O verão que mudou minha vida

Jenny Han · Capítulo 18 de 48

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O verão que mudou minha vida

Capítulo 18

Entrei no quarto, e Susannah disse:

— Belly! Venha ver um filme com a gente.

Eu me enfiei na cama entre as duas. Deitada ali, na penumbra, me sentia protegida, como se estivéssemos em uma caverna.

— Jeremiah está me ensinando a dirigir — contei.

— Ele é mesmo um querido — comentou Susannah, com um leve sorriso.

— E corajoso — completou minha mãe, apertando meu nariz de brincadeira.

Eu me aconcheguei no edredom. Jeremiah era mesmo o máximo.

Foi muito legal da parte dele me levar para dirigir quando ninguém mais tinha se disposto a fazer isso. Só porque eu havia batido o carro algumas vezes não significava que não conseguiria ser uma boa motorista, como qualquer outra pessoa. Graças a ele, eu agora sabia dirigir. Estava me tornando uma garota confiante, do tipo que sabe o que está fazendo. Quando eu tirasse a carteira, dirigiria até a casa da Susannah e levaria Jeremiah para um passeio, só para agradecer.

18

Quatorze anos

TAYLOR TOMOU BANHO e foi remexer a mala enquanto eu observava da cama. Ela pegou três vestidos: um branco de renda, um florido e outro de linho preto.

— Qual você acha que eu uso hoje à noite? — perguntou, como se quisesse me testar.

Eu estava cansada daqueles testes-surpresa e de ter que provar o tempo todo que eu era boa.

— A gente só vai jantar, Taylor. Não vamos a nenhum lugar especial.

Ela balançou a cabeça, desapontada.

— Nós também vamos passear no calçadão, lembra? E temos que estar bem bonitas. Vai ter um monte de garotos lá. Vou escolher uma roupa pra você, ok?

Em geral, quando Taylor escolhia minhas roupas, eu me sentia como aquela garota nerd que passa por uma transformação radical

e surpreende todo mundo no baile. No bom sentido. Só que naquele dia eu me sentia uma mãe antiquada que não sabia como se vestir.

Eu nem havia levado vestido. Na verdade, eu mal usava vestidos.

Só tinha dois deles em casa: um que tinha ganhado da minha avó na Páscoa e outro que comprara para a formatura do nono ano, e nenhum dos dois me servia mais, estavam muito curtos ou apertados na cintura. Nunca tinha ligado muito para eles, mas fiquei com inveja dos da Taylor, estendidos na cama.

— Eu não vou me arrumar toda só para andar no calçadão —

protestei.

— Deixa eu ver o que você trouxe — pediu ela, avançando até o meu armário.

— Taylor, eu já disse que não! É isso aqui mesmo que eu vou usar, olha — apontei para meu short rasgado e a camiseta-suvenir da cidade.

Taylor fez careta, mas se afastou do armário e voltou para suas roupas.

— Tudo bem. Como quiser, ranzinza. Agora me diga, qual dos três eu uso?

Soltei um suspiro.

— O preto — decidi, fechando os olhos. — Agora vai se vestir de uma vez.

* * *

O jantar foi vieiras com aspargos. Sempre que minha mãe cozinhava, o jantar era algum fruto do mar temperado no limão e no azeite e algum legume. Sempre. Susannah só cozinhava de vez em quando, então, fora o caldo de frutos do mar que a gente sempre tomava na primeira noite, nunca sabíamos o que esperar. Ela podia passar a tarde toda na cozinha, preparando um prato do qual eu nunca ouvira falar, como frango marroquino com figos; usar seu livro de receitas — era um daqueles antigos, encadernados com espiral, cheio de páginas engorduradas e com margens cobertas de anotações, com o qual minha mãe tanto implicava —; ou fazer omelete de queijo com ketchup e torradas. Nós, as crianças, éramos

responsáveis pelo jantar uma vez por semana, e em geral isso significava hambúrgueres ou pizza congelada. Mas quase sempre comíamos o que quiséssemos, na hora em que quiséssemos. Eu adorava isso. Em casa, jantávamos pontualmente às seis e meia, todas as noites. Na praia, era como se tudo fosse mais tranquilo.

Até a rigidez da minha mãe parecia diminuir.

Taylor se inclinou para a frente e perguntou:

— Laurel, qual foi a coisa mais maluca que você e a Susannah fizeram quando tinham nossa idade?

Taylor sempre falava com as pessoas como se estivesse em uma festa do pijama. Qualquer um, não importava se eram adultos, garotos ou a atendente da lanchonete.

Minha mãe e Susannah se entreolharam e sorriram. Elas sabiam, mas não iam nos contar. Minha mãe limpou a boca com o guardanapo e respondeu:

— Uma noite, invadimos o campo de golfe e plantamos margaridas.

Eu sabia que não era verdade, mas Steven e Jeremiah deram risada. Steven, com aquele jeito irritante de sabe-tudo, comentou:

— Até na adolescência vocês eram super sem graça.

— Eu achei fofo — retrucou Taylor, espirrando um bocado de ketchup no prato.

Ela colocava ketchup em tudo: ovos, pizza, macarrão… tudo.

Conrad, que eu achei que nem estivesse ouvindo, disparou:

— Que mentira. Essa não foi a coisa mais maluca que vocês já fizeram.

Susannah ergueu as mãos, se rendendo.

— As mães também têm seus segredos. Eu não fico perguntando os de vocês, fico?

— Fica — rebateu Jeremiah, apontando para ela com o garfo. —

Você pergunta o tempo todo. Se eu tivesse um diário, você ia querer ler.

— Não ia, não — protestou Susannah.

— Ia, sim — interveio minha mãe.

Susannah olhou feio para ela.

— Eu nunca faria isso! — Então cedeu, virando-se para os filhos:

— Tudo bem, eu leria. Mas só o do Conrad. Ele é cheio de

segredos, e nunca sei o que se passa na cabeça dele. Mas você, não, Jeremiah. Você, meu garotinho, é um livro aberto.

— Não sou, não — protestou Jeremiah, espetando uma vieira. —

Eu tenho meus segredos.

— Claro que tem, Jeremy — comentou Taylor, naquele tom de flerte enjoado.

Jeremiah sorriu para ela, o que me fez querer morrer engasgada com o aspargo.

— Taylor e eu vamos ao calçadão hoje à noite — anunciei. —

Alguém pode dar carona pra gente?

Antes que minha mãe e Susannah pudessem responder, Jeremiah falou:

— Aaah, o calçadão. A gente poderia ir também. — Virando-se para Conrad e Steven, acrescentou: — Né?

Em geral eu ficaria animada por um deles querer ir a algum lugar em que eu também iria, mas não daquela vez. Porque sabia que não era por minha causa.

Olhei para minha amiga, que de repente parecia muito ocupada em cortar as vieiras em pedacinhos minúsculos. Taylor também sabia que aquilo era por ela.

— O calçadão é chato — protestou Steven.

— Não quero ir — disse Conrad.

— E quem convidou vocês? — retruquei.

Steven revirou os olhos.

— Ninguém precisa de convite para ir ao calçadão. É só ir. Este é um país livre.

— Este é um país livre? — interveio minha mãe. — Melhor pensar um pouco nisso que acabou de dizer, Steven. E as liberdades civis?

Será que somos realmente livres...?

— Laurel, por favor — pediu Susannah, balançando a cabeça. —

Nada de política durante o jantar.

— Pois eu não conheço nenhum momento melhor para uma conversa sobre política — retrucou minha mãe, em uma voz muito calma.

Então olhou para mim, e movi os lábios sem emitir som, pedindo Pare, por favor. Ela suspirou.

— Tudo bem, tudo bem. Nada de política. Vou à livraria no centro da cidade. Deixo vocês no caminho.

— Obrigada, mãe. Vamos só eu e a Taylor.

Jeremiah me ignorou e se virou para Steven e Conrad, insistindo:

— Vamos lá, pessoal. Vai ser incrível.

Taylor tinha passado o dia inteiro chamando tudo de incrível.

— Tudo bem, mas eu vou ao fliperama — disse Steven.

— Con?

Jeremiah olhou para o irmão, que balançou a cabeça.

— Vamos, Con — chamou Taylor, cutucando ele com o garfo. —

Vem com a gente.

Conrad balançou a cabeça de novo, e Taylor fez careta.

— Tudo bem. Vamos nos divertir muito sem você.

— Fica tranquila — disse Jeremiah. — Conrad vai se divertir muito lendo a Enciclopédia Britânica.

Conrad não deu bola, mas Taylor riu e colocou o cabelo atrás da orelha. Foi quando percebi que ela estava a fim de Jeremiah.

— Mas lembrem de levar dinheiro pro sorvete — lembrou Susannah.

Dava para ver que ela estava feliz por estarmos saindo todos juntos, exceto Conrad, que naquele verão só queria ficar sozinho.

Nada a deixava mais feliz do que planejar atividades para a gente.

Acho que ela daria uma boa diretora de acampamento de férias.

* * *

No carro, enquanto esperávamos minha mãe e os garotos, sussurrei para Taylor:

— Achei que você tivesse gostado do Conrad.

Ela revirou os olhos.

— Blergh. Ele é um chato. Prefiro o Jeremy.

— O nome dele é Jeremiah — retruquei, em um tom azedo.

— Eu sei. — Ela me encarou, estreitando os olhos. — Por quê? Você gosta dele agora?

— Não!

Ela bufou, impaciente.

— Belly, você precisa escolher um! Não pode ficar com os dois.

— Eu sei disso. E, pra sua informação, não quero nenhum dos dois. Eles nem olham mim desse jeito. Pra eles eu sou uma irmãzinha mais nova.

Taylor puxou a gola da minha camiseta.

— Bem, se você usasse um decote maior...

Afastei a mão dela.

— Não vou usar decote nenhum. E já falei que não gosto de nenhum dos dois. Não mais.

— Então tudo bem se eu investir no Jeremy?

Percebi que ela só estava perguntando aquilo para se absolver de qualquer culpa futura. Não que estivesse se sentindo culpada, claro.

— Se eu dissesse que não, você ia desistir dele?

Ela pensou por um segundo.

— Provavelmente. Mas só se você se importasse de verdade. E

então partiria para o Conrad. Eu estou aqui pra me divertir, Belly.

Soltei um suspiro. Pelo menos ela estava sendo sincera. Quis dizer que achei que ela estivesse ali para se divertir comigo, mas me segurei.

— Pode investir no Jeremiah. Eu não ligo.

Taylor ergueu as sobrancelhas, o movimento que era sua marca registrada.

— Isso! Vai ser ótimo!

— Espera. — Segurei-a pelo pulso. — Promete que vai ser legal com ele.

— Claro que vou ser legal. Eu sempre sou legal. — Ela me deu um tapinha no ombro. — Você se preocupa demais, Belly. Já falei, só quero me divertir.

Foi quando minha mãe e os meninos chegaram. Pela primeira vez, ninguém brigou pelo lugar da frente. Jeremiah o cedeu a Steven bem depressa.

Assim que chegamos ao calçadão, Steven foi direto para o fliperama, onde passou a noite inteira. Jeremiah ficou com a gente; aceitou até ir no carrossel, e eu sabia como ele achava aquilo ridículo. Ele se esticou todo em um trenó e fingiu que tirava um cochilo enquanto Taylor e eu subíamos e descíamos montadas nos cavalos. Escolhi um palomino dourado, e ela montou em um corcel

preto — apesar de Taylor nunca admitir, Beleza Negra sempre foi seu filme favorito. Depois, Taylor fez Jeremiah ganhar um bichinho de pelúcia para ela em uma barraca. Ele era excelente nesses jogos e ganhou um bicho enorme, quase da altura de Taylor — e foi ele quem carregou, claro.

Eu não devia ter ido junto. Devia ter previsto que passaria a noite inteira me sentindo invisível. Passei o tempo todo querendo estar em casa, ouvindo Conrad tocar violão no quarto ao lado ou vendo filmes do Woody Allen com Susannah e minha mãe. E eu nem gostava do Woody Allen. Fiquei imaginando como seria o resto da semana. Tinha me esquecido de como Taylor era, de como ela ficava quando queria alguma coisa: decidida, determinada, obcecada. Minha amiga mal chegara e eu já me sentia deixada de lado.