O verão que mudou minha vida
Capítulo 31
— Como você aprendeu a dançar? — perguntei.
— Minha mãe ensinou a nós dois. — Ele me puxou para perto e posicionou minhas mãos em seus ombros, para que fizéssemos os passos juntos, lado a lado. — Este passo se chama abraço.
O abraço era minha parte favorita. Era o mais perto que eu já tinha chegado do Conrad.
— Vamos fazer esse de novo — pedi, fingindo não ter entendido.
Ele me mostrou mais uma vez como se fazia, colocando os braços em volta dos meus.
— Viu? Você está quase aprendendo.
Ele me girou, e até fiquei tonta. Era pura alegria.
31
PASSEI O DIA seguinte inteiro na praia com Cam. Fizemos um piquenique. Ele preparou sanduíches de pão integral com abacate, brotos e a maionese caseira da Susannah. Estavam gostosos.
Ficamos dentro d’água pelo que pareceram horas. Toda vez que vinha uma onda, um de nós começava a rir e os dois levavam um caldo. Meus olhos estavam ardendo por causa da água salgada, e minha pele estava arranhada de tanto rolar na areia, como se eu tivesse usado o esfoliante da minha mãe no corpo inteiro. Era ótimo.
Voltamos cambaleando para nossas toalhas. Eu adorava ficar dentro d’água até sentir frio e então correr de volta para a areia e deixar o sol me aquecer. Podia fazer isso o dia inteiro: mar, areia, mar, areia.
Tinha levado balas de morango, que comemos tão rápido que meus dentes doeram.
— Adoro essas balinhas — falei, pegando a última.
Cam tirou o doce da minha mão.
— Eu também, e você já comeu três. Eu só comi duas —
protestou, desembrulhando o doce.
Ele riu e balançou a bala na frente da minha boca.
— Você tem três segundos pra largar isso — adverti. — Não estou nem aí se você comeu só duas e eu comi vinte. A casa é minha.
Cam riu e enfiou a bala na boca.
— Não é sua. É da Susannah — retrucou, de boca cheia.
— Você não sabe de nada. A casa é de todos nós — respondi, me deitando de costas na toalha.
De repente, senti muita sede. Era culpa das balas de morango.
Ainda mais depois de comer três em menos de três minutos.
Estreitando os olhos para ele, pedi:
— Você pode ir até a minha casa e me trazer um refresco? Por favorzinho?
— Não conheço ninguém que consuma mais açúcar em um único dia do que você — comentou Cam, balançando a cabeça, decepcionado. — Açúcar branco é um veneno.
— Ah, falou o cara que acabou de comer minha última bala —
retruquei.
— Sou contra desperdícios — disse ele, se levantando e limpando a areia do short. — Vou trazer água, não refresco.
Mostrei a língua para ele e revirei os olhos.
— Só seja rápido — pedi.
Ele foi e não voltou. Já tinha saído havia quarenta minutos quando voltei para casa, carregando nossas toalhas, protetor solar e lixo, bufando e suando que nem um camelo no deserto. Ele estava na sala, jogando videogame com os meninos. Estavam todos de roupa de banho, que era basicamente o que usávamos o verão inteiro.
— Obrigada por se esquecer de voltar com meu refresco — falei, jogando a sacola de praia no chão.
Cam tirou os olhos do jogo e me encarou, culpado.
— Ops! Foi mal. Os meninos me chamaram pra jogar, aí… — Ele nem conseguiu terminar.
— Não se desculpa — advertiu Conrad.
— Isso aí, você é escravo dela, por acaso? Agora ela manda você levar e trazer refresco? — perguntou Jeremiah, apertando o controle com o polegar.
Ele se virou e sorriu para mim, para mostrar que estava brincando, mas eu continuei de cara fechada.
Conrad não disse nada, mas senti que ele estava me olhando.
Desejei que parasse.
Por que, mesmo com um amigo só meu, eu me sentia excluída do clube? Não era justo. Assim como não era justo que Cam concordasse em fazer parte daquilo. O dia tinha sido tão bom…
— Cadê minha mãe e a Susannah?
— Saíram pra algum lugar — respondeu Jeremiah, sem muita convicção. — Talvez tenham ido fazer compras?
Minha mãe detestava fazer compras. Devia ter ido arrastada.
Fui para a cozinha buscar meu refresco, e Conrad foi atrás. Não precisei nem me virar para saber que era ele.
Não dei confiança, só enchi um copo grande e fingi que ele não estava parado ali, me observando.
— Vai me ignorar? — perguntou, por fim.
— Não. O que você quer?
Ele suspirou e se aproximou.
— Por que você tem que ser assim? — Então se inclinou para a frente, chegando mais perto. Perto demais — Posso tomar um pouco?
Coloquei o copo na bancada e comecei a me afastar, mas ele segurou meu pulso. Quase engasguei.
— Qual é, Bells…
A mão dele estava gelada, como sempre. De repente me senti quente, como se estivesse com febre. Puxei a mão.
— Me deixa em paz.
— Por que está chateada comigo?
Ele parecia confuso e ao mesmo tempo nervoso. Porque, para Conrad, as duas coisas estavam conectadas: se estivesse confuso, ficaria nervoso. Só que ele quase nunca ficava confuso, então quase nunca ficava nervoso. Bom, eu pelo menos nunca havia causado nenhuma espécie de nervosismo nele. Eu não significava nada para ele. Nunca tinha significado.
— Você se importa mesmo?
Senti as batidas aceleradas do meu coração. Estava irritada, estranha, esperando pela resposta dele.
— Sim.
Conrad parecia surpreso, como se também não conseguisse acreditar que se importava comigo.
Eu não sabia muito bem qual era o problema. Acho que era principalmente os sentimentos conflitantes que ele provocava em mim. Uma hora era legal comigo, mas, no instante seguinte, agia com indiferença. Ele me fazia lembrar de coisas que eu não queria lembrar, pelo menos não naquele momento. Tudo estava indo muito bem com Cam, mas, sempre que eu decidia que era dele que eu gostava, Conrad me olhava de um certo jeito, ou me tirava para dançar, ou me chamava de Bells, e aí estragava tudo.
— Ah, por que você não vai fumar um cigarro? — perguntei.
Ele cerrou o maxilar e retrucou:
— Certo.
Senti uma mistura de culpa e satisfação por finalmente ter conseguido atingi-lo. Então ele disparou:
— Por que você não vai se olhar no espelho um pouco mais?
Ele pegou pesado. Era mortificante ver alguém jogando suas fraquezas na sua cara. Será que ele havia me visto me olhando no espelho, me admirando? Será que alguém pensava que eu tinha me tornado vaidosa e fútil?
Comprimi os lábios e me afastei, balançando a cabeça.
— Belly... — começou Con.
Ele estava arrependido. Dava para ver.
Voltei para a sala e o deixei lá, parado. Cam e Jeremiah me olharam como se soubessem que alguma coisa acontecera. Será que tinham ouvido? Que diferença fazia?