me importado muito, mas naquele ano me importei um pouco.
Minha mãe disse que eu poderia chamar o Cam, mas não o convidei. Nem tinha contado para ele que era meu aniversário, não queria que ele achasse que precisava fazer alguma coisa. Mas também era mais que isso. Eu achava que, se aquele aniversário seria como todos os outros, eu também tinha que ser a mesma dos outros anos. Seríamos só nós: minha família de verão.
Quando acordei naquela manhã, a casa cheirava a manteiga e açúcar. Susannah tinha feito um bolo de três camadas. Era cor-derosa, com borda branca. Ela escreveu FELIZ ANIVERSÁRIO, BELLS em glacê branco. Tinha velas que acendiam tipo estrelinhas em cima, e elas chiaram e brilharam como vaga-lumes loucos. Ela e minha mãe começaram a cantar parabéns, e Susannah gesticulou para que Conrad e Jeremiah cantassem também. Os dois obedeceram, mas cantaram desafinados de propósito.
— Faça um pedido, Belly — pediu minha mãe.
Eu ainda estava de pijama. Não conseguia parar de sorrir.
Tinha pedido a mesma coisa nos meus últimos quatro aniversários, mas não naquele ano. Naquele ano eu ia fazer um pedido diferente. Fiquei olhando as chamas das velas diminuírem, então fechei os olhos e soprei.
— Abra meu presente primeiro — ordenou Susannah, colocando uma caixinha embrulhada em papel rosa nas minhas mãos.
Minha mãe olhou para ela, curiosa:
— O que você comprou, Beck?
Susannah deu um sorrisinho misterioso e apertou minha mão.
— Abra, querida.
Rasguei o papel e abri a caixinha. Era um colar de pérolas, uma fileira de pequeninas pérolas cor de creme, com fecho de ouro reluzente. Parecia antigo, não algo que pudesse ser comprado em uma loja. Era como o relógio suíço do meu avô, lindamente trabalhado, até o fecho. Era a coisa mais bonita que eu já tinha visto na vida.
— Ai, meu Deus… — murmurei, soltando um suspiro e segurando o colar.
Olhei para Susannah, que estava radiante, e então para minha mãe, que com certeza achava aquilo uma extravagância, mas não disse nada. Minha mãe apenas sorriu e perguntou:
— Esse é...?
— É. — Susannah se virou para mim e explicou: — Meu pai me deu esse colar no meu aniversário de dezesseis anos. Quero que você fique com ele.
— Sério? — Olhei de novo para a minha mãe, para ter certeza de que poderia aceitar. Ela assentiu. — Nossa, obrigada, Susannah! É
lindo.
Ela pegou o colar da minha mão e o colocou no meu pescoço. Eu nunca tinha usado um colar de pérolas, e não conseguia parar de tocá-las.
Susannah bateu palmas. Ela não gostava de demorar muito entre um presente e outro.
— E quem é o próximo? Jeremiah? Con?
Conrad se remexeu, desconfortável.
— Eu esqueci de comprar presente. Desculpa, Belly.
Pisquei, atônita. Ele nunca tinha esquecido meu aniversário.
— Tudo bem — falei, mas não conseguia nem olhar para ele.
— Abra o meu! — disse Jeremiah. — Se bem que, depois desse, o meu vai parecer bobagem. Valeu mesmo, mãe.
Ele me entregou uma caixinha e se recostou de volta na cadeira.
Sacudi a caixa.
— Muito bem, o que vai ser? Um cocô de plástico? Um chaveiro em formato de placa de carro?
Ele sorriu.
— Você vai ver. Yolie me ajudou a escolher.
— Quem é Yolie? — perguntou Susannah.
— Uma garota que está apaixonada pelo Jeremiah — respondi, abrindo a caixa.
Dentro da caixa, aninhado em uma cama de algodão, havia um pequeno pingente. Uma minúscula chavinha de prata.