O verão que mudou minha vida

Jenny Han · Capítulo 42 de 48

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O verão que mudou minha vida

Capítulo 42

— Não tenho ciúme. Eu só queria ser tão bom quanto ele —

murmurou Jeremiah, então soltou um arroto e botou o filme para rodar.

Mas Jeremiah estava certo: eu amava Conrad. E sabia exatamente quando aquele sentimento se tornara mais intenso.

Conrad acordara cedo para preparar um café da manhã de Dia dos Pais atrasado, mas o Sr. Fisher tinha ido embora na noite anterior e não estava lá na manhã seguinte, como esperado. Conrad cozinhou mesmo assim. Ele estava com treze anos e era um péssimo cozinheiro, mas todos nós comemos. Enquanto eu o observava servir ovos mexidos e fingir que não estava triste, pensei comigo mesma: Vou amar esse garoto pra sempre.

42

ELE TINHA IDO correr na praia, atividade que começara a fazer recentemente — eu sabia porque o observara da janela dois dias seguidos. Estava usando short de ginástica e uma camiseta. O suor formara um círculo bem no meio de suas costas, e fazia mais ou menos uma hora que ele havia saído. Estava voltando naquele momento.

Fui lá fora, até o portão, sem nenhum plano concreto em mente.

Só sabia que o verão estava quase acabando, e em pouco tempo seria tarde demais. Nós iríamos embora, e eu nunca teria a chance de dizer. Jeremiah tinha sido sincero comigo, agora era a minha vez.

Eu não poderia passar outro ano inteiro sem contar. Tinha muito medo de que algo mudasse, de que algo fizesse nosso barquinho naufragar — mas Jeremiah já havia feito isso e tínhamos sobrevivido. Ainda éramos Belly e Jeremiah.

Eu precisava fazer aquilo, precisava ir em frente, porque não fazer nada estava me matando. Não podia continuar esperando alguma coisa, esperando por alguém que podia ou não gostar de mim. Eu precisava saber. Era agora ou nunca.

Ele não me ouviu quando cheguei por trás. Estava abaixado, desamarrando o cadarço dos tênis.

— Conrad — falei. Ele não me ouviu, então repeti, mais alto: —

Conrad.

Ele ergueu os olhos, assustado. Então se levantou.

— Oi.

Pegá-lo desprevenido parecia um bom sinal. Conrad era intransponível. Talvez, se eu simplesmente começasse a falar, ele não tivesse tempo de se fechar em seu mundinho.

Umedeci os lábios e comecei. Falei a primeira coisa que veio à cabeça, as palavras que estavam no meu coração desde sempre:

— Eu te amo desde que tenho dez anos.

Ele piscou, atônito.

— Você é o único garoto em quem eu penso. Sempre foi, minha vida inteira. Você me ensinou a dançar e me trouxe de volta naquela vez que eu nadei pra longe, lembra? Você ficou do meu lado e me ajudou a voltar pra praia, e ficava o tempo todo dizendo “Estamos quase lá”, e eu acreditei. Acreditei porque era você que estava dizendo, e eu sempre acreditei em tudo que você diz. Comparado com você, todo mundo parece biscoito de água e sal, até o Cam. E

eu detesto biscoito de água e sal. Você sabe disso. Você sabe tudo a meu respeito, sabe até que eu te amo.

Eu esperei, parada diante dele. Não conseguia respirar. Meu coração parecia prestes a explodir. Segurei o cabelo em um rabo de cavalo e fiquei daquele jeito, esperando que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa.

Ele demorou uns mil anos para falar.

— Bem, você não devia se sentir assim. Eu não sou o cara certo pra você. Desculpa.

E só. Ele não disse mais nada. Soltei o ar com força, olhando bem para ele.

— Não acredito nisso. Você também gosta de mim, eu sei disso.

Eu tinha visto o jeito como ele me olhava quando eu estava com Cam. Tinha visto com meus próprios olhos.

— Mas não do jeito que você queria que eu gostasse — retrucou ele, soltando um suspiro. Então continuou, em um tom meio triste, como se sentisse pena de mim: — Você é só uma criança, Belly.

— Não sou mais criança! Você queria que eu fosse, pra não ter que lidar com o que sente. Por isso passou o verão inteiro bravo comigo — falei, aumentando o tom de voz. — Você gosta de mim, sim. Admita!

— Você está louca — retrucou ele, com uma risadinha, se afastando de mim.

Mas eu não ia deixar que ele se esquivasse assim tão fácil. Não daquela vez. Estava cansada de vê-lo bancar o James Dean. Ele gostava de mim. Eu sabia. Ia obrigá-lo a admitir.

Segurei a manga da camiseta dele.

— Admita. Você ficou louco quando eu comecei a sair com o Cam. Queria que eu continuasse sendo sua admiradora secreta.

— O quê? — Ele se soltou. — Se liga, Belly. O mundo não gira ao seu redor.

Minhas bochechas ficaram vermelhas, eu sentia o calor subindo pelo rosto. Era tipo uma queimadura de sol, só que um milhão de vezes mais forte.

— Ah, claro. Porque o mundo gira ao seu redor, não é?

— Você não faz ideia do que está falando.

A voz dele tinha um tom de aviso, mas não parei para escutar. Eu estava com muita raiva. Finalmente tinha falado o que pensava, e não dava para voltar atrás.

Olhei bem no fundo dos olhos dele. Não ia deixar que ele fugisse de mim, não naquele momento.

— Você quer me manter sempre por perto, né? Assim eu posso continuar gostando de você, e você pode se sentir bem consigo mesmo. No momento em que começo a superar, você vai e me puxa de volta. Sabe de uma coisa? Você está ferrado da cabeça.

Mas estou avisando, Conrad, por mim, já deu.

— Do que você está falando?

Meu cabelo bateu no meu rosto quando eu me virei para encará-lo.

— É isso. Não sou mais nada sua. Nem amiga, nem admiradora, nada. Pra mim, chega.

Conrad comprimiu os lábios.

— O que você quer comigo? Você agora tem seu namoradinho pra se divertir, lembra?

Balancei a cabeça e me afastei.

— Não é assim — falei.

Ele tinha entendido tudo errado. Não era o que eu estava tentando fazer. Era ele quem estava me prendendo, minha vida inteira. Ele sabia como eu me sentia e tinha me feito amá-lo. Ele me queria.

Conrad se aproximou de mim.

— Uma hora você gosta de mim. Depois, do Cam... — Ele fez uma pausa. — E depois do Jeremiah. Não foi sempre assim? Você quer comer bolo, mas também quer cookies e sorvete...

— Cala a boca! — gritei.

— É você quem está fazendo joguinhos, Belly.

Ele tentava parecer relaxado, mas estava tenso, como se cada músculo fosse uma corda de violão esticada.

— Você tem sido um babaca o verão inteiro. Só pensa em si mesmo. Então seus pais estão se divorciando… E daí? Pais se divorciam. Isso não lhe dá o direito de tratar os outros mal.

Ele desviou o olhar, cerrando a mandíbula.

— Cala essa boca — disse ele.

Eu finalmente tinha conseguido. Ele estava encurralado.

— Susannah estava chorando outro dia por sua causa. Ela mal conseguia sair da cama! Você se importa? Tem ideia do quanto isso é egoísta?

Conrad se aproximou de mim, tão perto que nossos rostos quase se tocaram, como se estivesse prestes a me bater ou me beijar.

Meu coração batia tão alto que dava para ouvir. Eu estava com tanta raiva que quase desejei que ele me batesse. Sabia que ele nunca faria isso comigo, nem em um milhão de anos. Ele me segurou pelos braços e me sacudiu, então me soltou de repente. Senti meus olhos se encherem de lágrimas, porque, por um segundo, achei que ele talvez fosse.

Me beijar.

Eu estava chorando quando Jeremiah chegou. Ele estava voltando do trabalho, o cabelo ainda molhado. Nem ouvi quando ele chegou com o carro, mas bastou uma olhada para nós dois para saber que alguma coisa estava acontecendo. Jeremiah pareceu meio assustado. Depois ficou furioso.

— O que está acontecendo aqui? Conrad, qual é o problema?

Conrad o encarou:

— Tira ela de perto de mim. Não estou a fim de lidar com nada disso.

Eu vacilei. Foi como se Conrad realmente tivesse me batido. Até pior.

Ele começou a se afastar, mas Jeremiah o segurou pelo braço.

— Você precisa começar a lidar com isso, cara. Está agindo como um babaca. Para de despejar sua raiva em cima dos outros. Deixa a Belly em paz.

Tremi. Era por mim? O mau humor do Conrad durante todo o verão, ele se trancando no quarto... Tudo aquilo era por minha causa? Não era só porque os pais dele estavam se divorciando? Ele tinha ficado tão irritado assim de me ver com outro garoto?

Conrad tentou se desvencilhar do Jeremiah.

— Por que você não me deixa em paz? Que tal isso?

Jeremiah não o soltou.

— Nós deixamos você em paz. Deixamos você em paz o verão inteiro, bêbado e emburrado como um garotinho. Você deveria ser o irmão mais velho, sabia? O protetor. Aja como um, seu idiota.

Cresce e cuida direito da sua vida.

— Não enche meu saco! — rosnou Conrad.

— Encho, sim.

Jeremiah chegou mais perto dele, até estar com o rosto bem próximo do irmão, como eu e Conrad estávamos não fazia nem quinze minutos.

— Eu estou avisando, Jeremiah — alertou Conrad em um tom de voz assustador.

Os dois pareciam cães raivosos, rosnando, cuspindo e rodeando um ao outro. Tinham até se esquecido de mim. Eu me senti como se estivesse testemunhando algo que não deveria, como uma espiã.

Queria tapar os ouvidos. Em todos esses anos, nunca tinha visto Jeremiah e Conrad brigando daquele jeito. Eles às vezes discutiam, mas nunca daquele jeito. Eu sabia que precisava sair dali, mas não consegui. Fiquei por perto, os braços apertados contra o peito.

— Você é igualzinho ao papai, sabia? — gritou Jeremiah.

Foi então que eu soube que aquela briga não tinha nada a ver comigo. Era muito maior do que qualquer participação que eu pudesse ter. Era sobre algo que eu não fazia ideia.

Conrad empurrou o irmão para longe com força, e Jeremiah o empurrou de volta. Conrad tropeçou e quase caiu, e, quando se endireitou, deu um soco no rosto do irmão. Acho que gritei. Os dois se engalfinharam, batendo, xingando e bufando. Esbarraram na jarra de chá da Susannah, que caiu e quebrou, espalhando bebida para todo lado. A areia se encheu de sangue, mas eu não sabia dizer de qual dos dois.

Eles continuaram brigando em cima dos cacos de vidro, mesmo depois que Jeremiah quase perdeu os chinelos. De vez em quando eu gritava “Parem!”, mas eles não me ouviam. Os dois eram muito parecidos — eu nunca tinha notado, mas naquele momento eles pareciam muito irmãos. E continuaram brigando, até que de repente minha mãe apareceu do nada. Acho que ela passou pela outra porta, não sei. Ela simplesmente surgiu ali e separou os dois com uma força impressionante que só as mães têm.

Ela os manteve longe um do outro, uma mão no peito de cada um, e gritou:

— Parem com isso, os dois!

Mas, em vez de irritada, ela parecia triste, prestes a chorar, e minha mãe nunca chora.

Eles estavam ofegantes e nem olharam um para o outro, mas os três estavam conectados. Eles entendiam algo que eu não entendia.

Fiquei ali à margem, uma mera testemunha de tudo aquilo. Parecia a época em que eu ia à igreja com Taylor e todo mundo conhecia as músicas, menos eu. As pessoas levantavam os braços e os agitavam no ar, e sabiam todas as letras de cor, mas eu me sentia uma intrusa.

— Vocês dois já sabem, não é? — perguntou minha mãe, soltando-os.

Jeremiah prendeu a respiração, e eu sabia que ele estava se segurando para não chorar. O rosto dele estava começando a ficar roxo. O rosto do Conrad, por outro lado, tinha uma expressão indiferente, como se ele não estivesse presente.

E então, de repente, sua expressão mudou, e ele parecia ter oito anos novamente. Olhei para trás, e Susannah estava parada na porta de casa. Ela usava a camisola branca de algodão e parecia muito frágil.

— Me desculpem — disse, levantando as mãos, indefesa.

Ela foi até os meninos, hesitante, e minha mãe se afastou.

Susannah abriu os braços, e Jeremiah se aninhou nela. E, mesmo sendo bem maior do que a mãe, pareceu muito pequeno. O sangue no rosto dele sujou a camisola, mas eles não se afastaram.

Jeremiah chorava como não o via chorar desde que Conrad tinha batido a porta do carro na mão dele por acidente, muitos anos antes. Conrad havia chorado tanto quanto Jeremiah naquele dia, mas agora ele não chorava mais. Até deixou Susannah fazer carinho em seu cabelo, mas não chorou.

— Vamos, Belly — chamou minha mãe, pegando minha mão.

Fazia muito tempo que ela não fazia aquilo. Eu a segui como se fosse uma garotinha. Subimos para seu quarto, e ela fechou a porta e se sentou na cama. Eu me sentei ao lado dela.

— O que está acontecendo? — perguntei, hesitante, procurando alguma resposta no rosto dela.

Ela apertou minhas mãos com força, como se fosse ela me segurando, e não o contrário.

— Belly, Susannah está doente de novo.

Fechei os olhos. Eu podia ouvir o barulho do mar, como se estivesse segurando uma concha perto do ouvido. Não podia ser.

Não podia ser. Eu estava em qualquer outro lugar menos ali, naquele momento. Estava nadando sob as estrelas, estava na escola, na aula de matemática, estava andando de bicicleta na pista atrás da nossa casa. Eu não estava ali. Aquilo não estava acontecendo.

— Ah, meu chuchuzinho… — Minha mãe suspirou. — Preciso que você abra os olhos, que me escute.

Eu não queria abrir os olhos. Não queria escutar. Nem queria estar ali.

— Ela está doente já tem um tempo. O câncer voltou. E é... é bem agressivo. E se espalhou para o fígado.

Abri os olhos e soltei as mãos dela.

— Para de falar. Ela não está doente. Ela está bem. Ela ainda é a Susannah.

Meu rosto estava molhado, e eu nem tinha percebido que começara a chorar.

Minha mãe assentiu, umedecendo os lábios.

— Você está certa. Ela ainda é a Susannah. E gosta de fazer as coisas do jeito dela. Ela não queria que vocês soubessem, queria que o verão fosse… perfeito.

A voz dela engasgou nessa última palavra e seus olhos se encheram de lágrimas.

Minha mãe me puxou para perto, me apertando junto ao peito, e me ninou. E eu deixei.

— Mas eles sabiam — choraminguei. — Todo mundo sabia, menos eu. Eu era a única que não sabia, e eu amo a Susannah mais que todo mundo.

Não era verdade, eu sabia. Jeremiah e Conrad a amavam mais do que tudo. Mas parecia verdade. Eu queria dizer a minha mãe que estava tudo bem, que Susannah tinha tido câncer uma vez e que tinha ficado boa. Ela ficaria boa de novo. Mas se eu falasse aquilo em voz alta, seria como admitir que ela realmente estava com câncer, que aquilo estava mesmo acontecendo.