O verão que mudou minha vida
Capítulo 6
Jeremiah e Conrad tinham combinado de trabalhar juntos no clube. Con tinha sido salva-vidas lá no verão anterior, e, dessa vez,
Jeremiah já tinha idade suficiente para trabalhar também, mas na última hora Conrad mudou de ideia: preferiu ser ajudante de garçom em um restaurante chique de frutos do mar.
A gente sempre ia lá. Crianças até doze anos pagavam só vinte dólares. Por um tempo, foi o meu caso, e minha mãe fazia questão de avisar ao garçom. Era quase uma necessidade dela. E eu sempre queria desaparecer quando acontecia. Queria ser invisível.
Não porque os meninos implicassem comigo — o que eles até faziam. O que eu detestava era a sensação de ser diferente, de não pertencer ao grupo. Eu detestava destoar dos outros. Só queria ser como eles.
6
Dez anos
OS MENINOS SEMPRE foram muito unidos. Conrad era o líder; a palavra dele era lei. Steven era o segundo no comando, e Jeremiah era o bobo da corte. Naquela primeira noite, Conrad decidiu que dormiriam na praia, em sacos de dormir, e fariam uma fogueira. Ele era escoteiro, então sabia tudo sobre essas coisas.
Fiquei só olhando, enquanto os três planejavam o que iam fazer.
Fiquei morrendo de inveja, principalmente quando botaram biscoitos e marshmallows na mochila. Deixem um pouco pra mim, eu queria dizer. Mas não disse. As coisas não eram minhas, afinal de contas.
Nem a casa era minha.
— Steven, não esquece a lanterna — avisou Conrad.
Meu irmão assentiu, sem nem pensar. Eu nunca o tinha visto seguindo ordens com tanta boa vontade. Ele sempre admirara e respeitara Conrad, que era oito meses mais velho. Todo mundo tinha alguém ali, menos eu. Desejei estar em casa, preparando
sundaes de caramelo com meu pai, para depois tomá-los sentada no chão da sala.
— Jeremiah, o baralho — acrescentou Conrad, enrolando um saco de dormir.
Jeremiah fez uma reverência e uma dancinha, e eu dei risada.
— Sim, senhor! — Ele se virou para mim, no sofá, e completou: —
Conrad é mandão que nem nosso pai. Mas você não precisa obedecer!
Depois que Jeremiah falou comigo, consegui reunir coragem para pedir:
— Posso ir junto?
Steven nem piscou antes de responder:
— Não. Só garotos. Certo, Con?
Conrad hesitou.
— Sinto muito, Belly — respondeu ele.
Por um segundo, talvez dois, ele pareceu mesmo sentir muito.
Então voltou a enrolar o saco de dormir. Dei as costas para eles e me virei para a TV.
— Tudo bem. Não estou nem aí.
— Aaah, olha só, Belly vai chorar! — provocou meu irmão, todo animado. Então se virou para Jeremiah e Conrad: — Ela sempre chora quando não consegue o que quer. E nosso pai sempre cai.
— Cala a boca, Steven!
Eu estava mesmo com medo de começar a chorar. A última coisa que queria era parecer um bebê chorão logo na primeira noite. Aí mesmo é que os meninos nunca me levariam com eles.
— Belly vai chora-ar… — cantarolou meu irmão.
Ele e Jeremiah começaram a dançar.
— Deixem ela em paz — intrometeu-se Conrad.
Steven parou de dançar.
— O quê? — perguntou, confuso.
— Vocês dois são tão imaturos… — continuou Conrad, balançando a cabeça.
Eles terminaram de organizar toda a parafernália e se preparavam para sair.
Eu estava prestes a perder minha chance de acampar, de ser parte do grupo.
— Steven, se você não me deixar ir, vou contar tudo pra mamãe
— disparei.
Meu irmão fechou a cara.
— Não vai, não. Ela detesta quando você faz fofoca.
Era verdade: minha mãe detestava quando eu fazia queixa de Steven por aquele tipo de coisa. Ela ia dizer que meu irmão precisava de espaço, que eu poderia ir em uma próxima vez, que seria muito mais divertido ficar em casa com ela e Beck.