O verão que mudou minha vida
Capítulo 27
Apertei a mão dele. Jeremiah estava mesmo magoado. E acho que Conrad também, mesmo que não quisesse demonstrar. E, parando para pensar, tudo fazia sentido: o comportamento do Conrad, tão diferente, tão perdido... Ele estava sofrendo. E ainda tinha Susannah. Ela vinha passando tanto tempo na cama, parecia tão triste. Ela também estava sofrendo.
27
— VOCÊ E O Cam têm passado muito tempo juntos — comentou minha mãe, me olhando por cima do jornal.
— Nem tanto — respondi, mas era verdade.
Na casa de praia, um dia acabava se misturando ao outro e a gente nem notava o tempo passar. Quando percebi, eu já estava saindo com Cam havia duas semanas. Ele era praticamente meu namorado, e nos encontrávamos quase todo dia. Eu nem sabia mais como era minha vida antes de conhecê-lo. Devia ser mesmo muito sem graça.
— Sentimos sua falta aqui em casa — reclamou minha mãe.
Eu teria me sentido lisonjeada se fosse Susannah falando, mas, vindo da minha mãe, só achei o comentário meio irritante, como se ela estivesse me recriminando. E, de qualquer forma, duvido que elas estivessem sentindo tanta falta assim de mim. As duas sempre faziam coisas juntas, sem me chamar.
— Belly, você vai trazer esse seu namorado pra jantar conosco amanhã? — perguntou Susannah, em uma voz doce.
Eu queria dizer que não, mas achava impossível negar qualquer coisa a Susannah. Ainda mais agora, que ela estava passando por um divórcio. Então apenas respondi:
— Hum… Talvez…
— Por favor, querida. Eu gostaria mesmo de conhecer esse rapaz.
— Tudo bem, vou falar com ele. — Acabei cedendo. — Mas não posso garantir nada, talvez ele tenha outros planos.
Susannah assentiu, tranquila.
— Mas convide mesmo assim.
Infelizmente para mim, Cam não tinha outros planos.
Susannah preparou tofu frito para Cam, porque ele era vegetariano. Eu achava isso admirável, mas fiquei sem graça quando Jeremiah fez uma careta para o prato. Ele tinha feito hambúrgueres — Jeremiah aproveitava qualquer desculpa para usar a churrasqueira, igual ao pai. Ele me perguntou se eu queria um, mas recusei, mesmo querendo.
Conrad já tinha jantado e estava no andar de cima, tocando violão. Ele nem se deu ao trabalho de jantar conosco. Só desceu para pegar uma garrafa de água, mas nem cumprimentou Cam.
— Por que você não come carne, Cam? — perguntou Jeremiah, enfiando metade de um hambúrguer na boca.
Cam bebeu um gole de água e respondeu:
— Eu sou moralmente contra comermos animais.
Jeremiah assentiu, sério.
— Mas Belly come carne. Você deixa ela beijar você com essa boca? — Então começou a rir.
Susannah e minha mãe trocaram um sorrisinho cúmplice.
Eu senti o rosto esquentando, e notei que Cam ficou tenso ao meu lado.
— Cala a boca, Jeremiah.
Cam olhou de relance para minha mãe e deu um sorrisinho sem graça.
— Eu não julgo quem escolhe comer carne. É uma escolha pessoal.
— Então você não se importa quando os lábios dela encostam em um animal morto e depois encostam nos seus? — continuou
Jeremiah.
Susannah riu e disse:
— Jere, deixa o garoto em paz.
— É, Jere, deixa ele em paz — repeti, olhando feio. Dei um chute nele por debaixo da mesa, com força, e ele chegou a se encolher.
— Está tudo bem — disse Cam. — Eu não ligo mesmo. Na verdade...
Ele me puxou para perto e me deu um beijinho rápido, na frente de todo mundo. Foi só um selinho, mas fiquei morrendo de vergonha.
— Por favor, nada de beijar a Belly na mesa do jantar — pediu Jeremiah, fingindo sufocar o vômito. — Fico até enjoado.
Minha mãe balançou a cabeça, retrucando:
— Belly autorizou o beijo. — Então ela apontou o garfo para Cam:
— Mas já chega.
Então começou a rir, como se fosse a coisa mais engraçada que já tivesse dito na vida. Susannah tentava não rir e a mandava parar, e eu só queria matar minha mãe e depois me matar.
— Mãe, por favor. Não tem graça — falei. — Suspendam o vinho dessa mulher.
Eu me recusava a olhar para Jeremiah. E para Cam.
A verdade era que nós dois não tínhamos feito muito mais do que nos beijarmos. E ele não parecia ter muita pressa; era cuidadoso comigo, delicado… até um pouco preocupado. Era completamente diferente dos outros garotos. No verão anterior, eu tinha visto Jeremiah com uma garota na praia, perto de casa: os dois estavam na maior pegação. Se não estivessem vestidos, eu diria que estavam transando. Passei o resto do verão jogando isso na cara dele, mas Jeremiah não parecia se importar. Eu queria que Cam se importasse um pouco mais.
— Belly, estou brincando. Você sabe que acho ótimo que você descubra sua sexualidade — comentou minha mãe, tomando um longo gole de vinho.
Jeremiah caiu na gargalhada. Eu me levantei e disse:
— Chega. Cam e eu vamos comer na varanda.
Peguei meu prato e esperei que ele também se levantasse, mas Cam não se levantou.
— Calma, Belly. É só uma brincadeira — disse ele, enchendo a boca com uma enorme garfada de arroz com repolho.
— Boa, Cam. Mostra quem é que manda — apoiou Jeremiah, parecendo mesmo um pouco impressionado com a atitude de Cam.
Voltei a me sentar, mesmo sentindo que fazer aquilo acabava comigo. Eu detestava perder a cabeça na frente de todos, mas sabia que, se saísse sozinha, ninguém iria atrás de mim. Só queria ser a pequena Belly de novo, fazendo beicinho. Quando eu começava a fazer drama, Steven sempre me chamava de Beicinho, apelido que ele achava genial.
— Ninguém manda em mim, Jeremiah. Muito menos Cam Cameron.
Todo mundo zombou de mim, até Cam, e, do nada, tudo pareceu muito normal, como se ele fizesse parte da família. Eu estava começando a relaxar. Ia ficar tudo bem. Ótimo, na verdade. Incrível, como Susannah prometera.
* * *
Depois do jantar, Cam e eu fomos dar uma volta na praia. Para mim não havia — e não há — nada melhor do que andar na praia tarde da noite. É como se a gente pudesse caminhar para sempre, como se a noite inteira e todo o oceano fossem nossos e pudéssemos dizer coisas que em geral não dizemos de dia. No escuro, a gente se sente bem próximo da outra pessoa. E podemos ser completamente honestos.
— Adorei você ter vindo — confessei.
Ele segurou minha mão.
— Eu também. E adorei você ter adorado.
— É claro que adorei.
Soltei a mão dele para desabotoar a calça jeans, e ele comentou, baixinho:
— Não sabia que você tinha adorado tanto assim.
— Bom, eu adorei. — Olhei para ele e lhe dei um beijinho rápido.
— Está vendo? Esta sou eu, adorando.
Ele sorriu e começou a andar de novo.